Você já olhou para alguém que ama e sentiu medo não aquele medo doce de quem teme perder o que é bom falo do medo que faz seus dedos tremerem quando ele entra pela porta do medo que faz você calcular cada palavra antes de pronunciá-la do medo que te acorda no meio da noite com o coração disparado rezando para que a respiração ao seu lado continue ritmada indicando que ele ainda dorme foi esse medo que me acompanhou por quase uma Década enquanto eu ocupava o lugar mais respeitado e mais solitário da congregação o de esposa do
pastor eu que um dia fui Zezé a professora primária que fazia as crianças rirem com suas histórias me transformei em irmã Maria José esposa do reverendo Josias um título que carregava como uma coroa de espinhos hoje aos 85 anos tenho rugas suficientes para contar essa história sem que a voz fale o tempo tem esse dom transforma feridas abertas em cicatrizes Que ainda dóem quando o tempo muda mas que já não sangram ao toque aqui sentada nesta poltrona de onde vejo o mar de São Vicente o mesmo mar que testemunhou meu calvário silencioso quero compartilhar como
descobri que às vezes o inferno não está embaixo da terra mas dentro de um lar abençoado por mãos que longe dos olhares da congregação se transformavam em punhos não estou aqui para afastar ninguém de Deus pelo contrário acredito nele hoje mais do que quando cantava Hinos todos os domingos vestida com saias abaixo do joelho e um sorriso ensaiado no rosto marcado estou aqui para contar como aprendi a diferenciar a fé verdadeira do seu uso como instrumento de poder e controle e talvez só talvez minhas palavras possam alcançar alguém que esteja vivendo seu próprio inferno particular
disfarçado de paraíso aos olhos alheios o cheiro de maresia misturado com o café da manhã ainda atravessa minhas memórias quando Penso naquela casa na Avenida Presidente Wilson as ondas quebrando na praia enquanto eu quebrava por dentro mas hoje o mar não me traz mais aquele terror de antigamente a água salgada já não se parece com as lágrimas que derramei por tanto tempo era 1972 o Brasil vivia sob o regime militar mas eu vivia sob outro tipo de ditadura aquela imposta pela minha própria insegurança e pela voz da minha mãe ecoando em meus ouvidos maria José
uma Moça de família precisa de um homem de bem para chamar de marido aos 32 anos eu era o que chamavam de encalhada professora dedicada do grupo escolar Martim Afonso com um diploma que me orgulhava mas sem aliança no dedo esquerdo o que segundo os padrões da época me tornava incompleta o grupo escolar ficava a poucas quadras da praia nas manhãs de segunda a sexta eu ensinava as crianças a ler e escrever a somar e subtrair a entender o mundo Através das palavras minhas colegas diziam que eu tinha um dom especial conseguia acalmar até o
mais inquieto dos alunos com histórias e cantigas que inventava na hora "você nasceu para ser mãe Zezé?" diziam elas nos intervalos enquanto eu sorria disfarçando o incômodo daquele comentário que embora bem intencionado cutucava a minha maior insegurança morava com minha irmã mais nova Lucinha em um pequeno apartamento herdado de nossos pais ela trabalhava Como balconista na farmácia central e dizia que homem bom era artigo raro que eu não deveria me afligir melhor sozinha que mal acompanhada repetia enquanto folheávamos revistas nas noites de domingo mas aquilo não aliviava o peso das perguntas nas reuniões de família
dos olhares de pena das tias do espaço vazio ao meu lado nos bancos da igreja metodista que frequentávamos desde crianças nossa rotina era simples mas confortável de manhã eu dava aulas à Tarde preparava material didático e corrigia cadernos às vezes passeávamos na orla aos domingos depois do culto comprando algodão doce e observando as famílias com seus filhos correndo na areia eu gostava da minha vida de verdade gostava mas havia aquele vazio aquela expectativa não cumprida aquele sentimento de que talvez eu estivesse desperdiçando meus melhores anos de que talvez houvesse algo maior reservado Para mim foi
quando notei o movimento na antiga loja de móveis desativada homens carregavam cadeiras de plástico instalavam um púlpito simples de madeira penduravam uma faixa assembleia da fé renovada onde milagres acontecem uma nova igreja estava chegando à cidade e com ela um pastor de voz grave e olhar penetrante que parecia enxergar além das aparências josias Pereira tinha 40 anos recém completos cabelos negros já rareando nas têmporas e um carisma que Preenchia a sala vinha de Minas Gerais amando do Senhor como costumava dizer para trazer avivamento ao litoral paulista quando falava as pessoas se inclinavam para a frente
querendo capturar cada palavra e eu que sempre fui reservada e discreta me vi inexplicavelmente atraída por aquele homem que falava de Deus com uma intimidade que eu jamais conhecera a assembleia da fé renovada cresceu rapidamente logo as cadeiras de plástico Não eram suficientes e os cultos começaram a acontecer em dois horários para acomodar a todos o pastor Josias como era chamado tinha uma maneira diferente de pregar misturava passagens bíblicas com histórias pessoais promessas de prosperidade com exigências de compromisso espiritual era intenso era diferente de tudo que eu conhecia em minha antiga igreja "deus não quer
filhos mornos" bradava ele caminhando de um lado para outro do púlpito Improvisado o microfone numa mão e a Bíblia na outra ele quer servos comprometidos com a obra dispostos a deixar tudo para seguir sua vontade e eu sentada sempre na terceira fileira bebia cada palavra como água no deserto comecei a frequentar não apenas aos domingos mas também às quartas e sextas logo estava participando dos grupos de oração das manhãs de sábado ajudando na organização dos eventos lucinha franzia a testa ao me ver sair de casa cada vez Mais arrumada para os cultos esse pastor aí
é diferente mesmo ou você que tá vendo algo especial nele provocou minha irmã certa noite enquanto eu experimentava um vestido novo discreto mas elegante corei como adolescente e murmurei algo sobre compromisso espiritual mas no fundo do coração eu sabia que havia algo mais o primeiro sinal de reconhecimento veio quando o pastor Josias me convidou para liderar a escola dominical das crianças a irmã tem Experiência com os pequeninos não é mesmo deus me mostrou que a senhora tem um chamado especial para formar a próxima geração nos caminhos do Senhor seu olhar encontrou o meu por alguns
segundos a mais que o necessário e senti meu coração acelerar como nunca antes alguém finalmente enxergava valor em mim alguém importante as semanas seguintes foram de uma aproximação gradual ele pedia minha opinião sobre textos bíblicos para as crianças convidava-me Para participar das reuniões de planejamento da igreja em uma dessas reuniões descobri que era viúvo sua esposa havia falecido há dois anos deixando-o sozinho na batalha do Senhor como ele dizia com os olhos marejados uma serva de Deus é o maior tesouro que um homem de ministério pode ter comentou ele enquanto me acompanhava até o ponto
de ônibus após uma reunião que se estendeu até tarde uma mulher que entende o chamado que não se opõe à obra Que está disposta a sacrificar-se pelo reino essas palavras ecoaram em mim por dias seria eu capaz de ser essa mulher teria eu esse chamado especial para estar ao lado de um homem de Deus as perguntas me consumiam enquanto eu dava aulas enquanto preparava o jantar com Lucinha enquanto tentava dormir no dia em que completei se meses como membro da Assembleia da Fé Renovada o pastor Josias pediu para conversar comigo após o culto no pequeno
escritório nos fundos Da igreja entre caixas de inários e pilhas de folhetos evangelísticos ele se ajoelhou diante da única cadeira onde eu estava sentada irmã Maria José tenho buscado a face de Deus em oração e ele me mostrou claramente sua vontade o Senhor me enviou a São Vicente não apenas para pastorear este rebanho mas para encontrar a auxiliadora que ele separou para mim a senhora aceitaria ser minha esposa e parceira neste ministério que o Senhor nos confiou meus olhos se Encheram de lágrimas aos 32 anos quando já começava a aceitar que talvez o casamento não
estivesse em meus planos Deus havia enviado não apenas um marido mas um propósito um homem respeitado um líder espiritual alguém que me via como peça fundamental em sua missão divina sim aceito respondi com a voz embargada sem imaginar que aquele sim seria o portal para um inferno particular que nenhum sermão sobre provações poderia ter me preparado o que eu não sabia Naquele momento ajoelhada em oração de agradecimento com aquele que seria meu futuro marido é que por trás do púlpito e das palavras santas se escondia um homem muito diferente um homem cujos sorrisos públicos se
transformariam em faces de ira dentro de casa um homem que usaria as mesmas escrituras que pregava para justificar seu controle suas exigências e eventualmente sua violência eu estava prestes a aprender a lição mais dura da minha vida que às vezes o Lobo não se veste de cordeiro ele se veste de pastor nosso casamento foi celebrado em dezembro de 1982 três semanas antes do Natal a igreja estava decorada com flores brancas doadas pelas irmãs da congregação e fitas douradas que lembravam a época festiva lucinha foi minha madrinha ainda que com visível relutância nos olhos "você mal
conhece esse homem Zezé?" sussurrou ela enquanto me ajudava com o vestido simples mas Elegante que compramos em Santos após economizar por semanas "casamento não é brincadeira." Eu sorri confiante em minha decisão deus não erra Lucinha ele colocou o pastor Josias no meu caminho por uma razão a cerimônia foi conduzida por um pastor amigo de Josias vindo especialmente de São Paulo para a ocasião a pequena igreja estava lotada membros da congregação alguns colegas do grupo escolar poucas amigas minha família reduzida josias não tinha Parentes presentes segundo ele todos haviam ficado em Minas e não puderam viajar
mas o Senhor nos deu uma nova família espiritual" afirmou com aquele sorriso seguro que tanto me encantava nossa lua de mel foi um fim de semana em Santos no hotel Parque Balneário um luxo que me fez sentir como uma princesa josias era carinhoso atencioso e me tratou com um respeito que beirava a reverência uma mulher virtuosa quem a achará o seu valor excede o de finas Joias" recitou ele após nossos momentos de intimidade fazendo me corar com o elogio bíblico foi ao retornarmos dessa breve lua de mel que começamos nossa vida no pequeno sobrado alugado
a duas quadras da igreja o primeiro andar seria usado para receber membros da congregação realizar estudos bíblicos e reuniões administrativas no segundo andar ficava nossa residência privada sala cozinha um quarto e banheiro simples mas aconchegante ou Assim pensei a transformação não foi abrupta não houve um único momento em que eu pudesse dizer: "Foi aqui que tudo mudou" foi gradual como a maré que sobe imperceptivelmente até que de repente você percebe que está cercada por água por todos os lados a primeira mudança veio uma semana após o casamento estava organizando meus materiais escolares para o início
do ano letivo quando Josias entrou no quarto com uma expressão séria que eu ainda não Conhecia maria José estive em oração e creio que o Senhor está me direcionando sobre nosso ministério ele sentou-se na beirada da cama sua voz calma mas definitiva uma esposa de pastor tem responsabilidades importantes na obra não creio que você poderá conciliar a escola com as demandas que Deus colocará sobre você como minha auxiliadora senti como se o chão tivesse sumido sob meus pés mas Josias eu amo lecionar são minhas crianças minha Vocação ele pegou minhas mãos entre as suas seu
olhar intenso fixo em mim o seu ministério agora é outro querida provérbios 31 fala da mulher virtuosa que cuida do lar que serve ao marido que está disponível para a obra do Senhor como você poderá atender as necessidades da igreja se estiver comprometida com a escola durante toda a manhã argumentei tentando encontrar um meio termo tinha 10 anos de magistério adorava meus alunos sentia que fazia Diferença ali mas para cada argumento meu Josias respondia com um versículo uma revelação divina uma explicação sobre como minha resistência demonstrava que eu ainda não havia entendido verdadeiramente o chamado
