Pois, como a gente começa essa esse essa conversa? Primeiro, por que que tem tanta divisão? Se é bom ou ruim e da onde surgiu tudo isso?
Olha, Vilela, a eu acho que primeiro tem um mito nessa história, né? É como se divisão primeiro fosse uma realidade do mundo religioso exclusivamente e como se isso fosse, vamos assim dizer, uma exclusividade evangélica, né? Então, o que que acontece?
A divisão, a diversidade, ela é fruto do exercício da individualidade e da liberdade. É, quer dizer, onde tem duas pessoas trocando ideia, às vezes o cara sozinho tem ideia diferente que entra em conflito com ele mesmo, né? Ele se divide, né?
Então, então eu conheço algum, conheço alguns que são vários, né? Então, nesse sentido, a diversidade, eh, por exemplo, eu sempre perdoei você por você ser corintiano, a gente continua amigo em mim. Apesar, apesar de, né?
Então você tem diferenças políticas, diferenças ideológicas, diferença filosófica. É claro que no ambiente da fé isso vai acontecer também. Aí o pessoal diz: "Não, mas isso acontece muito eh no contexto evangélico".
Então, aí é falta de conhecimento, porque, por exemplo, você pega qualquer tradição religiosa, eu que tenho bastante proximidade com o ambiente, por exemplo, judaico, meu, tem muitos grupos totalmente diferentes. Só do grupo mais assim ortodoxo, propriamente religioso, você tem 20 eh denominações diferentes internas, fora as outras linhas. Ah, não, mas a a Igreja Católica é uma só, não é?
Você põe um pessoal da TFP junto com Teologia da Libertação e diz: "Ó, troque uma ideia" aí. Não, a abordagem é completamente diferente, as ordens são diferentes. Tem uma galera extremamente progressista, tem outra que acha que quer fazer missa em latim, como o Cardeal Lefevre, tem renovação carismática, tem de tudo em qualquer ambiente é assim.
Então eu acho que, infelizmente, a nossa sociedade não tem maturidade e conhecimento suficiente para aprender a lidar com o lance da diversidade. Isso começa, por Bíblia, quando Jesus tá falando com os discípulos. Os discípulos parece que fizeram um curso nos dias de hoje e viram para Jesus, falam: "Ó, tem uns caras lá que estão falando, senhorando demônio e eles não são do nosso grupo, não são do nosso rótulo".
Aí Jesus falou: "Deixa os cara". É, para com isso. Aquele que não tá falando contra mim tá comigo.
Aquele exclusivismo, né? Então, a gente tem que entender que isso faz parte do processo. Isso sempre existiu, não começou na época da reforma protestante.
A gente vai trocar uma ideia sobre isso aqui. E aí então a gente entende, né, como é que a base desse cenário. Depois eu queria falar um pouquinho mais sobre que tipo de perspectiva você analisa o fenômeno religioso, né?
E acho que uma das razões por as pessoas se confundem, porque é diferente do que acontece em alguns países da Europa, por exemplo, é é super interessante isso. No Brasil você não tem nada de estudo de religião na escola. Pois é.
É totalmente. Então, a ignorância do pessoal sobre o assunto é muito grande. Você pega um país como Alemanha, você tem estudo de religião e teologia na escola o tempo todo.
E na Alemanha as pessoas são mais seculares, mas pelo menos eles sabem do que eles estão falando aqui. Não, o cara dá uma opinião sobre um negócio que ele não sabe nem para que lado vai, né? Então, falta amadurecimento.
Vamos ver se a gente consegue fazer um bem bolado hoje aqui pra galera sintonizar os horizontes aí. Vamos, vamos voltar para Jesus. Então tem Jesus, ele é crucificado, ele ressuscita e a partir daí, quanto tempo depois começam a surgir religiões a partir dele?
Hum. A partir da Pode, pode. Então, história, história é Lu isso.
É, tá bom. Quando Jesus, vamos, vamos falar assim em termos, porque você pode descrever a religião do ponto de vista do fenômeno religioso, histórico. Então, você tem, vamos dizer, o movimento de Jesus.
Jesus e os discípulos é um movimento que acontece no ambiente judaico, onde, né, não é inglês, não é alemão, não é grego, não é latim, não é nada, é hebraico, aramaico, tá? Não é? Porque tem esse negócio, ah, nossa igreja veio primeiro.
Então é um movimento sem qualquer perspectiva de institucionalização religiosa. Esse movimento é espontâneo, ele é de coração para coração e ele cresce e se desenvolve. Quando ele cresce, para onde é que ele vai?
