Adidas, hoje avaliada em mais de 40 bilhões de dólares. Puma. Cerca de 3,5 bilhões.
Duas marcas globais, estrelas do futebol, da moda e da música. Mas o que poucos sabem é que tudo começou numa lavanderia com dois irmãos pobres, filhos de um operário e de uma lavadeira. Criaram juntos um império e depois viraram inimigos mortais.
Um foi preso duas vezes, o outro acusado de entregar o próprio irmão. A fábrica foi partida ao meio por um rio. A cidade teve que escolher um lado.
Famílias romperam, casamentos acabaram. Até o prefeito passou a usar um tênis de cada marca para não tomar partido. Olimpíadas, contratos secretos com Pelé, boatos de traição, dois irmãos que jamais voltaram a se falar e foram enterrados em extremos opostos do mesmo cemitério.
Agora vamos voltar ao ano de 1898 para reviver a história dos irmãos Dasler. [Aplausos] [Música] No dia 26 de março de 1898, nasceu Rudolph Das ou Rud, como seria conhecido, na pequena cidade de Herzogenaurar, localizada na região da Baviera, no sul da Alemanha. Dois anos depois, em 3 de novembro de 1900, nasceu seu irmão mais novo, Adolf Dler, apelidado de Ad.
Ali começava uma história que mudaria o mundo dos esportes para sempre. Herzogen Aurar era uma típica cidade do interior da Alemanha no início do século XX, com campos, pequenas fábricas e uma população majoritariamente operária. A família Dasler vivia com simplicidade, lutando para sobreviver em uma Alemanha rural que ainda se recuperava das consequências da unificação e da rápida industrialização do final do século XIX.
O pai Christoph Dasler era operário em uma fábrica de calçados. onde passava longas jornadas costurando solas e moldando couro. Apesar das limitações financeiras, ele desejava que os filhos encontrassem empregos estáveis que garantissem segurança e rotina, especialmente em tempos tão incertos.
Já a mãe Pauline Dasler mantinha uma pequena lavanderia no porão de casa, onde lavava roupas para famílias da região. O serviço era pesado, exigia esforço físico diário e longas horas de trabalho. Ainda assim, a família seguia unida, enfrentando cada dia com resiliência.
Assim como grande parte dos moradores da Baviera naquela época, os Dasler eram cristãos protestantes luteranos, no entanto, não eram profundamente religiosos. Participavam das celebrações tradicionais da cidade, mas a rotina familiar girava em torno do trabalho e da sobrevivência. A fé era mais cultural do que devocional.
Desde pequenos, Rud e AD cresceram cercados por esforço e disciplina. Quando não estavam na escola, ajudavam a mãe entregando roupas limpas pela cidade, empurrando carrinhos ou carregando cestos. Logo ficaram conhecidos pelos vizinhos como os Laundry Boys, os meninos da lavanderia.
Rud, o mais velho, era extrovertido, comunicativo e sempre buscava oportunidades fora de casa. Já ad era introspectivo, observador, detalhista e tinha um olhar diferente para as coisas. Enquanto Rud sonhava com uma vida policial ou militar, Adva encontrar seu lugar no mundo.
Durante a juventude, Adgou a se matricular como aprendiz de padeiro, mas logo abandonou a profissão por não se adaptar à rotina da panificação. Em vez disso, decidiu seguir os passos do pai e passou a trabalhar em fábricas de calçados locais, aprendendo o ofício de forma prática, costura, corte, moldagem e montagem. Ele logo se destacou pelo cuidado com os detalhes e pela habilidade manual, mas a calmaria durou pouco.
Em 1914, a Primeira Guerra Mundial eu a Alemanha mergulhou no caos. Como milhares de jovens da época, tanto Rud quanto Ad, foram convocados para o serviço militar. Eles lutaram em diferentes frentes e, embora tenham sobrevivido, voltaram para casa marcados pelas experiências traumáticas da guerra.
