Afinal, qual é o papel de um psicolólogo? Hoje a gente vai fundo nessa questão, mas olhando pelas lentes de um pensador que mudou o jogo, Igncio Martim Barô e a obra dele, que é fundamental. Bom, vamos começar com a pergunta de 1 milhão de dólares, né?
Para que serve um psicólogo? Parece uma pergunta simples, mas a resposta, como a gente vai ver, tá longe de ser uma só para todo mundo. O Martim Barol já começava dizendo que não dá para simplesmente importar uma definição pronta de outro lugar e achar que vai servir.
E aqui tá o coração da ideia dele. A profissão não é algo que existe num vácuo, sabe? O propósito dela tem que ser moldado pelo contexto, pelas necessidades reais, pela história das pessoas que ela atende.
Então, a questão não é o que a psicologia é na teoria, mas sim o que ela precisa ser na prática, num lugar e num tempo específicos. OK? Então, quais eram essas circunstâncias concretas pro Martin Baró?
Bem, ele tava escrevendo na América Central ali nos anos 80, uma época de, nossa, de muita, mas muita turbulência e sofrimento. A realidade ali era brutal. Pensa só, primeiro, uma injustiça na estrutura da sociedade, daquelas bem profundas, em que a miséria de quase todo mundo sustentava o luxo de uma minoriazinha.
Segundo, um estado de guerra quase permanente, com conflitos civis sangrentos, uma militarização absurda que sugava todos os recursos. E terceiro, a perda de autonomia, sabe? As decisões importantes eram tomadas em Washington e não nas capitais dos próprios países.
E pra gente ter uma ideia do que isso significa, só em El Salvador, a guerra civil deixou um rastro de mais de 60. 000 vítimas. Isso não é um debate teórico num livro de história, era a vida real, o dia a dia, um contexto de trauma, de opressão constante.
É nesse cenário que a pergunta para que serve um psicólogo ganha um peso gigantesco. E é exatamente aqui que o Martim Barô faz a crítica mais forte dele. Ele vai argumentar que nesse contexto todo a psicologia que se praticava ah, ela não era nem um pouco neutra, pelo contrário, ela estava cumprindo um papel ideológico bem específico.
O problema, segundo ele, era que a psicologia funcionava como uma espécie de ideologia de reconversão. Ou seja, ela pegava problemas que eram, na raiz sociais, tipo a pobreza, a violência da guerra e tratava como se fossem problemas individuais. O objetivo final era fazer a pessoa se adaptar a um sistema injusto e não transformar esse sistema.
Essa comparação aqui é é perfeita para entender o conflito. De um lado, a psicologia tradicional focava no indivíduo e via a sociedade como um pano de fundo, algo fixo que não se mexe e a pessoa que tinha que se ajustar. A crítica do Martim Barô vira isso de ponta cabeça.
Ele diz: "Não, o foco tem que ser no coletivo. A sociedade não é um cenário, é um sistema de fatores que a gente precisa entender e transformar. Aí o objetivo muda completamente, deixa de ser adaptação para ser transformação.
É uma virada de chave, né? Certo? Se o objetivo não é mais adaptar, qual é o novo caminho, o novo horizonte?
Para isso, o Martim Baró vai buscar um conceito poderosíssimo que ele pega emprestado do nosso educador Paulo Freire. E esse conceito é a conscientização. Olha, para Paulo Freire e também pro Martim Barô, isso não é só uma mudança de opinião, é um processo profundo.
É aprender a ler o mundo, é decodificar as estruturas que geram opressão e a partir daí se tornar um agente ativo na escrita da própria história, tanto a pessoal quanto a coletiva. E como é que isso funciona na prática? Primeiro, é um processo de mão dupla.
Ao agir para mudar a realidade, a pessoa se transforma também. Segundo, envolve decodificar o mundo, entender como a opressão funciona de verdade para quebrar aquela ideia de que as coisas são assim porque são. E terceiro, um ponto crucial, recuperar a memória histórica, entender de onde um povo veio para poder decidir para onde ele quer ir, tá?
Mas e aí, como é que isso vira prática no dia a dia do consultório, da escola, da comunidade? Isso não é só teoria, não. O Martim Barô mostrou como essa mudança de olhar transforma completamente o trabalho do profissional.
Vamos pegar dois exemplos bem claros que ele dá. Pensa na terapia com vítimas de guerra. O jeito tradicional seria ajudar a pessoa a lidar com trauma, a se adaptar.
Já numa abordagem conscientizadora, o trabalho seria ajudar a pessoa a entender as raízes coletivas daquela guerra, a conectar o sofrimento individual dela como história maior compartilhada. ou na orientação escolar. Em vez de só preparar os alunos pros empregos que já existem, o objetivo passa a ser o de estimular o pensamento crítico para que eles possam questionar e, quem sabe, transformar essa sociedade.
No fim das contas, o ponto central é esse aqui. O grande objetivo se torna desalienação. É ajudar as pessoas, os grupos, a superarem uma visão alienada de si mesmos e do mundo e a desenvolverem um conhecimento crítico da sua própria realidade.
E é aqui que a análise do Martim Baró vai além da psicologia e vira uma questão universal que serve para qualquer profissão. Na verdade, no final, ele coloca uma escolha na mesa, uma escolha fundamental. Todo profissional, de qualquer área, acaba se deparando com essa alternativa.
O meu trabalho serve para me acomodar ao sistema do jeito que ele está ou serve para uma confrontação crítica com esse sistema. Essa para ele era a opção mais radical de todas. Isso tudo deixa a gente com uma pergunta final que ecoa forte até hoje.
Por que não se trata só das tarefas que a gente faz, das técnicas que a gente usa? A questão mais profunda que a obra do Martim Barô nos obriga a encarar é no fim do dia, a quem e ao que o nosso trabalho realmente serve? A resposta para essa pergunta é o que define o verdadeiro papel de qualquer profissão.