Nativas Compartilhadas tem o prazer de ouvir hoje um pouco da história do Júlio Longa. O Júlio Moura é nosso querido aluno, graduando em Letras da Universidade de Sorocaba. Músico e letrista, ele também compõe e tem uma atuação bastante diferente aqui dentro do nosso curso desde que ele entrou, e também dentro do poderoso contexto artístico e cultural de Sorocaba e região.
Então, o Júlio vai contar um pouquinho da vida dele dentro do contexto da educação, o agora artístico e também profissional. Então, Júlio, é um prazer tê-lo conosco aqui hoje; sinta-se à vontade para contar para nós e conversarmos um pouco sobre a sua história, desde o comecinho, lá para você, seu nascimento, onde foi essa formação escolar. Vamos convencê-los a fazer, é todo meu!
É muito legal estar aqui. A gente estava batendo um papo antes de começar a gravação e você falou: “se não puxa desde seu nascimento”, mas aí eu falei: “vou pensar em alguma coisa. ” O primeiro fato que veio na cabeça foi a primeira vez que entrei em contato com o coral, que foi quando eu tinha 17 anos.
Estava na escola e tive aulas de coral com Dione Cleireu. Na época, ele já era uma figura conhecida na cidade, mas ele ainda não era o Maestro Jonicleir Real que conhecemos hoje. Nenhum hoje ele é uma autoridade mesmo assim, no campo da música, principalmente na música erudita, enfim, do canto coral também.
Então, o Jonny era o Johnny na época, a gente chamava de Jone, e ele foi talvez uma das primeiras figuras assim na minha infância que me colocou em contato com o universo representado. É quando você entra em contato, é quando você atua, não quando você escuta música. É porque, assim, música sempre teve em casa, de outras maneiras, mas fazer música talvez essa tenha sido a primeira vez que eu enxerguei aquilo como possível.
Tinha 16, 17 anos e ele trazia muita coisa, não tinha moral, não tinha contraindicação, é receita, na tua. Tinha muitas músicas que estão na minha cabeça até hoje, né? Então foi a primeira vez que eu falei: “nossa, dá pra fazer música”, sabe?
E eu acho que isso já vem do teatro junto, porque o Johnny era uma figura teatral já. Ele vinha de chapéu e sobretudo, era muito diferente dos outros adultos na época. Então eu acho que eu nunca tinha falado isso para ninguém.
Assim, que talvez o Johnny tenha sido uma das primeiras figuras, de uma maneira muito natural, a apresentar esse universo possível, porque ele era um adulto diferente dos outros adultos, dos professores, dos meus pais, das figuras adultas que eu conhecia, e ele abriu a porta para esse acesso do que dizia: “você pode provar que você pode fazer música, é muito legal, não tem contraindicação, sabe? E só vai ser divertido. ” Então, acho que talvez tenha sido, não sei se o único, mas foi um estopim importante, assim, eu acho que o desenvolvimento do cruz, e que se relaciona com a arte o resto da vida.
Em um momento que a gente está no palco, seja com o teatro, seja com a interpretação através do canto. É porque não vejo a música, o teatro, nem a literatura, teatro é tudo junto. E eu acho que é minha linha de raciocínio.
Onde eu morava? Esqueci de que estava falando! Ajuda, né?
Então você bota nisso ainda. Qual era uma escola que você fez? O primário foi no Mundo Novo.
A escola Mundo é muito nova, e lá tinha uma sensibilidade de artista, tinha essa liberdade. Sabe, como tinha aulas de coral, tinha, a gente podia bolar apresentações que trouxessem música e contracenaram. Tinha peças de teatro, já tinha participado das peças de teatro, sabe?
Isso me lembra uma coisa; há 50 e 60 anos a memória é assim. Eu lembro de várias coisas, mas nenhuma que seja marcante como essa história do Jone, sabem? Minha, que eu acho que vale a pena colocar a luta dele, mas sempre existe essa relação com o teatro.
E também tinha já o exercício, relembra disso, talvez um pouco depois, né? Mas assim, é coisa das resenhas; como assim? Eu tinha um professor de português, João Carlos, e aí ele distribuía livros, pedia pra gente fazer resenhas e tinha apresentação oral da resenha.
A gente pegava escrita, fazia a apresentação oral, ele gravava isso pra gente assistir depois, e a gente via como a gente se portava, como estava o nosso corpo, com o tom de voz. Então, esse meu tempo do ensino infantil fundamental foi muito importante por isso, sabe? E houve também uma pessoa muito querida.
Eu acho que é uma das pessoas que eu mais amo na minha vida. Já faleceu, e o nome era Elisa Gomes. Ela sempre foi uma figura que carregou muita poesia e muito teatro, me deu livros e textos, e ela foi uma das professoras que eu tive, porque vejo que, assim, ao longo da vida, são muitos professores e professoras, além do que a gente tem na escola, e as coisas vão se transformando numa colcha de retalhos, assim, sabe?
E ela não chegou a se aquecer dentro da escola, que não era pensando mudar, porque você não era professora, uma amiga assim da família. É uma medida comum, e talvez ela, assim, mais que a Unicamp, tenha inspirado a isso. Então, eu vejo que, assim, são momentos como esse da infância, da pré-adolescência, coisas de só lembrar de disco tocando, dessa sensação de ebulição dentro de você, sem saber o que é aquilo.
