A minha exposição vai ter duas partes, e eu queria, desde já, esclarecer. Eu adoraria fazer uma pregação, mas nós estamos num simpósio, e eu preciso me ater um pouco a uma abordagem teórica a uma abordagem programática. Que, além de ser pastora, a gente também é teólogo estudioso do assunto, e o nosso objetivo aqui é dar um pouco de fundamento para você, para que você não ficasse apenas falando da defesa da vida a partir de uma linguagem genérica e pouco precisa.
De fato, São Tomás, quando explica o modo pelo qual o ser humano conhece, diz que tudo começa por uma espécie de síntese confusa; ou seja, nós temos ideias pouco claras, difusas, impressões mais ou menos exatas, misturadas com muitas e muitas e muitas impressões. Mas é na medida em que nós vamos fazendo uma análise, em que vamos depurando as nossas impressões, confrontando-as com a realidade, que nos damos conta exatamente das ideias que nós precisamos ter para realizar tal ou qual assunto. Ou seja, nós começamos com uma síntese confusa, e, à medida em que vamos estudando, meditando e procurando compreender melhor, as ideias vão ficando cada vez mais claras, cada vez mais distintas, até que nós percebemos exatamente aquilo que devemos fazer.
Qual é o problema? O problema é que muitas pessoas, quando falam da defesa da vida, não saem da síntese confusa; fazem apenas uma defesa da vida em termos propagandísticos. Eu sou pela vida, vida assim, aborto não!
Eu sou contra o aborto, eu sou contra a cultura da morte, eu sou a favor das famílias, eu sou a favor de uma educação humana. Mas são apenas ideias que permanecem na periferia do conhecimento. Você não consegue aprofundar, você não sabe exatamente do que você está falando.
No Brasil, lamentavelmente, esse tipo de abordagem acabou se tornando patológica em nível social. As pessoas aqui têm um problema lamentável, que é o problema de ter uma certa pressa avaliativa para saber se você é a favor ou contra o quê. Já perceberam isso?
Você fala alguma coisa, a pessoa não está preocupada com o que você está falando; ela está preocupada em saber para qual time você está jogando, e ela já quer imediatamente lhe colocar numa perspectiva ou lhe rotular ou catalogar de acordo com uma categoria. Então, se você fala contra o socialismo, as pessoas já dizem: "Olha, ele é capitalista". Se você fala contra o capitalismo: "Olha lá, ele é socialista".
Por quê? Porque, lamentavelmente, a síntese confusa que as pessoas têm, adicionada a essa pressa de saber para qual time ela torceu ou para qual time ele está jogando, faz com que as pessoas percam a capacidade de síntese ou de uma leitura um pouco mais profunda e, ao mesmo tempo, abrangente do problema. Às vezes, até essa situação acontece no Facebook.
Eu faço uma postagem no Facebook, e a pessoa já quer encarnar, já quer me catalogar pró ou contra determinada coisa. Não, não tem essa pressa! A única coisa que eu estou fazendo ali é um diagnóstico, é de descrever um fenômeno, é fazendo uma análise, às vezes que está por cima dos jogos dialéticos.
Na verdade, quem inventou isso como técnica e praticamente inoculou isso na cabeça das pessoas, por incrível que pareça, foi Michel Foucault. A própria análise do Foucault, aquilo que ele chama de arqueologia, que está na metodologia dele, parte da ideia de que nada do que você diz é verdadeiro, não existe verdade, e a única preocupação que eu tenho ao te ouvir falar é saber para qual esquema de poder você está trabalhando. Eu preciso rastrear suas ideias para descobrir qual é o esquema de poder que está por trás delas.
É claro que isso também tem raízes na chamada teoria crítica da Escola de Frankfurt, mas a teoria crítica só se tornou efetiva mesmo, e ela, embora Foucault se considere o filósofo pós-crítico, porque a crítica não é mais à sociedade, mas à própria identidade do sujeito. A teoria pós-estruturalista, pós-crítica do Foucault, não existiria sem esses pressupostos teóricos. Eu não posso.
. . eu tenho que partir do pressuposto de que não há verdade, e eu tenho que saber para qual esquema de poder você torce.
Então, como essas ideias penetraram, inclusive, em muitas pessoas na igreja, você vê pelas próprias discussões do Facebook. Você faz uma determinada afirmação, a pessoa já está querendo saber: “Pera aí, você é o quê? Carismático, tradicionalista, conservador, neoconservador, libertador, o que você é?
” Quer dizer, as pessoas não param para refletir se aquilo que você está dizendo é verdade ou não, que é o que faria São Tomás: “É verdade ou não é verdade? É correto ou não é correto? ” A síntese confusa e a teoria crítica na cabeça só podem produzir porcaria, não tem jeito.
Quer dizer, se você fica na síntese confusa e, ao mesmo tempo, tem esses preconceitos críticos de querer saber para qual time você está torcendo, e não se aquilo é ou não é verdade, e você levar a discussão até o fim, não dá certo. Você vai apenas ser um militante de ideias confusas, um militante de partidos ou de times. É um dos problemas que a gente enfrenta hoje.
Lamentavelmente, há muitas pessoas que militam causas pela vida, mas apenas como torcedores da vida, torcedores da cultura da vida. É claro que o nível intelectual está tão baixo que o mesmo problema você encontra do outro lado: tem torcedores do aborto, torcedores da cultura da morte, torcedores do gênero. Na hora que você vai conversar com a pessoa, você percebe que ela não sabe bulhufas.
Em 30 segundos de conversa, ela diz, por mais especialista que seja, você olha, dá uma frase ou outra, e a pessoa já não sabe mais o que fazer da vida, entra em crise existencial, precisando de psiquiatra, tomando antidepressivo, porque perdeu o rumo. A existência é um fenômeno que a gente tem percebido, porque a síntese confusa também existe do outro lado. Pois bem, o problema disso é que há uma terceira situação que condiciona muito de nada a defesa da vida, que é o seguinte: é aquele discurso de que você não pode ser contra nada.
