Meus pais eram extremamente religiosos. Lembro que com apenas 16 anos eu percebi que eles tinham um certo fanatismo. Por muitas vezes as contas de casas atrasavam.
Eles deixavam de comprar algo que precisávamos para ajudar na igreja. O problema nem era contribuir. Eu também sou religioso, mas não sou bobo.
Tinha um pastor na nossa igreja que era desonesto, inventava propósitos absurdos para conseguir dinheiro, com o único intuito de roubar os fiéis. Meus pais e muitos fiéis daquela igreja eram ignorantes no entendimento da palavra. se privavam de conforto para dar conforto ao pastor.
Enquanto meu pai tinha um gol bola que vivia quebrando, o pastor só andava de Corola novo. Meus pais achavam isso lindo. Diziam que o pastor era uma pessoa abençoada.
Eles não enxergavam que além deles, vários fiéis da nossa igreja eram enganados para bancar esses luxos. Além disso, eu cresci dentro da igreja sendo obrigada a fazer um monte de coisas, pintar, consertar e até a casa do pastor, meu pai me fez pintar um dia. Quando completei 18 anos, arrumei meu primeiro emprego em um mercadão de peças enorme que tem aqui na minha cidade.
Eu fiquei muito feliz. Comecei a fazer planos para minha vida e queria continuar na igreja, mas não na igreja que meus pais me obrigavam a frequentar. Eu queria sair da presença maligna do pastor César e de boa parte das pessoas que frequentavam aquela igreja.
Eles se reuniam apenas para fofocar e falar mal dos outros. Um ambiente pesado e cheio de interesses. Infelizmente o meu salário na época era insuficiente para que eu pudesse viver sozinho e sair da casa dos meus pais.
E por causa disso, eu continuei fazendo a vontade deles, pois sempre que eu reclamava eu ouvia. Davi, você está sob o nosso teto. Se quiser viver a vida que você quer, pegue suas coisas e vai embora.
Eu confesso que por vezes eu pensei em sair, mesmo que fosse para morar na rua, mas eu não tinha coragem. Quando completei um ano no meu trabalho, eu recebi uma promoção, mas não foi nada demais. De ajudante, eu fui promovido para estoquista, uma diferença baixa no salário, mas já era alguma coisa.
Meu gerente adorava meu trabalho, vivia me elogiando. Eu sempre fiz o melhor que eu podia e as pessoas me respeitavam por causa disso. Eu queria evoluir, eu queria estudar, mas eu não tinha condições.
Meu pai até podia me ajudar, mas o negócio dele era só dar dinheiro pra igreja. Não pensava em mim. Até o meu salário entrava nas suas contas.
Se eu não ajudasse, eu era expulso de casa. A situação que já não estava boa em casa acabou piorando. Teve um dia que eu cheguei do trabalho bem cansado e quando eu entrei na sala, lá estava meus pais e o pastor César junto com uma mulher que eu nunca tinha visto.
A conversa com meus pais era exatamente sobre mim e sobre essa moça que estava em casa. Ela se chamava Suelen, tinha 25 anos, mas parecia ter mais, pelo menos uns 30. Nessa época eu não tinha completado nem 20 ainda.
A Suelen, apesar da idade, já tinha dois filhos, um menino de 7 anos e uma menina de três. O mais velho foi resultado de um namoro da adolescência, que, segundo ela, acabou não dando certo e o pai da criança simplesmente sumiu. A mais nova era de um casamento recente.
Suelen tinha acabado de se separar e o ex-marido era membro da igreja. Segundo o pastor, esse ex-membro da igreja tinha se desviado dos caminhos de Deus e a Suelen acabou pedindo divórcio. Ela era a filha de um grande amigo do pastor e ele estava decidido a arrumar alguém para ficar com ela.
E adivinha quem foi escolhido? Meus pais ficaram felizes e estavam empolgados para ajudar o pastor a resolver o problema dessa moça, mesmo que fosse me condenando a uma vida que eu não queria. Quando me falaram que queriam que eu casasse com ela, eu achei até que era brincadeira, mas não era.
Obviamente eu disse que não tinha interesse. Eu falei que eu queria fazer faculdade e que eu nem tinha condições para manter uma família. Meu pai ficou bravo, me cortou no meio da conversa, bateu no peito e disse: "Davi, você vai casar?
