A noite de 14 de março. . .
[Música] A gente estava num evento organizado pelo mandato: "Jovens negras movendo as estruturas" Era um sobrado, a gente desceu entrou no carro. . .
que eu peguei carona como sempre fazia porque nós éramos vizinhas de bairro. Então era muito comum que eu estivesse com ela na volta pra casa. E a Marielle ia entrar na frente, como ela sempre e, do nada, ela falou vou atrás com você.
E a gente saiu dali. [Música] [Carro dá a partida] A gente estava ali com o foco muito voltado pro pro celular. Bem distraídas com a rua.
E aí estavam chegando todas aquelas mensagens de casa. "Tô voltando. " Ela avisava a Mônica.
Eu avisava o meu marido. Teve um momento em que olhei para fora para saber exatamente onde eu estava E aí, do nada, eu ouvi uma rajada de metralhadora. A vereadora Marielle Franco.
do Psol, foi assassinada a tiros agora, à noite, no centro do Rio de Janeiro. [Canto de mulheres] "Companheira me ajuda que eu não posso andar só" "Eu, sozinha, ando bem, mas com você ando melhor" "Marielle, presente" "Hoje" "E sempre" "Quem matou Marielle? " "Eu quero dizer que foi uma covardia" "que a gente precisa que isso acabe" "A investigação sobre o caso Marielle está chegando à sua etapa final e eu acredito que em breve nós vamos ter resultados" "O que deixa mais triste mesmo é esse silêncio que estamos vivendo" "São quase quatro meses.
É muito tempo. " [Gritos] [Quem mexeu com a Marielle, atiçou o formigueiro] "Oito meses depois do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, a Polícia Federal entrou no caso. " "O secretário de segurança do Rio, Richard Nunes, afirmou que Marielle Franco foi morta por milicianos.
" "Onze meses depois, as autoridades não deram qualquer resposta sobre as denúncias de negligência. " [Gritos] ["Marielle! "] Eu liguei para a Marielle e quando eu entrei em casa, mandei uma mensagem pra ela.
E ela não respondeu. Mas aí passaram 20 minutos e a Marielle não chegou. Então já estava um atraso bem grande.
Depois que eu liguei a segunda e ela não atendeu, comecei a ligar um milhão de vezes seguidas. E aí entrou a ligação de uma amiga, que era minha amiga também, era mais amiga da Marielle, então não tinha o hábito de me ligar. Eu atendi perguntando "cadê a Marielle?
" Ela me respondeu que tinha uma amiga no portão e que eu precisava ir lá. Eu perguntei "aconteceu alguma coisa? " Ela falou "aconteceu".
Na hora, larguei o telefone e fui correndo até o portão. Ela só olhou pra mim e falou "você precisa ser forte". "Balearam o carro da Marielle!
" E eu falei "mas como assim? " Tomei um baque gigantesco. "Eu não sei.
Acho que ela passou num tiroteio e acertaram o carro da Marielle. " Eu falei "onde está o carro? Onde foi isso?
" E comecei a me arrumar para ir para lá. Meu telefone não parava de acender a luz. E uma amiga, perguntando "oi, tudo bom?
" "Como está a sua mãe, sua irmã? Tá tudo bem? " Eu falei "está tudo bem, acabei de falar com ela.
" "Amiga, acho que não. . .
Eu acabei de ver na internet e tem uma foto de capa da Marielle, dizendo umas coisas esquisitas. " Eu perguntei o que estava dizendo. "Entra você, porque eu não tenho coragem de falar.
" Botei no viva-voz e fui entrar pra ver. Um ex-namorado meu me liga. " Lu, está tudo bem?
" "Não sei se sou a primeira pessoa que vai te falar, mas acho que eu preciso te falar. " "Estão falando que mataram sua mãe. " Ele foi muito direto.
Eu falei "não é possível. Eu acabei de falar com ela. " Eu saí disparado em direção à Prefeitura e falando no telefone, pergunto "cadê a Marielle?
" "Onde ela está? " E aí ele me diz "ela está dentro do carro. " Eu saio correndo.
Minha tia estava no quarto de cima. Quando eu subo as escadas, ela está no telefone com a amiga dela. E aí eu percebo que é verdade.
Quando ela desce, eu já estou me debatendo no chão, gritando. Quando ele fala que ela está dentro do carro, eu gelei na hora. Porque ninguémtem o carro baleado e fica dentro do carro a não ser que tenha sido atingido.