ADI, em especial, retornou com problemas de saúde e dificuldades respiratórias, o que o afastaria de trabalhos físicos pesados e o aproximaria ainda mais do ambiente controlado e técnico das oficinas. Quando a guerra terminou, em 1918, a Alemanha estava devastada. A economia havia colapsado, cidades estavam em ruínas, o desemprego era generalizado e a hiperinflação logo tomaria conta do país.
A pequena lavanderia da mãe também não resistiu. Com as famílias locais em crise, ela perdeu quase todos os clientes. Sem emprego, sem dinheiro e sem perspectivas, AD decidiu tentar algo novo, algo que ninguém mais estava fazendo.
Ele teve uma ideia ousada, criar calçados esportivos. Naquela época, o esporte ainda não era uma indústria e calçados específicos para atletas praticamente não existiam. A maioria dos jovens praticava esportes com os mesmos sapatos usados no dia a dia, pesados, desconfortáveis e pouco funcionais.
Ainda assim, o esporte começava a ser valorizado na Alemanha como parte da formação física da juventude, o que tornava a ideia promissora, embora arriscada. Foi então que AD transformou a lavanderia abandonada da mãe em uma oficina improvisada. O espaço era pequeno, mal iluminado, mas tinha o mais importante, criatividade, ferramentas reaproveitadas e um propósito claro.
Ele passou a utilizar materiais que sobraram da guerra, couro de capacetes militares inutilizados, cordas de para-quedas danificados e até uma bicicleta quebrada que ele adaptou para gerar energia mecânica e auxiliar em tarefas simples da oficina. Com isso, começou a fabricar os primeiros pares de tênis esportivos da região. Os calçados eram rústicos, mas extremamente funcionais, leves, reforçados e moldados para performance.
Os primeiros clientes foram atletas locais e colegas que praticavam esportes amadores. Em pouco tempo, os tênis feitos por AD passaram a ser reconhecidos como superiores aos demais e a fama começou a se espalhar. Naquele porão apertado, com as mãos sujas de gracha e pó de couro, nascia o primeiro passo de um império que ainda nem imaginava o tamanho que teria.
[Aplausos] [Música] Ao longo dos anos que seguiram o fim da Primeira Guerra Mundial, a pequena oficina de calçados que Ad Dasler montara na lavanderia da mãe passou a chamar a atenção dos moradores de Herzogenaurar. Seus tênis artesanais, feitos com materiais reciclados e foco na leveza e funcionalidade, começavam a circular entre atletas amadores da região. Mas para transformar uma oficina local em um verdadeiro negócio, AD precisava de algo que ele não tinha, um parceiro com habilidades comerciais.
Esse parceiro surgiu dentro da própria casa. Em 1923, Rudolf Dzler, que havia tentado seguir carreira no serviço público, atuando em áreas administrativas ligadas à fiscalização alfandegária, acabou se frustrando com a rotina burocrática e decidiu mudar de rumo. Deixou o cargo e se juntou ao irmão mais novo.
Rud era tudo o que não era. persuasivo, carismático. Com visão de negócios e um talento nato para lidar com pessoas, ele enxergava no pequeno atelier do irmão um potencial que poucos eram capazes de ver.
Em primeiro de julho de 1924, os dois formalizaram a sociedade e fundaram oficialmente a Gebruder Das Dustler Shufabric, a fábrica de calçados dos irmãos Dasler. Enquanto AD ficava responsável pela produção, pela parte técnica e pelas inovações nos modelos, Rudy assumia as vendas, o relacionamento com clientes e a promoção dos produtos. A dupla parecia imbatível, mesmo em meio à hiperinflação que assolava a Alemanha nos anos de 1920, a demanda pelos calçados dos irmãos continuava crescendo, impulsionada pela busca de atletas por desempenho e acessibilidade.
Com o aumento da procura, a pequena oficina deu lugar a um galpão maior nos arredores de Herzogenaurar, onde passaram a empregar dezenas de trabalhadores da cidade. O objetivo era, claro, criar calçados que ajudassem atletas a superar seus limites e para isso precisavam ir além do que já existia no mercado. Ainda nos primeiros anos da fábrica, AD começou a experimentar uma inovação ousada para a época, tênis com cravos de ferro na sola, também chamados de spikes.
