No Resposta Católica de hoje, gostaríamos de responder à pergunta de como é que eu posso cooperar com Deus para desenvolver as virtudes teologais. A pergunta é bastante específica: se as virtudes da fé, da esperança e da caridade, ou seja, as virtudes teologais que são dons de Deus para nós, são infusas em nós, são derramadas pela graça no nosso coração, se são realmente algo que vem de Deus, o que é que o ser humano pode fazer para receber essas três virtudes? Ou seja, em que sentido nós podemos cooperar com Deus que quer operar em nós?
Bom, nós poderíamos aqui fazer uma pequena comparação, uma metáfora, para que você entendesse qual é o relacionamento entre a ação de Deus e a ação do homem. A primeira coisa que nós devemos evitar é o perigo do pelagianismo. O pelagianismo é uma heresia que diz que o ser humano não precisa do auxílio da graça.
E o semi-pelagianismo diz que, embora eu precise da graça de Deus, a iniciativa é do homem. Então, nós já sabemos desde o início: a iniciativa é de Deus. Ao mesmo tempo em que eu sei que a iniciativa é de Deus e que eu preciso da graça de Deus para desenvolver essas virtudes, eu não posso dizer que o ser humano é totalmente passivo, por quê?
Porque senão nós estaríamos caindo numa outra heresia, que é o jansenismo, que diz que o ser humano é eleito por Deus, que Deus tem os seus escolhidos e boa noite, acabou, não adianta você querer se esforçar, Deus já sabe quem é que vai ser salvo e outras pessoas, a maior parte das pessoas, aliás, Deus criou para ir para o inferno, ou seja, uma massa danada, uma massa de gente condenada ao inferno. Entre esses dois extremos, um otimismo maluco que diz "ah, eu ser humano, posso chegar à santidade perfeita sem o auxílio de Deus" e o outro um pessimismo assim deprimente onde eu não sou nada e realmente não posso fazer nada, eu sou como que um marionete na mão de Deus. Como é que nós podemos entender catolicamente essa realidade das virtudes teologais?
A metáfora então é a seguinte: você imagine uma mãe que quer ensinar seu filho a caminhar. Nós poderíamos então colocar basicamente 4 passos neste, nesta pedagogia da mãe. A mãe é Deus e a criança que vai caminhar é o ser humano.
A mãe é Deus que age com a sua graça em socorro da alma e a criança é a alma que quer aprender a caminhar, ou seja, quer aprender a crer, a esperar e sobretudo, a amar, que é a missão mais difícil. Ter realmente a virtude do amor, da caridade perfeita. Pois bem, como é que as duas realidades interagem?
Imaginemos uma mãe, primeiro passo, que atrai o seu filho para aquele caminho. A mãe se apresenta ali na frente da criança, com um pequeno chocalho colorido ou com uma balinha, alguma coisa que atraia a criança, com um sorriso no rosto ela vem e incita o coração da criança para que o coração da criança reaja. Aqui se cumpre aquele versículo da Sagrada Escritura: "Quando Eu for levado, atrairei todos a mim.
" É o amor de Deus que nos atrai. Quando nós olhamos para a cruz de Cristo, quando nós olhamos para a forma como Ele me amou, isso realmente faz com que o nosso coração se aqueça, quando nós olhamos para as virtudes dos santos e vemos o quanto eles se configuraram a Cristo, o quanto eles deram a vida deles por Jesus, nós vemos aquela beleza que irradia da vida dos santos, aquilo aquece o nosso coração. Deus nos atrai.
O profeta Ozeias diz assim: "Quando Israel era menino, eu o ensinei a caminhar, eu o atrai com vínculos humanos", o primeiro passo, então, é de Deus. Nós não podemos ser semi-pelagianos. A primeira iniciativa é de Nosso Senhor, Ele vem ao nosso encontro.
Ele nos atrai, é Ele quem nos ama. São Bernardo diz com toda clareza que todos os seres humanos são obrigados a amar a Deus sobre todas as coisas. No entanto, para os cristãos é mais fácil, por quê?
