Matrix foi um dos filmes mais icônicos da virada do milênio. Essa obra dosk chamou atenção pelos efeitos especiais e prendeu o espectador pela profundidade da reflexão que o obriga a fazer. É impossível sair desse filme sem ter a seguinte questão na cabeça: o que é de fato a realidade?
A jornada do Nil para descobrir essa resposta e no processo sair do niilismo e atingir a iluminação é algo muito impactante. Mas o que poucas pessoas sabem é que a profundidade dessa obra vem do fato dela ser uma analogia perfeita do mito da caverna de Platão. E seguindo os passos do Nil, neste vídeo entenderemos em que consiste a jornada do filósofo, que será o nosso caminho para fora da Matrix.
Olá, eu sou o Guilherme e eu preciso dizer que esse foi um filme que envelheceu muito bem. Os saltos, o slow motion e os efeitos especiais não são mais tão impactantes quanto eles eram em 1999. Porém, a atmosfera criada com aparelhos que eram o ápice da tecnologia da época deixou esse filme com uma bela aparência retrofuturista quando assistimos hoje, quase três décadas depois do seu lançamento.
Mas não é só a beleza que chama a atenção nessa obra. E a jornada do New, que nós chamaremos da jornada do filósofo, é o ponto mais alto de toda essa trama. E ela pode nos trazer lições valiosas de como encontrar esse caminho da luz, esse caminho da sabedoria na nossa própria vida.
E é justamente nesse ponto que nós focaremos aqui hoje. E o primeiro passo da jornada do filósofo é o despertar. E esse passo consiste em você perceber que existe algo além da realidade aparente, daquilo que é o senso comum estabelecido.
E é também o entendimento de que existe algo muito mais profundo e verdadeiro por trás de tudo isso. E no filme, essa ideia nos é apresentada já na cena em que nós conhecemos o protagonista dessa história. E o diálogo que o computador tem com ele já nos dá todo o tom dessa obra e nos explica o que é esse passo do despertar.
Então, o Nil, que ainda não tinha esse nome e era conhecido como Thomas Anderson, era um programador que estava dormindo em sua mesa de trabalho. E no momento em que nós o conhecemos, ele é acordado por um comando de computador que diz Wake Up. E embora ele acorde literalmente com esse comando, essa palavra inglesa também significa desperte.
E é justamente esse primeiro estágio da jornada do filósofo. E nós vamos ver algumas cenas mais para frente, que esse processo de despertar do Nil vai ser o centro de quase todo o primeiro ato dessa história. E depois do wake up, o computador diz pro New: "The matrix has", que traduzindo seria algo como: "A matrix tem você" ou "A Matrix te controla".
E por fim termina dizendo: "Follow the white rabbit" ou traduzindo: "Siga o coelho branco". Isso é uma referência direta à obra Alice no País das Maravilhas. E essa ideia de seguir o coelho branco tá justamente relacionada à ideia de entrar na toca do coelho e descobrir as realidades ocultas ou um mundo escondido embaixo dos nossos próprios narizes.
Ah, mas o que que tudo isso significa? O New aqui está passando pelo primeiro estágio de consciência no mito da caverna de Platão. E é o despertar pro entendimento de que existe algo além da realidade que você acredita e que existem pessoas mais poderosas que você que te controlam sem que você saiba.
No mito da caverna, essas ilusões são o Teatro das Sombras, criado no fundo da caverna por pessoas muito poderosas, com o objetivo de controlar a população e se manter no poder. E no filme, quando a Trinity entra em contato com o Nil pelo computador, ela tem como objetivo despertá-lo para que ele entenda que existe uma realidade além daquilo que ele tá vendo. O objetivo dela é justamente atraí-lo pela curiosidade.
É fazer com que ele perceba que existe algo a mais e tenha vontade de saber o que é. E nós podemos ver algumas referências da filosofia que guia essa obra já no quarto do Neil, no começo do filme. O livro que ele usa para guardar os seus penrive se chama Simulacro e Simulações.
E esse livro existe de verdade e deu origem a essa ideia do filme de que toda a nossa realidade pode não passar de só uma simulação. E curiosamente aqui também o capítulo no qual o Nil abre esse livro tem como título niilismo. E o nilismo é justamente essa sensação de vazio existencial que nasce no coração do homem quando ele percebe que ele tá vivendo uma vida de mentiras.
E o Nil, após despertar para essa ideia de que ele tá vivendo dentro de uma caverna, dentro de um mundo de mentiras e ilusões, ele passa pro segundo estágio da jornada do filósofo, que é buscar a verdade. E antes da gente continuar, eu queria te lembrar de você deixar seu like e se inscrever no canal. Meu canal ainda é um canal pequeno, então, deixando o seu like, deixando um comentário, você me ajuda a levar esse vídeo para mais pessoas e conseguir fazer mais vídeos como esse.
