Tem muita gente me escrevendo dizendo que tá com bastante dificuldade de ler esse livro aqui, As Meninas de Ligia Fagundes e eu entendo perfeitamente essa dificuldade porque a forma de narrar essa história é muito original, muito diferente daquelas formas com que as pessoas estão acostumadas, né, a ler os livros. A escritora, ela misturou várias vozes na narrativa e ela misturou isso com fluxo de consciência, que eu já expliquei em outros vídeos o que é. Expliquei principalmente quando eu falei sobre as obras da escritora inglesa Virgínio Wolf e do escritor americano William Falkner.
E por que que eu expliquei, né, com esses dois? Porque eles são dois escritores famosos por usarem fluxo de consciência. Eu vou deixar os links aqui na descrição desse vídeo para você ver um pouco da da dos vídeos do Falkner e da Virgínia Wolf.
Mas não se preocupe porque ao final desse vídeo eu vou explicar novamente e ainda dar exemplo tanto de fluxo de consciência quanto do uso de vozes diversas que em literatura nós chamamos de narrativa polifônica, né? Não é um palavrão, tá? Então, muitas vozes é narrativa polifônica.
E você vai ver que depois da explicação vai ficar muito fácil, mas se você tiver alguma dúvida, eh, você me escreva que eu tenho o maior prazer em responder. Mas antes eu quero também lhe convidar para assistir ao vídeo que eu tenho aqui no canal com a biografia da Lígia Fagundesques. É um vídeo curtinho, mas é sempre fundamental conhecermos e para conhecer melhor uma obra, conhecer também a vida de um escritor, pra gente saber de onde e de que tempo esse escritor está escrevendo, qual o contexto em que ele cria as suas histórias, o que lhe influenciou como pessoa, claro, e também como escritor.
E aí eu vou deixar o link da biografia também aqui na descrição. Então você já vai tendo muitos elementos para poder facilitar a sua leitura desse livro. Então eu vou começar pelo resumo, tá?
Então vamos ao resumo. A história de as meninas, ela vai acontecer em São Paulo e ela vai contar dois dias na vida de três amigas que moram no mesmo pensionato católico de freiras, tá? É de freiras chamado Pensionato Nossa Senhora de Fátima.
As amigas, as três amigas, elas chamam-se Lorena, Lia e Ana Clara. E as três, elas são muito diferentes uma da outra. Talvez elas jamais se tornassem amigas se não tivessem ido morar nesse mesmo lugar, nesse pensionato.
As três são universitárias, mas a Ana Clara eh tá meio perdida, então ela trocou a trancou a matrícula no curso de psicologia. A Lia, como ela reprovou o semestre, ela também trancou e o seu curso de ciências sociais. E no momento da história, então, somente a Lorena ou Lena, eh, é que faz regularmente o curso de direito, tá?
Então, cada uma estava em um curso diferente, mas moravam as três no mesmo pensionato. Lorena Vasleme, também chamada Dilena, ela é de família rica. Seu pai era fazendeiro e quando ele morreu deixou bastante dinheiro para a mãe que acabou se casando novamente com um tipo bem oportunista e bem mais moço do que ela.
Eh, chamado Mir. É, deve ser um apelido, tá? Lembra bem uma coisa francesa.
Lorena está sempre ouvindo música e lendo poesia. Ela só tem um irmão chamado Remo, que é diplomata e vive fora do Brasil. Mas ela sempre conta pras amigas que ela teve um outro irmão chamado Rômulo, que foi morto por Remo em uma brincadeira com pegar a espingarda, que a espingarda estava com bala, quando os dois eram crianças e ela era menor.
A Lorena fala ou se lembra desse episódio da morte do irmão inúmeras vezes. E nós leitores percebemos como isso, como esse fato marcou a sua infância e a sua vida. Ela é uma moça sensível, sonhadora, virgem.
Ela, isso é uma coisa que ela repete muito, com obsessão por ordem e limpeza. Como ela tem dinheiro, a sua mãe eh sempre está lhe ajudando, como a sua mãe tem dinheiro, então ela tá sempre dando dinheiro pra Lorena. E aí a Lorena tá sempre ajudando essas duas amigas, tanto financeiramente como emprestando as suas coisas que nem sempre são devolvidas, tanto pela Lia como pela Ana Clara.
A Lorena é apaixonada por um médico casado e com cinco filhos, mas eles só trocam cartas e bilhetes, conversam, mas não chegam a se envolver realmente como Lena gostaria. É quase um amor platônico. Parece mais uma transferência da figura paterna que tanto faz falta a Lorena.
