Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Meus queridos irmãos e irmãs, com grande alegria celebramos hoje a memória de Santa Mônica, a grande Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho.
Todo o mundo conhece a história de Santa Mônica. A história dela começa com um grande erro, uma grande barbeiragem, ou seja, na época de Santa Mônica, quando uma pessoa, depois que a pessoa era batizada, quando ela cometia um pecado mortal, para voltar ao estado de graça, ou seja, para receber o perdão através do sacramento da confissão, a pessoa tinha que passar por longos anos de penitência. Acontece que essa penitência, que era necessária antes de receber a absolvição dos pecados, assustava muita gente.
As pessoas diziam: “Não, pelo amor de Deus, eu não aguento isso”. Então, as pessoas começaram a ter o costume muito ruim de adiar o batismo para ser batizadas na hora da morte. Por quê?
Porque, claro, o batismo perdoa os pecados e não precisa de penitência. A confissão precisava de uma longa penitência antes de receber a absolvição. Então, por isso, com esse raciocínio carnal, Santa Mônica, que ainda não era Santa Mônica, era Mônica, mas não era Santa Mônica, quando Santo Agostinho nasceu, ela não o batizou, simplesmente inscreveu Agostinho na lista dos catecúmenos, e assim Santo Agostinho ficou sem batismo, e ali começou a “historia calamitatum” de Santo Agostinho.
Santo Agostinho, sem a graça, se perdeu. Primeiro, era um menino inteligente, começou a estudar e, claro, o que dava dinheiro na época? O que dava dinheiro na época era você ser marqueteiro, era uma mistura de marqueteiro com advogado, aquilo que na época se chamava de “retor”, ou seja, era o orador que defendia causas em tribunais, mas também que fazia discursos para promover algumas ideias.
Pois bem, Santo Agostinho começou a sua carreira e foi para uma vida de pecado. Santa Mônica viu o erro que ela tinha cometido. O seu filho era um pagão, depois adotou a heresia maniqueia, depois de herege maniqueu ele ainda foi para a filosofia neoplatônica.
Assim foi Agostinho de calamidade em calamidade, entregando-se a relacionamentos carnais impuros, até que teve um filho, Adeodato. Santa Mônica não cessou de rezar e pedir a Deus pela conversão do seu filho. O resumo de toda a história de Santa Mônica pedindo pela conversão de Santo Agostinho está na famosa frase de Santo Ambrósio, que, olhando para a intercessão e o coração amoroso de Santa Mônica, quando ele viu a conversão de Santo Agostinho, Santo Ambrósio disse: “Um filho de tantas lágrimas não podia se perder”.
Aqui a vitória do poder da intercessão, da entrega, o poder verdadeiramente daquela que se oferece como vítima para a salvação do próprio filho! Na vida de Santa Mônica, que todo o mundo já conhece, nós temos um grande mistério da história da Igreja. Eu poderia aqui resumir esse mistério numa expressão.
Você vai entender. Já, já eu explico. É “o mistério da mulher”.
O que é o mistério da mulher? O mistério da mulher é o mistério de Nossa Senhora. Nossa Senhora, corredentora; Nossa Senhora, que, aos pés da cruz, se oferece junto com o seu Filho sacerdote; Nossa Senhora, que, depois de Jesus subir aos céus, fica aqui na terra… Você já parou para se perguntar por que Jesus não levou Nossa Senhora junto com Ele?
Ele amava tanto a Mãe. Ele subiu aos céus. Nossa Senhora podia subir junto.
Afinal, ela estava destinada também a subir aos céus. Jesus, no dia de sua ascensão, podia já ter feito a assunção de Nossa Senhora. Mas não: Nossa Senhora ficou aqui e ficou aqui por longos anos.
Por quê? O mistério da mulher! Ela precisava ficar aqui porque os Apóstolos, que partiam em missão, precisavam que alguém merecesse, ou seja, através da oração, através do sacrifício, através da entrega, eles precisavam que alguém merecesse as graças que eles iriam conquistar pela sua evangelização.
Vejam, esse é o mistério da Igreja. Muita gente chega e diz assim: “Ah, é uma injustiça que as mulheres não sejam ordenadas sacerdotes”. Bom, é “compreensível”: esse povo perdeu a noção do que é a cruz, eles não entendem que o sacerdote oferece o sacrifício da cruz no Calvário, como Jesus, ao celebrar a Missa; mas também não entendem que é necessário que haja mulheres na Igreja que ofereçam o sacrifício da corredenção, como Maria aos pés da cruz.
É por isso que, por exemplo, Santa Teresa d’Ávila, no século XVI, quando viu os grandes males que sofriam os homens do seu tempo (metade da Europa tinha-se perdido para a heresia protestante), ao ver tantas almas se precipitarem no inferno, ao ver os males de um continente inteiro, continente americano que acabara de ser descoberto, com almas de pagãos, pessoas que precisavam ser convertidas, ela diz assim: “Diante de tantos males, o que poderia eu fazer? ” Ela então resolve reformar o Carmelo. Ela se reúne com suas doze companheiras no Carmelo de São José para se oferecer, e é assim, nesse oferecimento de amor, nessa oração, que a mulher realiza o seu “sacerdócio”, o sacerdócio de intercessão, o sacerdócio de oferecimento, o sacerdócio de amor através de cujas orações ela mereceu que tantos missionários santos entregassem e dessem a vida.
Eu não tenho dúvida nenhuma de que toda a evangelização que foi feita aqui no Brasil por São José de Anchieta aconteceu porque Teresa d’Ávila estava lá no Carmelo rezando pelos evangelizadores nas Américas. É assim que Santa Mônica encarna, digamos assim, o mistério da mulher. Você, no dia a dia, na sua família… Quem de nós duvida que a salvação de milhões de almas pende exatamente das orações de muitas mães e de muitas avós?
Os calos nos joelhos das mães e das avós, o Rosário na mão de tantas mães, de tantas avós, de tantas mulheres, de tantas esposas, de tantas filhas que rezam, rezam pela conversão de seus maridos, de seus filhos, de seus netos! Meus queridos, esse é o mistério da mulher. Santa Mônica nos dá a ocasião de refletir sobre essa vocação extraordinária da mulher: de serem corredentoras.
De tal forma que eu sempre brinco com as irmãs do Carmelo e digo assim: “Olhe, eu, como padre, sou muito pouco. Eu só sou o carteiro que entrega as graças, porque quem merece essas graças são vocês aí atrás das grades da clausura. Vocês vão merecendo as graças, e eu vou entregando”.
É claro que eu digo isso, mas todo sacerdote também deve se oferecer, todo sacerdote também deve ser sacerdote e vítima, mas é só para salientar e mostrar que existe um mistério de amor nesse “sacerdócio” extraordinário que Deus escolheu para as mulheres, grandes intercessoras, grandes oferendas de amor pela salvação do mundo inteiro, como a Virgem Maria, como Santa Mônica. Deus abençoe você. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Amém.