Olá, meus amigos! Tudo bem? Professor Fábio Blanco por aqui.
E hoje nós vamos falar sobre a relação entre o estoicismo e o cristianismo. O tema dessa aula surgiu de um comentário feito no outro vídeo que eu fiz sobre o estoicismo, quando eu falei sobre a relação do estoicismo com a filosofia e perguntei: "o estoicismo é de fato filosofia? " Vocês lembram que lá naquele vídeo eu cheguei à conclusão que o estoicismo está mais para uma ética, está mais para uma proposta comportamental do que filosofia.
Isso não significa que o estoicismo não contenha uma filosofia dentro dele, mas ele é, em essência, uma ética. Nos comentários daquele vídeo, alguém me perguntou: "Professor, e a relação do estoicismo e o cristianismo? Qual é?
" Senhor, poderia falar sobre isso? Eu achei interessante porque é uma questão que não é à toa. Não é à toa.
É uma questão que sempre esteve em pauta. Vocês vão ver nessa aula que eu vou falar sobre isso, mas, hoje em dia, principalmente, eu tenho percebido um revigoramento do estoicismo. Um revigoramento.
As pessoas estão falando do estoicismo mesmo sem ter muita profundidade sobre o que ele é. Conhecendo o estoicismo, quem conhece, né? Quem fala sobre ele, às vezes fala apenas da parte mais externa: a busca da felicidade, controle das emoções, aquela coisa toda.
Eu quero ainda gravar um vídeo que eu faça uma reflexão sobre as razões contemporâneas do revigoramento do estoicismo, mas o fato é que ele está sendo comentado novamente. Nunca, na verdade, deixou de ser falado, mas ele está sofrendo um momento de revigoramento porque eu tenho percebido, até nos meus alunos que não são da área da filosofia, da área do conhecimento mais filosófico, também falando de estoicismo. Então eu falei: "Opa, tem alguma coisa aí.
" Fui procurar os livros atuais que estão sendo lançados. Estão sendo lançados vários livros sobre estoicismo. Então, tem alguma coisa no estoicismo que hoje está sendo aproveitado pelo mundo contemporâneo.
E nós sabemos que provavelmente não são as suas questões mais profundas. As razões pela busca do estoicismo estão nas suas questões mais finais, as questões mais comportamentais, mas eu quero falar isso em outro vídeo. Neste momento, eu quero comentar sobre a relação mesmo do estoicismo com o cristianismo, respondendo à pergunta do espectador lá que acompanhou os meus vídeos no YouTube.
Então, pensando em estoicismo, nós temos que trazer em mente o seguinte: o estoicismo sempre foi visto como uma filosofia louvável. Sempre foi visto assim e, exatamente por isso, por essa identificação como uma filosofia que merece louvor, uma filosofia boa, vamos dizer assim, exatamente por isso o estoicismo permeou a história das ideias aqui no Ocidente. Em todas as eras, houve grandes pensadores que citaram os estoicos, que viram nos estóicos modelos de comportamento e, principalmente, referências como uma forma de enfrentar a vida.
Então, você tem desde os medievais citando os estoicos. Você vai ter medievais, que eu digo, desde, vamos dizer, de Agostinho passando por Abelardo; todos eles citaram, de alguma maneira, algum estoico. Você vai ter os renascentistas citando os estóicos, você vai ter modernos citando estoicos e você vai ter, obviamente, contemporâneos também.
Todos eles citaram e se inspiraram nas ideias dos pensadores estoicos porque viram nos estoicos algo de positivo, algo de bom. Lembrando que o estoicismo nasce ali logo depois do período de Platão e Aristóteles. Ele nasce ali na Grécia e vai se desenvolvendo.
Em Roma, ele tem uma renovação até de estilo; o estoicismo se torna um pouco diferente em Roma, mas é continuado. E você tem, na Grécia, Zenão, Cleantes, Posidônio e outros. E você vai ter, em Roma, os conhecidos ali como Cícero, etc.
Após isso, você vai ver o estoicismo, [Música], sendo citado e considerado por todos os pensadores posteriores. Todos não, mas em todas as eras ele foi citado. Em todos os momentos, não houve um momento em que o estoicismo não foi citado.
