[Música] o nível do Rio superou os 30 m pela primeira vez o Guaíba voltou a avançar pelo Centro Histórico de Porto Alegre a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul o conceito de cisne negro foi criado para descrever eventos imprevisíveis e de grande Impacto e que estariam fora do espectro das expectativas normais esses eventos têm consequências extremas e após a sua ocorrência tendemos a buscar justificativas que nos fazem acreditar que eles eram previsíveis Apesar de sua natureza altamente Improvável [Música] em Maio de 2024 o Rio Grande do Sul foi afetado pela sua
maior tragédia climática de todos os tempos as fontes oficiais falam que até esse nesse momento 169 pessoas mortas 600.000 pessoas fora de casa e quase 2 milhões de pessoas atingidas seja de maneira direta ou indireta Eu por exemplo e grande parte da equipe das imóve também foi afetada porque a gente reside aqui em Porto Alegre esse evento trata--se portanto de um cisney negro Mas diferente de muitas pessoas que agora depois do ocorrido tentam encontrar dados que provem que esse evento ele era previsível antes dele ter corrido um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul já vinha trabalhando com simulação de cenários como este que aconteceu agora Desde o ano passado só que para te explicar essa história a gente precisa voltar um pouquinho no [Música] tempo entre os dias 22 de abril e 6 de maio o Estado do Rio Grande do Sul recebeu um volume de chuva sem precedentes galera no intervalo de 14 dias a gente recebeu o que era esperado para 5 meses de chuva em cidades mais ao norte os estragos vieram antes e sempre em localidades próximas aos Rios no Rio Taquari no Rio Caí no
Jacuí no Rio dos Sinos no rio Gravataí e a consequência inevitável é que todo esse volume de água uma hora ia chegar no Guaíba que banha a capital e a zona de maior densidade populacional de todo o estado no dia 2 de Maio uma notícia de que essa enchente poderia ser a maior da história começou a circular na mídia só que esse Alerta não foi dado pela Defesa Civil que é o órgão responsável por fazer isso e sim por esse grupo de pesquisadores da UFRGS que por um certo acaso já vinha simulando o cenários de
caos Desde o ano passado esse aqui é o Rodrigo Paiva é um dos professores do iph e ele me contou como tudo ocorreu por uma sorte do destino esse sistema esse tipo de coisa a gente já tava estudando há muito tempo o Mateus que é Mateus Sampaio Ele é engenheiro e El Mestrando e já vinha simulando E aí já desde a cheia de Setembro do ano passado a gente já tava fazendo fazend ensaios de previsão Achei que ele se refere ocorreu em setembro do ano passado e até aquela data ela já havia sido a maior
Em décadas ficando atrás apenas da grande cheia de 1941 que devastou a cidade no dia 2 de Maio eles lançaram o primeiro boletim que já alertava para um cenário do Guaíba superando 5 m o que já seria a maior de todos os tempos Mas mesmo que esse nível se concretizasse na teoria não deveria ser um problema pra cidade isso porque Porto Alegre conta com um sistema de defesa de enchentes que é com osto por uma série de defesas físicas incluindo Muros e estradas elevadas algumas partes móveis que são comportas que se fecham e diversas casas
de bombas que deveriam drenar a água excedente da cidade para fora esse sistema foi projetado para proteger a cidade de enchentes de até 6 m então em tese Nós deveríamos estar seguros no dia 3 de Maio eles lançaram um mapa de risco apontando que bairros seriam afetados se por ventura o sistema de defesa falhasse e infelizmente ele falhou o Rodrigo junto com outros professores e Acadêmicos da uras adotaram a partir daí uma rotina pesada de trabalho de publicar todos esses estudos quase que diariamente Eles foram os principais veículos de imprensa saíram nos principais jornais e
de maneira indireta eles acabaram ajudando a população a tomar melhores decisões eles previram que o nível do Guaíba superaria os 5 m e acertaram eles previram também que bairros seriam atingidos caso o sistema da cidade falhasse e acertaram previram também que no dia 9 de Maio mesmo após uma primeira retração do rio o nível Voltaria a subir e que ainda não era seguro que a população retornasse à suas casas e acertaram de novo previram que a enchente seria duradoura e que a população deveria se preparar para lidar com isso também acertaram E aí então a
gente estabeleceu essa rotina né de todos os dias começa 6 da manhã analisando todos os dados porque o que que é o público tem que entender também como é um sistema muito complexo é um evento sem precedentes e é muito difícil fazer trabalho com uma ferramenta toda automatizada que já foi feita antes então muita coisa dá errado muita coisa exige a interpretação e o conhecimento que a gente tem na área de anos para imaginar o que que pode acontecer então o que que a gente percebe no fim das contas a tecnologia nos ajuda muito mas
a capacidade verdadeiramente tá nas pessoas né Mas como que eles fizeram isso como é que a gente faz para prever o nível de um rio Baseado Em chuva bom fazer isso é uma tarefa complexa e o Rodrigo me deu uma a aqui existem basicamente dois tipos de modelos que são usados nesse caso os de base estatística e os de base física os modelos de base estatísticas são bem fáceis de serem compreendidos e talvez você que já trabalhou com machine learning alguma vez na vida vai compreender bem basicamente o que se faz é coletar dados ao
longo do tempo de diversas variáveis e a gente tenta organizar essas variáveis de tal forma que umas possam ser utilizadas para prever outras por exemplo eu poderia tentar prever o nível do Rio Taquari em Lageado utilizando como ponto de partida o nível do Rio em musum um dia antes se eu coletar dados dessas duas variáveis por muito tempo eu posso encontrar uma relação entre essas duas variáveis e sempre que eu quiser fazer uma previsão futura basta eu jogar o dado de entrada que no caso seria o nível do Rio em mum um dia antes para