Esses cravos ofereciam maior aderência ao solo em corridas de velocidade e salto. algo inédito em calçados esportivos na década de 1920. Com poucos recursos, mas muita obsessão por performance, AD passou a estudar cada detalhe anatômico do pé e os tipos de impacto causados pelo movimento dos atletas.
Ele moldava os tênis à mão, fazia ajustes nos solados e testava diferentes combinações de materiais para alcançar o equilíbrio ideal entre leveza, resistência e tração. Rud, por sua vez, batia de porta em porta, visitava clubes esportivos, escrevia cartas, montava malas com os pares prontos e viajava para cidades vizinhas para apresentar os calçados a treinadores e atletas. Ele sabia como vender e, mais importante, sabia como criar desejo em quem experimentava os tênis.
Os treinadores começaram a notar que os calçados da Gruer Das Dler tinham desempenho superior até mesmo aos modelos importados da França e da Inglaterra, o que fortalecia o nome da marca no cenário esportivo europeu. O primeiro grande reconhecimento veio nos Jogos Olímpicos de 1928, realizados em Amsterdam. A atleta alemã Lina Hadk, corredora dos 800 m, venceu a prova usando um par de tênis dos Dler, marcando a primeira medalha olímpica conquistada com um calçado da marca.
Era um feito histórico não só para Lina, mas para a pequena fábrica dos irmãos de Herzogenaurak. A vitória de Lina chamou a atenção do treinador alemão Joseph Weitzer, figura influente no atletismo do país. Ele se aproximou dos irmãos e propôs uma parceria.
ajudaria a conectar a marca aos atletas olímpicos em troca de acesso a novos modelos para sua equipe. Foi um acordo estratégico. Graças a essa aliança, os tênis dos Dasler passaram a ser usados por outros corredores de elite, ampliando a visibilidade e a credibilidade da marca.
Na virada década de 1930, a Gebruder Das Dler já não era mais apenas uma pequena fábrica de bairro. Com novos modelos sendo desenvolvidos, produção em ritmo acelerado e vendas se espalhando por outras regiões da Alemanha, a empresa atingiu uma marca impressionante, mais de 200. 000 1 pares de calçados vendidos por ano.
Embora não haja registro oficial do faturamento exato, o volume de vendas já colocava os Dzler entre os fabricantes mais promissores da Europa na época. Um resultado extraordinário para uma empresa familiar nascida em um porão. O sucesso era fruto da combinação perfeita entre a mente técnica e obsessiva de AD e o faro comercial de Rud.
Mas nos bastidores, os primeiros atritos começavam a surgir. Diferenças de visão, de temperamento e de ambição lentamente se acumulavam, ainda que ninguém naquele momento pudesse prever o tamanho da ruptura que viria pela frente. Por enquanto, os irmãos Dasler caminhavam juntos e estavam prestes a colocar seu nome na história do esporte mundial.
[Aplausos] Em meados da década de 1930, a fábrica dos irmãos Dasler já era uma potência regional. Seus calçados dominavam as pistas da Alemanha e começavam a ganhar visibilidade internacional. Mas foi em 1936, nas Olimpíadas de Berlim, que a marca daria o salto mais arriscado e decisivo de sua história até então.
A Alemanha vivia um momento tenso. O governo da época transformava os Jogos Olímpicos em uma vitrine para exaltar sua visão autoritária. Atletas eram escolhidos com base em alinhamento ideológico e qualquer aproximação com estrangeiros era vista com desconfiança.
Mesmo assim, Ad Dasler não hesitou em fazer algo que ninguém ousaria naquele contexto. Oferecer seus calçados a um atleta negro americano, bem no centro do país, sob controle do regime. O nome dele era Jess Owens, um velocista norte-americano, filho de agricultores pobres, que contrariava tudo o que o governo da época tentava exibir ao mundo.