Ó, curiosamente, o primeiro lugar para onde o evangelho se espalha é paraa área dos samaritanos, dentro da região da terra de Israel, para África antes da Sim. O famoso Atos capítulo 8, até pensar, não, o cristianismo chegou na África, colonialismo, imagina, chegou na África antes da Europa. Pois é.
Então o eunuco etiloppe, né, o tesoureiro da rainha de Candace, vai levar isso paraa Etiópia, vai dar os inícios daquilo que vai ser a tradição copta posterior, né? Ele se desenvolve na região onde hoje tá o Líbano, a Síria, até o sul ali da Turquia, onde vai ter uma igreja importante chamada Antioquia. E aí, vamos dizer, ele realmente desemboca no mundo grego.
E do mundo grego, mais tarde, um pouco depois vai chegar no mundo latino, na parte ocidental do Império Romano. Nesse momento, a gente não tem essa dimensão de uma institucionalização de uma igreja, de uma porque essa palavra muito importante é movimento, né? Exato.
Ele ele é um movimento orgânico acontecendo. Então você imagina um contando pro outro e acontecia muito disso de eles irem para cidades portuárias, falarem com pessoas que estavam viajando, evangelizarem e elas entravam no navio e voltavam para seus pais. Imagina você viver nessa época longe de onde aconteceu esse fenômeno e ouvi falar por cara, teve um cara que foi preso, aquelas conversas aí foi preso, aí não sei o quê, ele morreu.
Não, não, ele fazia milagres, como assim? Eu não sei. Ele era mágico?
Não, ele era do Ele era judeu, mas não era, não sei. Cara, imagina esse esse essa conversa rondando para tudo quanto é, porque as pessoas andavam muito, né? Já tinha muito, muita gente fazendo comércio e trocando.
E por isso é muito doido como é que isso cresceu e conseguiu subsistir num ambiente hostil. Porque o cristianismo primitivo ele é proibido por lei. Ele tecnicamente é relígio ilícita.
O Império Romano não vê com bons olhos. Ele não permite a reunião de pessoas. Hum.
Ele ele estabelece porque chamava Jesus de Senhor, né? E de rei. De rei.
Nós temos um rei, Jesus. Então você imagina um rei ouvindo isso? Muito antiromano, né?
É, eles usavam kirios, né? Exatamente. Mas as pessoas começaram a se reunir em casa, orando, fazendo alguma coisa em relação a Jesus ou não?
Sempre em casa havia templo. Porque templo era você dá o endereço para vir e matar ou prender todo mundo. E não tem esse conceito.
O templo são as pessoas. O templo não é construção. Isso vai desenvolver mais tarde.
Aí o que é que acontece? Essa tradição, ela vai ganhando contornos um pouco distintos quando surgem. As primeiras dúvidas teológicas.
Essas dúvidas teológicas estão fundamentadas em quê? Quem é de fato Jesus? Estamos falando de que época isso nós estamos no segundo terceiro século, já no começo bastante.
Então qual qual que é a primeira questão que surge? Pera aí. Quais são os documentos que a gente deve considerar como referência?
Então, teve um cara chamado Marcião na metade do segundo século que ele falou: "Olha, os evangelhos, as cartas de Paulo estão aqui, mas tudo aquele que for muito judaico tira fora. " Então isso gera todo um movimento que vai falar pro pessoal, falar: "Escuta, a gente precisa ver direitinho quais são as nossas referências". E aí a gente tem o que a gente chama de um processo canônico para se fechar o que é consenso da cristandade nos 27 livros que fazem parte do Novo Testamento.
A segunda questão que aparece essa quem é Jesus? Jesus ele é só humano, ele é só Messias, só profeta? Ele é divino.
Ele é divino em que sentido? Então, aquilo que tem a ver com as duas naturezas de Cristo e se Jesus é divino ou não, entra na pauta de discussão. Então, existe uma tendência numa galera, teve várias, né, mas teve uma galera, por exemplo, que foi na direção do que é chamado o o caminho do bispo Ário, que é um pessoal ariano que não tem nada a ver com o Segunda Guerra, né?
Sim. E aí essa discussão até que no quto século existe, vamos dizer assim, uma sedimentação daquilo que é doutrina fundamental da fé. sobre quem é Deus e sobre quem é Cristo.
Então, existe o consenso trinitariano que é referendado Niceia no ano 325. Nesse ponto então era uma confusão. Algumas pessoas viam Cristo de um jeito, outros de outro.