poder encontrar qual que seria uma estimativa pro Rio em Lageado é fácil né só que esse tipo de modelo tem um grande problema em situações como essa como é que a gente vai prever adequadamente cenários que a gente nunca viu esse volume de chuvas que a gente tá vendo e combinações de vento nunca aconteceram antes e se a gente tentar fazer uma extrapolação eem um modelo de base estatística Pode ser que no ponto observado as relações entre os dados sejam completamente distorcidas e é por isso que se faz necessário um modelo de base física e
um modelo de base física a história é completamente diferente aqui precisamos quase que criar uma simulação da natureza que vai representar a forma como ela se comporta cada um dos as aspectos que definem a sua dinâmica e traduzir isso em equações matemáticas que aí sim vão ser resolvidas utilizando programação nesse caso específico o Rodrigo me explicou que eles utilizaram dois modelos o modelo de grandes bacias mgb e o hack ras River analysis System o mgb é um modelo hidrológico que já vem sendo construído há mais de 10 anos dentro da urgs pelo próprio PH e
é amplamente utilizado para simulação hidrológica em grandes bacias hidrográficas o processo é o seguinte o primeiro passo é fracionar toda uma grande bacia em mini bacias e a gente vai trabalhar com cada uma delas de maneira separada o objetivo do mgb nos dá a vasão d' água em diferentes pontos da bacia só que para isso o modelo precisa antes trabalhar com que volume de água cai em cada bacia em função da chuva acumulada da topografia da região do tipo de solo o quanto vai penetrar nesse solo nos reservatórios subterrâneos o quanto vai ficar retido o
quanto vai evaporar para daí e sim poder estimar o quanto chega aos Rios depois disso a gente ainda Precisa levar em consideração a velocidade dos ventos que vai influenciar na superfície da água retardando ou acelerando o seu fluxo uma observação que atenuou mais a tragédia é que no começo de maio os ventos começaram a soprar no sul ou seja eles agiram represando toda aquela água que estava vindo do Norte e esse foi um dos fatores que prejudicou ainda mais toda situação que a gente viu depois Mas voltando para modelo uma vez que ele atinge o
rio eles são capazes de montar um hidrog que vai alimentar um outro modelo o hack rass e esse fica responsável por calcular dentre outras coisas o perfil da superfície da água ao longo do Rio E como ela vai interagir com outras estruturas hidráulicas esses modelos vão dar uma série de dados velocidade do Rio umidade transpiração mas o que mais importa pra gente mesmo é qual é o nível do Rio e que zonas vão ser atingidas por ele um fato muito curioso é que o primeiro modelo hidrodinâmico que se propôs a estudar o escoamento das águas
foi proposto em 1871 por San Venan só que é interessante que foi só 100 anos depois que as primeiras soluções puderam ser encontradas com uso de programação o Rodrigo inclusive não sabia mas ele é um do grande exemplo do público alvo das imóvei que é justamente isso profissionais que aprendem a programar para resolver problemas de sua área Na verdade eu eu não sou programador a gente é engenheiro e cientista e a programação tá muito no nosso dia a dia porque osos cálculos são complicados Exatamente exatamente Porque sem ser capaz de traduzir essas equações que são
bem complexas em algoritmos e deixar que os computadores resolvam ela basicamente nós não seríamos capazes de encontrar resposta nenhuma pras perguntas que viriam a [Música] seguir o Rio Grande do Sul vai levar anos para se recompor e o grande problema é que as perspectivas não são boas se a frequência de enchentes deve aumentar o que que a gente pode fazer bom o plano de ação agora é grande cada área vai ter o seu Porto Alegre por exemplo vai ter que revisar todo o seu sistema de defesa outras cidades da região metropolitana vão ter que ou
aprimorar o seus ou desenvolver caso não tenham e tem gente que ainda cogita que algumas cidades do interior do Rio Grande do Sul precisariam inclusive mudar de lugar só que na Esfera da prevenção iph tem uma proposta só que na verdade essa proposta já foi apresentada em setembro do ano passado em uma nota técnica logo após a naa última enchente de grandes proporções dentre outras coisas o Instituto pede por dados topográficos de mais alta qualidade e disponíveis publicamente levantamento topo batimétrico nos principais rios fortalecimento dos sistemas de monitoramento previsão e alerta de precipitação e de
níveis d'água fortalecimento das equipes da Defesa Civil para que esse trabalho que foi desenvolvido pela IEP de forma voluntária possa ser feita pelo governo em tempo real com muito mais recursos se essas pedidas do iph fossem realizadas a gente teria capacidade não só de poder avisar As populações quando houve chuva enquanto tempo depois a sua região vai estar inundada como poder montar cenários de risco para que cada pessoa em cada bairro do Rio Grande do Sul inteiro por exemplo pudesse saber qual o nível de risco que a sua região tem e se de repente enfrentar
uma grande enchente em quanto tempo deve evacuar a casa porque muitas pessoas acabaram morrendo porque a água entrou rápido demais não deu nem tempo de sair e Deó desses dados cada pessoa poderia saber quanto tempo levaria para uma água entrar e invadir a sua casa quanto tempo ela teria que correr para poder se antecipar a partir daí a gente poderia ter capacidade de desenvolver comunicações mais efetivas entre as pessoas e inclusive desestimular pessoas a morarem em zonas de risco que a gente viveu nesse último mês aqui no estado claro que vai servir de lição para
todos nós mas eu acredito que também pro resto do Brasil e do mundo para que quando tudo isso se repetir novamente e provavelmente vai se repetir o impacto seja muito menor [Música]