Claro que também houve os críticos do estoicismo, principalmente você vai ter os críticos cristãos, você vai ter críticos católicos, você vai ver um lembrete criticando o estoicismo, você vai ter Pascal criticando o estoicismo, você vai ter pensadores protestantes também criticando o estoicismo, mas, em geral, o estoicismo sempre foi considerado, e eu repito: principalmente porque sempre se viu no estoicismo uma corrente de pensamento com propostas valorosas. Mesmo aqueles que criticavam viam algum valor. Então, o estoicismo sempre foi visto como uma ética superior, uma ética capaz de elevar moralmente o homem e torná-lo uma pessoa melhor.
Porque essa é a proposta do estoicismo: é fazer com que o homem supere aquilo que lhe impede de evoluir individualmente e alcance um estágio de sabedoria que lhe permita viver de uma maneira feliz. Feliz no sentido antigo da palavra, da "eudaimonia", né? É viver bem.
É difícil traduzir essa palavra. Aristóteles já usava essa expressão. "Eudaimonia".
Às vezes as pessoas perguntam o que significa. A gente traduz como felicidade, mas o nosso conceito contemporâneo de felicidade é meio complicado; não dá para usar esse mesmo conceito. Eu diria que "eudaimonia" tem mais a ver, assim, com algo ligado à realização pessoal, você sentir-se existencialmente bem e realizado.
Então, sempre se viu o valor do estoicismo em suas propostas, em seus conselhos. Isso fez com que se enxergasse também nos conselhos comportamentais estóicos algo muito semelhante àquilo que a própria religião cristã orientava. Então, se você pegar o que o estoicismo orienta, propõe, e você pegar o que o cristianismo eticamente propõe, o que o cristianismo, em termos de comportamento, propõe, você vai ver muitas similaridades.
O domínio próprio, por exemplo, é algo essencialmente cristão, né? O domínio de si. A temperança, tudo isso, o estoicismo também apresenta.
Então, essas semelhanças fizeram com que muitos pensadores tentassem conciliar o estoicismo com o cristianismo, ou pelo menos fazer com que o estoicismo servisse como um aliado poderoso do cristianismo. Inclusive, entre ali o século XV e o I, houve um movimento chamado Neestoicismo que tentou fazer isso explicitamente. Tentou pegar o estoicismo e trazer para dentro do cristianismo como um aliado real.
Então, aqueles pensadores citavam históricos quase como se estivessem citando cristãos. Eles tentaram usar o estoicismo junto com o cristianismo, tentaram conciliar, e até hoje há esse movimento. Pasme!
Um movimento que existe, inclusive, dentro dos meios conservadores. Eu tenho alunos que participam de congressos aí no nosso métier em que muitos pensadores católicos tradicionais elevam o estoicismo e praticamente colocam os pensadores históricos ali como verdadeiras fontes para os cristãos, como fontes louváveis. Bom, não vou entrar nesse mérito.
O fato é que a primeira objeção que se deve fazer a essa tentativa de conciliação é o fato do estoicismo ser, antes de tudo, essencialmente uma ética. Ou seja, o estoicismo tem um objetivo que não é filosofia, como eu já falei no outro vídeo. Não é algo que esteja além do próprio comportamento humano.
O objetivo do estoicismo é uma proposta para se viver bem. O histórico objetivo do pensamento estoico é dar as armas e os caminhos para que a pessoa viva bem, para que ela alcance a felicidade individual, se realize nela mesma e consiga viver bem consigo mesma. Essa é a proposta do estoicismo.
Então, quando a gente pensa em cristianismo, poxa, o objetivo do cristianismo ultrapassa isso. Primeiro porque ultrapassa os próprios limites da vida terrena. Isso a gente sabe.
O cristianismo se apresenta como uma via para a salvação eterna, além desta vida. Então, só nisso já se diferenciou do estoicismo, ali no centro. No cristianismo, você vai ver o pós-morte, o vislumbre do pós-morte, sendo aquilo que molda o comportamento.
Isso é totalmente do estoicismo, porque o estoicismo trabalha exatamente com a observação da questão atual, da vida atual, da circunstância atual. E você busca um bom comportamento para ter uma resposta neste momento desse comportamento. Você tem um comportamento, atua de determinada maneira e, como resposta, se sente de determinada forma.