ou morrido completamente para minha vontade própria a conversa durou horas quando finalmente cedi exausta emocional e espiritualmente Josias sorriu com aquela expressão que aprendia temer com o tempo Não era alegria era satisfação vitória ele havia vencido a primeira batalha você verá que é a vontade de Deus Maria José ele honrará sua obediência na manhã seguinte enviei minha carta de demissão ao grupo escolar chorei silenciosamente enquanto a escrevia sentindo que entregava não apenas um emprego mas uma parte essencial de quem eu era quando voltei para casa após entregar a carta Josias estava esperando na sala com
um presente uma Bíblia nova com meu nome Gravado na capa maria José Pereira esposa do pastor para que você comece seu novo ministério com a palavra que nos guia" disse ele beijando minha testa aquela Bíblia que deveria ser símbolo de amor e consideração tornou-se gradualmente o manual pelo qual minha existência seria controlada e medida e aquele dia aquela carta de demissão foi o primeiro passo em direção ao apagamento da mulher que eu havia sido os primeiros meses como esposa do pastor Josias foram uma montanha russa de emoções por um lado eu experimentava um sentimento novo
de importância e propósito as mulheres da igreja me procuravam para conselhos pediam minhas opiniões sobre assuntos familiares queriam saber como eu mantinha minha casa tão organizada e meu marido tão satisfeito por outro lado havia um crescente vazio dentro de mim um espaço antes preenchido pelas risadas das crianças da escola pelos pequenos Triunfos de ensinar alguém a ler sua primeira palavra tentei preencher esse vazio com atividades ministeriais organizei o departamento feminino criei grupos de oração matinais assumi completamente a escola dominical trabalhava mais do que quando era professora mas sem salário sem reconhecimento formal sem a autonomia
que tinha em sala de aula todo meu trabalho era extensão do ministério de Josias eu não tinha ministério próprio Apenas auxiliava o dele à noite enquanto preparava as aulas da escola dominical ou os estudos para o círculo de oração das mulheres observava meu marido estudando seus sermões às vezes ele me pedia opinião sobre alguma passagem e nesses momentos eu me sentia valorizada mas eram momentos cada vez mais raros foi numa dessas noites cerca de quatro meses após o casamento que percebi uma mudança sutil no tratamento de Josias eu havia preparado um estudo sobre Rute Para
o grupo de mulheres e queria sua aprovação ao ler meu texto ele franziu o senho você está enfatizando muito a independência de Rute sua decisão de seguir seu próprio caminho não é essa a lição central mas ela realmente tomou uma decisão corajosa ao deixar sua terra e seguir Noemi argumentei gentilmente josias fechou a Bíblia com um bac surdo a lição de Rute é sobre submissão Maria José submissão a Deus a Noemi depois a Boaz não sobre Independência abri a boca para responder mas o olhar dele me deteve não era mais o olhar do homem que
me pedir em casamento com reverência era algo diferente algo frio "vou reescrever o estudo" murmurei recolhendo minhas anotações "melhor assim não podemos permitir interpretações erradas da palavra especialmente vindas da esposa do pastor." Aquela noite demorei para dormir algo havia mudado no tom na dinâmica entre nós não era apenas Discordância era uma declaração implícita de que minha compreensão meu pensamento minha interpretação eram menos válidos que os dele e pior potencialmente perigosos na semana seguinte Josias anunciou durante o jantar que havia convidado os diáconos e suas esposas para uma refeição após o culto de domingo era quinta-feira
"podemos fazer algo simples?" sugeri mentalmente calculando o que poderíamos pagar com nosso orçamento apertado Talvez um macarrão com Não Maria José interrompeu ele precisamos impressionar esses homens são importantes para o crescimento da obra quero que você prepare aquele pernil que comemos na casa do irmão Jeremias senti meu estômago afundar aquele pernil custaria metade do nosso orçamento mensal para a alimentação josias não sei se conseguiremos as contas deste mês o punho dele bateu na mesa tão repentinamente que dei um pulo na Cadeira você acha que não sei administrar nossa casa você questiona minhas decisões ministeriais não
eu só O problema é que você não confia na provisão do Senhor você ainda não entendeu o que significa fé Maria José fé acreditar que Deus proverá mesmo quando não vemos como ou você acha que o Deus que alimentou 5000 pessoas com cinco pães e dois peixes não pode fornecer um simples pernil para seus servos a torção dos versículos bíblicos Para fazerme sentir espiritualmente inadequada começava a se tornar um padrão mas naquele momento ainda acreditava que o problema estava em mim em minha falta de fé em meu apego às seguranças terrenas em minha incapacidade de
ver a visão maior que Josias tinha no domingo servi o pernil perfeito para os diáconos e suas esposas enquanto Josias brilhava como anfitrião "minha esposa é uma bção" declarou ele ao grupo sempre pronta a sacrificar-se Pela obra uma verdadeira auxiliadora enquanto todos sorriam em aprovação só eu sabia o que aquele jantar havia custado não apenas financeiramente mas em lágrimas escondidas e autoestima corroída na semana seguinte não tivemos dinheiro suficiente para comprar remédios quando adoeci com uma gripe forte "vamos orar pela sua cura" disse Josias quando mencionei que precisava de um antitérmico "não é falta de
fé usar Medicamentos" argumentei tremendo de febre até o apóstolo Paulo recomendou vinho a Timóteo para suas enfermidades frequentes foi a primeira vez que ele me chamou de rebelde a primeira vez que citou o versículo que se tornaria seu mantra nos anos seguintes melhor é a obediência do que o sacrifício aquela noite ardendo em febre e dúvidas comecei a escrever um diário não para registrar os eventos felizes de uma recém-casada mas para tentar entender o Que estava acontecendo comigo com meu casamento com minha fé era como se em apenas 4ro meses eu tivesse me tornado uma
estrangeira para mim mesma a professorinha confiante que motivava seus alunos a pensar por si próprios agora temia expressar suas opiniões à mesa do jantar o diário tornou-se meu único confidente nele registrei as pequenas mortes diárias da minha identidade os gradativos apagamentos da minha voz a lenta mas constante erosão Da minha dignidade escondia-o dentro de uma caixa de absorventes no armário do banheiro o único lugar que sabia que Josias nunca procuraria hoje completamos cinco meses de casados" escrevi certa noite sinto falta da Zezé que eu era onde ela foi parar será que ela ainda existe em
algum lugar dentro de mim a primeira vez que Josias ergueu a mão contra mim foi oito meses após nosso casamento a congregação crescia rapidamente e com ela as Responsabilidades e a pressão havíamos iniciado uma campanha para arrecadar fundos para a construção do templo próprio não mais o salão alugado mas um verdadeiro templo com torre e tudo mais cada membro deveria contribuir generosamente sacrificialmente como prova de comprometimento com a visão naquela tarde eu havia visitado minha irmã Lucinha nossos encontros tornavam-se cada vez mais raros já que Josias não Aprovava sua influência mundana sobre mim lucinha havia
se divorciado recentemente após descobrir a infidelidade do marido e segundo Josias era má companhia para uma esposa de pastor ela vai ficar falando esses absurdos sobre os homens serem todos iguais vai plantar desconfiança no seu coração advertia ele sempre que eu mencionava visitar minha única irmã mas naquele dia aproveitei que ele estava em uma reunião com pastores de Santos para Escapar por algumas horas lucinha me recebeu com um abraço apertado e olhos preocupados "você está tão magra Zezé?" comentou ela enquanto preparava um café e esses olhos tristes não me enganam o que está acontecendo lá
naquela igreja tentei desconversar falei sobre as atividades ministeriais sobre a campanha para o novo templo sobre como era desafiador ser esposa de pastor mas Lucinha sempre teve o dom de arrancar verdades de mim bastou um olhar mais Demorado uma mão sobre a minha e as lágrimas que eu reprimia há meses vieram à tona contei sobre a pressão constante sobre como meu dia era cronometrado sobre como cada gasto precisava ser justificado sobre os sermões particulares na mesa de jantar quando eu expressava qualquer opinião divergente não contei tudo havia coisas que não conseguia admitir nem para mim
mesma mas contei o suficiente isso não é amor Zezé nem é de Deus" afirmou Lucinha com aquela franqueza que sempre foi sua marca controle não é cuidado intimidação não é orientação espiritual voltei para casa confusa culpada por ter traído a confiança de Josias ao compartilhar nossas dificuldades mas também aliviada por ter finalmente colocado em palavras o que vinha sentindo quando cheguei ele já estava lá sentado na poltrona da sala uma expressão sombria no rosto "onde você esteve Maria José?" O tom gelado me Alertou imediatamente visitei Lucinha ela não estava bem e menti para o pastor
Antenor que você estava doente quando ele perguntou porque não estava na reunião das esposas" interrompeu ele sua voz perigosamente controlada tive que mentir por sua causa tentei explicar que não sabia da reunião que só queria ver minha irmã que passava por dificuldades que voltaria a tempo se soubesse mas cada justificativa parecia apenas atiçar algo Escuro em seus olhos venho tentando moldar você para ser uma esposa adequada a um homem de Deus mas você resiste insiste em manter laços com pessoas que só afastam você do caminho da retidão então ele se levantou caminhou até a estante
e pegou o envelope onde guardávamos o dinheiro da campanha para o templo e agora descubro isso meu coração congelou na semana anterior eu havia retirado 50 cruzeiros do envelope para comprar remédios para uma senhora Idosa da igreja que não tinha como pagar seu tratamento para pressão alta planejava repor com o dinheiro que economizaria das compras do mês eu posso explicar Josias a irmã Odet estava sem remédio e pensei que você roubou da obra de Deus a voz dele subiu várias oitavas tomou decisões que não lhe cabiam "quem você pensa que é para decidir como usar
o dinheiro consagrado?" Eu ia repor juro que O tapa veio rápido e forte pegando-me completamente Desprevenida cambalhei para trás sentindo o gosto metálico de sangue na boca onde meus dentes haviam cortado a parte interna da bochecha por alguns segundos ficamos ambos em choque eu pelo ato em si ele talvez pela quebra de uma barreira que uma vez transposta mudaria tudo para sempre veja o que você me fez fazer murmurou ele sua voz agora embargada uma esposa virtuosa não provoca seu marido a ira a vara da correção da sabedoria mas a criança Entregue a si mesma
envergonha a sua mãe provérbios 29:15 e assim começou um novo capítulo em nosso casamento um onde a violência física juntou-se à emocional e espiritual que já experimentava um tapa hoje um empurrão amanhã sempre seguidos por versículos bíblicos distorcidos para justificar o injustificável sempre minha culpa sempre minha responsabilidade provocando-o sendo rebelde desobediente carnal nas Semanas seguintes escondia as marcas como pude usava maquiagem para cobrir o ocasional hematoma inventava desculpas para os lábios cortados sorria através da dor física e emocional nos cultos e eventos da igreja para todos os efeitos éramos o casal pastoral perfeito ele o
servo ungido de Deus eu sua devotada esposa e auxiliadora mesmo para Lucinha comecei a me distanciar a culpa era pesada demais culpa por não ser a esposa que Josias merecia culpa pelo meu Fracasso espiritual culpa por questionar se aquilo realmente era a vontade de Deus para minha vida parei de visitar minha irmã regularmente deixei de atender seus telefonemas lentamente fui cortando as poucas conexões que me restavam com o mundo fora da igreja o isolamento descobrir é a ferramenta mais eficaz do abusador quando você não tem mais referências externas quando o único espelho em que você