Já vi essa história: você não pode ser contra, você não pode falar contra a cultura da morte, você não pode atacar ideias que são contra a vida, você não pode se posicionar com firmeza contra absolutamente nada. É uma espécie de preconceito, um preconceito otimista. Você sempre tem que falar do ótimo, você sempre tem que ser propositivo.
Aliás, esse problema muitas vezes acaba sendo dogmatizado por quem é da igreja, e as pessoas até dizem: "Não, eu não posso falar contra, eu preciso simplesmente falar do bem, rezar, fazer as coisas boas. " Eu não posso falar contra o gênero. Às vezes, tem gente amiga, né, que até nos ataca.
A gente da igreja, por exemplo, Padre José Eduardo é muito negativo, é agressivo; Padre Paulo Ricardo é agressivo, é negativo. Eles ficam com essa batina preta, já parece carecas, com óculos, e são positivos, caras de autoritários etc. Ainda mais chegam com discurso negativo, falando mal de ideologia de gênero, de aborto, de crise educacional.
Não, nós não podemos ser contra, nós temos que ser pró. Nós vamos para a vida, e para ser para a vida, você não pode ser contra a cultura da morte, inclusive dando razões espirituais, teológicas e assim por diante, porque Deus é o Senhor de tudo. Então, no final, vai dar tudo certo.
Deus é o Senhor da história. Vamos pensar positivo, né? Não faz fígado, porque é pecado.
É o peixe samba, você pega o terço, sacode o texto para plantar o diabo e vai dar tudo certo, meus queridos. Não é assim, não é assim. A primeira coisa que a gente tem que entender é o seguinte: que o otimismo, o otimismo, ele tem dois sentidos, dois que nós precisamos entender.
O primeiro é um otimismo espiritual que todo cristão tem, que sabe que Deus não perde batalhas. Deus não perde batalhas. Só que o Deus que não perde batalhas nos dará a vitória se nós lutarmos.
Então, isso está condicionado à nossa luta. Ele não perde batalhas, mas isso está condicionado à nossa luta. Agora, o otimismo em nível humano, não estou falando do otimismo que nasce da fé.
Esse é o otimismo sobrenatural, que a gente entende que vamos lutar, vamos lutar, e Deus nos concederá graças à vitória. O otimismo humano não é uma postura filosófica, é um estado de espírito. Então, diante de uma situação, as pessoas são otimistas ou pessimistas: vai dar tudo certo ou vai dar tudo errado.
São dois estados de espírito. O filósofo, ele não se dá a esse tipo de estado de espírito, não se dá a esse tipo de estado de espírito, porque o filósofo já tem a realidade. Ele é, ao mesmo tempo, em certos aspectos, otimista nas coisas que, vislumbrando com profundidade, ele percebe que vão numa direção e é simultaneamente pessimista naquelas coisas que ele percebe que, em determinada outra direção, não irão bem.
O filósofo é fundamentalmente realista, ele analisa os dados da realidade, percebe quais aspectos são ótimos, quais aspectos são péssimos e aquilo que nós temos que fazer para melhorar o conjunto. Ele não tem um estado de espírito que funciona como uma espécie de preconceito em que ele simplesmente resolve, diante de uma catástrofe, por exemplo: "Quer dizer, vai dar tudo certo, não podemos reagir de modo negativo. " Não!
Ele reage do modo como a realidade lhe pede. O filósofo fundamentalmente reage de acordo com a realidade e não de acordo com o seu estado de espírito. Isso é muito importante, porque nós não podemos imaginar que o mundo é uma projeção do nosso estado de espírito.
O mundo real possui uma concatenação imensa de causas e eu preciso aprender a interferir nessas causas do modo correto. E eu só interferirei nessas causas do modo correto quando eu souber profundamente analisá-las, quando eu aprofundar o meu olhar e conseguir enxergar a realidade em suas entranhas. A partir de uma visão mais abrangente, eu preciso superar esses preconceitos otimistas ou pessimistas.
Eu tenho que olhar a realidade exatamente como ela é, interferir nela do modo como causarei os efeitos necessariamente justos para que ela melhore qualitativamente, e isso é tudo. Eu preciso ter uma visão objetiva para interferir na realidade. Portanto, se eu preciso falar contra, eu tenho que falar contra.
Eu preciso falar, porque eu não posso partir do preconceito de que falar contra é errado quando é necessário falar contra. Eu preciso falar. Se não, eu simplesmente assumo abordagens que me colocaram do outro lado para que eu não denuncie o que está errado.
Eu acho muito interessante que, na década de 70, sobretudo 80, o pessoal na igreja católica falava assim: "Nós temos que ser proféticos, temos que exercer a profecia. " Que que era a profecia? Era você simplesmente ficar reproduzindo discurso da teologia da libertação, que era o mesmo discurso dos partidos de esquerda, que é simplesmente a teoria crítica sobre a sociedade como um todo.
Então, quem que eram os profetas? Então era quem falava como discurso socialista, aquilo que deveria ser feito, que o governo estava errado, que o judiciário estava errado, que o legislativo estava errado, que o mercado internacional estava errado, que os Estados Unidos são uma nação inimiga, que nós temos que lutar contra o neoliberalismo, que precisamos criar um governo que devora todos e que cria uma sociedade em que os 10 possuídos possuem o capital que está na mão das famílias mais ricas da sociedade. E vamos derrubar as classes opressoras e assim por diante.
Eram chamados profetas. Todo mundo que produzia esse discurso era chamado, literalmente, de profeta. Quem se lembra dessa época?
Algumas pessoas querem. . .
O resto dos jovens, né? Era assim: era chamado profetas, e a igreja não podia abandonar o profetismo. Se dizia então: a igreja não pode deixar de ser profeta; a igreja tem que continuar fazendo a crítica.