E o segundo passo da jornada do filósofo, que é a Busca da Verdade, é marcado nesse filme pela clássica cena das pílulas vermelha e azul. E assim como no filme, Na vida real, a escolha entre uma dessas duas pílulas traz consequências que são impossíveis de voltar atrás. No filme, a pílula vermelha significa o caminho da libertação.
Então, a partir do entendimento da existência de um sistema que o manipula, tomar a pílula vermelha seria tentar entender em que consiste esse sistema, como você poderia se livrar dele ou pelo menos escapar de toda essa manipulação que ele faz. No mito da caverna, isso seria representado pela aceitação da existência do Teatro das Sombras como uma realidade e a busca de caminhos e de saídas para escapar dessa escravidão mental. E a pílula azul, por outro lado, significa permanecer na ilusão.
E muitas vezes isso é até preferível por muitas pessoas, justamente por ser mais confortável. Então, a pessoa que toma a pílula azul, ela entende que existe um sistema que a manipula, porém ela prefere fingir que não viu que existe esse sistema e prefere continuar vivendo nessa mentira para não precisar lutar contra tudo aquilo que tá acontecendo. E essa escolha muitas vezes é tomada porque a verdade ela sempre se impõe.
Então, a partir do momento que uma pessoa começa a conhecer mais a fundo a respeito da manipulação que ela tá sofrendo na vida dela, ela pode até tentar fingir que não viu aquilo e que não conhece aquilo, porém a consciência dela sempre vai cobrar ela. E é justamente por isso que a escolha entre a pílula azul ou a pílula vermelha é uma escolha sem volta. E no filme, o fato do nome do personagem que oferece essas pílulas ser Morfeus é algo muito simbólico.
Isso porque Morfeus é o nome do deus grego dos sonhos e de maneira simbólica, através das pílulas, ele tem o poder de deixar as pessoas continuarem sonhando ou acordar elas pra realidade. E aqui nós temos algo interessante porque dois personagens em especial nessa história nos mostram as consequências de se escolher cada uma dessas pílulas. O primeiro é o New, que a gente vê escolhendo a pílula vermelha.
E nós vemos que o caminho que ele trilha é doloroso, assim como Platão nos conta nos seus livros que o caminho para fora da caverna também é doloroso. E isso acontece porque você precisa readequar todo o seu sistema de crenças. Tudo que você acreditava precisa vir abaixo para ser reconstruído de novo.
E aqui soma-se mais uma complicação de que as pessoas que você conhece provavelmente não vão aceitar essa tua decisão. Então, além de você estar numa luta interna contra tudo aquilo que você mesmo acreditava, você vai entrar num conflito com as pessoas que você conhece e ama. Porém, embora esse caminho seja de fato espinhoso e difícil, o caminho oposto, que é o caminho da pílula azul, é um caminho muito pior.
E no filme, essa jornada oposta é representada pelo Cher, que é um dos antagonistas. E nós vemos no filme que ele conhece a existência do mundo das ilusões, porém ao invés de tomar a pílula vermelha e querer sair daquela realidade, o Cher luta para que esse mundo das ilusões se mantenha de pé. E isso justamente porque aquele ambiente é muito mais confortável para ele.
Então ele prefere que o sistema permaneça de pé do que ter que enfrentar o desconhecido que pode vir caso ele caia. E embora o caminho do Cher seja um caminho aparentemente mais fácil, justamente por ele ter todo o sistema do lado dele, esse é um caminho que traz recompensas vazias. E nós vemos isso representado no momento em que ele beija a Trinity quando ela tá desacordada.
E nós vemos que o Cher, por escolher viver num mundo de ilusão, conseguirá alcançar no máximo uma felicidade falsa e um amor de mentira. E um fato interessante de tudo isso é que o nome do N é um anagrama pro número um, one English, enquanto o nome cifer vem da língua árabe e significa o número zero. Então o New e o cifer seriam como os dois polos da linguagem binária, que é o número zero, que significa a ausência, e o número um, que significa a presença, completude.
Então nós temos essa simbologia no nome desses personagens. O Nil, que seria o número um, escolheu o caminho da busca da completude, enquanto que seria o número zero, escolheu o vazio, o niilismo. E assim como um e o zero são as duas únicas possibilidades do código binário, a pílula azul e a pílula vermelha são os únicos caminhos para nossa vida.
Não tem um meio termo. E trilhando o caminho do Nil, nós estamos chegando quase no final dessa jornada do filósofo. E agora nós entenderemos o terceiro passo, que é a iluminação, que é tomar posse da verdade e saber usá-la.
A iluminação é o momento em que você começa a se aproximar da saída da caverna. É quando você entende toda a peça de teatro que acontece dentro da caverna e decide não mais participar daquilo. Você decide viver segundo o seu próprio sistema, a realidade que você enxerga.
Então, no processo de sair da caverna, você está na busca da verdade. Você tá tentando entender o mundo que te cerca. E no filme, isso é retratado por toda a jornada de descoberta do Nil.