se vê é aquele que seu agressor segura diante de você você Começa a acreditar na imagem distorcida começa a pensar que talvez você realmente seja todas aquelas coisas terríveis que ele diz que você é que talvez você realmente mereça aquele tratamento e assim em menos de um ano de casada eu havia me transformado de uma mulher independente educadora respeitada com opiniões próprias e voz ativa para uma sombra que cada palavra cada passo cada respiração o evento transformador não foi o primeiro tapa nem a primeira Humilhação pública nem mesmo a perda do meu emprego foi a
lenta metódica e gradual destruição da minha identidade tão hábilmente executada em nome de Deus que por muito tempo acreditei sinceramente que meu sofrimento era prova do meu crescimento espiritual bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça porque deles é o reino dos céus recitava Josias nas noites em que me via chorando silenciosamente no canto do quarto o que Ele não mencionava e o que levei anos para compreender é que a perseguição à qual Jesus se referia não vinha das mãos daqueles que juraram nos amar e proteger não vinha em nome do amor e certamente
não acontecia dentro das paredes que deveriam ser nosso refúgio mais seguro os anos que se seguiram ao primeiro ato de violência formaram um borrão de dias aparentemente iguais mas gradativamente mais sombrios de fora nossa vida parecia abençoada a congregação cresceu Ultrapassando 200 membros em 1974 os cultos agora aconteciam num espaço maior alugado no centro da cidade enquanto arrecadávamos fundos para construir nosso próprio templo josias estava se tornando conhecido além de São Vicente sendo convidado para pregar em Santos Cubatão até mesmo em São Paulo e eu eu me tornava cada vez menor sorria nos momentos certos
cozinhava para os convidados importantes organizava eventos para as mulheres da igreja Tudo enquanto minha alma definhava a violência tornava-se parte da rotina não diária mas frequente o suficiente para me manter em constante estado de alerta aprendi a identificar os sinais um certo olhar uma maneira específica de fechar a porta um tom particular de voz quando os percebia fazia tudo para apaziguá-lo mais submissa mais silenciosa mais invisível meu primeiro ato real de resistência aconteceu em meados de 195 já estávamos casados há quase 3 anos E eu havia aceitado minha realidade como algo imutável foi quando conheci
dona Cida uma senhora de 60 e poucos anos que começou a frequentar a igreja após a morte do marido diferente das outras mulheres mais velhas da congregação dona Cida tinha um brilho no olhar e uma independência de espírito que me fascinavam havia sido professora universitária antes de se aposentar algo extraordinário para uma mulher de sua geração quando me aproximei dela para Oferecer apoio pastoral como fazia com todas as viúvas fui eu quem acabei encontrando um ouvido atento e sábio "a senhora parece carregar um fardo muito pesado para alguém tão jovem" comentou ela após um de
nossos estudos bíblicos para senhoras não havia acusação em sua voz apenas observação compassiva neguei é claro tinha me tornado perita em negar é apenas a responsabilidade do ministério dona Cida ser esposa de pastor não é fácil ela sorriu Gentilmente sabe Maria José fui casada por 40 anos com um homem que me respeitava como igual discutíamos discordávamos crescíamos juntos isso também é bíblico sabia paulo disse aos maridos que amassem suas esposas como Cristo amou a igreja e Cristo nunca foi abusivo ou controlador fiquei paralisada incapaz de responder era como se ela tivesse visto através da fachada
cuidadosamente construída não consegui negar nem confirmar apenas desviei o Olhar mas aquelas palavras plantaram uma semente que levaria tempo para germinar dona Cida começou a me emprestar livros romances poesias alguns estudos bíblicos diferentes dos que circulavam em nossa denominação eu os lia escondida aproveitando as ausências de Josias em suas viagens ministeriais cada vez mais frequentes cada página era como uma janela para um mundo que eu havia esquecido que existia um mundo onde pensamentos podiam fluir livremente onde Mulheres tinham voz e valor além de sua submissão foi em um desses livros que encontrei sublinhada uma frase
que mudou algo fundamental em mim o medo não vem de Deus pois ele não nos deu espírito de covardia mas de poder de amor e de moderação de Timóteo 1:7 li e-lhe aquelas palavras contrastando-as com o terror que sentia quando ouvia os passos de Josias na escada se Deus não nos deu espírito de medo porque eu vivia em constante pavor Se o amor de Cristo era meu exemplo por aceitava um relacionamento baseado em intimidação comecei a questionar silenciosamente: primeiro apenas em meu diário depois em conversas cuidadosas com dona Cida ela nunca me disse explicitamente para
deixar Josias era sábia demais para isso ao invés disso me incentivava a estudar as escrituras por mim mesma a orar pedindo discernimento a reconhecer a diferença entre submissão voluntária em amor e subjgação por medo Deus te deu uma mente Maria José dizia ela ele espera que você a use meu primeiro desafio real ao controle de Josias veio quando decidi visitar Lucinha sem pedir permissão minha irmã havia tentado me contatar várias vezes e eu sempre inventava desculpas para não encontrá-la mas naquele dia de outubro de 1965 impulsionada por uma coragem que não sabia possuir peguei um
ônibus para Santos enquanto Josias estava em uma Reunião com líderes de outras igrejas lucinha abriu a porta e quase não me reconheceu meu Deus Zezé o que aconteceu com você foi só então vendo meu reflexo no espelho da sala dela que percebi como havia mudado estava magra demais pálida com olheiras profundas e um olhar constantemente assustado meus cabelos antes meu orgulho estavam opacos e sem vida chorei nos braços da minha irmã como não chorava anos não consegui contar tudo a vergonha era muito grande Mas falei o suficiente para que ela entendesse a gravidade da situação
"você precisa sair dessa casa Zezé?" disse Lucinha segurando minhas mãos entre as suas vem morar comigo começamos de novo como antes a ideia era ao mesmo tempo tentadora e terrificante deixar Josia significava não apenas abandonar meu casamento mas todo o mundo que eu conhecia há quase 4 anos a igreja era minha vida agora todos os meus relacionamentos minha identidade Minha rotina giravam em torno dela e havia o aspecto espiritual também o divórcio era condenado em nossa denominação eu seria vista como a mulher que abandonou um homem de Deus que desistiu de seu chamado que falhou
em sua missão não posso Lu respondi finalmente não agora preciso Preciso tentar entender o que Deus quer de mim nessa situação voltei para casa antes que Josias chegasse mas algo havia mudado dentro de mim aquela visita abriu Uma fissura no muro de isolamento que ele havia construído ao meu redor e através dessa fissura começou a entrar luz pequena vacilante mas luz mesmo assim nas semanas seguintes comecei a procurar maneiras de recuperar pequenos pedaços de mim mesma retomei a leitura regular não apenas dos livros que dona Cida me emprestava mas também de jornais e revistas josias
raramente os comprava dizendo que eram cheios de mundanismo mas comecei a adquiri-los quando ia ao Mercado lendo-os rapidamente antes de descartá-los através desses textos reconectei-me com o mundo exterior descobri que enquanto eu estava presa em meu inferno particular o Brasil passava por transformações importantes o presidente Geisel falava em distensão lenta gradual e segura do regime militar havia movimentos por direitos das mulheres discussões sobre igualdade no casamento o mundo lá fora estava mudando e talvez Houvesse esperança para mim também outro pequeno ato de resistência foi começar a guardar dinheiro não muito algumas moedas aqui e ali
economizadas das compras do mês guardadas em uma lata de biscoitos vazia escondida junto com o meu diário não tinha planos concretos para aquele dinheiro mas a simples posse de recursos que Josias não controlava me dava uma sensação de possibilidade que há muito não experimentava esses pequenos desafios ao controle absoluto De Josias me trouxeram uma fortaleza interior que eu pensava ter perdido para sempre não mudaram minha situação externa os abusos continuavam as humilhações também mas começaram a reconstruir algo dentro de mim uma voz quase esquecida que sussurrava: "Isso não está certo você merece mais isso não
é o que Deus quer para você foi nesse período que comecei a sonhar novamente não os pesadelos recorrentes com que havia me acostumado mas sonhos de Possibilidades de um futuro diferente e em todos esses sonhos eu era novamente Zezé a mulher que existia antes de se tornar a esposa do pastor Josias em meados de 1976 após quase 4 anos de casamento percebi que precisava fazer algo mais concreto para mudar minha situação meus pequenos atos de resistência haviam me ajudado a preservar algum senso de identidade mas a realidade cotidiana continuava a mesma josias tornava-se Cada vez
mais controlador à medida que seu ministério crescia e com o crescimento vinham mais pressão mais estresse e mais explosões de raiva direcionadas a mim na privacidade de nossa casa meu primeiro plano foi tentar restabelecer minha independência financeira através de dona Cida soube que uma escola particular em São Vicente precisava de professoras particulares para dar aulas de reforço no contraturno eram apenas algumas horas semanais mas Representariam o meu próprio dinheiro minha reconexão com a profissão que tanto amava e talvez uma porta para algo maior no futuro planejei cuidadosamente como apresentaria a ideia a Josias escolhi um
momento em que ele parecia relaxado após um domingo bem-sucedido na igreja com muitas conversões e um bom valor arrecadado no dízimo preparei seu prato favorito bacalhau com batatas e esperei até o final da refeição para mencionar uma oportunidade de ministério Com crianças que havia surgido ministério perguntou ele interessado que tipo de ministério algumas horas de ensino para crianças com dificuldades de aprendizado" respondi mantendo a voz calma apesar do coração acelerado seria como uma extensão da escola dominical mas ajudando crianças que realmente precisam de atenção especial não mencionei que seria remunerado não falei sobre a escola
ser secular tentei apresentar como uma obra de caridade Algo que traria prestígio ao ministério da família pastoral era manipulação sim havia aprendido essa tática com o próprio Josias a ironia não me escapava sua resposta inicial foi surpreendentemente positiva ele gostava quando eu estava envolvida em trabalhos que poderiam ser mencionados em seus sermões como exemplos de alcance comunitário combinamos que eu faria uma entrevista inicial para conhecer os detalhes a diretora da escola ficou Impressionada com meu currículo e experiência anterior no grupo escolar e me ofereceu 6 horas semanais para começar quando voltei para casa e contei
a Josias sobre o horário e inevitavelmente sobre a remuneração vi sua expressão mudar então não é ministério é trabalho disse ele o semblante fechando-se como uma tempestade se formando você mentiu para mim Maria José não menti respondi tentando manter a compostura é um Trabalho que também é um ministério posso influenciar essas crianças mostrar valores cristãos através do meu exemplo e o dinheiro o que pretende fazer com ele pensei em contribuir para a campanha do templo respondi rapidamente era parcialmente verdade planejava doar uma parte mas sonhava em guardar o resto para eventualmente ter um fundo de
emergência por um momento pensei que havia convencido-o ele pareceu considerar a Ideia talvez calculando como isso poderia beneficiar seus planos para a igreja mas então balançou a cabeça não vai funcionar Maria José se você estiver fora por seis horas semanais quem cuidará das mulheres da igreja quem organizará as visitas quem preparará os estudos bíblicos sua ausência seria uma má influência para as outras esposas elas começariam a questionar seus próprios papéis e assim minha primeira tentativa de recuperar alguma autonomia Fracassou tentei argumentar mas cada ponto que levantava ei era rebatido com um versículo bíblico distorcido ou