Tinha alguém que levava mais pro lado mágico da coisa, pro lado eh não tinha o gnosticismo já nessa época. Então, surgiram vários grupos menores que e foram, quando você lê as cartas do Novo Testamento, tem uma galera mais legalista, tem uma galera que vai na direção mais gnóstica, tem uma galera que vai ah para uma direção mais mística. Tudo isso é trabalhado, mas nunca isso se tornou, vamos dizer, um movimento dominante.
Todas essas questões, elas não foram suficientes para que a gente dizer que criou uma denominação. Ainda se via a cristandade, até porque ninguém tem direito de funcionamento debaixo do império romano. Quando chega no quto século, não só essas questões são, são os judeus.
Os judeus tinham uma perição. Sim, eles tinham. Por isso que no livro de Atos o pessoal não percebe isso.
Toda vez que o o pessoal chega pegando pesado, por exemplo, o apóstolo Paulo, ele disse: "Nós somos judeus". Ou seja, eu tenho alvará de licenciamento. Entendi.
Ah, nós estamos discutindo coisas internas dentro da nossa questão. E é verdade. Ele é judeu e a fé cristã primitiva emerge nesse contexto judaico.
Então, essa situação que a gente vê, ela permanece razoavelmente dentro do que a gente pode chamar de uma unidade. vai haver controvérsias, tem controvérsia iconoclasta, tem discussões e a coisa só vai realmente entrar numa situação, vamos dizer, de ruptura, né? Apesar de ter as, vamos dizer, os grupos mais do Oriente que funcionavam um pouco paralelos, como os armênios, que a primeira nação como nação a se tornar cristã no ano 301, as igrejas de perfil de falarica, a o desenvolvimento da tradição copta, tudo isso corre, mas no ambiente romano maior você vai ter a divisão entre o mundo grego e o mundo latino, que já era uma divisão.
Chegou uma hora que a rivalidade entre Roma e a nova Roma, que é Constantinopla, chegou em tal ponto que no ano 1054, eu vou dizer, surge a primeira crise real, que a gente pode chamar denominacional, quando a tradição grega se separa, que vai ser o cisma que vai dar origem às igrejas ortodoxas. E tem algum motivo esse essa separação? Tem bastante então envolve primeiro a discussão política eh com quem tá a bola.
Porque o cristianismo primitivo, até seguindo a orientação de Jesus, não tinha esse negócio, tipo, eu sou dono do pedaço, o líder é servo. É quando esse cristianismo fica mais dentro da pegada do Império Romano, ele troca as catacumbas pelas pelos espaços maravilhosos dos grandes templos e surge uma hierarquização da igreja. Então, cara, e aí que você perde esse aspecto de movimento para entrar nesse aspecto de instituição, né?
E aí é como o Senhor dos Anéis, né? É o anel do poder que vai corrompendo quem vai pegando ele na mão, né? Então é o aí que vai surgir toda essa problemática que a gente tá vivendo até hoje, né?
É. Então aí isso é quem é que dá as cartas? E aí aquela questão, não é o bispo de Roma ou é o bispo de Constantinopla?
E além disso, eh, a gente tem discussões de natureza teológica que começam a aparecer entre as duas tradições. No final das contas, o mundo latino vai ter uma pegada cada vez mais voltada pro pensamento aristotélico e ligado a Tomás daquino. Se você lembrar do nome da Rosa, por exemplo, você vai ver esse pano de fundo.
E curiosamente o mundo grego vai ter uma teologia um pouquinho mais platônica, um pouco mais mística e vai haver uma distinção eh em alguns aspectos que vai se aprofundar mais tarde, né? Mas é aí a gente começa a ver essa questão, né, que a divisão religiosa passa pelo elemento teológico, mas também passa por uma coisa que nem sempre tá claro para as pessoas pelo contexto cultural. Então você tem, na verdade, a latinidade ficando de um lado e o mundo helênico ficando do outro lado.
E depois a coisa vai ficar feia, especialmente depois da quarta cruzada que Constantinopla, né, abre espaço pros cruzados passarem e eles saqueiam Constantinopla em 1209, né? E aí foi uma experiência terrível, né? e que até hoje tem assim uma sensação difícil entre as duas cristandades.
E o mundo grego se desenvolveu naquela parte do mundo e se expandiu principalmente pro mundo então você vai ver Rússia, Bulgária, Ucrânia, Sérvia, toda essa região tá na igreja ortodoxa que não tem ideia de papa.