Um professor de ciências acorda em uma espaçonave, anos luz de casa, sem memória, sem saber quem é, como chegou até ali. E à medida que a sua memória vai retornando, ele também começa a entender a sua missão. Sua missão é desvendar a misteriosa substância que está causando a morte do sol.
Mas ele não tá sozinho, tá? Tem outro ser nessa jornada, um alienígena com quem ele vai ter que colaborar e quem sabe salvar tanto a Terra quanto Eridane, o planeta desse seu amigo. Essa é a sinopse de D devoradores e estrelas, filme adaptado do livro de mesmo nome escrito por Ander.
Isso o livro, né, porque no cinema o roteiro é de Drodar de Perdida em Marte. E a direção fica por conta de Phil Lord e Christopher Miller, dupla responsável, entre outras coisas, por Homem-Aranha no Aranha verso. No elo principal nós temos Ryan Goslin e Sandra Hiller, ganhadora do Oscar.
Eu posso estar sendo bobo, mas eu acredito genuinamente que o cinema ele ainda tem um fio de capacidade de mudar ou de influenciar uma geração que não seja mudar. pelo menos de influenciar. Eu sei que isso acontece cada vez menos, mas isso não impede que os filmes continuem tentando.
Isso não impede que um certo otimismo aqui e acular ainda tenha o seu valor. E eu diria que muito mais do que qualquer questão técnica. Esse me parece o primeiro grande acerto da adaptação de devoradores de estrelas pro cinema.
O filme ele aborda o complexo com muita leveza. Ele faz isso como se fosse um professor de colégio, como no caso é o protagonista no início da história, né? Ele trata de temas complexos, tanto científicos quanto humanos, com um cuidado muito grande, um cuidado de nos fazer entender sem cair no piegas, mas eu acho que mais do que entender é de nos fazer gostar daquilo.
Ainda que a gente não entenda, ainda que não dê para absorver tudo, eu acho que ele faz a gente gostar daquilo. Existe um equilíbrio muito raro entre o simples e o profundo, o pragmático e o humano, digamos assim. Eu acho que o filme ele consegue encontrar esse ponto.
Muito bem, lógico, vai abrir mão de algumas questões para isso funcionar. Tem que abrir mão, né? Para essas duas coisas existirem, a comunicação fácil em cima do difícil, né?
Ou a respeito do difícil, lógico, você vai ter que falar um pouco simples. Então, o filme ele abre mão de ser gigante para ser acessível. Eu diria acessível, mas não chulo.
Eu realmente não acredito que devoradores de estrelas é chulo. Não, não, não consigo acreditar. Quase, mas não é.
A primeira cena mostra o Grace, né, o professor Grace ensinando seus alunos e evitando entrar em alguns assuntos polêmicos, mesmo com eles pedindo ali por algum motivo. Ele tá sempre evitando ali, talvez porque sabe da complexidade da coisa e talvez não consiga simplificar, não sei. Mas após a insistência ele cede e explica a tal linha de petróva, que é o problema que tem que ser resolvido mais na frente.
E ele faz isso com uma simplicidade impressionante. Esse mesmo olhar, ele se repete quando ele começa a estudar os astrófagos, né, que são os seres lá e tal. É, é o mesmo olhar dele tratando a ciência de forma muito muito despojada, sabe?
A ponto de, por exemplo, envolver um segurança, muito gente boa, a ponto de envolver um segurança ali no processo científico, assim como o livro. Eu acho que o filme ele defende que a ciência não deve ser um negócio muito distante. Ela precisa sim de um certo isolamento para existir, porque é complexa ali na sua feitura, ela é complexa.
Então, lógico, ela não tem que ser 100% acessível, não, mas ela precisa ser acessível quando passa a ser comunicada. para se propagar, ela pode assumir a forma de um bom professor. E o filme acredita muito nessa abordagem, tanto que faz durante vai uns 90% aqui da sua existência e uns 90% da sua trama.
Disso, surge um acerto muito importante da narrativa, quando parece que tudo vai permanecer sempre na simplicidade, sempre no fácil, vou assim dizer. O filme introduz temas muito mais complicados. Ele faz isso usando de tudo.