uma preocupação sobre o testemunho da família pastoral no final para evitar uma explosão de raiva que eu sentia iminente cedi liguei para a escola no dia seguinte e recusei a oportunidade aquela noite chorei silenciosamente no banheiro sentindo-me novamente derrotada mas algo havia mudado a semente da resistência estava Plantada e eu não desistiria tão facilmente novamente minha segunda tentativa veio alguns meses depois em vez de confrontar Josias diretamente decidi adotar uma abordagem mais sutil através de dona Cida comecei a fazer pequenos trabalhos de datilografia em casa cartas documentos trabalhos acadêmicos era algo que podia fazer enquanto
Josias estava na igreja ou em compromissos ministeriais e que não interferia com minhas obrigações como Esposa de pastor o dinheiro era pouco mas meu guardava-o cuidadosamente na lata de biscoitos que agora escondia sob uma tábua solta no fundo do guarda-roupa não falei sobre isso com Josias não era exatamente uma mentira apenas uma omissão justificava para mim mesma que ele também tinha seus segredos eu simplesmente estava criando um pequeno espaço de autonomia por algumas semanas essa estratégia funcionou me sentia viva novamente ao usar minhas habilidades ao Receber agradecimentos sinceros pelas tarefas bem executadas até mesmo meu
relacionamento com Josias pareceu melhorar um pouco tendo esse pequeno escape eu conseguia suportar melhor suas exigências e críticas mas a bolha estourou quando certo dia ele chegou em casa mais cedo que o previsto e me encontrou datilografando uma dissertação para um estudante universitário amigo de dona Cida a máquina de escrever emprestada por ela estava na mesa da Sala com páginas espalhadas ao redor "o que é isso?" perguntou ele olhando os papéis com desconfiança tentei explicar casualmente estava apenas ajudando um conhecido praticando minhas habilidades de datilografia ocupando meu tempo ocioso mas Josias não era tolo "quanto
tempo faz que você está fazendo isso e você está recebendo por esse trabalho não está?" Não adiantava mentir sim estou recebendo um pequeno valor pensei que não haveria Problema já que faço quando você não está e não interfere com minhas responsabilidades na igreja ele não gritou desta vez seu comportamento foi ainda mais assustador uma calma gélida enquanto recolhia as páginas da dissertação e as rasgava metodicamente em pedaços você não entende não é Maria José a questão não é o tempo nem o dinheiro é a desobediência é você agindo pelas minhas costas é você tomando decisões
sem minha autorização quando Terminou de destruir o trabalho quase concluído horas de esforço que eu teria que refazer pegou a máquina de escrever vou devolver isto à dona Cida amanhã e vou informá-la que você não estará mais disponível para esses trabalhinhos aliás acho que suas conversas com ela não têm sido edificantes para você senti meu mundo encolher ainda mais dona Cida havia se tornado não apenas uma amiga mas uma mentora um raio de luz em minha existência sombria a perspectiva de Perder esse relacionamento me aterrorizava mais que a perda da pequena independência financeira por favor
Josias não faça isso implorei abandonando qualquer pretensão de dignidade dona Cida é uma senhora idosa que precisa de apoio espiritual faz parte do meu papel como esposa do pastor cuidar das viúvas não é o que a Bíblia ensina foi a menção à Bíblia que o fez hesitar ele se orgulhava de sua imagem de pastor que cuida do rebanho Especialmente dos mais vulneráveis interferir no meu relacionamento com uma viúva idosa poderia parecer contraditório você pode continuar visitando-a" concedeu finalmente "mas nada de trabalhos nada de livros emprestados nada de conversas sem supervisão e quero que me conte
tudo que vocês discutem" concordei rapidamente aliviada por manter ao menos essa conexão mesmo que agora sob vigilância mas quando ele saiu da sala carregando a Máquina de escrever como um troféu de guerra uma nova resolução se formou dentro de mim ele poderia controlar minhas ações externas mas não poderia controlar meus pensamentos meus sonhos minha determinação crescente de encontrar uma saída naquela noite acrescentei ao meu diário as tentativas falham mas não a esperança cada fracasso me ensina algo novo estou aprendendo a ser paciente a planejar melhor a buscar outras Alternativas um dia encontrarei o caminho para
fora deste labirinto não sabia então mas esse caminho ainda levaria tempo para se revelar e viria de uma direção que eu jamais poderia imaginar o ano de 1977 trouxe mudanças significativas para nossa vida a congregação havia arrecadado fundos suficientes para iniciar a construção do tão sonhado templo próprio um prédio imponente com capacidade para 500 pessoas torre com Sino salas para escola dominical escritórios administrativos e até um pequeno apartamento para o pastor e sua família no andar superior josias estava exultante vendo a concretização de sua visão profética para mim porém a perspectiva era ambivalente por um
lado mudaríamos do pequeno sobrado alugado para um espaço mais amplo e confortável por outro eu estaria mais isolada do que nunca literalmente vivendo dentro da igreja sob os olhos vigilantes dos Membros mais dedicados que frequentavam o templo diariamente enquanto isso a saúde de dona Cida vinha deteriorando aos 68 anos foi diagnosticada com um problema cardíaco que a deixava cada vez mais frágil passei a visitá-la com mais frequência sempre com a permissão de Josias que agora via essas visitas como parte do meu ministério com idosos algo que ele podia mencionar em seus sermões como exemplo da
dedicação da família pastoral em uma dessas visitas encontrei Dona Cida particularmente abatida sentada em sua poltrona preferida envolta em uma manta mesmo no calor de fevereiro ela segurou minha mão com uma urgência em comum maria José tenho pensado muito em você não sei quanto tempo mais terei e preciso dizer algo importante tentei tranquilizá-la dizer que ficaria bem que o tratamento estava funcionando mas ela balançou a cabeça com determinação escute-me vejo nos seus Olhos o mesmo que vi nos olhos da minha mãe por anos ela também viveu com um homem que a diminuía dia após dia
que usava a religião como desculpa para controlar cada aspecto da vida dela sabe o que aconteceu ela morreu aos 45 anos consumida por dentro o espírito dela se foi muito antes do corpo fiquei em silêncio incapaz de negar o que ela via tão claramente você tem uma escolha Maria José pode continuar acreditando que sua situação é a vontade de Deus que Seu sofrimento é algum tipo de teste espiritual ou pode reconhecer que está em uma prisão com a porta destrancada não é tão simples murmurei as lágrimas embaçando minha visão a igreja os membros meus votos
perante Deus deus não pede que você se destrua por um casamento" respondeu ela firmemente jesus falou de amor de respeito mútuo paulo disse aos maridos que amassem suas esposas como Cristo amou a igreja e Cristo se sacrificou pela igreja não Sacrificou a igreja por si mesmo era uma interpretação que jamais havia ouvido em todos os meus anos na Assembleia da Féovada ali as passagens sobre submissão eram citadas constantemente enquanto as exigências feitas aos maridos eram convenientemente ignoradas "o que devo fazer então?" perguntei sentindo-me simultaneamente assustada e aliviada por finalmente admitir em voz alta que algo
precisava Mudar primeiro pare de se culpar depois comece a se preparar praticamente emocionalmente e espiritualmente a oportunidade virá e você precisa estar pronta para reconhecê-la e agir naquele momento uma ideia começou a se formar em minha mente não um plano completo ainda apenas a semente de uma possibilidade dona Cida se eu quisesse voltar a estudar você acha que seria possível um sorriso iluminou seu rosto cansado é exatamente Por isso que guardei isto para você ela apontou para uma gaveta na mesa lateral abra dentro havia um envelope com um formulário de inscrição para um curso supletivo
noturno começam as aulas em março três noites por semana pensei que talvez você quisesse completar seu magistério de segundo grau abrir mais possibilidades fiquei sem palavras era como se ela tivesse lido meus pensamentos mais secretos a vontade de retomar meus estudos de me qualificar Mais de recuperar não apenas uma atividade profissional mas minha própria mente que sentia atrofiar-se após anos de subutilização levei o formulário comigo escondido entre as páginas da Bíblia o único lugar que Josias jamais vasculharia nos dias seguintes elaborei cuidadosamente minha estratégia não repetiria os erros anteriores desta vez não pediria permissão diretamente
nem tentaria agir totalmente às escondidas Em vez disso criei uma história que Josias pudesse aceitar a igreja precisava de alguém qualificado para coordenar um futuro projeto educacional para crianças carentes uma escola comunitária que seria um braço social da congregação como esposa do pastor eu seria a candidata natural para essa função mas precisaria da formação adequada o curso supletivo seria apenas o primeiro passo nessa direção apresentei a ideia não como um desejo Pessoal mas como uma visão para o ministério usando a mesma linguagem que ele empregava quando queria implementar algo novo falei sobre alcance comunitário sobre
influência social sobre como outras igrejas evangélicas estavam estabelecendo escolas e conquistando respeito na sociedade para minha surpresa e alívio Josias não rejeitou a ideia imediatamente a construção do templo estava absorvendo a maior parte de sua Energia e atenção e a perspectiva de expandir o ministério para a área educacional parecia agradar-lhe principalmente porque várias outras igrejas evangélicas em crescimento estavam fazendo o mesmo "pode ser uma boa estratégia" admitiu ele pensativo mas três noites por semana quem cuidará das suas obrigações aqui estava preparada para essa objeção organizarei tudo de antemão e pensei que poderia ser uma oportunidade
para a irmã Neusa Ganhar mais experiência na liderança feminina neusa era uma jovem viúva completamente devotada a Josias e à igreja alguém que eu sabia que ele aprovaria como minha substituta temporária após considerável deliberação e várias condições eu deveria voltar diretamente para casa após as aulas não formaria amizades com os colegas compartilharia todo o material que recebesse para que ele pudesse supervisionar o conteúdo josias Concordou em março de 1977 aos 37 anos voltei a ser estudante o sabor daquela pequena liberdade era indescritível três noites por semana por 4 horas eu era apenas Maria José não
a esposa do pastor não a serva submissa apenas uma aluna ávida por conhecimento redescobri o prazer de aprender de discutir ideias de usar meu cérebro para algo além de memorizar versículos e organizar eventos da igreja o curso me colocou em contato Com pessoas de diferentes origens e histórias de vida mulheres que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite para melhorar de vida homens mais velhos buscando novas oportunidades jovens que haviam abandonado a escola regular muitos eram católicos outros não tinham religião definida era um mundo diverso que eu havia esquecido que existia durante meus anos
de isolamento na bolha evangélica cumpri as condições impostas por Josias Voltava diretamente para casa não socializava além do necessário mostrava-lhe meus cadernos mas algo havia mudado fundamentalmente dentro de mim cada nova informação cada conceito aprendido cada discussão em sala de aula fortalecia não apenas meu intelecto mas minha determinação de encontrar uma saída para minha situação um dia durante uma aula de história do Brasil o professor mencionou as mudanças recentes na legislação do divórcio a lei 6515 conhecida como lei do divórcio estava em discussão no Congresso naquele ano de 1977 e seria aprovada em dezembro foi
como se uma luz se acendesse em minha mente o divórcio tão estigmatizado em nossa congregação poderia se tornar legalmente possível uma porta que eu nem ousava considerar estava se abrindo naquela noite ao voltar para casa encontrei Josias em um estado de agitação que reconheci imediatamente Como perigoso havia problemas com a construção do templo custos maiores que o previsto materiais que não chegavam no prazo doações que diminuíam à medida que a obra se prolongava é uma provação Maria José o inimigo quer impedir a obra de Deus" declarou ele andando de um lado para outro na pequena