Quando Jessie chegou à Alemanha com a delegação dos Estados Unidos, foi surpreendido por uma visita incomum. Addas Dasler o procurou pessoalmente na vila olímpica, carregando nas mãos um par dos seus melhores tênis de spikes. Não havia contrato nem promessas, apenas a convicção de que seus calçados poderiam ajudar aquele atleta a ir mais longe.
Jess aceitou. Naquele momento, a marca Daszler se tornava uma aliada silenciosa do atleta mais improvável dos jogos. Jess Owens, calçando os tênis da fábrica de Herzogen Aurak, venceu quatro provas: 100 m rasos, 200 m, salto em distância e revezamento 4x 100.
quatro medalhas de ouro em plena Berlim, sob os olhos do mundo. Ele não apenas venceu, colocou em cheque toda a narrativa de superioridade que aquele evento tentava sustentar. A vitória de Owen se espalhou como fogo.
As imagens da cerimônia, os registros das corridas, os sorrisos e a bandeira americana tremulando nas arenas lotadas correram o planeta. E em todos esses momentos, lá estavam os tênis dos irmãos Dasler, discretos mas presentes. Para os irmãos, foi uma consagração global.
A fábrica, até então conhecida por atender atletas alemães, passou a ser reconhecida mundialmente. Representantes de outros países começaram a escrever cartas, fazer encomendas, pedir parcerias. As vendas dispararam.
Foi a primeira vez que os Dasler receberam encomendas internacionais em larga escala, com pedidos vindos de diversos continentes. O sucesso nas Olimpíadas de 1936 transformou a marca em um fenômeno global espontâneo, sem qualquer investimento em propaganda. Pela primeira vez, os Dasler exportaram seus produtos para fora da Alemanha.
Apesar da glória, o gesto de AD também plantou uma semente de tensão silenciosa. Rud, mais alinhado com o clima político da época, viu a aproximação do irmão com atletas estrangeiros, especialmente com Jess Owens, como imprudente. AD, por outro lado, acreditava que a performance no esporte estava acima de qualquer política.
A partir dali, o contraste entre os dois irmãos começou a ficar mais visível. Enquanto um via o futuro na expansão global, o outro enxergava riscos e ameaças internas. Mas naquele verão de 1936, o mundo não viu os conflitos.
Viu apenas o brilho das medalhas e a qualidade de um tênis alemão que havia corrido rumo ao ouro com Jess. Essa vitória colocaria os Dasler no mapa mundial, mas também acenderia o Estopim de uma rivalidade que transformaria dois irmãos em inimigos mortais, arrastando toda a família para dentro do conflito. [Aplausos] [Música] Depois das Olimpíadas de 1936, a fábrica dos irmãos Dasler viveu seu auge.
Os calçados criados por AD estavam nos pés de atletas do mundo inteiro. Rud expandia as vendas com talento, mas por trás do crescimento, a relação entre os dois já começava a se desgastar. O que era apenas tensão viraria conflito aberto com a chegada da guerra.
Na Alemanha daquele tempo, era comum que empresários se filiassem ao partido que estava no poder como forma de proteger seus negócios. Rud e AD seguiram esse caminho, mas havia uma diferença clara. Rud era mais próximo da ideologia dominante, enquanto AD mantinha o foco nos produtos e se mantinha reservado.
Participava de atividades locais voltadas à juventude, mas sem envolvimento político direto. Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o governo determinou que as fábricas civis apoiassem diretamente o esforço militar. A Gebruder Das Dzler Schuabrick foi obrigada a interromper a produção de tênis esportivos e passou a fabricar botas, mochilas para soldados e até engrenagens metálicas para tanques de guerra.
O faturamento da empresa cresceu de forma expressiva, mas as custas de vínculos que mais tarde manchariam sua reputação. Dentro de casa, a tensão aumentava. Eles moravam sob o mesmo teto com suas famílias e os conflitos entre as esposas se tornavam cada vez mais frequentes.