Usa de encenação, de fantoch, de explicações diretas, de exemplos, de criação de modelos, enquanto também ele tá demonstrando na prática o poder do mutualismo entre espécies. E na prática, eu digo, não na prática ali da história, na prática de como ele é feito, porque o filme ele vai misturando as duas formas de ver a vida. Ele vai se tornando mais simples enquanto de ereção, a fotografia vai ficando um pouco mais simples, mas quando entra um ser diferente ela se desajusta.
Ela cria um clima mais sombrio, mais soturno, cria uma conexão que é difícil de perceber e depois volta a clarear como se o mutualismo fizesse com que aqueles dois, não só aqueles dois, né, mas com que as duas visões vendessem o filme do jeito que ele é. O foco deixa de ser eh esse esse senso comum de salvar o mundo, que parece que o filme vai tomar esse caminho e passa a ser a vontade incessante dele de falar sobretudo sobre a beleza do processo científico, sabe? Além da capacidade humana, além da capacidade alienígena, inclusive, de resolver problemas por meio da razão e da empatia, eu acho que ele tá interessadíssimo em falar sobre a a maravilha que é o processo científico.
Tem uma tentativa claríssima de afastar a ideia de que ciência e humanismo caminham separados. E eu acho que ele trabalha oposto disso do começo ao fim. E muito bem, diga isso de passagem.
O filme ele se aproxima mais do otimismo do perdido em Marte, se distancia do tom meio pedante de algumas ficções científicas, prefere ser leve e ainda se permite um aprofundamento. E talvez por isso ele seja tão longo, porque ele precisa passear por diferentes contextos. Ele começa no senso comum da missão de salvar o mundo, passa pelo pragmatismo de resolver um problema concreto, mergulha do sentimental quando o rock entra em cena, retorna ao pragmatismo e ao final une tudo isso.
E essa duração também vem da necessidade constante de ficar mergulhando e emergindo, mergulhando e emergindo, transitando entre níveis diferentes de leitura sobre o mesmo assunto. Perceba como o filme explica a mesma coisa de várias maneiras. um de uma maneira verbal de fato, dois através da relação dele com o rock e três através da sua própria narrativa.
[música] E aí chegamos talvez ao grande responsável por todo esse climão que é o roteiro do Drgard, que também adaptou perdido em Marte. Ele usa muito bem a amnésia do Grace, né, a amnésia do protagonista para construir a narrativa ao entrelaçar duas tramas igualmente interessantes, embora distintas. Ou seja, a própria montagem do filme também brinca com essa ideia de um mutualismo de coisas diferentes.
O personagem, o protagonista é diferente dos dois lados. De um lado, a gente vai descobrindo a missão, os seus perigos, as suas implicações. Do outro a gente conhece o próprio protagonista, seus medos, seus anseios, suas motivações.
É bem diferente do sujeito que tá do outro lado. O filme também funciona bem quando sugere que e Grace ele é movido mais pela ciência em si do que por um ideal abstrato de humanidade. Eu diria que de um um abstrato de messianismo até.
E ao mesmo tempo é justamente a ciência que revela o seu lado mais humano, sobretudo quando entra em cena o rock, né, o seu personagem aí, o seu, o seu quaduvante não dão quaduvante assim, digamos, né? Para essas duas percepções do personagem funcionário, a montagem precisa ficar lá e cá. E eu acho que o filme equilibra isso muito bem.
É muito curioso como eu pensava enquanto assistia. Ah, eu acho que tô começando a ficar um pouco cansado desse flashback. Pronto, vamos pro presente.
Acho que o presente tá começando a a ficar repetitivo. Flashback. Perfeito.
Em certo momento a gente tá tão perdido quanto Grace. No outro momento a gente tá descobrindo tudo e ao mesmo tempo também que o problema acontece. Ele se descobre e nós descobrimos juntos.
Por isso que é interessante esses dois lados do filme. A montagem nos permite compreender cada decisão que ele vai tomando e principalmente a construção da sua relação com rock. Porque essa construção, acredite, começa no passado, quando Grace nem acreditava em nada do que ele estava vivendo.