sala percebi o cheiro de álcool em seu hálito um vício secreto que ele mantinha escondido da congregação mas que eu conhecia bem demais "vamos orar sobre isso?" sugeri Tentando acalmá-lo "deus proverá uma solução orar orar." Sua voz subiu perigosamente estou orando há semanas preciso de resultados não de mais orações vazias o que se seguiu foi uma das piores explosões de violência de nosso casamento desta vez porém algo dentro de mim reagiu diferentemente enquanto me protegia dos golpes uma clareza incomum tomou conta de minha mente isto não é de Deus pensei com absoluta certeza nunca foi
e nunca Será na manhã seguinte com novos hematomas escondidos sob mangas compridas apesar do calor tomei duas decisões fundamentais primeiro não abandonaria meus estudos não importava o que acontecesse segundo começaria a planejar minha saída daquele casamento não impulsivamente não sem recursos mas de forma metódica e determinada o pequeno fundo que havia guardado durante anos moeda por moeda agora tinha um propósito claro cada livro que lia cada Conceito que aprendia cada pequena habilidade que recuperava me aproximava um passo da liberdade não seria fácil e certamente não seria rápido mas pela primeira vez em muitos anos eu
tinha esperança não a esperança vaga de que as coisas poderiam melhorar mas a convicção concreta de que eu encontraria meu caminho para fora daquele inferno particular as palavras de dona Cida ecoavam em minha mente sempre que o medo ameaçava me paralisar você está em uma Prisão com a porta destrancada estava começando a entender o que ela queria dizer as correntes que me prendiam eram feitas tanto de ameaças reais quanto de crenças internalizadas sobre meu valor meu propósito e o que Deus esperava de mim agora amém aos poucos elo por elo eu começava a examiná-las e
a descobrir quais eu mesma poderia quebrar o final de 1977 e início de 1978 foram meses de metamorfose Silenciosa enquanto Josias se consumia com os desafios da construção do templo problemas financeiros prazos não cumpridos pressão dos membros mais influentes da congregação eu avançava em meus estudos e em meu plano secreto de libertação o curso supletivo revelou-se uma bênção maior do que eu poderia imaginar não apenas pelo conhecimento formal que adquiria mas pelas conexões que comecei a formar cautelosamente entre meus professores Estava Marcelo Boarque um homem na casa dos 50 anos que lecionava português e literatura
certo dia após eu entregar uma redação sobre Cecília Meirelles ele me chamou ao final da aula maria José sua análise do poema é excepcional" disse ele devolvendo-me o trabalho com um grande 10 marcado no topo "você tem formação em letras?" "Sou professora primária." "Ou era," respondi "Um misto de orgulho e melancolia na voz e o que a impede de ser novamente?" A pergunta Simples e direta ficou comigo por dias o que me impedia realmente josias sim mas por quanto tempo eu permitiria que ele determinasse meu destino nas semanas seguintes o professor Marcelo tornou-se um aliado
discreto ao descobrir meu interesse em retomar a carreira docente começou a me fornecer informações sobre concursos municipais possibilidades de emprego em escolas particulares até mesmo oportunidades de bolsas para continuar os estudos tudo de maneira Sutil respeitando minha privacidade e minha relutância em discutir minha vida pessoal em casa a tensão aumentava o novo templo embora ainda incompleto já estava sendo utilizado para os cultos morávamos agora no apartamento pastoral no andar superior um espaço maior e mais confortável que nosso antigo sobrado mas que para mim representava uma prisão ainda mais isolada cercada por membros da igreja a
qualquer hora do dia eu raramente tinha momentos de privacidade Além das noites de aula josias embora satisfeito com o crescimento da congregação tornava-se cada vez mais errático em seu comportamento a pressão financeira era imensa as dívidas da construção se acumulavam e ele havia feito promessas grandiosas que agora lutava para cumprir seu consumo de álcool sempre escondido da congregação aumentou as explosões de raiva tornaram-se mais frequentes e imprevisíveis Foi nesse período que conheci Helena uma jovem de 22 anos que começou a trabalhar como secretária na administração da igreja bonita dedicada e extremamente leal a Josias Helena
rapidamente se tornou sua mão direita em assuntos organizacionais eu deveria ter percebido os sinais os olhares prolongados as reuniões a portas fechadas a maneira como ele mencionava seu nome com crescente frequência em maio de 1978 recebi um telefonema inesperado de dona Cida sua voz estava fraca mas urgente maria José preciso te ver hoje é importante encontrei uma desculpa para sair uma visita pastoral a uma família necessitada e fui até sua casa encontrei-a ainda mais debilitada que em nossa última reunião mas com os olhos ainda brilhantes de inteligência e determinação "maria José ouvi algo que você
precisa saber" disse ela sem rodeios assim que sentei ao lado de sua Cama "minha sobrinha Teresa trabalha como enfermeira no hospital São José semana passada Helena deu entrada lá para um procedimento levei alguns segundos para entender o que ela estava insinuando quando compreendi senti como se todo o ar tivesse sido sugado de meus pulmões ela estava grávida dona Cida a sentiu gravemente teresa a reconheceu da igreja helena estava muito abalada confessou tudo o pai da criança Maria José era o pastor Josias apesar de tudo Que havia vivido apesar das humilhações e abusos aquela revelação me
atingiu como um raio não era apenas a traição conjugal era a magnitude da hipocrisia o mesmo homem que pregava contra o adultério aos domingos que condenava a imoralidade dos tempos modernos que exigia a pureza absoluta dos jovens da congregação havia engravidado sua jovem secretária e presumivelmente participado da decisão de interromper a gravidez algo que ele Publicamente classificava como assassinato "por que está me contando isso?" perguntei finalmente sentindo um estranho torpor espalhar pelo meu corpo porque você merece saber a verdade e porque talvez seja a oportunidade que você estava esperando voltei para casa naquele dia em
um estado de estranha calma não havia raiva não havia ciúme apenas uma clareza cristalina as últimas correntes invisíveis que me prendiam a Josias haviam se rompido se eu ainda Albergava qualquer dúvida sobre a legitimidade moral de deixá-lo ela havia se dissipado completamente nas semanas seguintes intensifiquei meus preparativos o dinheiro que havia guardado ao longo dos anos não era muito mas seria suficiente para algumas semanas até que encontrasse trabalho por sugestão do professor Marcelo preparei meu currículo atualizado e comecei a enviá-lo discretamente para escolas da região paralelo a isso mantenho o Contato mais frequente com minha
irmã Lucinha ela havia se mudado para um apartamento maior em Santos e reiterou seu convite para que eu ficasse com ela pelo tempo que precisasse a porta está sempre aberta Zezé garantiu-me sempre enquanto isso observava Helena e Josias com novos olhos agora que sabia o que procurar os sinais eram óbvios a intimidade disfarçada os olhares furtivos a maneira como ela corava quando ele se aproximava sentia uma Estranha compaixão por ela tão jovem e claramente manipulada por um homem que dominava a arte de usar seu poder espiritual para satisfazer desejos muito terrenos a tensão em casa
estava quase insuportável josias talvez pressentindo alguma mudança em minha atitude tornava-se alternadamente agressivo e carinhoso uma tática que eu reconhecia de nossos primeiros anos de casamento um dia me insultava e humilhava no seguinte trazia Flores e falava sobre recomeçar sobre fortalecer nosso vínculo no Senhor eu respondia com uma submissão aparente aguardando o momento certo havia aprendido a interpretar seus humores a prever suas explosões a navegar cuidadosamente ao redor de seus gatilhos era uma dança exaustiva mas necessária enquanto finalizava meus preparativos em junho aconteceu o que eu tanto esperava recebi uma oferta para substituir temporariamente uma
professora em Licença maternidade numa escola estadual em Santos não era uma posição permanente mas era um começo uma porta de entrada de volta à profissão que amava marquei minha partida para uma terça-feira específica josias estaria em São Paulo para uma reunião com outros pastores um encontro mensal que sempre durava o dia inteiro helena estaria ocupada com a organização de um evento evangelístico no fim de semana o templo estaria relativamente vazio na noite anterior Enquanto Josias dormia escrevi uma carta explicando minha decisão não mencionei Helena ou o aborto isso poderia desencadear um escândalo que afetaria toda
a congregação incluindo pessoas inocentes que verdadeiramente buscavam a Deus naquela igreja em vez disso fui direta sobre os anos de abuso sobre a incompatibilidade de nossas visões sobre casamento e ministério sobre minha necessidade de reconstruir minha vida longe dele não tento convencê-lo de que Estou certa escrevi no final apenas peço que respeite minha decisão como definitiva não procuro vingança ou exposição pública apenas paz e um novo começo na manhã daquela terça-feira 27 de junho de 1978 acordei antes do amanhecer observei Josias dormindo pela última vez o homem que havia sido meu marido meu pastor meu
carcereiro por quase 6 anos senti uma mistura de emoções que ainda hoje décadas depois tenho dificuldade em Descrever não era ódio nem amor talvez fosse apenas um profundo cansaço um alívio antecipado do fardo que carregava há tanto tempo josias partiu para São Paulo às 7:30 sem suspeitar que aquela despedida rotineira seria a última assim que seu carro deixou o estacionamento da igreja comecei a reunir minhas coisas apenas o essencial o que coubesse em duas malas pequenas roupas alguns livros meu diário poucas recordações da vida anterior ao casamento deixei para trás Tudo que ele havia me
dado joias presentes itens que carregavam memórias que preferia não levar comigo coloquei a carta sobre nossa cama junto com minha aliança de casamento tão respirando fundo para absorver coragem desci as escadas do apartamento pastoral pela última vez atravessei o templo silencioso e saí paraa rua pro mundo paraa vida paraa liberdade enquanto esperava no ponto de ônibus que me levaria à rodoviária de onde seguiria Para Santos e para a casa de Lucinha olhei para o imponente templo da Assembleia da Fé renovada o sol da manhã iluminava a cruz no alto da torre fazendo-a brilhar contra o
céu azul de junho uma cruz que deveria simbolizar redenção e esperança mas que para mim havia se tornado símbolo de opressão e dor "não é você Deus?" sussurrei sentindo lágrimas quentes escorrendo pelo rosto "nunca foi você?" O ônibus chegou e com ele a sensação arrebatadora De estar finalmente tomando as rédeas do meu próprio destino aos 38 anos eu estava recomeçando assustada sim incerta do futuro certamente mas pela primeira vez em muitos anos respirando o ar puro da possibilidade quando o veículo se afastou levando-me para longe do templo do apartamento pastoral e de Josias senti algo
inesperado nascendo dentro de mim algo que pensei ter perdido para sempre esperança uma esperança tangível concreta que tomava a forma de um Horizonte aberto à minha frente o inferno particular que havia sido meu casamento com um pastor chegava ao fim e embora eu ainda não soubesse estava apenas começando a jornada de volta a mim mesma minha chegada a Santos a casa de Lucinha deveria ter sido o final da história o ponto em que a princesa escapa do castelo do dragão e vive feliz para sempre mas a vida real raramente segue os roteiros dos contos de
fadas os dragões nem sempre desistem facilmente De suas prisioneiras na primeira semana vivia em constante estado de alerta cada batida na porta cada toque de telefone me fazia pular da cadeira meu corpo havia se acostumado ao perigo como um animal selvagem que ainda procura predadores mesmo quando já está em segurança lucinha percebeu meu pânico e passou a atender todas as ligações a verificar quem estava à porta antes de abrir ele não vai te encontrar Zezé e se encontrar não vai te levar não enquanto Eu estiver viva garantia minha irmã com uma determinação que me comovia