Lembrei que eu ia falar agora, porque quando a gente já está fazendo arte, quando a gente já está sendo profissional, por exemplo, depois que eu cheguei, passei a enxergar como profissional no Conservatório de Tatuí também. Foi bem. Canta MPB e jazz do Conservatório de Tatuí.
Teve muitos professores importantíssimos, que são amigos e professores até hoje. A gente encontra no palco, no estúdio, e aí, quando a gente pensa numa. .
. não é a improvisação, né? Acho que, tanto para a música, como para o teatro, seja lá o que for, a gente acaba buscando na memória essa ebulição, essa efervescência que a gente tinha entre os oito e quinze anos, assim, sabe?
Eu acho que esses registros, que vão mais ou menos dos oito aos quinze anos, vão alimentar o nosso potencial e os motivos artísticos que a gente cria para o resto da vida. Não tenho dúvida disso. É claro que tem esse trabalho de trazer isso e transformar em algo contemporâneo, para que a gente não fique fazendo coisas datadas e repetidas, né?
Então, sempre vai para aquele lugar e volta atrás para o contexto do que está fazendo hoje, tal. E, de acordo com a sua vida, no tempo presente, aquilo vai gerando produtos diferentes. Mas eu acho que, sempre que a gente consegue acessar de uma maneira mais profunda a nossa própria dimensão para gerar algo que seja notável, vai haver, pelo menos, um traço, por menos perceptível que ele seja, da nossa infância e adolescência.
E eu acho, inclusive, que é por isso que você pediu para a gente escrever desde esse tempo. Com certeza, né? Vem toda essa história, né?
Então, se entra no ensino médio, no colegial, e aí o que acontece lá? Cara, eu não sabia que eu queria fazer. Mentira, já sabia.
Com quatorze anos, eu comecei a tocar à noite. Já com quatorze anos, eu era baterista, comecei a estudar bateria e não cantava ainda, fazia backing vocal. Eu botava um microfone igual ao da Madonna, apresentava na bateria, colocava esse microfone e fazia backing vocals que o vocalista.
E o que acontece nessa banda? Uma das primeiras bandas que eu tive e gravei meu primeiro disco como baterista, já tinha dezessete anos. E não era vocalista, mas eu escrevi todas as letras do primeiro disco da banda.
Todas eram minhas. Eu já gostava muito de escrever, sempre gostei muito de escrever. Não sei por quê, sempre gostei.
E acho que talvez, por. . .
tênis. . .
agora já sei que é por ter a necessidade de registrar toda essa ebulição que eu comecei a identificar. O dono de um clero, mano, sabe? Que está devendo e que, se você lia nesse período.
. . aí eu nunca fui, até os meus dezessete anos, um grande leitor, assim, sabe?
Eu li muita coisa, mas eu não tenho nenhum registro marcante, assim, de coisas que eu tenha lido, sabe? Eu lembro dos meus pais lendo muito, lembro de ter lido coisas por obrigação na escola. Então, eu lembro de ter lido, por exemplo, “Neco Rei”, “Saudade Paulistas”.
Sim, lembro de ter lido “O Escaravelho do Diabo”, que essas coisas. . .
ele para alunos era vagabundo. Ética, exatamente. Eu acho que o meu primeiro álbum, em primeiro, a linha, primeiro livro que me marcou, assim, a obra literária que marcou foi, no segundo colegial, um escritor cubano que eu gosto até hoje, que se chama Pedro Juan Gutiérrez, que é um gigante.
E o livro é “A Trilogia Suja de Havana”. Esse livro é uma seleção de contos que vai trazendo, aos poucos, o universo da Cuba decadente ali, né? A década de 90, se não me engano, com a entrada do dólar.
É de 90, talvez seja antes até. Mas, enfim, a entrada do dólar em Cuba. Há há há.
O cenário deprimente de Cuba: prostituição, álcool e drogas, a decadência do ser humano ali, naquele momento. Ao mesmo tempo, a arquitetura linda, que foi feita, toda abandonada. Então, pedras enormes abandonadas.
E quem deu pra mim seguir foi Nelson Fonseca Neto, nossa querida Nelson. Eu acho que vou chamar de muitas pessoas aqui, ele viu da leça. Tudo certo, mas amamos.
É uma grande figura e figura grande, escritora, ciclone, jornais. Escreve no jornal, é assim que. .
. coisa boa! Sabendo que, no México, mesmo com empenho, já tem algum tempo que tinha que ser.
Alguém grita, decidiu. Lembro como se fosse ontem, porque ele começou a. .
. uma lenda, não falou nada. Ele abriu o livro e começou a ler o conteúdo que, assim, cravava os olhos nele, sabe?
Então, não esqueço desse momento. E daí as coisas foram acontecendo em relação à literatura, sabe? Mas a relação com as letras de música que eu acho que me trouxeram para o universo artístico: teatro, música e letras.
O primeiro sintoma, acho que é isso. E aí, o caminho que aconteceu foi muito baseado nisso, porque com quatorze anos eu já tocava na noite, eu já queria que as pessoas ouvissem o que eu tinha pra falar. Por isso, eu queria escrever, porque tinha essa necessidade e não sei exatamente por quê.
E depois, ele julgou na noite.