Ela começa áspera, evolui com cautela e termina tão afetuosa que é impossível se preocupar mais com a terra, com a humanidade do que com esses dois. É, é impossível. É muito bem construído pelo filme.
Muito bem construído. Eu vivo elogiando o Ryan Goslin quando ele faz comédia. Vivo elogiando.
Já elogiei em dois caras legais. Ama esse filme em Ublle, o filme nem é tão bom, mas a atuação dele é muito boa. E também em Barbie, né, ele faz ali um personagem mais cômico e tudo mais.
Ele tem uma comédia muito física, sabe? Ele consegue deixar de lado esse lado mais galã e se entregar ao humor físico. E aqui ele faz de novo.
A diferença é que agora existe uma nuance a mais, porque ele alterna com momentos mais sérios vez outra com momentos mais sérios, mas ele não fica mudando o interruptor. É isso que eu gosto, sabe? É comédia com seriedade, é seriedade com comédia, é tudo bem misturado.
E ele também entrega isso. O lado galã aqui dele é irrelevante. O lado mais cômico é essencial para sustentar a leveza ao mesmo tempo que também funciona pro lado mais dramático acontecer muito bem quando o conflito deixa de ser apenas a missão.
Isso daí quantos filmes já fizeram, né? E passa a ser a relação dele com Rock, que aí sim é onde eu acho que tá o coração do filme, a essência do filme. Gosto muito dessa versão do Ryan Gosman, tá?
Gosto muito. É tão bom quanto o homem cizudo que ele faz lá em Drve e também por não em Blade Run 2049. Tão bom quanto.
Dito tudo isto, é verdade que o filme ele é bastante derivativo. Não tem como não notar isso. Dá para enxergar uma mistura de interestestelar perdida em Marte, ET, a chegada, talvez.
Era esperado, tá? O livro é de 2021. Quando eu li em 2022, eu tive a mesmíssima sensação, mas curioso, é algo que me incomodou no começo e depois não mais.
E eu fiquei me perguntando por o fato deste filme ser derivativo, eu que reclamo tanto de filmes derivativos, por que este não me incomoda tanto? Porque eu acho que ele não se entrega a isso. É porque eu acho que ele usa isso, né?
Ele usa isso, atinge seus caminhos próprios e descamba de uma relação que poucos desses filmes aqui citados têm. que a relação dele com o rock, eu acho que a essência é o próprio rock, sabe? É o próprio personagem rock.
Essa é a essência. Mas vamos lá, ele tem o rigor científico de interestelar, só que de forma mais palpável. Ele traz a ideia de colaboração, de achegada, só que com olhar menos desconfiado em relação à humanidade, menos melodramático também.
De perdido em Marte, vem todo o otimismo, vem essa ideia de alguém eh descobrindo, se descobrindo, na verdade, enquanto faz ciência. E claro, tem um pouco de até nessa relação dele com o alienígena, mas tudo isso descamba em como esse alien muda o humano em questão do que qualquer outra coisa, sabe? Então, por isso que eu acho que esse filme ele sim, é uma colxinha de retalhos, mas ele faz uma colxa tão bonita com esses pedaços, ele pega pedaços reconhecíveis e organiza tudo em algo muito próprio.
Ainda assim, em alguns momentos, pode parecer sim uma colagem de fórmulas de sucesso, mais do que algo genuinamente, totalmente original. Mas ele também parece não se incomodar com isso. Ele até brinca com o interestelar, né?
Quando quando a nave pede para ele gravar o diário de bordo, ele ele se nega. Não, não, isso não. Então eu acho que ele meio que reconhece a montagem, por vezes e eu até flertei com esse ponto já, às vezes parece que não vai conseguir variar o suficiente para justificar a duração dele de 2:40.
Ao mesmo tempo, eu quero todos os micromentos que tem no livro, [risadas] eu quero todos os detalhes, eu quero a escolha da voz do rock, que dica de passagem, é uma excelente adaptação da palavra escrita pra palavra dita, tá? Gostei demais como foi feito, mas eu quero todos esses micromentos dele com a nave, dele entendendo, dele compreendendo, dele descobrindo. Quero, eu quero esses micromentos.