Você se sente bem, alcança a felicidade. Esse é o objetivo do estoicismo. O cristianismo fala: “não, a resposta é pós-morte”.
Inclusive, muitas vezes, você aqui não vai ter nada disso; você vai sofrer. Aqui você vai sofrer, mas esse sofrimento vai valer a pena, porque lá, depois da morte, você vai receber a sua recompensa. Então, você já vê uma diferença fundamental.
Mas as diferenças entre o estoicismo e o cristianismo são ainda mais profundas do que a simples proposta ética. São diferenças que vão se manifestar nos próprios fundamentos de cada um deles, né, de cada um desses movimentos. Então, vamos fazer um rastreamento rápido de quais são essas diferenças.
O que diferencia, no fundamento, o estoicismo do cristianismo? Vocês vão ver assim como cada um está de um lado, e que a junção entre eles é algo bastante complicado. Primeiro: o estoicismo é materialista.
Primeira coisa, materialista. O que significa? O estoico acredita que a existência é composta unicamente de corpos materiais.
Ou seja, tudo é matéria. Tudo é matéria! Quando eu falo tudo, é tudo.
O cosmos todo é matéria, e não existe nada além da matéria. Bom, aí já temos uma diferença crucial com o cristianismo, que é espiritualista. Ou seja, ele acredita que há realidades além da matéria.
Inclusive, o cristianismo vai entender que aquilo que está além da matéria é mais importante do que a própria matéria. Então, já há um conflito inicial que vai afetar tudo. Se você tem uma visão materialista, todas as suas conclusões vão levar em consideração essa nãomaterialista; se você é espiritualista, a mesma coisa.
A segunda diferença: o estoicismo é imanentista. O que significa? Ele considera que toda a realidade está contida no mundo físico e parte daqui.
E, se há um nascimento, porque pode ser que você até acredite que não haja um nascimento, mas ou uma eternidade, eternidade ou sempre existiu ou um constante e eterno retorno, né? A mesma situação. Então, isso é imanentismo.
O cristianismo não é imanentista; ele é transcendentalista. Ou seja, ele diz: “olha, existe essa realidade, mas existe uma outra realidade, ou outras realidades, que ultrapassam essa nossa realidade imediata. ” Existe algo, existe outra realidade que está além dessa realidade que nós experimentamos.
Então, isso também é uma diferença crucial: um é imanentista, o outro é transcendentalista. Isso vai fazer uma grande diferença. A terceira diferença é que o estoicismo é racionalista.
Racionalista no seguinte sentido: todas as tomadas de decisão que o estoico toma, ele toma baseado na razão e confiando unicamente na razão. Inclusive, ele vai negar a emoção. A emoção, para o estoico, é algo que o atrapalha e que o desvia.
Ele precisa, inclusive, negar a emoção, encontrar um estado de apatia, que vai fazer com que a emoção não interfira na sua tomada de decisão. Então, o seu comportamento ético, aquilo que ele faz, a maneira como ele se comporta, tudo é reflexo da razão. Tudo é reflexo da forma como ele raciocina sobre as coisas.
E, se ele sofre por alguma questão, por exemplo, se sofre alguma emoção, tem algum sofrimento, isso é considerado como um erro de razão, ou por não ter sido exercida ou por ter sido exercida de maneira equivocada. Então, veja, o estoicismo é absolutamente racionalista. Confia totalmente na razão para guiar.
O homem já o cristianismo, ele não nega a razão, mas ele não confia só na razão. O cristianismo costuma propor que o homem se considere em sua integralidade; ou seja, em sua razão, sim, mas também em sua emoção, também em sua espiritualidade. Ele considera o homem de uma maneira mais geral; ele não vai negar a emoção.
A emoção faz parte desse homem e, nas suas tomadas de decisão, isso precisa ser levado em consideração. Em nenhum momento o cristianismo fala assim: "Ó, quando você for fazer alguma coisa, raciocine, né, cartesiano, raciocine exatamente para saber o que fazer. " Não.