Agora, quando é para criticar o aborto, ideologia de gênero, totalitarismo educacional, musicalismo, culturalismo e guezismo, que estão destruindo as famílias e todas as outras mazelas que estão destruindo a sociedade, aí não pode! Aí não pode ser profeta; você tem que ficar caladinho. Vamos aceitar a amordaça que nos colocam?
A igreja, não! A igreja tem que ser, como diz o pessoal Jujuba, a igreja tem que ficar mansinha. Nós temos que ficar quietos; não pode falar nada.
Fica quietinho! Não, não é assim! Não é assim que funciona!
Não, porque hoje nós devemos agir diferente. Mas porque sempre a igreja agiu diferentemente. A igreja sempre agiu de outro modo.
Se vocês olharem a história da igreja e verem como se comportavam os padres da igreja no primeiro milênio, vocês vão observar que a atitude dos padres da igreja era extremamente firme para corrigir e dirigir todo tipo de erro. Como é que os padres da igreja agiam? Qual era a metodologia que seguiam?
Quando aparecia um determinado erro na igreja ou na sociedade, os pais da igreja estudavam profundamente, estudavam de modo decidido, claro, corajosamente, a questão, sem nenhum tipo de restrição, de autocensura, de amordaçamento. Estudavam com toda coragem, com toda franqueza e com toda sinceridade a questão. E, uma vez que estudavam aquilo, começavam a ensinar, combatendo o erro.
São João, nas suas epístolas, já faz isso quando condena os gnósticos que estavam negando que Jesus Cristo veio na carne. Ele diz: "Todo aquele que confessa que Jesus não veio na carne é o anticristo; tem o espírito do Anticristo. " Estes eram os docetistas.
Os docetistas eram aqueles que ensinavam que Jesus tinha uma humanidade só aparente. A primeira heresia que apareceu na igreja dizia que Jesus Cristo era só Deus e não era homem, e que a humanidade era só aparente, né? O que é um tapa na cara de todos aqueles apologetas islâmicos que dizem que a doutrina de que Jesus é Deus foi inventada por Constantino no Concílio de Niceia?
Não! A primeira heresia que apareceu na história da igreja dizia que Jesus Cristo era só Deus e não era homem. Portanto, a consciência da divindade de Jesus está plenamente presente já na primeira geração de cristãos.
Em outros períodos, nós teremos atitudes semelhantes. O próprio São João, no Apocalipse, condena aqueles que seguem a doutrina dos nicolaítas. Os nicolaítas têm muitas explicações.
Uma delas é que um daqueles sete diáconos de Atos 6, o Nicolau, teria pervertido a sua conversão e abandonado a fé porque se apaixonou por uma prostituta. E, para permanecer com a prostituta nas orgias comuns que se faziam, ele inventou uma doutrina segundo a qual tudo aquilo que você faz com a carne não importa; o que importa é o seu espírito para Deus. São João ataca, acusa a doutrina dos nicolaítas, como São Paulo ataca na epístola aos Gálatas os que queriam implantar novamente na igreja a observância da Lei mosaica, circuncisão, as cerimônias judaicas.
Em Romanos, por exemplo, capítulo 14, querem perturbar a comunidade com o assunto das carnes que eram enroladas, como os pagãos comiam. Ele diz: "Não, vocês não podem aceitar isso! " Ele aponta o erro.
E, note, São Paulo chega a um nível de apontar o erro que ele chega a censurar o próprio São Pedro. Na epístola aos Gálatas, quando ele se torna repreensível, ele diz: "Olha, você, sendo judeu, se comporta como pagão. Então, você é digno de censura!
Eu te resisto em face. " Ele aponta o erro. No século seguinte, essa tradição continua.
Quando surgem outras heresias, por exemplo, o arianismo, que quase dominou a igreja inteira, São Jerônimo conta que, certa manhã, o mundo inteiro era ariano, com exceção de Santo Atanásio, que sozinho estudou, meditou, transformou em discurso a sua meditação e começou a combater o erro com um grupinho pequeno de fiéis. Um grupinho pequeno! Não era muita gente, não!
Foi segregado pela igreja, foi excomungado, mas ele continuou firme, pregando, pregando, pregando! Como dizia São Paulo, oportuno e inoportunamente! O resultado foi que Santo Atanásio, apontando erro, acusando o arianismo, converteu a igreja inteira e conseguiu mostrar a divindade de Jesus.
Você vê a mesma coisa: apareceu Pelágio, com uma doutrina encantadora, muito acética, rigorosa, que dava a impressão de ser verdadeira. Quase levou todo mundo ao erro. Houve um Concílio na época, o Concílio de Cartago, que condenou Pelágio.
Pelágio apelou a Roma, o papa de então não tinha entendido a questão e condenou, como o filho de Cartago – e absorveu Pelágio, condenando as teses de Santo Agostinho. Santo Agostinho sofreu terrivelmente alguns meses até que o papa morreu e elegeu um outro papa, que era grego, portanto tinha muito mais abstração, capacidade de penetrativa. E o que o papa fez?
Condenou Pelágio e absorveu o Concílio de Cartago com Santo Agostinho, porque Santo Agostinho estudou pela janelismo, acusou Pelágio, mostrou que Pelágio estava errado. O mesmo fez São João Crisóstomo, em Bizâncio. Foi preso!
Era chamado "Boca de Ouro" (Crisóstomo significa "boca de ouro"). Foi preso pelo imperador, sobretudo pela imperatriz que o odiava. Foi preso, mas depois mostrou-se que ele estava, na verdade, falando da coisa correta.
Os pais da igreja identificavam qual era o erro essencial, aquilo que estava exatamente matando a igreja, aquilo que estava a trazendo e combati-o com força, obviamente mostrando a verdade juntamente com a denúncia do erro. O fato é que, a partir de então, no primeiro milênio, a igreja, com essa metodologia de ensino, combatendo o erro, ensinando a verdade, combatendo o erro, ensinando a verdade, sem nenhum tipo de restrição, crescia. Século após século, Santo Agostinho conta como uma prova da divindade da Igreja, de que a Igreja Divina, na Cidade de Deus, não para de crescer por todos os lados.