E não tem outro jeito de me entregar esses micromentos se não for, sei lá, alargando o máximo possível essa história. Eu sempre enxerguei essa história muito mais como uma série do que como um filme. Então, eu acho justo ele se alongar em várias pequenezas, digamos assim, mesmo que repetitivas.
Eu nunca vou ver a duração de um filme ou de uma série como um preço alto a ser pago quando uma obra tem algo a dizer. Nunca, nunca vou ver isso como um preço a ser pago. Falando nisso, vamos aos temas, né?
Solidão é o assunto que mais me atravessa, né? Quando eu fiz a leitura do livro e volta a funcionar aqui no filme, Grace acorda sem memória, sozinho no espaço, precisa se reconstruir do zero. E surge daí uma metáfora simples que pergunta: "Quem somos quando somos despidos de tudo que nos definiu até ali.
A resposta é que o contexto nos transforma. Nós somos dependentes do contexto. Nós somos muito mais interessantes do que e e até o nosso passado nos construiu.
O contexto pode nos mudar em certo momento. Quando o GRE está prestes a ir pro espaço, é dito ali pelo qual, né, o o segurança gente boa, é dito que ele já tem o que precisa para ele ser, o que sobra. Isto é, esse esse instinto intelectual, essa curiosidade essencial vende a ideia de que se a identidade mais profunda não tá na memória ou nas estruturas sociais, tá na forma como a gente reage ao desconhecido.
Portanto, no outras palavras, está no intrigante ato de fazer ciência. Olha que tema bacana que o filme traz, né? Eu gosto de como o filme sugere que a solidão ela não é punição, ela é, na verdade, um grande laboratório de si mesmo, sabe?
De si. Se você sujeito, enquanto eu li o livro, eu pensava direto em como a solidão pode gerar uma versão diferente de nós mesmos. A única coisa que nos nos trabalha pr pra companhia é a solidão.
E olha só como esse filme ele entende isso muito bem e leva inclusive ao pé da letra. Outro tema interessante do filme é sobre colaboracionismo, né? O mutualismo, entende?
Como quiser. Eu acredito muito que quando a gente se junta, meu amigo, é é possível até a gente mover a terra de galáxia se a gente se juntar. Infelizmente não é isso que acontece, né?
Eu li o livro durante a pandemia, naquele momento que as vacinas já estavam sendo desenvolvidas em tempo recorde e algumas já estavam sendo aplicadas e e eu fiquei com a sensação muito otimista de que a gente sairia daquele momento sombrio, muito mais atentos à ciência, muito mais respeitosos com o trabalho científico. Não foi o que aconteceu, mas foi o que o livro me fez sentir. E o filme, eu acho que ele recupera esse sentimento.
O trabalho dele é esse, né? É. É.
Se for o caso, é soar ingênuo. Alguns vão chamar de otimismo exagerada, mas ele precisa ser o início de um impulso que talvez alguém precise se agarrar, nem que seja um pouquinho, mas que alguém precise se agarrar. Então ele precisa sim vez o outro ser piega, ser bobo.
Esse mutualismo do filme, essa relação em que duas partes diferentes se beneficiam, cara, isso sempre me pega. E como o filme é montado, né, entre passado e presente se alimentando, também faz, acredito, referência a isso. O humano e o alienígena se transformam mutuamente.
Isto é, a capacidade de criar conexão com o radicalmente diferente é a habilidade mais avançada que existe, mais do que qualquer ciência, mais, muito mais do que qualquer fé. Por isso que o filme ele abre mão de qualquer coisa para no terço final falar dos dois e não tanto assim da missão em si. Eu acho Devoradores de Estrelas um bom filme, tá?
É simples na medida certa, mas ele tem o suficiente para a partir dele e bem mais fundo. Talvez ele seja só o começo da conversa, mas é um excelente começo. E eu acredito que esse é o ponto aqui de devoradores de estrelas.
Simples, porém um bom começo para uma conversa aí sim bem mais complexa. É isso. Muito obrigado por ter chegado até o final desse vídeo.
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