Porque nós sabemos que Deus nos amou. Então, o nosso amar a Deus sobre todas as coisas não é uma iniciativa nossa, é um "redamare", um amar de volta. Ele me amou, como é que eu não vou amar de volta quem me amou assim?
É como diz Santo Agostinho: “quam modo tale amore no redamare” como é que eu não vou amar de volta um amor assim? O amor de Deus nos impele, São Paulo nos diz: “Caritas Christ urget nos” o amor de Deus nos fascina, e é por isso que quando nós meditamos o mistério da paixão de Nosso Senhor, quando nós vemos a vida de Cristo acontecendo na vida de seus Santos isso aquece o nosso coração é o contato com a palavra de Deus encarnada, com a palavra de Deus que se fez carne. Como dizem os apóstolos que caminhavam em Emaús: “Não ardia o nosso coração enquanto ele nos explicava as escrituras.
” Esse ardor, essa atração de Deus que nos leva a Ele, esse é o primeiro passo, é a mãe que incita a criança a caminhar. Mas, uma ação de Deus tem que haver uma reação humana e a reação da criança é ver que quando a mãe diz: “vem meu filho, vem” a criança ergue os seus pequenos braços indo pra mãe, confiando. Quem já não viu essa cena?
Quem já não viu a cena de uma criança está no braço de uma outra pessoa, de repente ela enxerga a mãe, ela já vai, já se joga, já ergue os seus braços e pede para ir, é a prece, é a oração, é o pedido, é a suplica, nós precisamos, atraídos pela graça de Deus, suplicar a graça, Senhor eu quero caminhar, quero ter a força, eu quero ter a graça, se nós não pedimos a intervenção divina, a coisa fica muito difícil, é necessário que nós tenhamos essa consciência: Eu preciso pedir, creio Senhor, mas aumenta minha fé. Se minha fé é pequeniníssima como um grão de mostarda, ou menor ainda que um grão de mostarda, porque o Nosso Senhor disse que se nossa fé fosse pequena como um grão de mostarda iríamos remover montanhas, ao ver que nós não conseguimos nem remover pedras quanto menos montanhas, vemos que a nossa fé é minúscula. Eu creio Senhor, nós já cremos, sim, porque querer crer já é crer de alguma forma, quando eu quero crer eu já estou crendo, a ação da graça já operou em mim, mas querer crer é alargar o nosso coração, é pedir, é fazer uma prece, uma súplica ao Nosso Senhor, que ele venha em nosso socorro.
Peça, quando você ver o seu coração incrédulo, diga: “Senhor eu quero crer. ”, quando você ver o seu coração desesperado ou presunçoso: “diga Senhor eu quero esperar. ”, quando você ver o seu coração egoísta, avarento, fechado, sem castidade, usando os outros, se aproveitando diga: “Senhor eu quero amar, eu quero.
” Esse ato de vontade que já foi suscitado pela graça de Deus que me atraiu, pela graça de Deus que me fascina , pela graça de Deus que me toca, o primeiro passo é sempre de Deus mas o segundo passo precisa ser seu, você precisa reagir, você precisa pedir o aumento dessa graça, então a mãe atrai a criança mas a criança precisa erguer os seus bracinhos e pedir a intervenção da graça de Nosso Senhor, mas não para por aí, quando eu peço a graça, a mãe bondosa ouve o meu pedido, sim, Deus vem ao meu encontro e então, Ele ergue a criança. “Quando Israel era menino eu ensinei a caminhar” a mãe que sustenta a criança pelas suas mãozinhas, quem faz toda a força é a mãe, quem dá todo equilíbrio a criança é a mãe, quem sustenta o peso da criança é a mãe, é a ação da graça é a virtude, nós precisamos crer que existe uma intervenção Divina, nós precisamos acreditar nisso, nós não somos pelagianos que acham que Jesus deu somente um exemplo, imagine se Jesus só tivesse dado o exemplo, nós seríamos esmagados pela exigência de seguir esse exemplo, porque se ele amou assim nós olhamos para a nossa debilidade, a nossa fraqueza, a nossa miséria e vemos que nós damos conta de amar assim, nós não conseguimos amar assim, então é que precisamos de uma força que vem do alto, é a ação de Deus, Ele me sustenta, Ele carrega o peso, Jesus é o nosso Sirineu, aquele que carrega o peso de nossa cruz porque não damos conta de carregar o peso, de tal forma que quando eu sofro na cruz, não sou eu quem sofro, é Cristo que sofre em mim, é aí que nós podemos dizer como São Paulo: “Vivo, mas não eu. Cristo vive em mim.