As brigas, antes pequenas, começaram a criar um ambiente tenso e pesado. Um episódio em especial marcou o início da ruptura. Durante um bombardeio, as sirenes tocaram na cidade e todos correram para o porão.
Ad e sua esposa chegaram por último. E ao encontrar Rud e sua esposa já abrigados, Ad murmurou: "Os bastardos estão de volta. " Rud acreditou que aquilo era uma provocação direta.
Nunca mais esqueceu aquelas palavras. A partir dali, tudo mudou. Rud passou a desconfiar de cada decisão do irmão.
Em 1943, foi convocado pelo exército alemão e enviado para a Frente Oriental. Antes de partir, tentou deixar sua esposa responsável pela fábrica, mas recusou, alegando que a produção exigia conhecimento técnico. Para Rud, aquilo foi mais do que uma negativa.
Foi uma manobra do irmão para assumir o controle total da empresa. Durante o serviço militar, Rud acabou sendo preso pelos próprios alemães, acusado de deserção. Para Rud, aquilo era mais do que um mal entendido militar.
preso, isolado, longe da fábrica e sem voz nas decisões, ele passou semanas sob investigação e, no silêncio daquela cela começou a acreditar no pior, que seu próprio irmão poderia estar por trás da denúncia. Enquanto isso, AD manteve a fábrica operando para os militares. Em 1945, com o avanço dos aliados, o destino da empresa ficou por um fio.
Muitas fábricas foram destruídas, mas a dos Dasler foi poupada. O motivo? Alguns soldados americanos reconheceram o nome.
Era a mesma marca que Jessie Owens havia usado nas Olimpíadas de Berlim para vencer quatro medalhas de ouro. Para os americanos, aqueles tênis não eram apenas bons. Representavam uma história que tinha desafiado o regime que agora caía.
A fábrica sobreviveu, mas o que existia entre os irmãos já estava em ruínas. Quando Rud foi libertado alguns meses depois da prisão, a Alemanha estava devastada e a tensão entre os irmãos já era quase insuportável, mas o pior ainda estava por vir. Pouco depois do fim da guerra, Rud foi novamente preso, agora pelos soldados americanos que ocupavam a região.
A acusação era grave, envolvimento com atividades militares durante o regime anterior. Embora milhões de alemães tenham servido nas Forças Armadas, o que pesava contra Rud era seu papel como empresário. Ele havia lucrado com contratos militares, era filiado ao partido da época e havia indícios de participação ativa no governo.
Para os aliados, isso bastava para colocá-lo sob investigação num processo que buscava responsabilizar figuras civis que se beneficiaram do regime vigente durante a guerra. Para Rude, aquela prisão parecia apenas a confirmação de uma suspeita antiga. A cada golpe do destino, ele acreditava mais que o próprio irmão estava por trás de tudo, silencioso, mas implacável.
Após quase um ano de interrogatórios, foi solto, mas já não era o mesmo. O ressentimento o queimava por dentro e o desejo de deixar o irmão para trás e recomeçar do zero sozinho já parecia inevitável. Por outro lado, AD seguia à frente da fábrica, agora sob vigilância dos aliados.
Com o apoio dos militares americanos, AD manteve a produção, operando para as novas demandas do pós-guerra. A associação com Jessie Owens transformava a marca em símbolo de resistência e a fábrica passou a receber encomendas dos aliados, garantindo sua sobrevivência financeira em um período em que a maioria das empresas alemãs afundavem dívidas. Mas nem mesmo o sucesso conseguia apagar a dor silenciosa que AD carregava.
Durante a guerra, ele havia perdido um de seus filhos no fronte. Uma tragédia que jamais superou. Raramente Ad falava sobre isso.
Para ele, manter a fábrica viva parecia a única forma de seguir respirando. Enquanto Rud alimentava sua raiva, Ad vivia com uma dor que nem o tempo, nem o trabalho conseguiam curar. E do lado de Rud, as coisas estavam só piorando.