O cristianismo favorece, inclusive, a intuição, o sentimento, até a sensação. Ele fala: "Não, essas coisas realmente são perigosas, podem conter algum desvio, mas você não pode negá-las; você tem que saber usá-las a seu favor. " Então essa é uma outra diferença importante.
Bom, a quarta diferença entre o estoicismo e o cristianismo é que o estoicismo é uma ética individualista, é uma ética praticamente egoísta. Por quê? Porque ela está preocupada unicamente com a postura do indivíduo diante da realidade.
É uma ética que não vai considerar o outro nas suas tomadas de decisão. O importante é assim: o que eu penso, como eu encaro as situações que eu passo e o que eu ganho quando eu encaramos essas situações da maneira correta. Isso é estoicismo.
Veja, é o indivíduo com ele mesmo; a forma como ele encara a vida, a forma como ele se confronta com a realidade, com as suas circunstâncias, isso é a ética estoica. Já o cristianismo, ele tem isso também de você cuidar de si, inclusive cuidar da sua salvação, mas ele também tem um outro lado, que é um lado declaradamente altruísta: se preocupar com os outros, se preocupar com as pessoas, ensinar a preocupação com o próximo. Amar, amar que é algo absolutamente cristão, amar o outro, inclusive estar disposto ao sacrifício pelo outro.
Entende? O estoicismo não tem muito sacrifício pelo outro; ele não fala isso. Ele até fala do sacrifício, que não é bem um sacrifício, mas é uma preservação de si.
Até pelo suicídio há uma possibilidade estoica de justificar o suicídio. Inclusive, vários estoicos se suicidaram. Por quê?
Porque você está preservando, assim, quando o estoico se suicida, ele está preservando o seu eu. Veja, é algo egoísta. Egoísta no sentido do ego, né, de voltar-se para si mesmo.
Já o cristianismo não. O cristianismo tem, a seu lado, também um lado individualista, sim, preocupação com a sua salvação, sua preservação, seu comportamento, mas também tem o lado de você cuidar do outro, ajudar o outro, amar o outro e até se sacrificar pelo outro. Algo completamente estranho ao estoicismo.
Bom, nós já falamos de quatro diferenças. Agora, a quinta diferença: a quinta diferença é que o estoicismo é monista. Ou seja, aí é uma questão mais filosófica, cosmológica.
Mas o estoicismo, ele entende que a realidade é una; ou seja, uma realidade única e completamente interligada. Ou seja, não existe transcendência, não existe outra realidade; só existe essa e ela é totalmente interligada. Já o cristianismo, ele tem um componente dualista.
Existe essa realidade, mas existe outra realidade, talvez até outras realidades. Pois o cristianismo vai considerar que a realidade terrena existe, mas também existe outra realidade que ultrapassa os limites da realidade imediatamente experimentada. Então, ele acaba sendo dualista.
O cristão, muitas vezes, vive até essa dualidade, essa dupla experiência. Quando você pega a reflexão de Santo Agostinho, né, A Cidade de Deus, A Cidade dos Homens, é mais ou menos a dupla realidade andando paralelamente ao mesmo tempo e até agindo uma com a outra. Então essa é a realidade do cristianismo.
Vê? Uma diferença importante. Sexta diferença: o estoicismo é determinista.
O que é ser determinista? É entender que o mundo, por causa da sua interconexão, tem boa parte dos seus destinos e do seu destino pré-determinados; as coisas estão todas já engatilhadas e pré-determinadas, e isso faz com que o indivíduo não tenha muito o que fazer em relação a muita coisa, porque tudo já está mais ou menos engatilhado. Assim, o estoicismo vê a realidade como uma grande máquina; o cosmos é uma grande máquina, tudo ligado.
Então, se está tudo ligado, uma coisa está influenciando a outra, não tem muito espaço para o livre-arbítrio. Já o cristianismo, ele dá ênfase ao livre-arbítrio, até porque o homem tem que tomar uma decisão sobre a sua salvação, seu destino eterno. Existiram algumas vertentes que diminuíram tanto o livre-arbítrio humano, mas mesmo aquelas que diminuíram o livre-arbítrio humano, elas fizeram questão de dar um jeito de sua teologia não falar isso explicitamente, que estava tirando o livre-arbítrio.
