Este é uma mulher Neandertal, que pode ter vivido entre 400 mil e 35 mil anos atrás. Ela é nossa parente mais próxima em termos evolutivos. E este é um homem humano moderno, ou Homo sapiens, que surgiu no mesmo período histórico dos neandertais, mas continua existindo hoje.
Por causa das diferenças físicas, e outras razões, neandertais e homo sapiens são classificados como espécies diferentes. E, segundo a definição que conhecemos da biologia, espécies diferentes não costumam gerar descendentes férteis. Mas, ao estudar os antepassados humanos, os cientistas descobriram que a definição de espécie não é tão simples.
. Mesmos sendo diferentes, neandertais e sapiens não só conviveram, como tiveram relações sexuais. E com frequência.
E produziram descendentes… nós. Mas como é que fazer sexo com os neandertais nos modificou? Antes de explicar isso, é preciso dizer que muitas vezes pensamos que a evolução humana aconteceu como se fosse uma linha reta.
Só que a realidade é bem mais caótica. E fascinante. Sabemos que há cerca de 1 milhão de anos, surgiram na África os Homo Heidelbergensis, uma espécie derivada do Homo Erectus.
Depois de se espalharem pela África, eles foram para a Europa e Ásia. Os Heidelbergensis que ficaram na África teriam dado origem a nós, Homo Sapiens. Os que foram para Europa teriam evoluído para os Homo Neanderthalensis, e os que foram para a Ásia evoluíram para os Homo Denisova.
Mas o surgimento de um deles não acabou com os outros assim tão rápido. Agora se sabe que, por volta de 120 mil anos atrás, ao menos SEIS espécies do gênero Homo conviviam. E estamos falando apenas das espécies que conhecemos.
Esses grupos de hominídeos faziam migrações, se juntavam e se separavam. Alguns desses encontros provavelmente eram hostis. Outros, claramente, deram origem a famílias entre espécies diferentes.
Por isso, hoje sabemos que toda população do planeta com ascendência euroasiática tem entre 1 e 3% de genes herdados de neandertais. Mas descobrir isso não foi um processo simples. Em 2010, um grupo de cientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, sequenciou pela primeira vez o genoma de um fóssil Neandertal e o comparou com o nosso.
O fato de fósseis neandertais nunca terem sido encontrados na África indicava que eles teriam cruzado com os Homo Sapiens na Europa e na Ásia. A teoria mais aceita hoje é a de que Sapiens e Neandertais se relacionaram entre 60 e 40 mil anos atrás, quando avançavam da África para o Norte. Essa hipótese se fortaleceu em 2015, quando foi sequenciado o genoma do Sapiens mais antigo encontrado na Europa.
E seu DNA era cerca de 6 a 9% herdado de neandertais. O fóssil tinha entre 37 mil e 42 mil anos de idade e um dos seus tataravós poderia ter sido um Neandertal. Mas o DNA dos neandertais não ficou só na Europa e na Ásia.
Diferentemente do que se acreditava, descobertas recentes mostram que as populações africanas também devem uma pequena parte de seu genoma a eles. Isso provavelmente aconteceu porque há cerca de 20 mil anos, Homo Sapiens já descendentes de cruzamentos com neandertais migraram de volta para a África. E esses genes herdados dos neandertais contribuíram para nossa evolução.
Segundo os pesquisadores, alguns deles têm influência na sensibilidade de nossa pele ao sol, em como o nosso cabelo e pêlos crescem e nas nossas respostas imunitárias. Todos esses aspectos são fundamentais para a adaptação a novos ambientes, algo que pode ter ajudado os Homo sapiens quando eles migraram para a Europa e a Ásia. Outro aspecto positivo é que a presença hoje de certas variantes neandertais protege contra sangramentos durante a gravidez e contra abortos naturais.
Algumas também participam da definição de se somos mais ativos durante o dia ou à noite, de traços psicológicos como depressão e até da nossa propensão ao vício em nicotina. Mas há alguns genes que, apesar de terem sido úteis naquele tempo, hoje podem nos prejudicar. Um exemplo é uma variante que contribui com a coagulação mais rápida do sangue.
Ela pode ter ajudado os Homo sapiens ancestrais fechando as feridas mais rápido e diminuindo o risco de infecções, mas, agora, a persistência desse gene aumenta o risco de coágulos e derrames. Outro estudo, em fase de investigação, sugere que existe até uma relação entre os nossos genes neandertais e a covid-19. As pessoas com pessoas com uma determinada variante poderiam ter um risco entre duas e quatro vezes maior de ficarem gravemente doentes se forem infectadas pelo novo coronavírus.
Para além da troca de genes, a verdade é que sabemos muito pouco sobre as relações sexuais entre as espécies. Nem ao menos se eram consensuais. Mas alguns estudos começam a esclarecer questões práticas.
Em 2017, uma antropóloga da Universidade do Estado de Pensilvânia, dos Estados Unidos, identificou, no dente de um fóssil Neandertal, traços de um tipo de bactéria que está presente na nossa boca até hoje. Ela acredita que essa bactéria foi transferida entre sapiens e neandertais durante a convivência entre eles, talvez pelo beijo. Cientistas também investigam a possibilidade de que as duas espécies tenham trocado infecções sexualmente transmissíveis, como HPV e herpes.
Essa mesma troca entre as populações pode ter sido um dos fatores que contribuiu para que os neandertais desaparecessem e nós continuássemos aqui. As descobertas sobre o cruzamento entre nossos antepassados têm dado mais força à chamada teoria de assimilação. Como a proporção de neandertais já era muito menor quando eles se encontraram, eles foram absorvidos pelos Homo sapiens ao longo do tempo.
Segundo essa teoria, na medida em que famílias de Sapiens e Neandertais foram sendo formadas, a espécie foi desaparecendo como tal e se misturando à nossa. Se você pensar bem, não dá pra dizer que os neandertais foram completamente extintos. Eles continuam vivos, de certo modo, dentro de nós.
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