” É aí que eu posso realmente dizer como São Paulo, com Nosso Senhor Jesus Cristo “cocrucifixi cum Christo” eu estou Co-crucificado, São Paulo chega a criar uma palavra que não existe, “eu sou crucificado junto com ele”. Então, nesta ação Divina, que me sustenta que me soergue, que faz com que a criança ande, existe o quarto passo, que é a reação da criança, a criança precisa mexer as pernas, sim, a mãe levanta a criança pelas mãozinhas, mas se a criança não mexer as pernas ela num vai a lugar nenhum, a mãe não vai arrastar a criança, ela precisa dar os seus passos, passos frágeis, trôpegos, com aquela perna cambaleante, trançando as pernas, mas a criança precisa se esforçar, eu preciso reagir a graça de Deus, então vejam, são quatro passos, muito simples de se aprender, mas um desafio pra vida, Deus me atrai, número um, número dois: eu peço a graça; atraído por aquela beleza eu digo: “eu quero isso para mim, eu quero esse amor para mim, eu quero viver essa vida divina, essa vida extraordinário” A suplica, o pedido, a prece, batei e abrir-se-vos-á, se você não pede você não recebe, se você não procura você não encontra, então a graça responde, Deus vem ao nosso encontro, Deus se fez carne, e assim como ele se fez carne no ventre de Maria ele pode se fazer carne no seu coração, todo Cristão deve imitar Maria, colocando-se a disposição para que o Verbo se faça carne, e então você vai ser como, diz Santa Elizabete da Trindade, uma humanidade supletiva, uma humanidade a mais colocada em Cristo, como membro do corpo de Cristo ele vai agir em você, ele vai agir com a sua graça, é o número três, é a ação da graça de Deus, mas, número quatro, você precisa corresponder a essa graça fazendo também o seu esforço, é assim que as virtudes da fé, da esperança e da caridade, são virtudes infusas, são virtudes teologais, são virtudes dadas por Deus, mas tem que haver uma cooperação do homem, é muito diferente isso que eu estou dizendo, esses quatro passos, da atração divina, prece do homem, intervenção da graça e correspondência do homem. Esses quatro passos são muito diferentes do que você pensar que você é um marionete nas mãos de Deus, um marionete não faz esforço algum, o marionete não corresponde, marionete é pura passividade, nas mãos do artista quem está realmente agindo não é o marionete, mas nós não somos marionetes de Deus, nós podemos e devemos corresponder.
Deus que pode criar tudo, tem algo que Ele não pode criar, Ele não pode criar o amor em você, sim, Ele espera de você o amor porque o amor tem que ser livre, se eu pegar uma faca encostar no seu pescoço e disser: “ama-me! ” naquele momento o amor torna-se impossível, porque o amor ou é livre ou então ele não é amor, então Deus pode te dar a graça, Deus pode te soerguer, pode te dar todos os bens e intervenções divinas necessárias para que você ame, mas se você não mexer as pernas e amar, caminhar, dar os seus passos, por trôpegos que sejam, você jamais irá conseguir amar a Deus, exige algo da sua liberdade, então vamos entrar nessa dinâmica do amor, fé, esperança e caridade essas três grandes virtudes teologais, sem as quais não é possível agradar a Deus, fé, esperança e caridade. Que Ele venha ao nosso encontro, nos atraia com seus vínculos de amor e assim poderemos corresponder ao amor eterno com o qual fomos amados.
“quam modo tale amore no redamare” Como é que eu não amarei de volta um amor grande assim?