e tranquilizava a vaga de professora substituta se confirmou e mergulhei no trabalho como quem se agarra a uma boia de salvação lecionar novamente após tantos anos era como despertar músculos adormecidos doloroso no início mas progressivamente reconfortante e familiar as crianças com sua energia e curiosidade serviam como antídoto para o veneno do medo que ainda corria em Minhas veias foi no final do segundo mês quando começava a baixar minhas guardas que o impensável aconteceu retornava da escola numa tarde de agosto quando avistei o carro de Josias estacionado próximo ao prédio de Lucinha meu coração disparou e
instintivamente me escondi atrás de uma banca de jornal observando a distância ele estava lá parado na calçada conversando com o porteiro provavelmente mostrando uma foto minha perguntando se me conheciam corri para Uma lanchonete próxima e telefonei para Lucinha avisando-a ela agiu rapidamente mandou o porteiro dizer que não me conhecia que não havia ninguém com minha descrição morando no edifício passei horas naquela lanchonete tremendo apesar do calor até que Lucinha ligou confirmando que ele havia ido embora "ele não desistiu Zezé" disse ela gravemente "isso foi só o começo lucinha estava certa nos dias seguintes ele apareceu
na escola onde eu lecionava Conseguiu inclusive falar com a diretora antes que eu fosse alertada apresentou-se como meu marido preocupado disse que eu estava passando por problemas emocionais que havia abandonado nosso lar e meus compromissos na igreja repentinamente "um homem de Deus" comentou a diretora depois impressionada com sua aparência respeitável sua eloquência seu aparente amor por mim "talvez você devesse conversar com ele Maria José parece realmente preocupado com seu bem-estar." Aquele era o verdadeiro poder de Josias sua capacidade de manipular percepções de parecer íntegro e amoroso aos olhos dos outros sentada na sala da diretoria
expliquei da forma mais calma possível que estava me separando dele por motivos sérios que temia por minha segurança que precisava da escola como refúgio não como ponto de contato a expressão da diretora mudou gradualmente de ceticismo Para compreensão conforme eu falava ao final ela assentiu gravemente entendo não se preocupe não permitiremos que ele entre em contato com você aqui esta é uma instituição de ensino não local para resolver problemas conjugais aquele foi apenas o primeiro movimento em um jogo de xadrez doloroso josias passou a enviar membros da igreja para me procurar sempre os mais bem
intencionados aqueles que genuinamente acreditavam estar ajudando uma ovelha Desgarrada a retornar ao rebanho vinham com versículos com apelos emocionais com alertas sobre os perigos espirituais da minha decisão deus odeia o divórcio irmã repetiam eles com olhos preocupados e vozes suaves o inimigo está usando seu coração magoado para afastá-la da vontade divina o mais doloroso não era a perseguição em si mas perceber como a comunidade que for a minha família por anos havia sido programada para ver minha libertação como uma tragédia Espiritual como se deixar um relacionamento abusivo fosse um pecado maior que o próprio abuso
em setembro recebi uma carta da advogada que dona Cida havia me ajudado a contatar a lei do divórcio havia sido aprovada no final de 1977 e agora eu poderia legalmente iniciar o processo de separação seria difícil especialmente sem o consentimento de Josias mas era possível pela primeira vez tinha uma arma real contra ele a lei Não apenas minha determinação pessoal no mesmo dia ao retornar do trabalho encontrei Lucinha me esperando com expressão grave dona Cida piorou" disse ela suavemente "está no hospital pediu para te ver corremos para o hospital Beneficência Portuguesa encontrei minha mentora e
amiga em um quarto particular mais frágil do que nunca mas com os olhos ainda brilhantes de determinação quando segurei sua mão fina entre as minhas ela sorriu "você conseguiu Maria José?" sussurrou ela sua voz apenas um sopro saiu daquela prisão graças à senhora respondi as lágrimas embaçando minha visão nunca teria encontrado a coragem sem sua ajuda ela fez um gesto leve de negação a coragem sempre esteve aí dentro eu apenas ajudei você a encontrá-la parou para recuperar o fôlego cada palavra claramente exigindo esforço agora precisa continuar ele não vai desistir facilmente homens como Josias não
conseguem aceitar a derrota Especialmente quando vem de alguém que consideravam propriedade antes que pudesse responder ela continuou no fundo da segunda gaveta da minha cômoda tem um envelope em seu nome a chave da casa está com Teresa sua sobrinha enfermeira pegue antes que antes não conseguiu completar a frase mas entendi dona Cida estava preparando sua partida colocando seus assuntos em ordem dois dias depois ela faleceu pacificamente durante o sono no funeral mantive distância observando De longe temerosa de que Josias pudesse aparecer ele conhecia minha proximidade com ela teresa me encontrou após a cerimônia e discretamente
me passou a chave da casa ela deixou instruções claras disse a enfermeira você deve ir sozinha quando achar seguro esperei até o domingo quando sabia que Josias estaria ocupado com cultos o dia inteiro com o coração apertado entrei na casa que tantas vezes havia sido meu refúgio o silêncio era opressivo nada de música Clássica tocando suavemente nada do aroma de café fresco que sempre preenchia o ambiente quarto abri a segunda gaveta da cômoda antiga lá estava o envelope com meu nome escrito na letra elegante de dona Cida dentro encontrei uma chave de cofre bancário documentos
de uma pequena poupança em meu nome e uma carta manuscrita maria José começava e a carta se está lendo isto significa que completei minha jornada neste mundo não se entristeça Vivi uma vida plena com alegrias e dores que moldaram quem sou o que lamento é não poder acompanhar pessoalmente sua jornada de renascimento que agora se inicia as lágrimas embaçavam minha visão mas continuei lendo o dinheiro não é muito mas deve ajudá-la a recomeçar sem depender de ninguém use-o sabiamente quanto a Josias lembre-se homens como eles se alimentam do medo dos outros é seu combustível sua
fonte de poder no momento em que você deixar de temê-lo Ele perderá o controle sobre você as palavras finais daquela carta se gravaram em minha alma sua vida é sua agora Maria José viva-a plenamente sem medo sem arrependimentos é a maior homenagem que pode prestar a quem realmente a amou voltei para o apartamento de Lucinha com um novo sentido de propósito a morte de dona Cida em vez de me enfraquecer havia fortalecido minha determinação seu último presente para Mim não tinha sido apenas o dinheiro embora aquilo significasse independência financeira por alguns meses mas algo infinitamente
mais valioso certeza de que minha libertação não era egoísmo não era rebeldia espiritual mas um ato de respeito à vida que Deus me havia dado enquanto organizava os documentos na mesa da cozinha o telefone tocou lucinha atendeu e sua expressão se transformou instantaneamente é ele sussurrou cobrindo o bocal com a mão diz que Precisa falar com você urgentemente algo sobre Helena o nome de Helena fez meu sangue gelar por que Josias mencionaria a jovem secretária com quem tinha um caso seria algum tipo de armadilha uma manipulação para conseguir minha atenção ou havia acontecido algo realmente
grave tomei o telefone das mãos de Lucinha que me olhava com preocupação alô disse secamente tentando controlar o tremor na voz maria José a voz de Josias soava Diferente não havia a costumeira autoridade pastoral nem o tom manipulativo de arrependimento que ele usara em algumas tentativas anteriores de contato havia algo quase humano precisamos conversar é sobre Helena ela está no hospital por que devo me importar com isso Josias respondi mais friamente do que pretendia anos de dor acumulada endureceram meu coração um suspiro pesado do outro lado da linha ela tentou suicídio deixou uma carta seu
Nome está nela ela quer te ver o choque me deixou momentaneamente sem palavras helena aquela jovem de olhos brilhantes e sorrisos fáceis tentando tirar a própria vida o que poderia tê-la levado a tal desespero e por que meu nome estaria em sua carta de despedida qual hospital perguntei finalmente santa Casa de Santos estou aqui agora não estou mentindo Maria José ela realmente precisa falar com você após desligar Lucinha tentou me dissuadir pode ser uma Armadilha Zezé ele tentará te levar de volta usar essa moça como isca talvez minha irmã estivesse certa mas algo na voz
de Josias me dizia que desta vez era diferente e se Helena realmente estivesse entre a vida e a morte querendo me ver que tipo de pessoa eu seria se recusasse vou ligar para o hospital primeiro confirmar se ela realmente está internada decidi buscando um meio termo a confirmação veio helena Silveira 23 anos internada na noite Anterior após ingestão de medicamentos estado grave mas estável a enfermeira não pôde fornecer mais detalhes mas foi o suficiente para validar a história de Josias "vou com você" insistiu Lucinha e não tentei de suadi-la sua presença seria minha âncora de
segurança no hospital meu coração acelerou ao ver Josias na sala de espera estava abatido com olheiras profundas e a barba por fazer uma visão tão distante do pastor imponente que eu conhecera ao nos Avistar levantou-se mas manteve distância como se pressentindo minha desconfiança os médicos autorizam apenas uma visita breve informou ele a voz rouca ela está sedada mas consciente "vou esperar aqui" disse Lucinha apertando minha mão em sinal de apoio segui a enfermeira pelos corredores silenciosos cada passo ampliando minha apreensão o que Helena poderia querer comigo que confissão seria tão importante a ponto de mencionar
meu nome Em sua possível despedida da vida ela estava conectada a monitores e soros parecendo absurdamente jovem e frágil naquela cama hospitalar seus olhos se abriram quando me aproximei um leve reconhecimento perpassando seu rosto pálido "maria José" sussurrou ela sua voz quase inaudível "você veio?" "Estou aqui Helena" respondi suavemente puxando uma cadeira para perto da cama "josias disse que você queria me ver." Ela fechou os olhos brevemente como se Reunisse forças preciso que saiba preciso que alguém saiba a verdade que verdade Helena seus olhos se encheram de lágrimas não foi só uma vez não foi
só um erro ou momentâneo como ele diz na igreja estamos juntos há mais de um ano ele prometeu que deixaria você que assumiria nosso relacionamento sua voz falhou o bebê o bebê era dele ele me obrigou a abortar disse que era a única solução que Deus entenderia cada palavra era como uma faca não por revelar a Traição isso eu já sabia mas por expor a profundidade da hipocrisia a extensão do dano que Josias causava às pessoas que o cercavam pensei que poderia conviver com isso continuou Helena sua respiração irregular pensei que o amava o suficiente
para aceitar qualquer coisa mas então então descobri a verdade sobre você sobre mim ela a sentiu fracamente semana passada depois que você saiu ele começou a espalhar histórias disse à congregação que você tinha problemas Mentais que abandonou o lar em um momento de instabilidade emocional alguns diáconos sugeriram procurar ajuda psiquiátrica para você outros falavam sobre sobre possessão demoníaca sentiu uma onda de náusea era exatamente o tipo de manipulação que Josias dominava destruir reputações reescrever narrativas transformar vítimas em vilões foi quando percebi que ele jamais cumpriria sua promessa" prosseguiu Helena cada palavra parecendo consumir Suas últimas
energias se ele podia fazer isso com a mulher com quem foi casado por anos o que faria comigo quando se cansasse tentei terminar tudo ele ficou furioso diz que eu seria expulsa da igreja por sedução que ninguém acreditaria em mim sua mão frágil buscou a minha não vi saída não conseguia imaginar minha vida sem ele sem a igreja sem tudo que construí nesses anos mas também não podia continuar vivendo na mentira uma lágrima escorreu por sua Face pálida precisava que alguém soubesse alguém que entendesse "estou aqui Helena estou ouvindo." Assegurei segurando sua mão entre as