A Igreja não para de se manifestar em sua glória; ela cresce, cresce, cresce, cresce, cresce, cresce cada vez mais. Cresce, cresce, cresce, cresce, porque cada vez mais as pessoas iam estudando para enxergar onde estava o erro e a verdade. Essa coisa chega a um nível tão profundo que Hugo de São Vitor, no seu comentário ao livro do Apocalipse, diz o seguinte: quando comenta a abertura dos quatro selos, ele diz: "Foi aberto o primeiro selo, e saiu o cavalo branco; montado sobre ele, um cavaleiro que veio para vencer.
" Ele disse: "Estes são aqueles Apóstolos que vieram com a força da Ressurreição para anunciar ao mundo a graça da Ressurreição de Cristo e a vitória do cordeiro de Deus sobre todo o pecado. " O diabo viu que eles vinham com a força da Ressurreição; então ele disse: "Eu preciso fazer alguma coisa contra essa gente. " Então vem o segundo selo: o cavalo vermelho, a Igreja dos Mártires.
Com a Igreja dos Mártires, o diabo queria matar os cristãos: "Vamos matá-los, porque só matando a gente vai conseguir acabar com isso. Ninguém para essa gente; só a morte vai parar. Então vamos matar todo mundo.
" E aí acabou. Acontece que, com o martírio, eles iam se multiplicando mais e mais e mais; isso ia gerando mais e mais heroísmo, cada vez mais coragem. Então, o diabo teve que mudar de tática.
E aí vem o terceiro selo: o cavalo preto. Ele disse: "Não, não basta matar; nós vamos ter que gerar, lá dentro, falsa doutrina. Vamos ter que gerar heresias, e a heresia vai fazer com que eles todos se pervertam.
Uma vez que eles todos estiverem pervertidos, nós vamos vencer. " Ora, como diziam os padres da Igreja, "heresias". Por quê?
Porque, uma vez que você compara a negrura do erro com a brancura da verdade, uma coisa se distingue claramente da outra. Começaram a surgir as heresias e, então, os padres da Igreja começaram a apontar o erro, apontar o erro, apontar o erro, apontar o erro, apontar o erro, e fazer com que a verdade fosse cada vez mais sofisticada. A fé fosse apresentada de modo cada vez mais perfeito, mais puro, mais correto, mais argumentativamente convincente; mas teologicamente apresentava conceitualmente precisa.
Então, o diabo disse: "Olha, não tem jeito. Só vai ter uma outra tática que eu vou ter que seguir. " Que abre-se, então, o quarto selo, e aparece o cavalo que, no grego, se diz "pardo".
Algumas pessoas dizem "amarelo"; outras versões dizem "verde", mas o grego original diz algo como "pardo", ou seja, uma cor imprecisa, uma cor indefinida. Então, Hugo de São Vitor diz que o diabo começou a semear na Igreja a hipocrisia: "Nem a verdade, nenhum erro, nem a santidade, nem o pecado, nem a justiça, nem a falsidade, nem a verdade pura; mistura tudo: um cristianismo meio assim, meio light, um cristianismo que não acusa nada, que não milita contra nada, que não faz nada de bom nem de ruim, que vai tocando barco, deixa tudo em fogo baixo e vai louvando a vida. " E aí nós chegamos nos nossos dias.
Eu não vou continuar com o comentário do Hugo porque a palestra não é sobre isso. Fato é que os padres da Igreja, no primeiro milênio, todos eles agiram corajosamente; você pode pegar qualquer padre da Igreja, eles olhavam para a realidade, identificavam um problema central e começavam a tratar a realidade inteira a partir do tema central que a realidade possui. Ora, quando chegamos no final do primeiro milênio, acontece algo extraordinário: no início do segundo milênio, para ser mais preciso, que alguns monges começaram a transformar em técnica aquilo que os padres da Igreja faziam.
Então aparece em Paris a escola de São Vitor; ali, eles transformam em técnica exatamente aquilo que os pais da Igreja faziam, quando eles criavam uma técnica explicada e ensinavam para qualquer um. É nesse período que São Bernardo descobre um garotinho muito inteligente. Ele diz: "Olha, eu vou levar esse garotinho aqui para a escola de São Vitor; ele vai aprender e eu acho que vai ser ótimo para ele e para a Igreja também.
" Levou esse garotinho para a escola e ele acabou se tornando o grande Pedro Lombardo. Talvez vocês não conheçam Pedro Lombardo; foi o grande bispo de Paris, autor da chamada "Sentenças". Foi a primeira síntese teológica escrita na história da Igreja.
O que ele fez? Ele leu todos os padres da Igreja e resumiu no livro. Ele disse: "É muito texto, é muito texto.
" Esses dias eu vi uma autoproclamada filósofa chamada Viviane Moisés, marxista de gênero, etc. Ela disse assim que na Idade Média a Igreja só tinha um livro, que era a Bíblia. Então eu fui pegar o índice da patrística, escrito pelo padre Minia, que foi um sacerdote que reuniu todos os livros dos padres da Igreja numa única coleção.
Eu falei: "Deixa eu dar uma olhadinha no índice para ver quantos livros tem. " Comecei a ver isso e, meia hora depois, da cabeça, meu Deus do céu, é muito volume! Só da latina, para não falar da grega, tem ignorância absoluta!
O Pedro Lombardo já sabia disso no século XI, ou melhor, século décimo: "Dicionário, não tem jeito; nós vamos precisar fazer um resumo. " Fez assim uma síntese. Aquela síntese se tornou tão maravilhosa que passou a ser uma espécie de plataforma a partir da qual eles passaram a fazer sínteses mais elevadas, muito mais sofisticadas.