O tal médico chama Marcos Nemésius, mas a Lorena se refere a ele apenas pelas iniciais do seu nome, que é então MN. Então esta é resumidamente a Lorena. A outra chama-se Lia de Melo Schutz, que recebe o apelido de Leão.
Ela nasceu na Bahia, filha de um alemão que fugiu do nazismo e acabou em Salvador casando-se com uma baiana, né, que é a que é a mãe da Lia. Sua família parece ser de classe média, bem estruturada e ela tem um ótimo relacionamento com os pais. A Lia, ela veio para São Paulo estudar quando depois de ter um um relacionamento homoafetivo com uma amiga, seus pais eh queriam que ela ficasse noiva de um primo.
Então, ela fala que mais que depressa, ela arrumou a sua necesser e veio para São Paulo. Em São Paulo, a Leão ou Lia se engajou na luta contra a ditadura no Brasil. E como muitos jovens daquela época com medo de serem identificados e presos, ela tem um nome de guerra que que eles usavam ali quando eles estavam no seu grupo eh de luta.
O seu nome de guerra é Rosa em uma referência, claro, a Rosa Luxemburgo, do Partido Comunista da Alemanha, que foi assassinada pela polícia alemã. O namorado da Lia chamado Miguel está preso. Como Miguel vai ser solto em uma troca pelo embaixador americano que havia sequestrado, o que, gente, isso é importante, hein?
o que de fato ocorreu, tá? A gente consegue então supor que essa história se passa em 1969. Claro que a escritora declarou em várias entrevistas que ela começou a escrever em 1970, então isso tava muito fresquinho na memória dela e o romance foi publicado em 1973.
Eu quero chamar a sua a sua atenção porque isso é importante, é um conhecimento de história que pode lhe ser perguntado. Como que a gente sabe que essa história se passa em 1969? O embaixador, ele foi sequestrado justamente para ser trocado por presos políticos que estavam nas mãos dos militares, né?
Então, eh, isso realmente aconteceu e é bom, inclusive que você pesquise. Por fim, a terceira moça ou a menina, né, eh, Ana Clara Conceição, também vai ser chamada de Ana Turva pelas duas amigas em uma referência ao seu comportamento destrambelhado de viciada em drogas. Ou seja, apesar de ter Clara no nome, eh, a vida dela ali não é Clara em nada, né?
Ana Clara é muito bonita e tornou-se modelo, mas as drogas, o uso massivo de drogas estão lhe tirando tudo. Ela tem um namorado traficante que um dia foi rico chamado Max, mas ela sempre fala que ela está noiva de outro, que é muito, muito rico e com quem ela pretende se casar no ano que vem. Marx eh chama a Clara carinhosamente de pomba ou de coelha, principalmente quando ambos estão drogados.
A Ana Clara vive prometendo a si própria e aos outros, as amigas e principalmente a Madre Alix, que é a diretora do pensionato, que gosta muito dela, né? que vai largar as drogas, que vai se casar com esse milionário, que o ano que vem eh vai ser tudo muito diferente, ela vai voltar a estudar. Como todo viciado, ela diz que ela para com as drogas quando quiser.
A gente ouve muito essa história de gente eh viciada, né? A gente sabe que isso não é verdade. Quem é viciado precisa de ajuda, né?
Ajuda médica, ajuda psicológica. É muito difícil, quase impossível parar sozinho depois de um certo momento do vício. Ana Clara é filha de mãe solteira, teve uma infância muito, muito, muito pobre e mesmo sem ser explícita, a gente conclui que ela foi abusada de várias formas e por vários homens, inclusive pelos amantes da sua mãe.
durante a narrativa, eh, como ela tá sempre meio drogada, então as coisas meio que se misturam, aparecem vários flashes da sua vida passada, principalmente um dentista que ela ia quando criança e por quem ela tem verdadeira ogeriza. Tá bem? Essas são as três.
E aqui eu já quero chamar a sua atenção para algumas coisas que são importantes e não podem ser eh notadas. Perceba que cada uma dessas jovens, dessas meninas, vem de uma classe social diferente e de uma realidade diferente. Então você vai ter classe alta, classe média e classe baixa.