minhas "como você conseguiu Maria José como encontrou a força para sair?" A pergunta me pegou desprevenida como explicar aquela jovem devastada o longo processo de despertar os anos de dor acumulada o apoio de pessoas como dona Cida um passo de cada vez respondi finalmente primeiro aceitando que merecia algo melhor depois Buscando ajuda mesmo quando parecia impossível helena fechou os olhos como se absorvesse minhas palavras ele é muito poderoso sussurrou na igreja na comunidade ninguém jamais acreditará em nós não precisamos que todos acreditem respondi uma ideia começando a se formar em minha mente só precisamos saber
a verdade e agir a partir dela ficamos em silêncio por alguns instantes a enfermeira entrou indicando que meu tempo havia acabado antes de me retirar Helena apertou minha mão uma última vez obrigada por vir pensei que me odiaria não odeio você Helena somos ambas vítimas do mesmo homem ao deixar o quarto uma certeza se cristalizou em meu coração não poderia simplesmente seguir em frente com minha vida sabendo que Josias continuava destruindo outras mulheres usando a fé como arma a igreja como escudo não era apenas sobre mim agora era sobre Helena sobre todas as outras que
viriam depois Dela se nada fosse feito corredor encontrei Josias aguardando ansioso pela primeira vez olhei para ele sem medo sem a reverência que ele havia exigido por tantos anos vi apenas um homem comum fraco dependente do poder que exercia sobre os outros para se sentir completo "o que ela te disse?" perguntou tentando assumir aquele tom pastoral autoritário que conheci tão bem "a verdade Josias?" Ela me disse a verdade a cor fugiu de seu rosto pude ver o pânico em seus Olhos o medo de que seu cuidadosamente construído império de mentiras começasse a desmoronar maria José
você precisa entender as tentações que um homem na minha posição enfrenta a pressão do ministério ergui a mão interrompendo-o um gesto que jamais teria ousado fazer durante nosso casamento não estou interessada nas suas justificativas estou aqui pela Helena não por você seus olhos se estreitaram aquela familiar transformação ocorrendo Da contrição fingida para a raiva mal contida o que pretende fazer destruir a obra de Deus por vingança a obra de Deus senti uma risada amarga escapar de meus lábios é isso que você chama sua hipocrisia seu abuso sua manipulação obra de Deus ele baixou a voz
olhando ao redor para certificar-se de que ninguém ouvia tenho centenas de fiéis que dependem de mim e de minha liderança espiritual pensa que Deus permitiria que eu Construísse tudo isso se não fosse sua vontade não coloque seus pecados na conta de Deus Josias ele deu livre arbítrio a todos nós inclusive a liberdade para fazer escolhas terríveis e machucar pessoas inocentes vi a fúria crescer em seus olhos aquele olhar que tantas vezes precedera explosões violentas dentro de nossa casa mas estávamos em um hospital em público seu controle sobre mim havia acabado "o que quer em troca
do seu silêncio?" Perguntou finalmente a voz um cibilo tenso naquele momento compreendi o verdadeiro medo de Josias não era de Deus nem da justiça divina era do escândalo da perda de status do desmoronamento da imagem que havia construído tão cuidadosamente quero que me deixe em paz Josias completamente sem mais visita e surpresa sem enviar membros da igreja para me resgatar sem espalhar mentiras sobre minha saúde mental e quero o Divórcio sem contestações sem atrasos ele me encarou em silêncio calculando suas opções e Helena Helena precisa de ajuda não de suas manipulações se ela decidir deixar
a igreja você não interferirá se decidir ficar você a tratará com respeito não como sua propriedade um longo momento de tensão se estabeleceu entre nós pude ver a luta interna em seus olhos o orgulho ferido contra o instinto de autopreservação e se eu me recusar então Irei até o presbitério regional com tudo que sei e à polícia se necessário o aborto que você facilitou é crime Josias sem falar no adultério que você tanto condena do púlpito foi como se algo quebrasse dentro dele alguma última ilusão de controle sobre a situação seus ombros caíram levemente "você
não é mais a mulher que casou comigo" disse ele quase com espanto "graças a Deus por isso" respondi sentindo uma tranquilidade que não experimentava há Anos saí do hospital naquela tarde com uma estranha sensação de leveza não era exatamente felicidade as circunstâncias eram trágicas demais para isso mas um profundo alívio como quem finalmente depõe um fardo que carregou por tempo demais lucinha me observava com preocupação enquanto eu narrava o encontro com Helena e a confrontação com Josias você realmente acha que ele vai cumprir o acordo que vai te deixar em paz assim sem mais nem
menos não sei Admiti honestamente mas pela primeira vez sinto que tenho algum poder na situação ele tem muito a perder se eu decidir falar os dias seguintes foram de cautelosa espera parte de mim temia que Josias ignorasse nosso acordo que voltasse com força total em sua campanha para me recuperar ou me destruir mas os dias passaram sem incidentes nenhuma visita surpresa nenhum membro da igreja enviado para me convencer a voltar era como se Eu tivesse subitamente deixado de existir no universo da Assembleia da Féovada uma semana depois recebi uma ligação do hospital helena havia recebido
alta e gostaria de me ver encontramos-nos em uma pequena cafeteria perto da orla ela parecia frágil ainda mas havia uma nova determinação em seus olhos "decidi sair da igreja" anunciou ela após os primeiros momentos de conversa hesitante "não posso continuar lá fingindo que nada aconteceu tem Certeza é toda a sua vida social seus amigos." Ela assentiu firmemente conversei com meus pais eles não sabem de tudo não contei sobre o bebê sua voz falhou momentaneamente mas sabem o suficiente vou morar com eles em Curitiba por um tempo até me reorganizar senti um misto de alívio e
admiração por sua coragem helena estava escolhendo um recomeço limpo longe da influência de Josias e você perguntou Ela o que vai fazer agora uma pergunta aparentemente simples mas carregada de significados o que eu faria com minha vida recém recuperada com minha liberdade duramente conquistada continuar lecionando respondi: "É o que sempre amei fazer e quero estudar mais talvez fazer faculdade pedagogia ou letras." Helena sorriu um sorriso pequeno ainda marcado pelo sofrimento recente mas genuíno é estranho não é planejar uma vida só Nossa sem alguém ditando cada passo estranho e maravilhoso concordei antes de nos despedirmos ela
segurou minhas mãos com força obrigada por não me julgar por entender não há nada para julgar Helena ambas fomos manipuladas por alguém que deveria nos proteger não nos ferir observeia enquanto se afastava uma jovem mulher carregando cicatrizes invisíveis mas caminhando para a luz algo em seu passo determinado me lembrou de mim mesma semanas antes deixando o Apartamento pastoral para sempre duas semanas depois recebi pelo correio os papéis do divórcio josias havia iniciado o processo citando incompatibilidade irreconciliável como motivo não havia menções a transtornos mentais ou abandono de lá apenas o reconhecimento formal de que nosso
casamento havia terminado assinei os documentos com uma mistura de emoções ívio é claro mas também uma pontada de tristeza pela jovem idealista que foi um dia que Sonhou com um casamento abençoado ao lado de um homem de Deus o divórcio foi finalizado em março de 1979 sem contestações sem audiências dramáticas josias não compareceu ao tribunal enviou seu advogado com procuração era como se quisesse manter a maior distância possível de mim e das verdades que eu carregava a notícia do divórcio se espalhou rapidamente alguns membros da igreja especialmente mulheres com quem havia desenvolvido amizades Genuínas me
procuraram discretamente queriam saber minha versão sentiam falta da minha presença questionavam a narrativa oficial que Josias havia construído sobre minha saída não me esforcei para convencê-las de nada apenas compartilhei minha verdade com quem estava disposto a ouvir o mais surpreendente foi a visita do diácono Samuel um dos homens mais respeitados da congregação apareceu em minha sala de aula após o expediente visivelmente Desconfortável irmã Maria José ou prefere apenas Maria José agora apenas Maria José está ótimo respondi curiosa sobre o propósito de sua visita ele pigarreou ajustando o colarinho da camisa vim pedir desculpas quando a
irmã Quando você saiu acreditei no que o pastor Josias disse que estava emocionalmente perturbada que precisava de orações não de apoio para seu afastamento fiquei surpresa com sua franqueza e o que mudou Helena conversou comigo antes de partir não entrou em detalhes mas disse o suficiente e depois bem comecei a observar certas inconsistências no comportamento do pastor certas atitudes que não condizem com o que ele prega não pedi que elaborasse não precisava o véu havia começado a cair para outros além de mim a igreja está passando por um momento difícil" continuou ele "muitos estão confusos
alguns já saíram pensei que talvez se você voltasse explicasse Seu lado balancei a cabeça gentilmente não é meu papel consertar o que está quebrado lá Samuel nem expor Josias publicamente cada pessoa precisa fazer sua própria jornada de descoberta como você está fazendo ele pareceu decepcionado mas a sentiu compreensão entendo só queria que soubesse que nem todos a julgaram alguns de nós estamos começando a enxergar além das aparências aquela visita foi um momento decisivo para mim percebi que não precisava de Uma vindicação pública de uma admissão coletiva dos erros cometidos contra mim a verdade tinha seu
próprio poder seu próprio tempo emergiria gradualmente alcançando aqueles que estivessem prontos para recebê-la naquele mesmo mês utilizando parte do dinheiro deixado por dona Cida matriculei-me no curso de pedagogia da faculdade local aos 39 anos era significativamente mais velha que a maioria dos colegas mas isso não me intimidou cada aula era um passo adiante Em minha reconstrução cada novo conhecimento adquirido era uma peça do quebra-cabeça da minha identidade sendo recolocada no lugar foi também nesse período que comecei a reexaminar minha relação com a fé não queria abandonar minha crença em Deus ela havia sido meu sustento
nos momentos mais sombrios mas precisava encontrar uma maneira de separar a fé genuína das distorções que havia experimentado de reconectar-me com um Deus de amor não de medo e controle Visitei diferentes igrejas de várias denominações algumas vezes saí no meio do culto sufocada por lembranças dolorosas disparadas por certas frases ou posturas outras vezes permanecia até o fim absorvendo o que ressoava positivamente em mim e descartando o que não servia mais eventualmente encontrei uma pequena comunidade ecumênica que se reunia aos domingos em um centro comunitário não havia hierarquia rígida nem dogmas inflexíveis apenas pessoas Buscando sinceramente
viver os princípios de amor e compaixão ensinados por Jesus ali gradualmente redescobri o que significava ter fé sem medo acreditar sem subjugar minha própria razão pertencer sem perder minha individualidade ao final de 1979 cerca de um ano e meio após minha saída do casamento com Josias recebi uma carta inesperada de Helena escrevia de Curitiba onde estava terminando o curso de contabilidade havia encontrado um Novo propósito novos amigos uma nova comunidade de fé menor e mais acolhedora "às vezes ainda acordo no meio da noite lembrando do que vivi" escreveu ela "mas esses momentos estão ficando menos
frequentes estou aprendendo que nossa história não termina nos nossos piores capítulos" aquelas palavras ecoaram profundamente em mim nossa história não termina nos nossos piores capítulos de fato às vezes é justamente nesses momentos mais obscuros que encontramos a Força para escrever as páginas mais significativas de nossas vidas é difícil acreditar que mais de quatro décadas se passaram desde aqueles eventos que redefiniram o curso da minha existência sentada agora nesta poltrona confortável contemplando os p do mar através da janela do meu apartamento em São Vicente percebo que a vida se desdobrou de maneiras que jamais poderia imaginar