Ele estava afastado dos negócios com o nome manchado. Pior, acreditava estar sendo sabotado por alguém da própria família. E para piorar, boatos sombrios circulavam pela cidade.
Um deles, jamais confirmado, dizia que Rud teria se envolvido com a esposa de AD, uma fofoca destrutiva que aprofundava o abismo entre os dois. AD nunca comentou o assunto, mas o clima entre as famílias era insustentável. Pais, filhos, cunhadas, sobrinhos, todos mergulhados num ambiente tóxico.
A fundação emocional da família Dustler estava completamente destruída. Entre Ad e Rud, não havia mais conversa nem retorno possível. A sociedade que havia unido técnica e carisma, inovação e estratégia estava agora despedaçada por dentro.
O império que construíram juntos sobreviveu à guerra, mas agora estava prestes a ser dividido até o último tijolo. [Aplausos] Depois de anos de desconfianças, mágoas e tragédias, a ruptura se tornou oficial. Em 1948, Ad e Rud Dasler dividiram a empresa e com ela também a cidade, as famílias e até os amigos.
Nasciam ali duas marcas que mudariam para sempre a história do esporte. AD ficou com a parte mais valiosa, o setor de produção, o maquinário e boa parte dos funcionários mais experientes. Era onde ele sempre esteve, entre agulhas, tecidos, borracha e inovações.
Rud ficou com o prédio administrativo e precisou recomeçar do zero no que mais lhe faltava, produção. A divisão foi tensa e desequilibrada, e a dor de ver o irmão sair na frente só aumentou a rivalidade. AD batizou sua nova empresa de Adidas, uma combinação de AD e Daszler, simples, direto, com a assinatura de quem sabia costurar performance e estratégia.
Rud, por sua vez, tentou usar o nome Ruda, de Rudolf Dasler, mas logo percebeu que não soava esportivo. Queria algo que passasse força, velocidade e impacto. E assim nasceu a Puma, nome curto, agressivo e com cara de competição.
Mas a separação não ficou só no papel. A cidade de Herzogenaur, antes Pacata, virou um campo de batalha silencioso. Um rio dividia os dois lados e em cada margem uma marca dominava.
De um lado a Adidas, do outro a Puma. Em pouco tempo, a cidade inteira se polarizou. Cada bar, cada escola, cada açougaria passou a ter sua preferência.
Havia famílias que cortaram relações por lealdade à marca errada. Até casamentos chegaram ao fim por causa da rivalidade. As pessoas passaram a olhar primeiro para os sapatos antes de dar bom dia.
O apelido da cidade mudou. Herzogenurak passou a ser conhecida como a cidade dos pescoços tortos, porque todo mundo vivia espiando os tênis uns dos outros. Até o prefeito passou a usar um pé de cada marca, Adidas em um, Puma no outro, para não tomar partido.
Os dois irmãos jamais voltaram a se falar. E foi nessa tensão que em 1954, AD deu um golpe de mestre. A seleção da Alemanha precisava de um diferencial para enfrentar a favorita Hungria na final da Copa do Mundo.
Foi então que a Adidas apresentou um modelo de chuteira com travas removíveis. Uma novidade que permitia adaptar os calçados ao gramado encharcado da final. Isso gerou um efeito imediato.
As vendas da marca explodiram e transformaram AD em herói nacional. A empresa entrou em um ciclo de crescimento tão acelerado que mal conseguia atender a demanda. A Alemanha venceu por 3 a 2, um resultado que ninguém esperava.
Era o fim do domínio húngaro no futebol mundial e o início da reconstrução do orgulho alemão no pós-guerra. O país inteiro comemorou. E no meio daquela vitória nacional, o nome de Adler apareceu como um dos responsáveis.
A imprensa chamou de O milagre de Berna. E a Adidas virou símbolo de superação, enquanto a Puma do outro lado do rio assistia calada à consagração do rival. AD virou herói nacional.