No período posterior, apareceu depois a Ordem dos Pregadores, fundada por São Domingos, que transformou um estilo de vida o modo de viver dos padres da Igreja, que passaram a fazer só isso: a denunciar o erro. E apontar a verdade, notem que o hábito dominicano é preto e branco, para mostrar o contraste entre a verdade e o erro de maneira clara. Os dominicanos recebem esse nome por causa do fundador, São Domingos.
"Domênicos" em latim significa "do Senhor", mas, na verdade, o nome "Dominique" tem outro significado: "Domini Canes", que quer dizer "cães do Senhor". Inclusive, quando a mãe de São Domingos, Joana, estava grávida dele, sonhou que dava à luz a um cachorro que saía com uma tocha na boca, percorrendo todos os lugares. Esse cachorro depois se tornou fundador da ordem dos dominicanos, exatamente porque possui esse carisma, como os padres da Igreja.
Inclusive, isso aparece claramente nos escritos fundacionais, um desejo de restauração do modo apostólico de viver dos Padres da Igreja, atacando, por toda parte, o erro e corrigindo a verdade, promovendo a verdade. Consequentemente, apareceu Santo Alberto Magno, que resolveu, a partir de Pedro Lombardo, fazer a síntese de todas as ciências da época. Depois apareceu um aluno de Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino, que resolveu fazer uma síntese também, contando com o que havia de melhor na filosofia clássica grega, inclusive os escritos de Aristóteles.
Ele acabou incorporando isso. São Tomás de Aquino escreveu para a pregação aos hereges, um livro chamado "Suma contra os Gentios", cuja tradução portuguesa acaba de ser publicada há pouco. Na "Suma contra os Gentios", ele afirma, no primeiro livro, que o ofício do sábio está na primeira questão da "Suma contra urgente" — você abre uma conta urgente e é a primeira coisa que aparece lá: o ofício do sábio é contemplar a verdade, apontar o erro e ordenar todas as coisas.
O ofício do sábio é tríplice. No comentário à Metafísica, outro princípio que é uma característica do ofício do sábio é julgar os princípios. Vamos ficar com esses três, por enquanto, da "Suma contra os Gentios": apontar o erro e ordenar todas as coisas.
Isso é o que São Tomás apresenta como aquilo que a Igreja sempre fez; é efetivamente a coisa mais importante a se fazer. Inclusive, ele diz o seguinte na "Suma Teológica", no suplemento da "Suma Teológica", que não foi escrito propriamente por São Tomás, mas por seu secretário Reginaldo. Reginaldo, de São Tomás, que, tendo índice da Suma, foi pegando textos do comentário de São Tomás, sentenças, e ordenando-os de acordo com aquele índice, fala sobre as três auréolas dos Santos, que são muito importantes.
Ele disse que existem três auréolas: auréola dos mártires, auréola das virgens e auréola dos pregadores ou doutores. Ele afirmou que a auréola menor é a das virgens, porque elas venceram a carne; a segunda auréola é a dos mártires e é maior que a das virgens, porque os mártires venceram o mundo pelo testemunho ousado de sua fé; e a última auréola, a maior de todas, é a auréola dos doutores, porque os doutores venceram o diabo. Os sábios venceram o diabo.
Aí você pergunta: "Como é que o sábio vai vencer o diabo? Eles fizeram exorcismos? Eles ficaram fazendo orações contrárias ao diabo, desfazendo macumba?
" Não! Ele diz que os sábios venceram o diabo pela pregação da verdade, desmascarando aquele que é o pai da mentira. Portanto, o ofício do sábio é o mais importante da história da Igreja.
Aqui, eu faço uma pequena crítica ao livro do professor Roberto de Mattei, "A Apologia da Tradição", que é um livro muito bom sobre esses aspectos, só que tem essa falha. Ele mostra que a conservação da fé se deveu unicamente à Igreja docente e ao povo fiel, que o povo simples manteve a fé ao longo dos séculos pela tradição. Isso não é puramente verdade, pois se não houvesse os sábios na Igreja, a fé do povo teria se pervertido também.
É necessário que, na Igreja docente, entre os pastores de almas, surjam pessoas que sejam eminências de sabedoria e que ordenem todas as coisas, apontando o erro e contemplando a verdade, contrastando o erro com a verdade. Sem os sábios, sem homens e mulheres que realmente prestem esse serviço à Igreja, nós perecemos no erro. Como diz Oséias, no capítulo 4, versículo 6 da profecia: "Meu povo perece por falta de conhecimento.
" As pessoas continuarão perecendo por falta de conhecimento; elas acabam se perdendo se não houver pessoas que estudem o suficiente, meditem o suficiente, contemplem o suficiente para poderem, depois, contrastar a verdade e o erro e poderem ordenar todas as coisas. Foi assim que a Igreja foi crescendo até que chegamos no segundo milênio, e depois da invenção das universidades, a Igreja começou a perder força. Por quê?
Obviamente, as universidades se tornaram lugares em que as pessoas não vivem uma vida sapiencial, mas têm uma profissão pedagógica. Então, você não estuda mais para adquirir sabedoria. Você estuda para adquirir um diploma.
E aí a Igreja se tornou um pouco esquizofrênica. Em que sentido? No primeiro milênio, quem eram os grandes místicos?
Quem eram aqueles que eram cúmulos de santidade? Eram os mesmos pastores, eram os mesmos grandes teólogos. Olhe para os Padres da Igreja: eles eram os maiores místicos, os maiores pastores e os maiores teólogos.
Então, qualquer pessoa na Igreja queria estudar. O que fazia? Ia para um mosteiro, ia para uma escola canônica e, lá, ele vivia uma vida de estudos.
Só que a vida de estudo significava o quê? Vida de oração. Então, ele tinha que se dedicar à oração, corrigir a própria vida moral, colocar-se no caminho reto da contemplação divina.
Depois, tinha que estudar profundamente, saber grego, saber latim, passar a vida toda estudando. Depois, ia ter que fazer pastoral. E pastoral significava não apenas fazer trabalhos manuais, como plantar numa horta, dar comida para galinha, limpar sujeira de porco, mas também.
