o Olá a todas e todos Eu me chamo Fernanda Miranda sou pesquisadora de Literatura e vou falar com vocês um pouquinho hoje numa sequência de vídeos sobre a nossa grande escritora Carolina Maria de Jesus e esse formato foi pensado para atender a esse momento de exceção que nós estamos vivendo Então os vídeos são uma adaptação de um projeto que envolvia encontros presenciais mas que precisam ficar suspenso devido a esse cenário de pandemia mundial e quarentena como toda adaptação possui Perdas e Ganhos mas eu espero que Carolina a prova e o trabalho e que vocês possam
compartilhar comigo instantes de descobertas e também latidos do cachorro bom é quem foi Carolina Maria de Jesus é uma das autoras mais conhecidas e reeditados da literatura brasileira sua produção e trajetória consta um arquivo de números leitores desde 1960 quando se deu seu lançamento emblemático quarto de despejo Diário de Uma favelada seu primeiro livro publicado permanece paradigmático para a história editorial do Brasil para a história da cultura e da expressão artística um livro que é absolutamente Central para pensarmos problemáticas amplas como Literatura e poder e nunciação e silenciamento de mulheres negras rasura do cânone direito
a voz a escrita EA literatura em um país no qual a literatura permanece sendo uma das formas mais desiguais de expressão no que compete a representatividade de pessoas negras e por tudo o que representou e que ainda representa Carolina Maria de Jesus é hoje uma grande instauradora de discursividades alguém que de fato abriu caminho numa mata fechada Para que muitas outras autorias e e texturas literárias e mesmo e de fato configurem aquilo que hoje nós entendemos como literatura contemporânea Como ela mesma disse certa vez seu livro quarto de despejo gerou muitos derivados e o mundo
que nós vivemos hoje torna quarto de despejo e mensalmente contemporâneo e Carolina Maria de Jesus cada vez mais necessária ler este livro é uma das experiências mais intensas que a literatura pode promover pois o único fruição estética com pensamento realidade com imaginários recompostos e nunciação de si como também crônica do Olhar narração e sociedade entre muitos outros caminhos ao livro também pertence o mérito de tecido a primeira obra de uma altura negra brasileira traduzida as traduções começam a circular menos de um ano depois da publicação de contos de despejo no Brasil e 1960 em edições
produzidas na Dinamarca Holanda Argentina França Alemanha ocidental e oriental a época Suécia Itália antigas lovaquia roménia Inglaterra Estados Unidos o pão Polônia Hungria Cuba na então União Soviética e mais recentemente na Turquia e no Irã em todos esses países quarto de despejo é foi foi traduzido publicado em alguns deles existem mais de uma edição mais de duas mais de 3 E se for confirmado que sua publicação acontecerá em Angola este ano ela terá então chegado aos quatro continentes porque está presente nas Américas na Europa na Ásia faltando apenas a África para que nós possamos ter
esse grande essa grande parte dessa grande obra é aliás é muito importante pensar nas restrições em torno de sua obra nos domínios do português pois até o sabemos a publicação de quarto de despejo foi impedida de chegar em Portugal por intervenção de Salazar e ainda neste momento atual não está presente em nenhum dos países que têm o português como língua oficial é bom as traduções de quarto de despejo são um capítulo à parte na história de Carolina e certamente a destacam no conjunto dos autores brasileiros talvez possamos até arriscar dizer que Carolina é uma das
mais traduzidas em torno entre todo o conjunto de autores da literatura brasileira obviamente muitas pesquisas ainda são necessárias para que para que nós possamos adentrar a grandeza EA complexidade que essa altura representa no domínio da literatura e em outros domínios tanto as traduções quanto o próprio alcance que seu primeiro livro alcançou no Brasil que aliás são alcances históricos em termos de edição e vendagem de livros é sinalizam o quanto Carolina Maria de Jesus foi um autora conhecida e divulgada Entretanto é um autora Ainda a ser descoberta e tal paradoxo se deve a dois fatores primeiro
se observarmos pelo ângulo das condições materiais e políticas de circulação da obra boa parte de sua produção ainda não está publicada de dificultando o acesso ao leitor ao seu pensamento de forma mais complexa e mantendo a autoridade dos fragmentos a partir dos quais acessamos desde o início considerando que quarto de despejo é um fragmento dos seus cadernos editados o livro quarto de despejo Diário de Uma favelada editado pelo jornalista audálio Dantas é resultado de uma compilação de 35 cadernos manuscritos entregues a ele por Carolina diante do total de texto escrito o livro publicado constitui-se em
um pequeno fragmento esses cadernos é contra um sino arquivo da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro esse elemento da autoridade dos fragmentos é fundamental pois quando falamos de apagamento e esquecimento como lógicas operantes que organizam sistema literário brasileiro a partir do soterramento de autores negros é de casos como esses que nós estamos falando o silenciamento é uma dinâmica concreta e objetiva e Carolina ainda é mantida silenciada quando sua obra mantém sinérgica apesar de todo o impacto que ela representa e o segundo elemento então do paradoxo que torna Carolina uma altura célebre e pouco conhecida está