Sim, eu e sua mãe trabalhamos e vamos te ajudar. Dá para construir mais dois cômodos colados no seu quarto. A gente fecha a porta por dentro e o imóvel fica separado.
Pronto, agora você e a Suelen já tem uma casa. " Eu insisti dizendo que não ia me casar. A Suelen e o pastor ficaram sem graça e eu saí da sala.
Logo em seguida eles foram embora. Mas antes do pastor sair, meu pai já tinha prometido para ele que eu e a Suelen iríamos nos casar e que ela podia já ia organizando o casamento. Foi só eles saírem que meu pai começou a gritar.
Dizia que ou eu me casava com ela ou ia pra rua. Dessa vez não tinha como ficar em casa. Eu peguei as poucas coisas que eu tinha.
e saí. Meu pai acreditava que eu voltaria, mas eu não voltei. Passei a noite toda na rua andando e pensando no que tinha acontecido.
Quando deu o horário do trabalho, eu fui trabalhar normalmente e o Sérgio, meu gerente, percebeu que eu não estava bem e me chamou para conversar. Eu chorei muito, contei para ele o que aconteceu e acabei desabafando. E aquele homem que mal me conhecia direito foi o mais perto de um pai que eu já tive na minha vida.
Eu falei para ele que eu não tinha dormido e que não tinha para onde ir e ele me ajudou. Nos fundos da casa dele tinha um pequeno quartinho, literalmente pequeno. Cabia uma cama e tinha um banheiro bem simples, mas era tudo que eu precisava.
Ele falou que precisava de uma pintura, mas se eu quisesse podia ficar lá. Eu aceitei na hora. Fiz um acordo com ele, pois eu não queria ficar lá de graça.
Ele me cobrou um aluguel, mas foi praticamente um valor simbólico. Lá eu tinha tudo, água, energia elétrica e internet. E depois de um ano morando nos fundos da casa do Sérgio, eu acabei sendo promovido, dessa vez para líder do meu departamento e meu salário quase triplicou.
Eu comecei a estudar a administração de empresas, aluguei um pequeno apartamento e saí da casa do Sérgio. Agradeci muito, mas agora eu precisava seguir em frente e a minha vida só prosperava. Quando me formei, eu acabei tendo outra promoção.
Dessa vez virei coordenador e Deus mais uma vez abençoou minha vida. Ele sempre esteve presente. Eu frequentava muito a casa do Sérgio.
Era aniversário da esposa dele e ele acabou me convidando. Eu e a filha dele já tínhamos amizade desde a época que eu morava lá. E nesse dia acabamos nos aproximando.
Eu me lembro que nós conversávamos por horas. Ela sempre gostou de mim, mas eu não percebia. E também, por respeito ao pai dela, eu nunca tentei nada, mas dessa vez foi diferente.
Com a permissão do Sérgio, nós começamos a namorar e dois anos depois nós nos casamos. Atualmente tenho dois filhos. Eu ocupo o antigo cargo do Sérgio na empresa, agora sou gerente.
Ele se tornou diretor. Depois desses anos todos, tentei me aproximar dos meus pais. Eu queria mostrar para eles seus netos e a vida mençoada que eu tinha.
Eu nunca guardei mágoas, mas quando fui na casa deles não me receberam, só pediram para que eu fosse embora. Não queriam saber de mim. E eu fiz a vontade deles.
Nunca mais voltei a procurá-los. Deixei eles vivendo na própria ignorância, como eles queriam. Acabei descobrindo que o pastor César já não está entre nós.
Pelo que fiquei sabendo, ele saiu de São Paulo para ir até um evento da igreja no Paraná, na cidade de Curitiba, e sofreu um acidente. Por causa da neblina, ele bateu o carro em alta velocidade, atrás de um guincho desses de plataforma que estava no acostamento. Dizem que a cabeça dele foi parar no porta-malas.
Ele teve um fim terrível e algumas das falcatruas dele acabaram sendo descobertas. Alguns fiéis falavam que Deus foi cobrar o que foi lhe roubado, mas para mim foi apenas o diabo que foi buscá-lo. Para você que chegou até o final desse vídeo, muito obrigado.
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