Estamos hoje com Maria José Esteves de Vasconcellos, que é a autora do livro Pensamento Sistêmico: o Novo Paradigma da Ciência, que está na sua 11ª edição, inclusive com uma tradução para o inglês. A Maria José esteve aqui na Enap dando um curso que compõe o conjunto de cursos da trilha de inovação. Maria José, o que é o pensamento sistêmico novo paradigmático?
Eu concebo o pensamento sistêmico como novo paradigma da ciência, e eu tomo a noção de paradigma como pressuposto, crença, premissa do cientista. Os cientistas vinham trabalhando tradicionalmente com os três pressupostos: o pressuposto da simplicidade do microscópico que leva o cientista a separar o todo em partes e abordar as partes uma a uma. O outro pressuposto é o pressuposto de que o mundo é estável e de que ele pode ser descrito por princípios, ou leis, que descrevam esse mundo estável.
E o terceiro pressuposto, que é a crença de que é possível a gente conhecer objetivamente o mundo. A partir do início do século passado, a partir de Einstein e outros físicos, Niels Bohr, Boltzmann, Heisenberg, e também de biólogos como Maturana e ciberneticistas como Heins Von Foster, obtiveram-se resultados em experimentos de laboratório que vieram a questionar esses pressupostos do cientista tradicional, então eles reconheceram a inadequação de fragmentar o complexo, de separar em partes, e reconheceram a complexidade em todos os níveis da natureza. Além disso, também reconheceram que o mundo é instável e que está em processo de tornar-se, e por isso não é possível a previsão ou o controle dos comportamentos, eles passaram a lidar com a imprevisibilidade, com a incontrabilidade dos sistemas.
E além disso, também encontraram evidências de que nós não temos como falar objetivamente do mundo devido à nossa constituição biológica; a impossibilidade do conhecimento objetivo do mundo foi reconhecida pelos cientistas. Mas essa impossibilidade da objetividade não é uma coisa que já tem um tempo que está sendo questionada? Você tem razão, há muito tempo os filósofos vêem falando dessa impossibilidade, porém desde Descartes que se separou a Ciência da Filosofia.
Então as colocações dos filósofos não tendem a ressoar no mundo dos cientistas; eles costumam falar: isso é coisa de filósofo. Só que agora, de um tempo para cá, dentro da própria Ciência está acontecendo esse questionamento da possibilidade da objetividade. Não só as contribuições do biólogo chileno Maturana, como do ciberneticista austríaco Heins Von Foster, que vieram mostrar que devido à constituição do nosso sistema nervoso nós não podemos falar objetivamente do mundo.
Então, a impossibilidade da objetividade está determinada pela forma como nós somos biologicamente constituídos, o nosso sistema nervoso não reflete o mundo como se fosse um espelho. Quais são as implicações desse reconhecimento da impossibilidade da objetividade? Quando um cientista ou uma pessoa qualquer assume essa impossibilidade da objetividade, a consequência é o reconhecimento de que não existe nenhuma base para qualquer pessoa se sentir superior à outra, considerar a sua verdade melhor que é do outro, não existe nenhuma base científica para isso, que às vezes acontece tanto no nosso mundo, nas nossas relações.
Mas então, esse reconhecimento de que a objetividade é impossível e de que todas as verdades precisam ser legitimadas tem como consequência que a única alternativa que nos resta é construir o conhecimento junto com o outro, validando também as verdades dele, as opiniões dele, a forma como ele vê o mundo, somos apenas diferentes. Como essa nova visão, especialmente de cocriação, pode mudar a forma de fazer política pública e trazer inovação para o governo? Tradicionalmente, a maior parte desse trabalho de elaboração de políticas públicas vem sendo desenvolvido por profissionais, por cientistas que ainda assumem aquela visão tradicional.
Então as políticas são construídas geralmente por pessoas que se colocam imbuídas desse poder, dessa responsabilidade de decidir o que é bom para o outro. Eu tive uma colega, que foi minha sócia, Juliana Gontijo, que fez uma pesquisa sobre as políticas na área de educação no Estado de Minas Gerais, e ela verificou que essas políticas são estruturadas hierarquicamente na forma de uma pirâmide; ela as representou na forma de uma pirâmide. Então, no topo da pirâmide estão as pessoas que têm o poder e os recursos para desenvolver, para planejar as políticas, o poder de decisão.
No meio da pirâmide estão aqueles que têm a tarefa de aplicar aquilo que foi decidido lá no topo da pirâmide, são os executores da política e, na base dessa pirâmide, muito mais numerosos, estão os chamados usuários, os que vão receber passivamente aquilo que outros decidiram que é bom para eles. Só que essa minha colega Juliana, pensando sistemicamente com essa nova visão, com esse novo paradigma da ciência realizou uma prática inovadora no contexto das políticas públicas na prefeitura de Belo Horizonte, ela fez um corte vertical nessa pirâmide, a gente costuma dizer ela deitou a pirâmide, ela convidou para uma conversação conjunta pessoas que estavam nos três estratos da pirâmide. E ali deu voz a igualmente a todos e aconteceu a possibilidade de coconstrução, de uma reformulação e do convênio que era feito entre a prefeitura e as entidades que prestavam assistência, que realizavam, que eram os executores da política.
Então, com isso a gente vê que é possível essa inovação na área do governo, na área da prefeitura municipal de Belo Horizonte que é a proposta de coconstruir, sempre haver um convite para a construção conjunta daquilo que vai ser proposto como forma de ação, como forma de ação nos diversos níveis do governo. Maria José, muito obrigada, acho que essa visão que você traz tem tudo a ver com esse movimento de inovação no governo, queria te agradecer muito e convidá-la para estar mais presente aqui na Enap. Muito obrigado!
Eu agradeço também essa oportunidade que eu tive de conviver esses dias aqui na Enap, desde segunda feira até hoje, tive uma oportunidade de participar de conversações muito ricas, enriquecedoras pra mim, esses participantes do curso, durante essa semana, trouxeram também muitas idéias e a gente percebeu que eles estão ávidos de inovar nas suas práticas. Agradeço a oportunidade também! Obrigada!