Rud ficou para trás e a guerra entre os irmãos, que já era pessoal, agora ganhava palco mundial. [Música] [Aplausos] [Música] Nos anos seguintes à divisão, Adidas e Puma mergulharam em uma guerra comercial implacável. As ruas de Herzogenaurar continuavam divididas, mas agora o embate tomava proporções globais.
Nos bastidores surgem rumores explosivos. Durante as olimpíadas de Melbourne, em 1956, a Adidas teria subornado autoridades alfandegárias para bloquear um carregamento da Puma. Nada foi provado, mas o fato é que a partir dali as duas marcas passaram a travar batalhas não apenas no mercado, mas também no submundo do esporte.
Na década de 1960, o conflito entre os Dasler ganhou novos protagonistas. Os filhos dos fundadores passaram a assumir papéis cada vez mais centrais dentro das empresas. Com a saúde dos patriarcas já fragilizada e o peso da idade se impond e Rud começaram a se afastar gradualmente da gestão direta dos negócios, entregando aos filhos o poder de decisão nas disputas comerciais.
Do lado da Adidas surgia Horst Das, o filho visionário de AD. Em 1963, com apenas 27 anos, ele havia fundado a Adidas França como parte da expansão internacional da marca e com talento em comum para os jogos de influência, criou o sistema moderno de patrocínio esportivo internacional. Horst passou a negociar diretamente com as maiores instituições do esporte, COI, FIFA, UEFA.
era o arquiteto silencioso de um império. Inteligente, diplomático e estratégico, Horst transformou a Adidas em sinônimo de prestígio institucional. Do lado da Puma, Armin Dler, filho de Rud, também assumia as rédias.
Menos político, mas agressivo no marketing e nas negociações, Armin buscava levar a marca do pai a novos patamares. A rivalidade entre os irmãos havia sido herdada. Agora em forma de concorrência mundial.
No fim dos anos 1960, as tensões cresceram com o nome de um único homem, Pelé, o jogador mais famoso do planeta. O valor de sua imagem era incalculável. Horst e Armin, percebendo o risco de uma guerra de lances milionários, firmaram um pacto de não agressão, um acordo verbal e sigiloso.
Nenhuma das marcas tentaria patrocinar Pelé. Mas em 1970 esse pacto foi quebrado. Pouco antes de uma das partidas do Brasil na Copa do Mundo do México, Pelé se aproxima da linha lateral e sinaliza para o árbitro diante das câmeras do mundo inteiro, abaixa-se calmamente e por longos segundos amarra os cadarços da chuteira.
Uma puma novinha com o logo perfeitamente visível em destaque mundial. Era um golpe de mestre, uma jogada milimetricamente ensaiada, paga em segredo por Armin Dustler. A operação teve um custo alto.
A Puma desembolsou mais de 125. 000 americanos para garantir o contrato com Pelé, uma das maiores cifras já pagas a um atleta até então. Mas o retorno foi imediato, as vendas explodiram e a imagem do camisa 10 amarrando os cadarços se tornou um ícone.
A Puma conquistava o mundo e cravava seu nome na história do marketing esportivo. Para Adidas, o BAC foi profundo. Horst se sentiu traído.
guerra que já era fria e comercial, agora se tornava pessoal e irreversível. O pacto entre os filhos havia ruído e com ele qualquer chance de reconciliação entre as duas famílias. Nos anos seguintes, as empresas seguiram trajetórias paralelas, cada vez mais distantes.
A Puma se tornava símbolo de rebeldia e atitude. A Adidas de tradição e poder institucional. Mas em meio à ascensão das marcas, os fundadores enfrentavam o fim.
Em 1974, morre Rudolp Dasler, o criador da Puma. 4 anos depois, em 1978, morre Adolf Dler, o pai da Adidas. Ambos foram enterrados no mesmo cemitério da cidade, onde tudo começou, em extremos opostos, como se até na morte a rivalidade ainda exigisse distância.
E assim chegava ao fim a era dos irmãos Dasler. Mas a guerra entre suas marcas estava apenas começando. [Música] [Aplausos] [Música] Com a morte dos fundadores, uma nova era começou, mas não foi fácil.