. . Dá aula para criança na catequese, para as velinhas que precisam de conselho.
Abençoar cadáveres é dar sermões para quem não entende nada, então ele tem que fazer um exercício: simplificar a coisa. Era um estilo de vida em que os grandes místicos se tornavam, ao mesmo tempo, grandes intelectuais e pastores maravilhosos. Se você ver como Santo Agostinho, no prólogo do "Determinar", diz que escreveu aquele livro a pedido dos seus fiéis, porque eles queriam conhecer o mistério da Trindade; então, ele foi estudar o mistério da Trindade, começou a escrever, ia pregando e ia corrigindo aquilo, colocando uma linguagem mais adaptada para ensinar as pessoas a tratar a Santíssima Trindade.
E assim ele fazia com todos os outros escritos dele, e todos os padres da Igreja faziam a mesma coisa: eram grandes santos, grandes intelectuais e grandes pastores. Inventaram as universidades, então o que fizeram? Os intelectuais ficam na universidade, os pastores vão para as paróquias, não precisam estudar muito, não.
Vão para as paróquias só resolver problemas paroquiais, e os místicos se trancam nos mosteiros e começam a desmaiar textos, nem sabem o que está acontecendo direito com eles. Então, quando a Igreja se esquizofrenizou, começou a perder força. Nós paramos de apontar o erro e de contemplar a verdade, e começamos apenas a fazer apologética.
O segundo milênio é um grande milênio da apologética, então a Igreja começou a defender a fé mais ou menos com a visão partidária: nós somos católicos, a nossa fé é a melhor, a nossa fé é a mais justa, é melhor do que a de vocês, seus hereges, etc. , mas sem penetrar profundamente no erro e desconstruí-lo até que desaparecesse, como aconteceu no primeiro milênio. A Igreja foi aprendendo a conviver com isso, e até aquilo que não era para dar certo acabou dando certo.
Para vocês verem, por exemplo, com o protestantismo: estamos agora entrando nos 500 anos da reforma. Quando Lutero começou com o movimento dele, ele mesmo achava que aquilo era uma espécie de gripe, que aquilo ia passar, que não ia pegar, que não ia dar certo, mas a coisa foi dando certo. A Igreja fez o Concílio de Trento para afirmar a fé católica, e não apareceram na época pessoas que estudassem profundamente o fenômeno do protestantismo e começassem a pregar contra aquilo para desconstruí-lo.
A Igreja simplesmente se defendeu, ela se trancou, se fechou, criou uma fortaleza, criou sistemas pedagógicos que fossem aos confins de onde estava acontecendo a reforma protestante, e lá eles conseguiram segurar a fé das pessoas, mostrando a beleza da fé católica, mas não conseguiram o erro, e o erro continuava se alastrando. A partir deste alastramento, foi contaminando cada vez mais a consciência das pessoas e gerando filosofias cada vez mais estáveis, fúrias cada vez mais doidas. Mesmo aí a Igreja continuava apontando, de algum modo, o erro, não de modo muito eficaz, mas continuava apontando, de algum modo, o erro até que chegamos ao século XX.
E aí, no século XX, através de uma abordagem, sobretudo diplomática, conseguiram fazer com que a Igreja aceitasse ser amordaçada. Lamentavelmente, vocês vejam que o Papa João XXIII, São João XXIII, convocou o Concílio Vaticano II para estudar os problemas do mundo moderno. Se vocês verem a abertura do Concílio, o discurso de abertura do Concílio, o que o Papa diz ali?
Ele diz: "Olha, a Igreja está muito bem, está ótima, temos muitas vocações por todos os lugares, seminários absolutamente reflexos. " Nós temos seminários, por exemplo, o seminário de Navarra, o seminário diocesano tinha mil seminaristas; não era raro você encontrar um seminário que tivesse 500 seminaristas naquela época, congregações cheias, missionários pulando e fervilhando no mundo afora. Efetivamente, o Papa tinha razão, e ele continua no discurso dizendo: "Quem está com problema na Igreja, quem está com problema é o mundo moderno, e nós precisamos fazer o quê?
Nós precisamos estudar um jeito de anunciar a fé de modo mais eficaz no mundo moderno. " Fizeram o Concílio Vaticano II; o Concílio Vaticano II foi o maior evento da história da Igreja em termos de participação do psicopata, porque os meios de comunicação e os meios de transporte modernos permitiam isso. Todos saíram muito empolgados do Concílio, que não foi um concílio dogmático, foi um concílio pastoral, e por isso teve uma linguagem um pouco mais elástica, exatamente porque se destinava a ser um concílio pastoral.
Mas os teólogos da "velha teologia" — que foi condenada pelo Papa Pio XII na encíclica "Humanae Generis" — já estavam preparados para fazer uma hermenêutica, uma interpretação do Concílio em descontinuidade com a tradição da Igreja, e foi exatamente através da "nova teologia" que todo mundo continuou. A "nova teologia", em francês, significa "nova teologia"; a gente diz assim "nova teologia" porque o vocabulário é comum para se referir a essa corrente teológica, sobretudo porque os principais teóricos eram franceses. Então, começaram a difundir essa ideia de que "não, imagina, nós não temos que apontar o erro, nós temos que dialogar com todos; nós não temos que acusar a mentira, nós temos que fazer uma síntese das coisas", uma síntese mais ou menos fenomenológica.
Você vai apresentando dados, e apresentando esses dados, você não os confronta, você compõe um quadro mais amplo, você cria um ânimo muito mais dialogante. "Vamos parar com essa história de apontar erros. " E foi exatamente aí que apareceu o problema demográfico.
Foi aí que começou a surgir a cultura da morte. Foi uma coincidência de fatores; de um lado, a Igreja que mudava de atitude e, de outro, o surgimento efetivo de uma cultura da morte. Mas prestem atenção: isso me parece a coisa importante de se dizer agora, em termos metodológicos, é necessário contemplar a verdade, apontar o erro para conseguir ordenar todas as coisas.