nas dimensões próprias da crítica e da recepção da autora retro alimentada por parâmetros muito próximos aqueles arregimentados ainda na década de 60 quando ela foi lançada no mundo das Letras como a escritora favelada e Tais parâmetros se referem ao contexto de surgimento de Carolina e sua obra em um momento histórico em que o corpo negro feminino autoral era praticamente ausente do Corpus literário Nacional em circulação se nós é pegarmos apenas um elemento para olhar essa questão que é a produção de romances nós por exemplo podemos perceber que que pedaços da Fome que é o romance
que Carolina Escreveu Deu o título de a felizarda mas que foi publicado com o título de pedaços da fome e que foi lançado em 1963 é o terceiro romance publicado por um autor a negra no Brasil ao menos dentro daquilo que nós sabemos hoje né então antes de Carolina ouve Água Funda de Ruth é publicado em 1946 e antes de Ruth ouvir Úrsula de Maria Firmina dos Reis que foi publicado em 1859 e que vem a ser o primeiro romance escrito por uma mulher e publicado no Brasil então pedaços da Fome de Carolina é o
terceiro sendo que o primeiro foi publicado no século 19 é apenas este dado que é muito específico dentro de uma engrenagem muito mais Ampla Qual sua obra está inserida já nos ajuda a entender é a pouco a presença que mulheres negras e autores negros de modo geral é tinham no momento e que Carolina lança seu livro a conceder a mulher negra como produtora de literatura ainda hoje é algo que o Brasil está apenas começando a fazer imagina e só como isso se dava na época em que Carolina publicou nesse momento ela foi tratada como ser
exótico altamente estranho para as letras pois a literatura no Brasil historicamente é um território branco e elitizado e continua a ser apesar de todo o conhecimento já produzido e acumulado em todas as autorias negras na literatura e tudo o que elas movimentam epistemologicamente falando politicamente esteticamente falando no sistema literário e junto a isso o lugar de onde a voz de Carolina energia naquele momento a favela era uma realidade absolutamente nova na cidade de São Paulo e ainda pouco apreendida pelo Imaginário social da e sobre a cidade por isso também seu texto autobiográfico foi consumido como
artigo exótico pelas classes letradas e pela Elite Paulistana curiosos em adentrar este espaço desconhecido e por outro lado o livro foi também tomado como um importante documento de denúncia tendo gerado por exemplo o movimento de desfavelização iniciado por estudantes da faculdade de direito do Largo de São Francisco além de ter promovido um debate intenso entre diversos setores da sociedade que passaram articular de forma muito diferente a ideia de pobreza urbana A partir da publicação de quarto de despejo é o quarto de despejo de Carolina foi um estrondo no campo político e social no campo cultural
e literário e no campo também da concepção de discurso último autobiográfico de arisco pois até o lançamento do seu livro a escrita desse era um território também praticamente exclusivo da Elite que podia falar e podia falar de ser é que possui este fato o direito resgate resguardado de elaborar própria experiência e a noção de íntimo a pergunta básica que quarto de que esteja acendeu quem pode escrever iluminou um caminho de muitos desafios para a autora Carolina Maria de Jesus pois ela estava de fato abrindo caminho numa mata fechada e precisando responder a inúmeros acessos violentos
quanto a sua condição de escritora no Brasil as condições socioeconômicas racial o número de mar de marcava e ainda demarcam os temas autoria o direito à Literatura e o direito à representação todos esses aspectos foram modificados em profundidade depois que Carolina lançou seu primeiro livro pois acima de tudo e de todos que a tentaram silenciar ela seguirá firme Sempre dizendo na minha opinião escreve quem quer bom é foi então Carolina Maria de Jesus é nascida em Sacramento no interior de Minas Gerais Provavelmente em 14 de Março de 1914 nessa cidade ela viveu até a sua
juventude quando passou a caminhar para diversas cidades vizinhas em busca de melhores condições de vida e também de tratamento para sua saúde debilitada nesse nesse momento de sua vida é acabou migrando definitivamente para São Paulo em 1937 em São Paulo Carolina experimentou a cidade de forma Ampla transitando em topografias e identidades espaciais diversas moram em cortiços em pensões em albergues depois não encontrou alternativa senão a favela da kanindé que era situada às margens do rio Tietê a essa altura com águas ainda vivas e após o lançamento do seu diário ela mudou-se para Osasco depois para
Santana e finalmente para Parelheiros em um território pouco urbanizado onde ele foi possível plantar estar em contato com a terra satisfazendo seu desejo de afastar-se da dinâmica mais intensa dos centros urbanos ao qual era a dizia comprimir seu pensamento poético e essa experiência múltipla pelos diferentes mundos e fronteiras que se sublevam eternamente na cidade tendo ainda a experiência do interior e de ser migrante rendeu a Carolina um olhar singular sobre a tessitura urbana e suas contradições e exuberâncias e embora Nossa autora tenha se tornado efetivamente conhecida por intermédio do encontro com seu editor o jornalista