Entende? Então, mesmo aquelas que negam o livre-arbítrio, elas dizem que não negam. Ou seja, o livre-arbítrio, mesmo para essas que negam, é algo importante.
Aqueles que defendem o livre-arbítrio vão dizer o seguinte: o homem tem algum poder sobre o seu destino, algum poder sobre o que vai acontecer com ele; ele toma decisões que vão ter influência na sua vida. Então, o cristianismo dá essa ênfase ao livre-arbítrio, enquanto o estoicismo dá mais ênfase ao determinismo. Então isso também já cria uma diferença muito importante.
Bom, outra diferença, a sétima diferença: o estoicismo é basicamente ateu. E não tem como não ser, pois o estoicismo, sendo materialista e sendo antimetafísico, por consequência, ele não vai encontrar espaço para a existência de um ser superior e muito menos para um ser criador do mundo. No máximo, ele vai aceitar uma divindade meio diáfana, né, ou imanente, quase assim como um panteísmo espinozista.
Mais ou menos isso que os antigos históricos vão falar. Eles vão falar a palavra "Deus" muitas vezes, mas quando você observa, o Deus ali é um Deus não pessoal, é a própria natureza, é o próprio cosmos. Isso é Deus.
Então, na verdade, o estoicismo é, na perspectiva cristã monoteísta e de um Deus pessoal, o estoicismo é ateu. É ateu e nem tem como ele não ser, porque ele é materialista; não tem como ele não ser ateu. Ele é materialista, ele é imanentista, ele tem de ser ateu, e o cristianismo, obviamente, não é.
O cristianismo acredita num Deus transcendente, num Deus pessoal, num Deus que age livremente, e tudo isso. Então, veja bem, há uma diferença essencial. Então eu trouxe para vocês aqui, veja, sete diferenças, sete diferenças, sem contar, poderíamos falar em oito, sem contar o próprio objetivo do estoicismo, que é muito diferente do cristianismo.
Então veja bem, são oito fatores que vão fazer com que o cristianismo e o estoicismo, apesar de terem semelhanças — que eu considero semelhanças epidérmicas, ou seja, semelhanças na parte mais externa de suas posições — se encontrem em lugares completamente diferentes na forma de se colocarem na realidade. Por quê? Porque eles têm fundamentos e objetivos completamente diferentes, o que faz com que eles possuam naturezas completamente diferentes.
Então, estoicismo é uma coisa que está do outro lado, do lado oposto do cristianismo. Então, você falar em conciliação. .
. você pode fazer uma conciliação muito, muito, muito superficial, mas não dá para você conciliar essencialmente as duas coisas. Você pode falar de ideias esparsas de estóicos que são úteis, que são boas.
Eu mesmo amo ler os estóicos, amo ler Sêneca, já fiz vídeos e aulas sobre Sêneca, sobre Marco Aurélio, sobre os seus conselhos comportamentais, que eu acho maravilhoso, muito bom. Tudo bem, mas quando você pensa em escola filosófica, em movimento de pensamento, querer juntar os dois, isso é impossível. Isso não quer dizer que não haja diversos pontos de intersecção entre ambos.
Inclusive, isso não significa que não haja muitas semelhanças, por exemplo, tanto o cristianismo como o estoicismo possuem éticas que buscam extrair o melhor do ser humano. Então, os dois estão fazendo isso, só que o estoicismo faz isso por um motivo, e o cristianismo faz isso por outro. Então, eu diria assim que o estoicismo tem como objetivo a própria ética, tem como objetivo o próprio comportamento, e aquilo que o homem obtém imediatamente disso.
O cristianismo, ele não. . .
a ética dele está lá, mas o objetivo não é a ética; o objetivo é a salvação. A ética é apenas uma das vias, não é suficiente. Porque não basta ter um comportamento ético, isso é muito importante.
Para o cristianismo, não basta ter um comportamento ético; não basta para ele agir. . .
o cristão não basta agir de uma maneira valorosa. Isso não dá salvação para ele. Concordam?
O cristianismo fala: “Não, você que quer a salvação, você precisa de outros elementos. Você precisa da fé, você precisa do batismo, você precisa de outras coisas. ” Então, a ética cristã é uma parte de toda uma economia de salvação e não é suficiente.
