[Acorde de violão] [Buzina de carro] Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. [Fundo musical] Hoje é quinta-feira, dia do seu podcast Inédita Pamonha. Um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil, Profuse Aché e BNP Paribas Asset Management.
[Fundo musical] O que te faz pensar na expressão "Pré-Socrático"? É essa expressão que você encontra em muitos manuais de história da filosofia. Quase sempre no primeiro capítulo, Pré-Socráticos.
Naturalmente o que vem à cabeça, um conjunto de pensadores que existiram, viveram e pensaram antes de Sócrates. A nomenclatura é estranha porque se você dissesse "Pos-Socráticos" aí a informação procede. São discípulos de Sócrates, vieram depois, foram influenciados por ele e assim por diante.
Mas pré? Além do mais, esses Pré-Socráticos só tinham mesmo em comum o fato de terem vivido antes de Sócrates, porque, porque cada um atirava para um lado, eles não constituíam uma escola de pensamento, eles pensavam sobre coisas diferentes e de maneira muito diversa. Chama atenção que no meio desses Pré-Socráticos está Demócrito.
E aí a perplexidade é maior, porque Demócrito não veio antes de Sócrates. Pelo contrário, foi posterior à ele, contemporâneo de Platão. Assim, só podemos imaginar a construção desta categoria como uma forma de deslegitimação, ao anular suas especificidades a categoria Pré-Socráticos coloca todos numa vala comum, numa espécie de capítulo que cabe tudo.
Membrana complacente que aceita qualquer pensamento que simplesmente tenha vindo antes daquele que realmente importa. Por isso chamamos atenção para esse estranhamento. A categoria Pré-Socráticos parece ser uma estratégia de consagração de uns em detrimento da desautorização de outros.
[Fundo musical] Bem, fiquemos com o tal Demócrito. É estranho quando tomamos ciência que Platão pretendeu queimar seus escritos. Puxa vida, terá sido simplesmente em nome da verdade?
Não parece estranho que um filósofo tão importante não tivesse mais tolerância? Mesmo que fosse com alguém que pensasse tão distintamente dele? Felizmente nem tudo se perdeu, sabemos muito de Demócrito e vale o podcast.
[Fundo musical] Demócrito era um atomista. Esta nomenclatura já nos interessa mais, e por quê? Porque nos ajuda a entender alguma coisa do pensamento do autor.
Atomista por quê? Demócrito acreditava que tudo o que existe, rigorosamente tudo, é matéria. Portanto constituída por átomos.
Átomos, mas não só. Átomos e vazio. Aí você que me ouve pensa: se tudo é átomos e vazio, esse vazio aí se refere a que?
Ora, nenhum problema em aceitar o não ser para Demócrito e o vazio é um lugar por onde passam os átomos, eles se movimentam exatamente por onde não há outros átomos. Assim o que há são átomos em movimento e vazio por onde esses átomos se movimentam. Os átomos não são todos do mesmo tipo, eles parecem ter formas diferentes que correspondem a funções diferentes.
De qualquer maneira o que há é sempre isso, átomos e vazio, pelo menos para atomistas. Aí você levanta a mão muito inquieto, por quê? Porque você já ouviu falar, inclusive aqui no Inédita Pamonha, você já ouviu falar que Platão insistia, o corpo é finito, material, em deterioração, em corrupção, mas a alma que também tem a ver conosco, esta alma esta é e material.
E esta alma, portanto, já existia antes do nascimento, continua existindo depois do nascimento, ela não morre, é eterna, sobrevive ao corpo exatamente porque não é matéria. Portanto, para Platão a alma que abriga as ideias. Espaço de intelecção maior onde podemos vasculhar as verdades que já nascem conosco, essa alma não seria átomos e vazio.
Pois muito bem. E para Demócrito? Não, se há alma é átomos e vazio.
Portanto é tão material quanto o corpo, assim nasce com o corpo e morre com ele também. [Fundo musical] Professor, mas e o pensamento? Se para Platão o pensamento é uma produção da alma, melhor do que isso, uma atividade da alma.
Ora, e para Demócrito? O pensamento é uma atividade da alma só que a alma é corpo. Matéria como o corpo.
E aí então é levada a cabo pelo corpo, enquanto atividade dos átomos responsáveis por esse pensamento. Professor, então haverá átomos responsáveis pelo pensamento? Sim, diretamente, aprendemos a pensar depois de nascer e quando morremos desaparece o corpo, com ele desaparece a alma, com ela desaparece o pensamento.
Nossa, que incrível, e o que mais? Ora, a nossa energia vital são os átomos que se entrechocam, o choque entre eles acaba produzindo a energia que nos anima. E o que mais?
Ora, os deuses, os deuses se existirem são átomos e vazio. Assim tem existência material como nós. Mas que jeito tão diferente de pensar.
Pois é, você começa a entender como Demócrito, na época de Platão, era um rival à altura. Afinal de contas, você que vive agora nos tempos em que eu também vivo sabe o quanto, com algumas adaptações, o discurso de Demócrito é até mais parecido com discurso cientifico do que o de Platão. [Fundo musical] Demócrito era um homem viajado e naturalmente fazia da viagem uma grande aventura da inteligência.
E eu sempre me perguntei sobre a ideia de viagem, e naturalmente aqui podemos ir muito longe. Eu palestrante vou para tudo que é canto, bate-volta para Manaus, bate-volta em Porto Alegre, bate-volta em tudo que é canto. Mas não sou viajante.