naqueles dias sombrios de 1978 após concluir minha graduação em Pedagogia dediquei-me integralmente à educação lecionei em escolas públicas e particulares desenvolvendo uma especial afinidade com crianças que enfrentavam dificuldades de aprendizado havia algo profundamente gratificante em ajudar aqueles que outros haviam rotulado como problemas a descobrirem seu próprio valor e potencial aos 45 anos quando muitas mulheres já consideravam encerrado o seu capítulo romântico conhecia Augusto era viúvo proprietário De uma pequena loja de materiais de construção pai de dois filhos adultos não tinha formação teológica não citava versículos de memória não liderava congregações impressionadas e isso era exatamente
o que tornava seu caráter genuíno tão refrescante nosso relacionamento cresceu lentamente construído sobre conversas honestas respeito mútuo e uma compreensão compartilhada de que ambos carregávamos cicatrizes do passado quando me pediu em Casamento um ano depois fui tomada por um medo irracional e se tudo acontecer novamente perguntei a Lucinha que continuava sendo minha conselheira mais próxima zezé respondeu minha irmã com sua sabedoria simples e direta augusto não é Josias assim como você não é mais aquela jovem professora insegura de 1972 todos os relacionamentos têm riscos mas você agora tem algo que não tinha antes discernimento casei-me
com Augusto em uma cerimônia simples com poucos Convidados não houve sermões grande eloquentes sobre submissão feminina nem promessas de prosperidade ministerial apenas dois adultos maduros comprometendo-se a caminhar juntos apoiando-se mutuamente respeitando a individualidade um do outro para minha surpresa aos 47 anos descobri que estava grávida algo que médicos haviam me dito ser improvável considerando minha idade e algumas complicações de saúde miriam nasceu saudável em 1987 uma menina de olhos curiosos que desde cedo demonstrou a determinação que me salvara anos antes enquanto construía essa nova vida ocasionalmente recebia notícias da Assembleia da Fé Renovada e de
Josias o crescimento meteórico da igreja continuou por alguns anos após minha saída com novas filiais sendo abertas em cidades vizinhas josias casou-se novamente em 1980 com uma jovem de 25 anos uma união que foi apresentada à Congregação como divinamente orquestrada porém em meados dos anos 80 começaram os rumores de irregularidades financeiras desvios de dízimos uso indevido de doações destinadas a obras sociais extravagâncias pessoais pagas com recursos da igreja em 1988 uma reportagem investigativa de um jornal local expôs essas práticas levando a um escândalo que dividiu a congregação não sentia alegria com sua queda apenas uma
tristeza resignada pelo Sofrimento de tantos fiéis sinceros que haviam confiado nele josias nunca foi formalmente acusado lealdade de alguns líderes e o medo que outros tinham de se posicionar contra ele garantiram que as consequências legais fossem evitadas mas perdeu grande parte de sua influência limitando-se a pastorear uma congregação muito menor nos anos seguintes helena e eu mantivemos contato esporádico ao longo dos anos ela se casou com um professor universitário teve dois filhos Construiu uma carreira sólida como contadora em uma de suas cartas escreveu: "Às vezes me pergunto como seria minha vida se não tivesse tomado
coragem naquele hospital provavelmente estaria vivendo na sombra de alguém sem jamais descobrir minha própria luz quanto a mim descobri que a libertação é um processo contínuo mesmo anos depois de deixar Josias ainda me pegava ocasionalmente reproduzindo padrões de submissão desnecessária pedindo Permissão quando não precisava temendo expressar opiniões divergentes augusto com sua paciência característica muitas vezes precisava me lembrar maria José você não precisa da minha aprovação para ser quem você é a fé permaneceu parte importante da minha vida mas transformada não mais uma ferramenta de controle e medo mas uma fonte de força e esperança aprendi
a questionar interpretações bíblicas que diminuíam as mulheres a Reconhecer a diferença entre reverência genuína e submissão imposta por estruturas de poder encontrei uma espiritualidade que celebrava minha humanidade completa em vez de exigir seu sacrifício no altar de papéis de gênero rígidamente definidos miriam cresceu observando esse exemplo uma mãe que valorizava tanto a fé quanto o pensamento crítico tanto a tradição quanto a evolução pessoal quando decidiu estudar medicina contra a opinião de Alguns familiares que consideravam a profissão muito exigente para uma mulher apoiei-a incondicionalmente "nunca deixe ninguém convencê-la de que seus sonhos são grandes demais" dizia-lhe
frequentemente hoje aos 85 anos olho para trás com uma clareza que só o tempo proporciona vejo a jovem Maria José de 32 anos tão ansiosa por aceitação e propósito que confundiu controle com amor dominação com liderança espiritual Não a julgo entendo que ela fez o melhor que podia com as ferramentas emocionais e espirituais que possuía naquele momento vejo também a mulher de 38 anos que encontrou coragem para recomeçar que escolheu a incerteza da liberdade em vez da segurança da prisão conhecida sinto orgulho dela da força que nem sabia que tinha da determinação que descobriu no
processo e vejo a professora a esposa a mãe a avó que me tornei nos anos seguintes imperfeita ainda aprendendo Mas fundamentalmente livre para ser autenticamente eu mesma augusto faleceu há 7 anos após uma breve batalha contra o câncer sua partida deixou um vazio imenso mas também uma profunda gratidão pelos 35 anos que compartilhamos anos de parceria genuína de amor construído sobre respeito mútuo de crescimento lado a lado em vez de um sobre o outro minhas netas Clara e Beatriz filhas de Miriam são agora jovens mulheres construindo suas próprias vidas clara a mais velha Recentemente me
perguntou durante um almoço de família: "Vó você se arrepende do seu primeiro casamento de todos aqueles anos difíceis?" A pergunta me pegou desprevenida mas respondi com a honestidade que aprendi a valorizar arrepender-me seria negar a mulher em que me transformei através daquela experiência o sofrimento por si só não tem valor mas o que aprendemos através dele pode ser inestimável cada cicatriz conta uma história de Ferimento sim mas também de cura em minhas caminhadas matinais pela praia de São Vicente frequentemente paro para observar o mar sua constância e mutabilidade simultâneas sempre me fascinaram as mesmas águas
que podem destruir embarcações nos dias de tempestade também trazem serenidade nos dias de calmaria como a vida penso como a fé como o amor acredito que histórias como a minha precisam ser contadas não para Semear desconfiança contra líderes religiosos muitos dos quais são pessoas sinceras e dedicadas mas para lembrar que a espiritualidade autêntica sempre liberta nunca encarcera o verdadeiro Deus aquele que descobria após anos de distorções não exige anulação da personalidade não reforça estruturas opressivas não silencia vozes às vezes quando participo dos encontros de apoio a mulheres que deixaram relacionamentos abusivos um trabalho voluntário que
Iniciei após minha aposentadoria do magistério vejo nos olhos delas o mesmo medo que um dia dominou os meus o medo de que talvez estejam sendo rebeldes de que talvez estejam abandonando sua cruz de que talvez Deus as desaprove por escolherem a autopreservação a vontade de Deus para sua vida inclui você viva saudável e inteira digo-lhe sempre qualquer interpretação religiosa que justifique sua destruição sistemática não vem do Criador que nos fez a sua imagem e semelhança algumas dessas mulheres vem de contextos religiosos outras não algumas mantém sua fé outras a abandonam respeito cada caminho individual o
que todas compartilham porém é a necessidade de reconciliar-se com seu valor intrínseco após anos sendo convencidas de que não o possuíam minha neta Beatriz que está cursando psicologia recentemente me perguntou: "Vó como você conseguiu reconstruir sua autoestima Depois de tudo que viveu?" Foi uma pergunta profunda que me fez refletir longamente antes de responder não foi um momento único um grande despertar expliquei finalmente foi uma série de pequenas escolhas diárias cada vez que me permiti ter uma opinião sem pedir aprovação primeiro cada vez que reconheci um talento ou habilidade sem diminuí-lo imediatamente cada vez que me
olhei no espelho e vi uma pessoa completa não apenas uma extensão de Alguém ou algo pausei buscando as palavras certas houve recaídas é claro dias em que a voz de Josias parecia mais forte na minha mente que minha própria voz mas gradualmente aprendi a identificar aquela voz como um eco do passado não como uma verdade do presente ao longo dos anos recebi cartas e posteriormente e-mails de mulheres que passaram por experiências semelhantes esposas de pastores missionárias líderes de Ministérios femininos que lentamente perderam sua identidade nas engrenagens de sistemas religiosos patriarcais algumas ainda lutando para sair
outras já no processo de reconstrução "como você soube que era a hora certa?" perguntam muitas delas como teve certeza que não era apenas sua carne rebelde como dizem mas realmente a coisa certa a fazer a resposta que ofereço é sempre a mesma quando a voz que te chama para a liberdade é mais clara e mais constante Que a voz que te mantém no cativeiro é hora de ouvir deus não compete com nosso bem-estar ele o promove o cheiro de maresia ainda penetra minha janela todas as manhãs mas agora traz consigo memórias de superação não de
opressão às vezes quando o sol nasce sobre o oceano colorindo o horizonte com tons de laranja e rosa sinto uma gratidão tão profunda que mal consigo contê-la gratidão por estar viva por ter sobrevivido por ter permitido que minha História continuasse além daquele capítulo sombrio hoje compreendo que o verdadeiro testemunho cristão se é que posso usar essa expressão não está em suportar calada o sofrimento evitável mas em ter a coragem de buscar uma vida abundante a vida que Cristo mesmo disse ter vindo trazer não uma abundância de posses materiais ou status social mas uma riqueza de
autenticidade propósito e conexões genuínas se há uma lição que gostaria de compartilhar com qualquer Pessoa presa em uma estrutura religiosa opressiva seria esta: Deus é infinitamente maior que as caixas doutrinárias em que tentamos contê-lo a verdadeira espiritualidade sempre expande nossa humanidade nunca a contrai sempre nos eleva nunca nos diminui sempre constrói nunca destrói em minha mesa de cabeceira mantenho um pequeno caderno onde anoto pensamentos e reflexões antes de dormir um hábito que cultivei por décadas recentemente Escrevi estas palavras que talvez resumam o que aprendi em meus 85 anos de jornada o inferno não está nas
chamas eternas que os pregadores anunciam está nas pequenas mortes diárias que aceitamos em nome de um deus que fizeram refém de interpretações convenientes o paraíso não está em alguma existência etérea após a morte começa aqui quando nos permitimos ser plenamente humanos plenamente vivos plenamente livres para amar e ser amado sem medo esta é minha História uma história de queda e ascensão de prisão e libertação de silenciamento e de reencontro com a própria voz uma história que espero possa iluminar o caminho de outros que ainda caminham na escuridão que um dia foi minha companheira constante ao
mar que testemunhou minhas lágrimas e agora reflete meu sorriso ao Deus que encontrei além das distorções religiosas a força interior que não sabia possuir minha eterna gratidão a jornada continua E cada dia é uma nova oportunidade de escolher a liberdade a autenticidade e o amor que não aprisiona mas liberta o inferno que conhecia ao lado de um pastor não foi meu destino final foi apenas um capítulo doloroso que me ensinou a valorizar o paraíso das pequenas alegrias cotidianas da paz interior e do direito sagrado de ser simplesmente eu mesma m