A da classe alta, a Lorena, ela sofre as consequências de uma mãe fútil, que se preocupa muito com a aparência, que não quer envelhecer, principalmente por causa do atual marido bem mais novo do que ela. Esse marido trai ela com outras mulheres, ela chora, mas tá ali sempre com ele. Essa mãe cobre então a Lorena de presentes e de dinheiro para compensar não ser a mãe presente e amiga que deveria ser.
Então essa é a Lorena. A Leão vem de um lar feliz, uma típica eh família classe média, mas claro, gente, com valores burgueses, né? Tanto é que ficou assustada com a relação homoafetiva que ela teve.
E então a ali ela se sentia até sufocada por tanto amor e eh com a distância e e comparando seus pais com outros pais de amigos que ela conhece, ela vai dando então o devido valor aos seus pais. E Ana Clara, que é a pobre filha de mãe solteira, como eu já disse, que jamais conheceu o pai, só os amantes violentos de sua mãe e que comeu o pão que o diabo amçou na infância e na adolescência. Então, nós vamos ter uma representante de cada classe social de uma origem muito diferente uma da outra.
Perceba também que a Lorena, ela costuma chamar as amigas pelos nomes completos, né? Nome e sobrenome, o que é uma referência às famílias quatro centonas paulistas que tinham esse hábito, né, de valorizar os sobrenomes. Por quê?
Porque eram sobrenomes que nomeavam as famílias que tinham dinheiro há muito tempo, né? Eh, eh, a riqueza era a riqueza antiga, não eram os novos ricos. As famílias quatro centonas não gostavam de novos ricos.
Há um trecho do livro que é narrado pela Ana Clara, que demonstra isso muito bem quando ela e Lorena eh se conhecem. E a Lorena estranha muito o sobrenome de Ana Clara por se tratar de não parece um sobrenome, é um nome comum, não parece algum sobrenome. Esse trecho a Ana Clara que narra e diz assim: "Abre aspas, Conceição, sim, senhora.
E daí? Quem mais nesta cidade se importa com o nome? Cidade formidável.
Acabou tudo isso. Agora é só saber se a gente tem ou não um saco de ouro em casa. Se tem, pode ter o sobrenome de merda.
E as pessoas enchem enchem a boca e dependam no seu peito uma medalha. Acabou isso de nome, acabou tudo. Fecha aspas.
Percebam então eh que é uma referência a essa época que está acabando, eh, das famílias. Como eu disse antes, a história vai contar o que cada uma eh faz durante os dias em que o romance acontece, mostrando como as rotinas eh delas são diferentes. Enquanto a Lorena fica lá em seu quarto fazendo ginástica, tomando chá, organizando e limpando suas coisas, estudando, ouvindo música, lendo, ou seja, fazendo um monte de coisa gostosa, sonhando, né, e esperando um telefonema de MN que nunca acontece.
A Lia, por sua vez, está na rua com seus companheiros de luta, distribuindo folhetos, eh estudando, ela faz parte de grupos de estudo, então estudando os principais pensadores e arrecadando dinheiro para ajudar na luta contra a ditadura. E a Ana Clara, que que ela está fazendo durante quase toda a história? Ela está tomando drogas e fazendo muitas viagens alucinantes, completamente fora de órbita.
Aliás, eh é muito interessante acompanhar os delírios da Ana Clara e do seu namorado, o Max, né? e perceber como a narrativa que a que a Lia Fagund Stelles faz, como ela é capaz de mostrar a nós leitores as coisas sem nexo que eles vêm ou sentem. Eu chego a ficar angustiada em alguns trechos, né?
E além disso, a Ana Clara, ela tem um encontro que ela diz que ela vai ter com o noivo rico, então a gente fica mais angustiada porque ela está sempre atrasada. Lorena das Três é a que mais sobressai, não muito, mas ela eh a narrativa se concentra um pouco mais nela. Nada acontece de muito importante para Lorena, que apenas dá um beijo em Guto, que é um rapaz eh da sua idade, então ela repara que a calça tá meio suja, o pé tá meio sujo, né?
como era aquela juventude e é até hoje. Então, eh quando ele dá o beijo, eh ela o repele, mas não porque ele é sujo, mas porque ela percebe que ela tem desejo por ele. Já a Lia, ela sabe pelos companheiros que o Miguel, seu namorado, vai ser solto e vai viajar para Argélia.
E ela então eh decide que ela também vai, ela vai se encontrar com o namorado. Ela pede eh pra Lorena umas roupas para levar na viagem e para doar pro pessoal da luta ali. Mas a Lorena não tem, mas lembra que a mãe sempre tem muitas roupas e a Lia, ela vai buscar essas roupas na casa da mãe da Lorena.