Quando ele fala, eu entro em desespero. E eu pergunto pra ele, enquanto eu estava dirigindo, uma loucura. .
. Eu pergunto pra ele: "a Marielle está morta? " E ele me diz: "Está".
O pessoal vai lá pra casa. . .
Minha madrinha, meu padrinho. . .
Minhas amigas que se formaram comigo vão para a minha casa também. Os amigos da minha avó. .
. A minha avó fica muito mal. .
. Confesso que naquele dia eu achei que iria perder as duas. De tanto ela chorar, chorar, chorar.
. . Eu falei "vó, por favor, fica calma, porque eu não posso perder as duas no mesmo dia.
" Minha tia vai ao local, volta e fala que era verdade mesmo. Todo mundo vai dormir meio sem acreditar. Na verdade, eu nem dormi.
Não consegui dormir. Cochilei por uma meia hora. E chovia muito, muito.
E ventava. Eu desmaiei. Tenho lembranças só de muito tempo depois.
Já estava em casa. É desesperador, porque quando eu acordei já tinham vários amigos, a família. .
. Todo mundo dentro de casa, e aquilo vai tomando formato de realidade. ["Companheira Marielle"] ["Presente!
"] ["Agora"] ["E sempre! "] Quando a gente chega no velório, no dia seguinte. .
. ninguém dorme naquela noite. .
. Há uma multidão na Câmara dos Vereadores. Uma multidão.
Não tinha a menor condição de organizar aquela multidão. Mas aquela multidão se auto-organiza. Eu lembro perfeitamente que, quando o caixão chegou, a gente tinha que levá-lo do carro até dentro da Câmara, e a multidão abre um caminho.
Então aquilo foi, sem dúvida alguma, uma imagem muito forte do que a gente perdeu, mas do que a gente tem que fazer também. O chamado legado que a Marielle deixa, e que fica muito claro. A gente falava, nos primeiros meses, a gente comentava com minha tia: "os caras que fizeram isso não tinham noção de que isso iria repercutir nesse nível.
" A Marielle virou um mártir, um símbolo. A gente andava na Flip e tinha Marielle, Martin Luther King e Angela Davis na mesma camiseta. E essa repercussão dá orgulho.
Receber tantas homenagens acalentava a gente. Eu só tive noção no domingo seguinte, quando fomos no show da Katy Perry. Eu a conheci, subi no palco, e tinha uma foto da Marielle.
Isso é muito maior do que qualquer pessoa esperava. Tem uma coisa que todo mundo fala, e é verdade: a gente sempre se lembra da primeira vez que viu a Marielle. Isso é uma coisa sobre a qual a gente já falava, antes de acontecer isso tudo.
A gente sempre lembra da primeira vez que que viu Marielle. E eu me lembro bem dela, levantando, e falei "acho que aquela é a Marielle". Porque a Marielle chegava chegando, sabe?
Ela tinha uma coisa muito solar. Você sabia que ela estava chegando. Eu cresci com essa imagem da Marielle, de mulher forte e batalhadora.
De ter três empregos, um estudo. Nos momentos mais importantes da minha vida, no nascimento da minha filha, ela estava do meu lado. Sempre me inspirei muito Marielle, porque ela tinha uma frase que ela falava: "você não precisa errar para aprender.
Você pode aprender com os meus erros, porque eu sou mais velha. " Filha única, você imagina. .
. Aquela mimação. Mas ela também era muito dura comigo.
Dura com ela mesma, também. Mas era uma relação de muita parceria também. A Marielle, no trabalho, era muito diferente.
Inclusive da relação dela dentro de casa. Ela era muito enérgica. Ela tinha um posicionamento muito firme.
E tinha muita convicção nas coisas que acreditava. E da forma como se colocava para a luta. ["Não é pouca coisa falar que lugar de mulher é onde ela quiser.
"] ["Ou que lugar de mulher é na política. "] ["A gente tem que sair do lugar comum, se não, vira palavra fácil. "] Em casa, ela tinha a postura de se deixar ser acolhida.
De não resolver tantos problemas. Porque até na vida pessoal, dela com os amigos, ela era aquela amiga que todo mundo sabia que poderia ligar de madrugada, e, dentro de casam tinha muita cumplicidade e parceria. Quando a gente morava com minha avó, ela trabalhava em três lugares.