A ética estoica é diferente. A ética estoica é tudo. No estoicismo, se você quer viver bem, você tem de viver a ética estóica, e se você viver a ética estóica, isso é suficiente, isso é tudo.
Na verdade, a ética estóica é a vida da virtude, e viver a vida da virtude é suficiente para o objetivo estoico, que é encontrar a boa vida. Se você falar em virtude, no cristianismo, existe, mas a virtude em si não é suficiente. Ela faz parte de todo o processo, mas não é suficiente, porque o cristianismo está te propondo uma coisa maior do que isso.
Estão entendendo isso? Então, tem semelhanças, tem semelhanças sérias. Às vezes parece que estão falando a mesma coisa.
Inclusive, existia a ideia de que houve cartas entre Sêneca e o apóstolo São Paulo. Isso aí foi contestado, né, a legitimidade disso, mas veja, a similaridade e a intersecção são tantas que às vezes os próprios cristãos tratavam isso com uma certa normalidade. E, realmente, se você ler os estoicos, você pode pegar lá muita coisa que os estoicos falam.
Você pega Sêneca, você pega Marco Aurélio, leva no púlpito da igreja e fala aquilo ali, não vai ter problema nenhum. Quase as pessoas vão falar: “Pô, legal, muito bom, concordo. ” Aliás, do jeito que a gente vê tantas pregações cristãs tão vazias de teologia e tão cheias de ética como nós vemos, né?
Porque a pregação cristã, hoje em dia, parece que se tornou apenas comportamental. “Faça isso, faça isso, faça aquilo, faça aquilo. ” Cara, se você ler textos hoje de estoicos em meio a comunidades cristãs, ninguém nem vai perceber a diferença.
Né? Que você não está citando cristãos, mas está citando ateus materialistas. Mas veja bem, tais similaridades não são exclusivas dos estoicos; você vai encontrar em outras religiões, em outras éticas.
Se você for para outras religiões, outras éticas além do estoicismo e tirar só a parte comportamental, a parte ética, a parte de convivência, a parte de atuação do ser humano, é tudo muito parecido. O islamismo, o confucionismo, o hinduísmo, a parte comportamental, a parte ética, como o homem deve agir em meio a suas circunstâncias, em meio à sua sociedade, isso vai ser tudo muito parecido. Então, o que acontece com o estoicismo é mais ou menos a mesma coisa também.
É parecido, também é parecido. Quer dizer, não tem nada demais, e essas similaridades não fazem um. Mais próximo do cristianismo, porque senão todas as religiões estariam próximas do cristianismo.
Porque nessa parte ética é tudo muito parecido. Agora, por que que então se privilegia? Por que que as pessoas falam tanto de estoicismo?
Porque o estoicismo está sofrendo um revigoramento. Aí é uma outra questão que eu vou trazer em um outro vídeo, mas tem a ver também com esses fundamentos. Se busca também o estoicismo, porque o estoicismo, por não ter Deus, por ser totalmente materialista, coloca a ilusão de controle nas mãos do próprio homem.
Bom, esse é um dos motivos. Esse é um dos motivos. Então, a gente vê que nessa questão o problema do estoicismo está nos seus fundamentos, porque eles vão estar em confronto direto com os fundamentos cristãos, e esses fundamentos históricos certamente vão contaminar os seus objetivos e vão colocar o estoicismo em um lugar completamente diferente do cristianismo.
Então, toda a tentativa de conciliação entre o estoicismo e o cristianismo é, no meu modo de entender, apenas uma sujeição forçada das ideias de um à realidade do outro. É você forçar: "Ah, nós vimos as coisas parecidas", aí começa a forçar a junção. Não dá para juntar; são coisas diferentes, são coisas essencialmente diferentes.
Se você quiser fazer essa junção, você vai criar uma confusão, confusão, porque são visões de existência absolutamente inconciliáveis. Não se concilia uma coisa; é estoicismo, outra coisa é o cristianismo. Cada um seguindo o seu caminho.
Tá bom, gente? Então é isso aí, por hoje é só, e até a próxima!