E lá esta mãe conta para ela que o Rômulo não morreu assassinado pelo remo na brincadeira de criança, mas que ele morreu bebê antes da Lorena nascer e que foi a Lorena que inventou essa história toda e desse assassinato há muitos anos. A Leão, A Leão fica completamente pasma, né? Ela não sabe em quem acreditar.
Se na amiga que tantas vezes lhe contou a história da brincadeira com a espingarda que acabou em assassinato, ou se na mãe da Lorena. E aí ela se lembra que há um livro de fotos que Lorena guarda num porão. Ela pensa então que ela pode descobrir a verdade olhando as fotos.
Mas quando ela volta as roupas que ela ganhou, a Lorena tinha já dado banho em Ana Clara, que havia chegado completamente dopada, suja e machucada, né? Ela tinha hematomas pelo corpo. Lorena a coloca para dormir em sua cama e vai ao quarto de Leão para conversar.
A gente sabia que a Ana Clara tinha saído para encontrar esse tal noivo, mas ela saiu completamente eh dopada e ela encontrou um homem que a leva pro apartamento. Então a gente não sabe o que aconteceu eh nesse inteirinho com a Ana Clara. Quando a Lorena volta pro quarto dela, então ela percebe que a Ana Clara está morta, que ela teve uma overdose.
Chama a Lia, a Lorena e a Lia, então tentam fazer ali uma massagem cardíaca em Ana Clara, mas não adianta, ela não revive. E a Lorena, ela sabe que eh a Ana Clara não pode ser encontrada ali eh com overdose para complicar as freiras. Então, apesar de ser para nós uma loucura a gente eh eh essa cena, mas a Lorena, ela veste uma roupa bonita, ela já tinha dado banho, veste uma roupa bonita na Ana Clara, maqueia Ana Clara inteira e ela e a Lia põe no carro a Ana Clara e levam para uma praça, deixam ela num banco com uma bolsa para que ela possa ser identificada e a polícia então acharia ela ali E a história acaba.
Nós leitores ficamos sem saber se a história do assassinato do irmão Rômulo era verdade ou não. E seão realmente foi para a Argélia eh se encontrar com o namorado Miguel. Fica claro para nós que essas coisas não são importantes, mas o que é relevante mesmo, eh, o que a autora quer é retratar a juventude dos anos 70 através das três jovens.
O que pensavam, o que faziam, o que queriam, o que ambicionavam as jovens daquela época, né? Porque é um olhar feminino, né? Então, são as jovens daquela época e claro as consequências do contexto daquela época em suas vidas.
Era um contexto de ditadura, de falta de liberdade, de preconceito contra negro, contra gays, contra mulheres separadas. um contexto de valores burgueses que valorizava inclusive a virgindade. Algo que é muito importante é que esse livro As Meninas talvez tenha sido o primeiro romance a descrever uma cena de tortura eh completa, eh o que deve ter passado despercebido pela censura da época, porque senão o livro teria sido proibido.
Eu não me lembro de outro livro desta época ou antes desse que tivesse esse relato de uma sessão de tortura. é o depoimento de um botânico que foi preso pelos militares e que alia, então é um depoimento escrito e ali lê para a madre Alix, imaginando que a freira era completamente alienada do que se passava no país. Então, no depoimento que você deve ler, reler e jamais esquecer, o botânico conta às 25 horas, que foi uma sessão sua de tortura, que enquanto ele eh eh ele era torturado, os militares gritavam que ele era um traidor da pátria.
Lembre-se que uma ditadura, tanto de direita quanto de esquerda, não tem diferença. Todo mundo que luta pela liberdade e pela democracia é chamado de traidor da pátria. Isso é é o comum, tá?
E aí esse jovem botânico, ele descreve como o deixaram nu o de penduraram no pau de arara. Eh, o pau de arara é aquele que o preso fica de ponta cabeça, tá? apanhando e recebendo choques elétricos até nas na sua genitália e no anos, tá gente?
É uma coisa horrorosa os relatos de tortura da época da ditadura. É essa tortura que muita gente alienada acha que não existiu no Brasil, o que é uma completa ignorância. Existiu sim.
E o grande erro da sociedade brasileira foi ter sido eh submissa a essa anistia que foi dada aos torturadores. Eles deveriam ter sido julgados, presos, mas continuam vivos por aí, como se nada tivesse acontecido. E nós, sociedade, ainda pagando seus salários ou suas aposentadorias.