Quer. . .
Essa é uma experiência que a. . .
Gente, tem no dia a dia. Então veja, por exemplo, uma dona de casa foi viajar, deixou o filho adolescente sozinho em casa no fim de semana, né? Saiu na sexta-feira, chegou domingo à noite em casa.
De repente, a casa está parecendo o banheiro do inferno: tudo fora do lugar, sapato dentro da geladeira, a pia transbordando de coisas, cama. . .
ninguém sabe mais onde é; lençol de quem, fronha de quem, cobertor de que? ! Tudo sujo!
A casa inteira fora de ordem, aquela coisa horrorosa, os bichos todos gritando de fome, sujando a casa inteira, janela aberta, chuva que entrou e molhou tudo. . .
a desgraça do capeta! Ora, a primeira coisa que ela tem que fazer: ela precisa contemplar a verdade, ou seja, ela precisa saber como é que é uma casa em ordem. Ela tem que saber: "Não, pera, isso aqui não parece mais a cozinha, mas ainda é a cozinha, né?
Tem um cabide aqui, mas é a cozinha. Papel higiênico tá aqui embaixo, mas é a cozinha. " Então, aquele outro tá parecendo que é o quarto, mas é a sala.
É, tem cobertor aqui, tem colchão aqui, tem travesseiro aqui, tem tudo aqui. . .
a sala não é a cozinha. Ou seja, ela precisa ter a verdade sobre a casa dela presente na sua mente. Ela tem que contemplar a verdade.
Em segundo lugar, ela precisa apontar o erro. Ela tem que corrigir o erro. Ela tem que limpar, tem que limpar, tem que tirar sujeira.
Se tiver esterco de animal, ela tem que limpar aquele esterco de animal. Se tiver urina de animal, tem que tirar, tem que limpar, né? Quem tem olfato de cão perdigueiro, né, chega na casa e fala: "Meu Deus, que cheiro ardido é esse?
Ah, foi o gato que urinou na casa inteira porque não abriu a porta para ele sair! " Então, ela precisa limpar a urina do gato. Você precisa tirar a sujeira; já tem comida lá que tá estragando, ela precisa tirar a sujeira.
E depois, ela vai ordenar todas as coisas. Então, ela coloca em ordem: "Não, isso aqui é naquele cômodo, isso aqui é naquele outro, esse aqui é naquele outro, não, essa meia não, não, no lugar dela, não é dentro da geladeira. O lugar dela é.
. . bom, agora ela tá suja, vai para a máquina de lavar.
" Porque se você não ordena todas as coisas, aquilo vai continuar um inferno. Ora, tem como você chegar numa casa nesse estado e dizer assim: "Ah, não, mas é o jeito dele arrumar as coisas. Vamos falar sobre a limpeza, vamos falar sobre ordem, vamos aprender a conviver com isso.
Eu vou arrumar apenas o meu cantinho, o meu cantinho vai estar arrumadinho, mas o resto. . .
vamos aprender a conviver com esse jeito alternativo de enxergar a vida. " Tem como fazer isso? Não.
Tem como ordenar as coisas e deixar tudo sujo? Não. Se você não aponta o erro e se você não corrige o erro, não vai funcionar.
Você não vai conseguir ordenar todas as coisas. Um economista, por exemplo, o país tem recessão, a inflação altíssima, os juros no teto, a taxa de desemprego não para de subir; aquilo tá uma desgraça! Aí chega quem tem preconceito otimista assim: "Imagina, não, vamos falar da crise, vamos falar só das coisas boas.
Vamos falar de como é bonito trabalhar, de como é importante ter uma sociedade em ordem, de como é importante ter uma sociedade arrumada, de como é importante você ter uma economia saudável. " E aí, pela força de você falar de coisas bonitas, a sociedade vai se arrumar e a economia vai se consertar? Vai se consertar?
Não! Você tem que apontar o erro. Você tem que pegar os livros de Economia; pega lá o "RO7", pega lá não sei mais qual, estuda a teoria econômica do Keynes, estuda a teoria econômica do Fomizes, vai, analisa todos os livros.
"Olha, o problema tá aqui, vamos abaixar essa taxa de juros, vamos tentar fazer as pessoas gastarem menos, abaixando a taxa de aumentando a taxa de juros e abaixando isso da inflação, para eles investirem mais", ou o contrário: "Vamos fazer esse jogo econômico com aquele outro para conseguir melhorar a situação econômica. " E você, apontando onde está o erro econômico, você vai conseguir sanear a economia. Não tem como você sanear uma economia desgraçada sem você apontar o erro, qualquer economista sabe disso.
Por exemplo, no mundo do Judiciário, se você não pune o crime e não diz onde está o crime, pode haver Justiça? Esse é o princípio mesmo da Justiça: você precisa conhecer as leis, apontar onde está o crime e puni-lo para ordenar a sociedade. Senão, a sociedade vai entrar numa divisória.
Um médico, por exemplo, está com uma doença; tá com câncer, por exemplo, só tá com câncer. Vai ao médico, o médico diz: "Não, você tá ótima, querido! Imagina, não tem problema.
Olha que cara bonito, tá corada, tá uma fofura! Não, vamos te dar quimioterapia, não, vamos te dar nada, vamos te dar vitaminas, só coisa por vitamina C, um complexo vitamínico, tá ótimo, a gente importa dos Estados Unidos que é mais barato, então vamos tomar muita vitamina, coisas boas. " O que vai acontecer com esse doente?
Porque você precisa fazer o diagnóstico da doença e fazer o quê com a doença? Atacá-la! E se a doença for agressiva, o ataque também tem que ser agressivo.
Você não pode ter um ataque à doença que seja um ataque, né, um ataque tranquilo: "Tá, vamos dar só um antibiótico para a pessoa que tá com câncer. Vamos dar um anti-inflamatório e fé na peruca que vai dar tudo certo. " Não!