Nos anos 1980, tanto Adidas quanto Puma enfrentaram uma crise profunda. Os custos com patrocínios milionários dispararam, especialmente no futebol e no atletismo. As duas empresas, agora lideradas por executivos e herdeiros, gastavam mais do que arrecadavam.
O foco estratégico se perdeu. Era o começo da decadência. O mercado mudou.
Novos concorrentes surgiram. A Nike crescia com força nos Estados Unidos. Marcas asiáticas invadiam a Europa com preços mais baixos e a imagem das empresas dos Dasler parecia parada no tempo.
A Puma, sem rumo claro, acumulava dívidas e perdia espaço nas prateleiras. A Adidas, por outro lado, se tornava um gigante lento, burocrático e desconectado dos jovens. Entre 1989 e 1993, ambas as marcas foram vendidas a investidores.
Era o fim da era familiar. Agora, Adidas e Puma pertenciam ao mercado e precisavam se reinventar ou desaparecer. A Adidas encontrou seu novo comandante, Robert Louis Drfus, um empresário franco-síço com visão estratégica e agressividade calculada.
Ele modernizou a gestão, simplificou as operações e, mais importante, reconectou a marca ao universo das grandes estrelas. Sob sua liderança, a Adidas firmou contratos com nomes como David Beckham e Kobe Bryant, duas estrelas que ajudaram a reposicionar a marca diante de um novo público. Em 2001, após a saída de Louis Drfus, quem assumiu o comando da Adidas foi Herbert Heiner, um executivo alemão que daria continuidade ao processo de expansão global da empresa.
E foi sob a liderança de Heiner que em 2005 a Adidas comprou a americana Ribok por 3,8 bilhões de dólares. Uma jogada estratégica que consolidou o grupo como um dos maiores do mundo no setor esportivo. Mais tarde, a Adidas firmou uma das parcerias mais lucrativas da história com o artista West, lançando a linha Yey.
A coleção virou febre, estilo, exclusividade e desejo, que em pouco tempo se tornou uma marca bilionária por si só, posicionando a Adidas na interseção entre moda e cultura pop. Mas mesmo no auge da transformação comercial, algo mais silencioso e nobre havia sido plantado anos antes. Antes de sua morte, Adler criou a Adidas Sport Stifton, uma fundação dedicada a apoiar jovens atletas promissores.
Um gesto de impacto social que quase ninguém conhece, mas que carrega a essência original da marca, desenvolver talento através do esporte. Do outro lado do rio, a Puma também precisava de um novo rumo. Em 1993, o comando foi entregue a Yorkenides, um jovem executivo alemão com apenas 30 anos que se tornaria o CEO mais jovem da história da bolsa de valores da Alemanha.
Zeit sabia que não podia competir com a Adidas em tradição, então fez o oposto. Enxugou custos, fechou fábricas deficitárias, modernizou a gestão. Em vez de apenas esporte, ele mirou cultura, música, moda.
A Puma entrou com tudo na Fórmula 1, patrocinando escuderias e pilotos. Em seguida, fez colaborações inesperadas. Alexander McQueen, um dos maiores estilistas da época, e depois Rihanna, ícone global da moda e da música.
A marca se reposicionou como fashion, ousada e provocadora. de símbolo esportivo, passou a ser símbolo de atitude. Era o renascimento.
Entre erros e acertos, perdas e reviravoltas, as duas marcas fundadas por dois irmãos em guerra estavam de volta, diferentes, mais fortes e preparadas para o século XX. Dois irmãos pobres que criaram juntos um império e depois o dividiram com as próprias mãos, que jamais voltaram a se falar. Mas mesmo assim deixaram um legado que atravessou gerações, guerras, escândalos, reinvenções e bilhões de pares vendidos.
Hoje, suas marcas continuam correndo o mundo, separadas por um rio, unidas por uma história impossível de esquecer. E se você quiser conhecer outras histórias como essa, é só clicar na imagem que está aparecendo na sua tela. Te vejo lá.
Ah.