E isso é uma coisa, essa relação você tem que fazer porque ela tá muito na pauta, principalmente com o filme Ainda estou aqui. Um dado interessante é que depois que Leonê o depoimento para a madre Alix, para a sua surpresa, a madre diz que esse jovem botânico se chamava Bernardo e que ela e a mãe do rapaz tinham ido falar sobre ele, eu não lembro se com o cardeal ou com o bispo ali pedindo para interceder junto aos militares. E isso mostrava que a madre estava muito mais engajada na luta pelos direitos humanos do que a Leão poderia imaginar.
E aqui eu quero acrescentar, para quem não sabe que a Igreja Católica, num primeiro momento ela apoiou o golpe como quase toda a sociedade, mas depois quando ela percebeu que o que estava acontecendo, ela vai trabalhar nos bastidores pelos direitos humanos. E graças ao Dom Paulo Evaristo Arnes, que idealizou o projeto Nunca Mais foram coletados centenas de documentos que provam a violação constante dos direitos humanos durante a ditadura. Aí as pessoas perguntam: "Mas por que esse projeto é importante?
" Porque é preciso ter provas, é preciso ter esses documentos para que esse período negro não seja esquecido e não volte a se repetir. E que quando alguém falar que não houve tortura no Brasil, a gente tem ali os documentos para provar. Há um trecho em que Lia fala para Lorena sobre os padres que se engajaram na luta contra a ditadura, assim como os jovens, e mostra o idealismo desses jovens e desses padres nessa luta.
Abre aspas. Ação Lena, que contemplação. Já tivemos demais.
sair por ali, por aí, falar até secar o cusp, andar até o osso furar a pele, levar xingos, porta na cara, pedradas e continuar sem desfalecimento, continuar no meio da incompreensão, da hostilidade, continuar até a morte. Fecha aspas. Eu acho lindo esse trecho.
Acho que é tão bonito esse idealismo de tanta gente que lutou contra a ditadura no Brasil. Agora vamos entender então a forma de narrar. O romance ele é narrado em primeira pessoa pelas três personagens.
A narrativa, então, ela vai se alternando sem qualquer aviso, o que muitas vezes nos obriga a reler alguma passagem para entender quem está falando, porque às vezes é um, de repente muda paraa outra. Isso é muito rico, porque nos permite ter a visão das três meninas e também o que elas pensam uma das outras. Além disso, além dessas três vozes, né, que aparecem, de vez em quando entra um narrador em terceira pessoa para fazer alguma costura que ficaria estranha se fosse em primeira pessoa.
Então você percebe, eh, veja, há muitas vozes, eh, narrando a história. E é o que eu falei antes, é o que nós chamamos então de narrativa polifônica ou romance polifônico. Lembrando, né, que poli significa muitos, tá?
Então, o polifônico é bastante usado para música, mas também é usado para literatura. Quer um exemplo de polifonia? Tem um trecho em que a narradora em primeira pessoa é a Lia.
Ela diz: "Abre aspas, está tudo atrasado, lista de coisas para providenciar ainda hoje. E aqui estou em divagações metafísicas, vendo Lorena se exibir na sua malha preta". Fecha aspas.
E aí, poucas linhas abaixo, entra um narrador entre em terceira pessoa que diz, abre aspas, Lorena acompanhou-a até a porta. E essas transições, gente, muitas vezes abruptas, como eu disse antes, não é apenas eh então da primeira para a terceira ou vice-versa da terceira para a primeira, mas também lembre-se eh da primeira pessoa de uma jovem para a primeira pessoa de outra jovem. Não há regra, tá?
Essas transições de narrador, elas acontecem aleatoriamente. Então, além da polifonia, como a narrativa não é linear, ou seja, ela não contam fatos simplesmente, mas mistura fatos no presente, com memórias do passado, com reflexões e também com percepções sensoriais, como um cheiro, um som, uma sensação de frio, de enjoo. E isso é o que nós chamamos então de fluxo de consciência, quando a narrativa mostra tudo isso, tá?
Se você refletir um pouco, prestar atenção eh nos seus pensamentos, você vai perceber que a gente pensa exatamente desta forma. Nós misturamos tudo em nossa mente. Nossos pensamentos, até quando a gente tá conversando com outra pessoa, nossos pensamentos eles não vêm em caixinhas separadas.