Existe na ideia da viagem um apreço pelo percurso, um valor atribuído ao percurso, uma espécie de aprendizado no passo a passo, no ineditismo e esperado dos encontros, parece que na viagem importa menos o destino do que o caminho que nos leva até ele. Assim, Demócrito era um viajante, porque fazia do mundo percorrido em suas viagens um verdadeiro laboratório da sua sabedoria. Para além disso, Demócrito estava convencido de que o prazer era grande valor da vida, por isso um pai fundador do chamado hedonismo.
"Hedonê", prazer. Hedonismo, prazer como valor maior. E aí você olha e pergunta: quer dizer que o cara era da pá virada, o cara terrível ninguém segurava.
Você pensará: alguém a feito a grandes orgias, excitação permanente do corpo exageros e excessos, não nada disso. A primeira grande observação sobre o prazer parte de uma certa negatividade. Como assim?
O primeiro grande prazer é o prazer que advém da ausência de preocupações. Puxa vida, é preciso ter esta competência de se dar conta que naquele momento da vida não há preocupações e conseguir, a partir daí, ter prazer com isso. Assim, perceba, existe aqui uma espécie de busca do prazer como valor existencial que cobra de nós esta competência para tirar da vida tudo o que possa suscitar preocupação.
Isso me faz lembrar dessa competência do motorista de fliperama, desses que vai dirigindo o carrinho na tela, fugindo dos obstáculos que roubam ponto e se aproximando dos prêmios que acumulam ponto. Assim vamos aprendendo a viver como motoristas de fliperama, evitando as coisas que sabidamente são usina de preocupação e procurando nos aproximar daquilo que nos permite viver na leveza. Na leveza de quem nunca tem mais do que dois ou três utensílios na hora de preparar a própria mochila.
A mochila da vida. Demócrito era um grande vivente. Um vivente em preparado, acreditava mesmo que nessa busca da alegria deveríamos de fato, não sucumbir a nenhum tipo de ideia pré-concebida e assim a história de ter que ser um bom cidadão e participar da política e ir atrás de debates políticos defendendo posições era muito estranha para Demócrito.
Demócrito achava que esse, essas brigas e esse ódio na hora de interagir na Polis era fonte de grandes preocupações, por isso um certo isolamento, um certo recato e sobretudo um rigoroso anonimato. Um anonimato discreto, era coisa boa demais na hora de pensar no que? Na hora de pensar na vida boa e na alma apaziguada.
[Fundo musical] Caramba, o que será que Demócrito pensaria dessa histeria pela aparição? Nessa histeria pelo uso das novas técnicas, das novas mídias e das redes sociais como forma de atrair sobre si os holofotes a qualquer preço, mesmo que é o preço do ridículo absoluto, mesmo que ao preço do grotesco, ao preço do acanhamento intelectual mais genuíno e das dancinhas mais simplórias. O que pensaria Demócrito dessa espécie de vinculação da felicidade ao holofote mais fútil?
Pois muito bem, Demócrito era cristalino no ponto, se tiver que haver alegria de viver é preciso que seja na simplicidade extrema, e a simplicidade extrema implica a sabedoria de saber evitar enrosco para si, e evita enrosco pra si quem vive na miúda, quem vive na moita, quem não se expõe muito e quem portanto acaba dando assim mesmo a importância maior e a certeza de que no auto-conhecimento esse mesmo dos próprios átomos e vazio, desse agenciamento particular que nos constitui, a motivação maior para ir atrás de uma vida livre leve solta e algre. Demócrito era portanto um grande defensor do riso, de alguém que sabia fazer de si autocrítica, de alguém que podia olhar para se identificar com ironia as próprias lacunas, de alguém que hoje em dia diríamos que talvez levasse a sério o mundo, mas não se levava a sério, sendo capaz de rir próprio infortúnio. Sim, Demócrito é o filósofo do riso e além do mais, claro, um grande apreciador das experiências ricas, alguém que não perdia um segundo de vida sem tirar do mundo todas as suas nuances, todos os seus detalhes todos os seus encantamentos.
Demócrito sabia que a visão e audição são, de certa maneira, prestigiados por qualquer um e portanto enfatizava o olfato. É conhecida a história de, na companhia do grande médico Hipócrates, ele caminhava e aí cumprimentou uma jovem "boa noite, senhorita", e no dia seguinte encontrando a mesma jovem mudou o tratamento e a saudou "boa noite, senhora". A lenda reza que no olfato terá percebido a mudança de estatuto, a experiência de intimidade inaugural vivida naquela noite.
Convenhamos, vai ter capacidade para cheirar assim lá longe ou então o seu conhecimento ir além do olfativo, talvez fosse até ele o responsável pela façanha da moça, nunca se saberá. São histórias, mas o ensinamento fica. Dar-se a oportunidade da experiência mais rica possível, sabendo bem que o que temos para conhecer e interagir com o mundo serão sempre os nossos sentidos.
Afinal, é o corpo que também é a alma, que também são os nossos átomos em movimento, os grandes responsáveis pelo pensamento e por todas as nossas sensações. [Fundo musical] Esse foi o Inédita Pamonha de hoje, espero que você tenha adorado Demócrito Demócrito tão assim alternativo frente a filosofia chapa-branca, oficial de Sócrates, Platão, Aristóteles e os Estoicos. Demócrito o atomista.
Contra-corrente subversiva do pensamento filosófico grego, fica o registro, fica o encantamento, até a próxima, fica bem, quinta-feira que vem tem mais, até! Um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Profuse Aché e BNP Paribas Asset Management.
[Fundo musical] Você ouviu o Inédita Pamonha, por Clóvis de Barros Filho, trazido até você pela revista INSPIRE-C. Acesse: www. revistainspirec.
com. br E nos siga nas redes sociais! Este podcast foi editado por Rádiofobia - Podcast e Multimídia.