Não vai dar certo, ele vai morrer! Porque doença você ataca com atacando a doença. Não tem como médico infundir saúde no doente a não ser que ele seja um carismático daqueles que faz uma oração de cura milagrosa, e aí Deus vai curar.
Só que aí é milagre, aí não é medicina. Medicina, você não infunde a saúde; medicina, você ataca a doença para poder restaurar todas as coisas. Não tem estudo de biologia responsável.
Sem estudo de patologia, gente, você tem que estudar a patologia. Não tem como você resolver a vida de alguém que está doente sem estudar patologia. Você aprende a desmontar uma doença.
Uma guerra, por exemplo: se estou em uma guerra contra você, um exército inimigo vai invadir o seu país, vai transformar o seu país em uma desgraça. Aí você vai chegar e vai dizer assim: "Ah, não, vamos aqui dialogar, né? Vamos falar com o exército inimigo em termos pacíficos.
Vamos fazer aqui todo o nosso melhor. " Vai adiantar? O exército inimigo vai te atacar!
Vamos dar flores? Vamos mandar a pomba da paz? Tem um filme de comédia que ataca, não sei se vocês assistiram, esse filme que é uma paródia de Independence Day.
Aí chegam os marcianos, vai todo mundo, presidente dos Estados Unidos, todo mundo, fazer a paz com os marcianos, aquela coisa linda. Aí chega um hippie e solta uma pomba da paz; ele solta a pomba assim, mas eles não sabem que é uma pomba. Entende que aquele é um ato de guerra?
Pá! Mata uma pomba e começa a matar todo mundo por causa da pomba. Né?
Não tem jeito. Você tem que agir do modo consequente. Portanto, meus queridos, não tem por onde!
Essa história de falar que nós temos que ser apenas a favor, propositivos, isso não existe. E eu vou dizer mais: os marxistas entenderam que isso não existe e eles aprenderam, inclusive, com a Igreja, porque eles inventaram uma teoria chamada crítica. Para quê?
Para simplesmente ficar criticando. É o que eu chamava de um trabalho do negativo: ficar o tempo todo criticando. Eles não propõem nada, eles só criticam, criticam, criticam, demoram.
É o que se faz o tempo todo. Então, não adianta. Nós temos que, sim, ser para a vida, mas nós não podemos nos esquivar da tarefa de fazer a crítica da teoria crítica, do desconstrucionismo.
Nós precisamos acabar com tudo isso, porque é o único jeito de conseguir reverter a situação. Termino com a citação do Papa João Paulo II, São João Paulo II, cuja festa celebramos hoje. Diz ele, na Evangelii Nuntiandi, número 28: "Este horizonte de luzes e sombras deve tornar a todos plenamente conscientes de que nos encontramos perante um combate gigantesco, hidramático, entre o mal e o bem, a morte e a vida, a cultura da morte e a cultura da vida.
Encontramos não só diante, mas necessariamente no meio de tal conflito. Todos estamos implicados e tomamos parte dele com a responsabilidade inulutível de decidir incondicionalmente a favor da vida. " Também para nós ressoa, claro e forte, o convite de Moisés: "Vê, ofereço-te hoje, de um lado, a vida e o bem; do outro, a morte e o mal.
Coloco diante de ti a vida e a morte, a felicidade e a maldição. Escolhe, pois, a vida, então viverás com toda a tua posteridade. " É um convite muito apropriado para nós, chamados, cada dia, a ter de escolher entre a cultura da vida e a cultura da morte.
Mas o apelo do Deuteronômio é ainda mais profundo, porque não chama a uma opção especificamente religiosa e moral; trata-se de dar à própria existência uma orientação fundamental, vivendo com fidelidade e coerência a lei do Senhor. As palavras do Papa são contundentes, são inelegíveis. Eu digo mais: atualmente, qual é o problema central da Igreja?
O problema central da Igreja chama-se cultura da morte. O aborto não é um tema paralelo; não! Gênero não é um tema paralelo; não!
Crise educacional não é um tema paralelo; não! São as maiores ameaças que estão diante de nós. Portanto, se você escolhe ser provida, hoje eu te convido: estude, mas não estude simplesmente para você saber.
Não estude para ensinar; estude para pregar, estude para falar, oportuna e inoportunamente. Estude para contemplar a verdade, estude para apontar o erro e estude para nos ajudar a ordenar todas as coisas. E se você fizer isso com fidelidade, é absolutamente certo que nós vamos conseguir vencer.
Como já estamos vencendo, porque no Brasil nós somos os únicos que estamos conseguindo fazer isso com eficácia. E é por isso que, até hoje, no Brasil, aborto ainda é crime, gênero não é lei, e todas essas outras desordens estão conseguindo ser barradas, porque nós temos procurado fazer exatamente isso, sem mordaças, sem limitações e sem cedermos a nenhum tipo de bom mocismo que não nos ajuda a enfrentar efetivamente o câncer na nossa sociedade. Como pares da Igreja, não nos esquivemos.
Este é o problema central; esse é o problema mais importante. E é por isso que esse simpósio não é um simpósio como qualquer outro; não é um simpósio que tem uma importância fundamental porque nós estamos tocando na ferida. Mas como diz o Senhor: "Eu firo, mas minhas mãos podem sarar.
" Vamos, portanto, com responsabilidade, com amor à verdade, continuarmos firmes nessa batalha. A cultura da vida precisa vencer. Muito obrigado!
[Aplausos] [Música] [Aplausos] [Música] Ainda assim, como estamos, eu te peço que abaixe um pouco a sua cabeça, feche os teus olhos. Escuta isso: "Vê que te elegeu, te ungiu e consagrou. Não temas, nos lábios santos, teu nome não te chamou como um servo qualquer, mas com carinho.
" [Música] "Teu te capacitou, toda a força de Deus, amparou e acolheu. É que depois, Deus te fez um vencedor.