Então, eu passava pouco tempo com minha mãe. Só a via ao acordar e antes de dormir. Mas eu consegui acompanhá-la bastante, no ano em que ela se candidatou.
["Fala, galera. Meu nome é Luyara, e tenho 17 anos"] ["Sou filha da Marielle, e vim aqui pedir apoio para essa campanha linda que estamos fazendo"] ["E relembrar as pessoas que representatividade importa sim. "] ["E precisamos de mulheres, principalmente negras, ocupando lugares na política.
"] Eu levei um susto quando ela quando falou da campanha, que ela se colocaria como candidata para vereadora. Falei "como assim? " Eu estava surpresa, mas, de fato, a Marielle despontou num movimento que começa ali em 2013.
. . É um movimento forte de mulheres no Rio.
E ela começou a se colocar como uma liderança também nesse nesse espaço de discussão de gênero. E em 2016 ela já era tida como uma candidata natural. Não só por estar ao lado dela, também, que era incrível poder vivenciar de perto, ser uma testemunha do que seria esse mandato, era muito empolgante.
["Para nós, mulheres, luta é cotidiano. "] E tem uma coisa muito particular e especial na história da Marielle, porque ela tinha no próprio corpo, na construção da história de vida dela, representado ali todas as pautas de luta nas quais ela acreditava. Defensora de direitos humanos, mulher, favelada, negra, lésbica.
. . Ela entendia, na construção de vida e no corpo dela, todos os tipos de enfrentamento do preconceito que a sociedade tem com a população que ela estava representando.
A gente sentou na minha sala e ela falou "tenho um negócio importante pra falar". "Vou largar você. " E eu respondi: "vai me largar?
Tá maluca? " "Você não sabe viver sem mim e você sabe disso. " Afinal, eram dez anos trabalhando.
E a gente fez muita coisa juntos. Ela falou: "está tendo uma conversa importante para eu ser candidata a vereadora. " Eu já sabia.
É óbvio que eu já sabia que as conversas estavam acontecendo. Eu não falei nada com ela, esperei ela me dizer. Acho que era um movimento que tinha que ser dela.
Claro que eu queria, ela estava absolutamente pronta. E eu falei pra ela, uma frase que eu não quero nunca me arrepender. "Você está pronta.
Vai voar sozinha, porque você está pronta. " Vai embora. Vai voar.
Vai ser feliz. Fazer o que você sabe fazer. E ela falou: "Mas eu tô com medo.
" "Não conta para ninguém, porque não sou mulher de ninguém saber que estou com medo. " "Só você. " Aí fizemos a campanha.
Foi uma das campanhas mais bonitas de que o Rio de Janeiro tem notícia. Os mais otimistas falavam que se a Marielle tivesse cinco mil votos, já seria lindo. A gente fez uma campanha com muita militância.
Foi crescendo demais, e, no dia da apuração, no meio do caminho, a Marielle já tinha 16 mil votos. Já tinha superado as expectativas dos mais otimistas. E termina com 46.
502 votos, sendo a segunda mulher mais votada no Brasil, e a quinta pessoa mais votada na cidade do Rio de Janeiro. ["Alô, galera! Vai ser desse jeito.
"] ["A cidade está pulsando por um lugar mais inclusivo, menos desigual. Mais firme. "] ["E é assim que a gente faz.
A gente fez política com afeto, e o resultado é esse aqui. Essa praça está lotada. E assim que será o mandato.
"] ["Vai ter negra, mulher, favelada, sim, na Câmara Municipal, para dar a resposta. "] [". .
. agradecer a presença da militância. "] ["Vamos, juntos e juntas, nessa construção coletiva, num acordo, numa coletividade, que a gente tem feito, numa construção que vem de antes.
Eu sou, porque nós somos". ] ["Obrigada. Estamos juntos.
"] ["Qual é a responsabilidade que esta bancada tem com relação a retirada de direitos? "] ["E não apenas a dizer que cuida das pessoas? "] ["Eu vou ficar quatro anos aqui batendo nessa tecla.
"] ["Porque isso não pode ser apenas slogan. Tem que ser responsabilidade pública. "] ["Alô, galera!
Direto aqui da Câmara Municipal. . .
Felizmente a gente encontrou com uma galera nos blocos, mandando o recado com o nosso leque da Comissão da Mulher, da campanha contra o assédio.