Olha, antes de mais nada esclarecer o que que é ser um intelectual negro. Eu acho que a diferença entre negro e branco. Digamos que uma identidade negra, pra mim, não existe.
Não existe a identidade negra. Não creio que a cor essencializa uma identidade. Eu acho que a identidade negra dá pelas posições que você toma nessa marcação artificial que o ocidente construiu entre brancos e negros.
Os únicos países que fazem questão de afirmar essa diferença de modo radical: negro e branco. São países onde houve o escravagismo. Onde houve escravatura.
Na China, por exemplo, eu conheço a China. Você não tem essa diferença entre brancos e amarelos. Isso é de fora.
Mas nos países onde houve escravagismo, onde houve escravatura. Há uma diferença marcada entre negro e branco. Com variações.
Nos Estados Unidos é mais radical e aqui não acaba. Então eu acho que o negro é uma construção. Primeiro é uma construção branca para afirmar a diferença fenotípica.
A diferençada cor da pele mas é também uma construção pelo próprio negro. A partir, no caso, do intelectual negro, onde se constrói um lugar de oposição ao domínio pela cor e de oposição também a exclusão que a sociedade hegemônica, A sociedade global vem fazendo negro, ao longo dos séculos. Então, a primeira responsabilidade do intelectual negro é esclarecer a farsa que é o racismo.
O racismo é uma farsa. Mas que todo o racialismo também é um falseamento. Eu não acredito em raça como categoria.
Eu acho que a cor efetivamente têm posições, marcações diferentes. E a diferença fenotípica, a diferença de cor dá ensejo para que se domine o elemento escuro. O elemento de pele escura que é o chamado negro.
Então, a responsabilidade primeira do intelectual negro é isso, é bem esclarecer isso. O que é que ser negro? O que é que ser branco?
O que que tem de verdadeiro ou falso nisso. Depois, no caso do intelectual brasileiro, resgatar o saber dos afrodescendentes. Dos malês na Bahia.
Em pernambuco, em São Luís, no Rio de Janeiro. Que permanece oculto, permanece soterrado diante das escolas, em face das escolas. Então, no momento, eu vejo como tarefa estratégica é essa.
É, digamos, trazer à tona a cultura dele, trazer à tona a cultura dos negros. A primeira resposta vem pela categoria espaço. Porque o ocidente, a Europa fala muito de tempo.
De tempo. O tempo passado, o tempo presente e o tempo futuro. No entanto a categoria espaço é uma categoria central pro terreno.
E porque, primeiro questão da terra. Que foi roubada, foi expropriada, foi escamotiada. Antes, em 1853, já antes portanto da abolição.
As classes dirigentes do Brasil já haviam vetado a possibilidade do negro ter terra. Se ele viesse a ser liberto. Porque ficar na terra era muito caro.
As terras devolutas, terras do estado. Então a questão da terra que não teve. Pois a questão na casa própria e a questão de cavar os espaços intersticiais na sociedade branca.
E e aí, eu uso o termo "branca". A sociedade clara é hegemônica. Ora, entrar na universidade pisar no lugar onde antes não se pisava com facilidade.
É conquista de espaço, que o espaço não é apenas um espaço físico. É o espaço internacional, o espaço interativo. o espaço das relações.
É penetrar onde não se estava antes. Então, quando eu vejo a formação de coletivos. com Aqui no ifsh, dentro da UFRJ que diferente de toda a outra qualquer faculdade Porque, na minha faculdade, agora as pessoas tão falam isso mas são três ou quatro pessoas tiveram a chance.
Então, eu chamo isso de criação de espaços. Criação de lugares e esse lugares interativos, ele se desdobra. Ninguém controla.
A não ser se for a cercos e baionetas. Ninguém controla a multiplicação desdobramento desses espaços. Então, importância que eu vejo é essa.
É um lugar, é criar lugar, né? Gerar espaço. Gerar espaço e criar lugares concretos.
Isso pra mim é extremamente importante. Por que? Porque isso pega o discurso da colonização.
É substituído por um discurso estético da colorização. É preciso colorizar os espaços colonizados. Essa colorização pra mim é importante.
Mas é preciso ser estético? É, é estético. Só que no fundo na radicalidade toda estética, tem uma política.
Porque a estética também criação de lugares, é a criação de espaços. Logo vem, a criação de funções. Entendeu?
A importância pra mim é essa. É cavar espaço. Gerar espaço.
O golpe que houve, realmente houve. Essa substituição da Dilma. E olha qeu eu acho que já devia estar na hora mesmo, talvez dela mesmo, se demitir.
Ela aí porque não foi um bom governo. Realmente não foi um bom governo. Mas ela foi derrubada por um golpe parlamentar.
Só que o que mais mexeu com a consciência das classes dirigentes. E também a consciência reflete nas castas da classe média, até em gente pobre, gente clara. Foi esse lugar de domínio que foi abalado.
Mais do que eu a crise econômica. O país podia estar na miséria. O que realmente mexeu na cabeça de cada um foi o fato de não se achar empregada.
Tão fácil quanto se achava antes. E não se achava mesmo. Eu vi várias vezes esses discursos.
Ah, não podemos mais achar empregado porque é o bolsa família dá para não trabalhar. 130 reais, 150 reais a uma família isso mexeu com as pessoas. Porque alterou o lugar , alterou o lugar.
Quando se altera o lugar. Você pensa, as vezes, o que mais lhe ofende é se alguém viesse e lhe xingasse. Falasse mal de você.
Somente ser desagradável também. Mas pior que tudo isso é o empurrão. É um empurrão.
Você está no espaço e cara te tirar daquele espaço. Empurrando, não ser nem batendo. Porque o espaço é seu onde você está ancorado.
A identidade. O eu sou é também o espaço. Eu estou.
Estou aqui. Eu sou eu que estou aqui. E essa posição do cada macaco no seu galho foi abalada, foi ferida.
E a consciência de quem domina mesmo sendo pobre. Mesmo sendo branco fudido, não tendo dinheiro mas tem a consciência de que domina porque é branco. Isso foi abalado e isso aí foi um ódio.
Propagação de um ódio que tá ocorrendo até hoje na sociedade brasileira É ódio que está aí e ódio, você diria que foi pela crise? Não, foi por pouco. Foi pelo abalo que teve a lógica do cada macaco no seu galho.
Essa lógica foi abalada e foi abalada no governo Lula. Se você me perguntar mas Lula é esse anti racista eu não acredito. Não acredito mas esse é o problema, às vezes, a fala que se dá.
E o que se cria no espaço você não controla mais quando sai da boca. Ela pertence a Exu. Não pertence mais a quem falou.
E foi no governo lula que se deu. Quer dizer, pra ser honesto começou fracamente o final do governo do Fernando Henrique. Mas o governo Lula instituiu.
A Dilma continuou mas também sem muito entusiasmo. Nenhum entusiasmo. Mas agora ninguém segura mais.
Ninguém segura mais. Temer nenhum. Aécio nenhum.
Vai haver uma retração das políticas, mas isso já tava, como eu disse, entra na cabeça das pessoas. Já tá na cabeça de todo mundo. Não dá mais pra voltar atrás.