audálio Dantas em 1958 ela já havia publicado seu poema O Colono eo fazendeiro no jornal Folha da Manhã e havia publicado outros textos também na imprensa muito antes do encontro com o galho e de fato Carolina mantinha-se Atenta às possibilidades de acesso ao universo das letras e de publicação para seu trabalho de modo que quando o jornalista audálio Dantas foi atraído por sua palavra arrebatadora ele encontrou uma altura pronta que o tornou editor e aliás audálio Dantas foi um Jornalista muito importante e reconhecido no Brasil tem que ficar do marcado por pelo menos dois momentos
emblemáticos o caso Carolina e o caso ladimir Herzog já nos princípios da ditadura militar denunciada por ele quando quer como conhecer o Carolina ele era jovem ela era 15 anos mais velha que ele ele estava tentando entender o universo da favela ela estava tentando entrar no universo das letras a relação entre entre eles é extremamente complexa e contraditória vai de um de um de um limite ou ao outro mas é uma relação que gerou um dos livros aliás que que possibilitou o acesso a um dos livros mais importantes para nós hoje no cenário da literatura
em língua portuguesa que é quarto de despejo e além do texto autobiográfico que a fez célebre Carolina praticava a escrita em domínios e gêneros variados tais como romance o conto o poema o drama o provérbio a canção lamentavelmente ainda hoje sua produção publicada é extremamente reduzida em relação a sua produção escrita hoje sua obra publicada soma um total de dez livros são eles quarto de despejo Diário de Uma favelada publicado em 1960 casa de alvenaria Diário de uma ex favelada publicado em 1961 também sendo editado por audálio Dantas e saindo pela mesma Editora livraria Francisco
Alves depois ela lança a provérbios de 1963 por iniciativa própria assim como também fez com seu único romance publicado pedaços da Fome que sai a 963 e que foi lançado por o pela própria iniciativa da autora depois nós temos Diário de bitita que é uma publicação póstuma Saiu em 1986 meu estranho diário bem mais recente 1996 e já corresponde as buscas de pesquisadores que tentaram diminuir o silenciamento ao Carolina se encontrava na década de 90 e anteriormente que são os pesquisadores José Carlos sebe bom meihy e Robert Levine é dessa parceria também surge antologia pessoal
que uma compilação de poemas de Carolina lançado em 96 mais recentemente Onde está esse felicidade de 2014 Meu sonho é escrever d2019e Cris diz que é um livro de poemas também de 2019 e três organizados pela pesquisadora Rafaela Fernandes nós temos então um total de dez obras distribuídas pelos gêneros diário romance autobiográfico romance contos poesia e provérbios são as seis conjunto também o disco é que Carolina lançou o composições próprias também chamado o quarto de despejo dentro do conjunto de sua obra inédita encontram-se poemas textos reflexivos crônicas peças de teatro romances um número muito maior
de provérbios que aquela compilação publicada outros diários correspondências etc e vocês já pararam para pensar quantas dramaturgas negras nós temos no Brasil e quantas romancistas posso afirmar que são poucas e seguem combatendo uma lógica sistêmica de silenciamento casos como de Carolina certamente não são únicos de obras completas presas a manuscritos desconhecidas Imaginem como seria diferente nosso cenário cultural dentro do teatro do romance por exemplo se essas obras viessem à tona quem tem a ganhar com isso Somos Todos nós todos nós perdemos quando os textos permanecem ocultados e pensam pensamos o presente como um tempo de
revide porque é um tempo que exige e possibilita outros exercícios de entendimento do passado e certamente o presente de Carolina é mais aberto hoje do que jamais fora mas ainda falta muito para romper a cortina que mantém sua produção ainda pouco conhecida principalmente a produção ficcional que é tem sua maior parte inacessível e impossibilitada pois nós sabemos que para uma obra se realizar totalmente é necessário a Instância do leitor e quantos leitores não desejam e esperam a chance de ampliar seus Horizontes é bom o objetivo desses pequenos vídeos que apresentam aqui é iniciar um trajeto
de diálogo com Carolina e sua obra para além dos elementos que são constantemente agrupados para falar dela evidentemente os limites de espaço e da própria linguagem do vídeo impedem passos mais longos por isso busca e sintetizar ao máximo para que depois possamos debater de forma mais a longo mais alongada esses conteúdos e eu realmente desejo que esses vídeos possam ser úteis a professores a educadores pesquisadores e leitores e desejo que possamos em breve nos encontrar e conversar ao vivo para além das Barreiras das Telas por enquanto saibam que é sempre uma grande satisfação em um
grande presente para mim aproximar meu pensamento do pensamento de Carolina aproximar o meu desejo crítico da sua palavra pois o pensamento EA palavra de Carolina Maria de Jesus nos tornam maiores mais vivos mais atentos mais sensíveis