A escolha da pílula vermelha, a saída do mundo da simulação, o treinamento com o Morfeus, o momento em que o Neil conhece as crianças do orfanato, a conversa que ele tem com o oráculo, tudo isso faz parte da jornada dele para sair da caverna. E o destino final de toda essa jornada não é derrotar o sistema e tomar posse do Teatro das Sombras, mas sim sair da caverna e encontrar o Sol da Verdade. É descobrir o mundo como ele realmente é.
E o momento em que o Neil de fato sai da caverna e encontra o caminho da iluminação é retratado de uma maneira muito interessante no filme. Então no filme nós temos o agente Smith, que seria uma personificação da perseguição implacável que o sistema faz contra os seus dissidentes. E é consenso entre o grupo de rebeldes ao qual o Nil se juntou que é impossível derrotar esses agentes do sistema.
E isso não só porque ele tem todo o poder daquela realidade para te esmagar, mas também porque caso você o derrote, ele volta no corpo de outra pessoa. E isso reforça a ideia de que qualquer pessoa pode ser uma ameaça caso você tente destruir o seu mundo de ilusão. Porém, quando Neil finalmente sai da caverna e entende a verdade por completo, atingindo a iluminação, o sistema não tem mais poder contra ele.
E esse é o momento realmente catártico desse filme, porque a gente vê ao longo de toda a história os agentes praticamente trapasseando ali para derrotar os rebeldes. Mas no momento que o Neil consegue compreender a verdade, o sistema de fato perde todo o seu poder. E embora eles possam até machucá-lo fisicamente, fora daquele mundo mental de ilusão da Matrix, possam até matá-lo, como fizeram com o Sócrates na Grécia antiga, eles são incapazes de mudar as suas convicções.
Nesse momento, nós vemos até que o Nil, ele consegue enxergar o que tá para além dos próprios agentes. Ele consegue, de certa forma, enxergar o mundo da Matrix no seu código fonte. E essa ideia de enxergar a realidade oculta por trás de um objeto ou por trás de alguém é algo que tá presente de maneira muito forte na filosofia grega, na ideia de encontrar a essência das coisas, de encontrar a arqué.
Quando Neil consegue ver essa realidade por trás dos agentes, ele consegue os destruir de dentro para fora. E embora pareça que tudo tem acabado aqui, o mito da caverna continua com um último passo que normalmente é esquecido. E esse passo é o retorno à caverna.
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E vamos voltar agora pro último passo da jornada do filósofo, que é o retorno à caverna. Então, embora muitas vezes a gente escute o mito da caverna de Platão, terminando com a saída da caverna, existe uma última parte dessa alegoria que nos conta o retorno. E isso faz com que esse mito não seja um mito sobre a descoberta de conspirações políticas, mas o transforme num mito sobre a importância da autoeducação e da educação dos outros.
E isso porque conhecer a verdade por si só não basta. É preciso fazer com que outras pessoas cheguem até ela também. Porém, como o próprio Morpheus nos explica no filme, isso não é uma tarefa fácil.
E não só todo o sistema ficará contra você quando você tentar levar mais pessoas para fora da caverna, como também existirão pessoas que lutarão contra você para que você não seja bem-sucedido. Afinal, existem pessoas que têm muitas vantagens e manter os outros dentro da caverna. E embora pareça mais confortável permanecer do lado de fora, uma vez que você sai, a jornada do filósofo só se concretiza e adquire um real sentido quando ele volta pra caverna e consegue levar outras pessoas para conhecer o sol da verdade.
E após toda essa explicação e toda essa jornada, uma questão permanece. Como nós, como pessoas reais, trilhamos esse caminho para fora da Matrix que o Nil trilhou? Afinal, nós não temos pírulas vermelhas e nem podemos fazer uploads de movimentos de luta diretamente no nosso cérebro.
Como então nós podemos fazer para sair da caverna? E por incrível que pareça, a nossa pílula vermelha é até mais acessível que a do Nil. Isso porque ela é uma simples mudança de mentalidade.
É você começar a raciocinar intencionalmente sobre o sentido de tudo aquilo que te cerca. É começar a pensar no que está por trás das coisas que acontecem. E como eu comentei na filosofia grega, eles chamavam isso da busca da essência, o encontro da arqué, do fundamento da realidade.
E isso seria descobrir as verdades eternas e imemutáveis por trás de tudo aquilo que existe. Lembrando mais uma vez, a jornada do filósofo não consiste necessariamente na luta contra o sistema ou contra os seus agentes, embora esse conflito também seja inevitável. A jornada do filósofo consiste na saída da caverna, na busca da verdade que está por trás de tudo, mesmo que essa verdade não seja agradável.
E se você gostou desse vídeo, existe outra obra que também trata dessa questão da saída da caverna e da existência de um sistema que manipula cada movimento nosso. E esse filme é o Show de Truman. Se você ainda não viu minha análise sobre esse filme, é só clicar aqui que o YouTube vai te levar para lá.
Obrigado por assistir até aqui. Um forte abraço e até a próxima. Yeah.