Às vezes nós estamos contando uma história, aí nós lembramos de algo que a gente nem fala, nós pensamos em algo diferente, sentimos algo e tudo isso é um emaranhado, tá? E esta forma de escrever, essa forma de narrar, ela exige muito talento, mas que consegue um efeito bastante interessante de desvendar a história e os personagens aos poucos, tá? Então, a gente é como se a gente entrasse na mente dos personagens e o personagem não te conta tudo, né?
ele vai te dando flashes eh do que ele pensa, do que ele passou e assim por diante. Há um trecho do livro que Lorena está pensando em MN, na esposa de MN e na filha e que ilustra bem o fluxo de consciência para você entender melhor. Abre aspas.
É a Loriana falando, pensando, sei lá. Se emagrecesse mais 1 kg, ficaria com a idade de Beatrizinha, uns 9 anos e meio. I, MN com a mulher e peitos de encheira as mãos.
Mejera, bruxa! Sussurrou ela, fechando os olhos. Sacudiu a cabeça.
Cabeçelha poluída! pensou e correu até a gaveta onde guardava o incenso, nada como um pouco eh de jour rose, que eu acho que é o nome do incenso, tá gente? Jipur rose para purificar o ambiente.
Sou tonta e fresca, mas e se MN a levasse mais a sério? Incrível, mas quando nos levam a sério, ficamos seríssimos. Aspirou até o fundo a fumaça com seu perfume de rosas, um perfume antiquíssimo.
Velórios. A morte poderia ser apenas isso, incenso e música. Fecha aspas.
Então, quando você vê esse trecho, esse trecho, gente, é uma bagunça, né, de coisas. Veja que ela começa pensando que está muito magra, como a filha de Mn. Aí ela pensa na esposa dele que tem bastante carne.
Depois e ela sussurra eh xingando a sua esposa. Depois ela se censura com seu pensamento. Eh, ela vai buscar o incenso.
Aí ela reflete sobre ser levada a sério. Ela aspira o cheiro de rosas do incenso, né? E esse cheiro eh a gente eh deduz que lhe lembra velhório, então ela se desloca para a vida, concluindo que a vida podia ser só incenso e música.
Então gente, é tudo misturado. Percebam que o fluxo de consciência é isso. Mistura tudo que a gente faz, que a gente pensa, que a gente reflete e que a gente sente também.
Por isso que também tem esse aspecto sensoriais. Eu te dei um exemplo de fluxo de consciência, mas tem vários espalhados pelo livro. Então, em as meninas, a Lígia Fagund Stelis mistura a polifonia, que são várias vozes, com o fluxo de consciência de uma forma proposital, o que permite que a história de cada uma delas vá se desvendando aos poucos, não é tudo de uma vez, e vai aproximando nós leitores de cada personagem, porque nós estamos dentro da cabeça do personagem, pensando aquela misturada de coisa tudo ao mesmo tempo.
Nada é completamente explícito. Em um trecho em que a Lorena pensa na maneira como ali escreve, ali tentou escrever um um romance que a Lorena não gostou, né? A a Líja, escritora, nos dá uma ideia de como deve ser uma boa narrativa.
Olha o que ela fala. Abre aspas. É a Lorena falando.
Imagine se leão escrevesse no Sitom assim opaco. Tão nítida, nítida demais. Os entendidos querem opacidade na linguagem, uma certa névoa confundindo sutilmente a silueta das palavras.
Fecha aspas. Então, gente, é exatamente assim que a Lí Fagundisteles escreveu o romance com uma certa opacidade que não revela tudo de uma vez, não é tudo tão nítido, tá? Então é interessante como ela põe isso inclusive na boca de uma personagem.
Quanta a linguagem do livro, você precisa saber que ela é coloquial, como falavam jovens da década de 70, inclusive usando gírias daquela época, como joia, putz, cafonérrimo e assim por diante, tá? Gírias que hoje em dia ninguém fala mais. Há citações de muitos escritores, de músicos, de pensadores que são feitas por Lia e por Lorena, não por Ana Clara, porque a Lia e a Lorena são muito mais cultas do que a Ana Clara.
É isso o resumo e a forma de narrar e o contexto. Se você for fazer algum vestibular, não deixa de rever todos os vídeos aqui do canal perto da prova e se inscreva no do no canal, porque eu vou fazer ou pretendo fazer todos os livros dos principais vestibulares brasileiros eh de quase todos os estados. Se você quiser conhecer minhas crônicas, eu as publico todas as terças-feiras no meu site www.
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