Não há de ser forte. Há de ser flexível. Provérbio chinês ♪ ♪ Diz o ditado que a árvore que tem o tronco mais duro é aquela que o vento quebra com mais facilidade.
Já o salgueiro e o bambu, por dobrarem junto com o vento, resistem à mais forte das tempestades. Dizem também que a parte mais divertida das regras está em torcê-las e quebrá-las. Eu não sei se é verdade, mas uma coisa é certa: os estudantes em Salvador e no Rio de Janeiro se divertiram bastante nas aulas de Educação Física.
A palavra chave que liga os dois vídeos de práticas desta unidade é flexibilização. Uma aula de Educação Física será realmente inclusiva se a participação de todas e todos for garantida. Uma das melhores ferramentas no seu arsenal para fazer com que as várias demandas sejam atendidas, para fazer com que as múltiplas necessidades sejam levadas em consideração, para fazer com que as diferenças sejam respeitadas é a flexibilização de regras e de recursos para a construção de atividades.
Lembrando que a flexibilização deve ser seguida por todos os estudantes e não apenas os estudantes com deficiência, principalmente em relação à flexibilização das regras. Quando falamos em recursos nos referimos aos meios e modos necessários para o desenvolvimento de uma atividade de Educação Física. Podem ser os equipamentos esportivos, infraestrutura espacial, equipe de apoio, intérprete de LIBRAS, entre outros de uma longa lista de possibilidades.
O circuito de atletismo na Escola Nossa Senhora dos Anjos, em Salvador, nos traz bons exemplos de flexibilização de recursos de regras também, mas falaremos um pouco sobre isso adiante. Algo muito interessante de se notar é que a atividade foi desenvolvida a partir da comoção que gerou um evento como as Olimpíadas. É fácil compreender, não?
Um evento desse porte chama a atenção de todo mundo. De repente temos contato com esportes com os quais não tínhamos familiaridade; as vitórias, derrotas, recordes, histórias de superação, as grandiosas demonstrações de espírito esportivo vão tomando os assuntos e os ânimos, algumas aulas são interrompidas para que assistamos a esta ou aquela modalidade, até que as Olimpíadas se tornam o assunto mais falado, comentado e discutido na escola. Em diversas aulas ao longo do curso, neste e em outros módulos, você encontra a discussão sobre a importância de a Educação Física escolar romper com o princípio que privilegia o mais forte, o mais hábil, o mais ágil, o mais veloz.
Não são só as crianças e jovens com deficiência que não se encaixam nesse padrão. Nós podemos falar dos estudantes com obesidade, por exemplo, mas a verdade é que a maioria das pessoas, na maior parte de suas vidas, não se encaixa na prática de esportes de alto rendimento. O mais interessante mesmo é que a Ana Cláudia, professora de Educação Física da escola Nossa Senhora dos Anjos, utilizou o tema das Olimpíadas para desenvolver uma atividade na escola que todo mundo pode participar.
O circuito de atletismo foi escolhido, inclusive, porque a professora avaliou que ele era o mais adequado para incluir diferentes demandas, como baixa visão, redução de mobilidade, porque são várias atividades acontecendo de maneira simultânea. E pra montar o circuito, ela usou o material disponível ali na escola. Existem alguns cones, mas a maioria das atividades usa barbante, garrafa, bambolê.
Não foi necessário construir de fato um circuito de atletismo na escola, mas com a flexibilização dos recursos de um lado, e das regras por outro, mais a importante parceria entre a professora de Educação Física e o professor do atendimento educacional especializado, e por fim com um bom aproveitamento do planejamento conjunto, foi criada uma atividade inclusiva muito rica, que atraiu as crianças, que se engajaram e se divertiram. Quanto às regras, bom… As regras são um conjunto de diretrizes, normas e procedimentos que definem os objetivos, as permissões e as restrições de cada modalidade esportiva. Elas definem, inclusive, o comportamento que se espera dos participantes.
Assim, não se espera que em um jogo de futebol, os jogadores joguem de mãos dadas organizados em linhas, nem em um jogo de handebol se espera que os jogadores joguem sentados no chão. Entretanto, foi justamente assim que a professora Elizabeth passou a organizar os jogos de futebol em suas turmas no Rio de Janeiro. O futebol é o esporte mais popular no Brasil, e ainda é um esporte muito associado ao gênero masculino.
Por isso, não é de se estranhar que os meninos cheguem na aula de Educação Física pedindo, querendo jogar futebol. O totó humano é uma ideia engenhosa: a professora Elizabeth não se colocou contra essa vontade. Pelo contrário, ela a aproveitou, mas desenvolveu uma forma que todo mundo, pessoas com e sem deficiência, meninos e meninas, pudessem jogar juntos.
De fato, quando o jogo foi criado, os objetivos eram que meninas e meninos jogassem juntos, e que ninguém ficasse parado, no banco, olhando sem jogar. Vemos os resultados no desenvolvimento da Camilly e do Huendell, estudantes da escola Tasso da Silveira. O Huendell era inicialmente um estudante que tinha medo da bola, que se retraía quando ela ia na direção dele, e ele passou a interagir, jogar, participar, passar, fazer gol.
O crescimento dele surpreendeu a própria mãe. Ele se tornou mais consciente do próprio processo de aprendizagem. E a fala da Camilly, é irretocável: ela se sente ao mesmo tempo se divertindo, aprendendo, expandindo os horizontes, aprendendo a respeitar as diferenças.
Essa é a fala de uma estudante que se sente incluída. Nós usamos a atividade da escola Nossa Senhora dos Anjos como exemplo de flexibilização de recursos e a atividade da Tasso da Silveira como exemplo de flexibilização de regras. É importante entender que essa separação foi sobretudo por fins didáticos.
Se pararmos para analisar ainda mais detidamente, encontraremos exemplos de flexibilização de recursos e de regras nos dois exemplos. Mais do que grandes campos estanques, a flexibilização é um contínuo, que vai de nenhuma ou poucas alterações em recursos e regras originais até modificações intensas em ambos. É preciso ter em mente que a flexibilização de regras e de recursos é, sobretudo, estratégia de procedimento para promover a participação de todos.
Cabe ao professor sempre avaliar e decidir, de acordo com as demandas de seus estudantes. Tanto a professora Ana Cláudia quanto a professora Elizabeth desenvolveram suas atividades ao longo de certo período de tempo: testaram antes, aprenderam a partir das colocações, conhecimentos e experiências dos estudantes, construíram pacientemente as etapas. Cada passo é importante, quando o horizonte final é a inclusão de todos.
Os exemplos apontam para a oportunidade que os alunos tiveram de participar de atividades “modificadas” mas é preciso que os estudantes possam, em uma aula de Educação Física compreender que as condições de participação em atividades na escola, na sociedade e nas olímpiadas são diversas, além disso, que saibam que na escola diferentes condições devem ser dadas justamente por sermos diferentes.