Meu trabalho é a folha A3. É onde eu mais me sinto bem. Eu acho que o desenho ele traz uma quietude espiritual.
Meu nome é Carla Caffé, eu sou arquiteta, ilustradora, diretora de arte, artista, enfim. É difícil falar minha profissão assim, porque ela não tem um contorno muito preciso. A minha relação com o desenho é que eu não deixei de desenhar.
Minha vó era costureira Mas ela tinha um apreço pelo caderno dela, que eu acabei trazendo um pouco para a minha vida. Eu sempre desenhei em qualquer lugar, sempre desenhei no ônibus, no buteco, na padoca. Eu coloco o caderno, o diário como uma ação fundamental na minha vida.
Vou pegar esse aqui, que é o de Nova Iorque. Eu ia para os museus e eu achava tão mais interessante as ruas de Nova Iorque. Gosto muito do desenho cego é o desenho que você não olha para a folha.
Você vai lidando com os erros e aí o desenho vai acontecendo. . .
Olha! Agora que eu estou vendo que ele está sendo comido! Olha, que pena!
Tem muita traça. Tem essas coisas mais orgânicas não sei se ajuda, deve ser mais gostoso. É o tempo né.
Essa é para mim, a ideia de um caderno, sabe? Tem minha vida aqui. Tem uma frase do Lúcio Costa que eu acho tão linda, que ele fala que o desenho é o futuro.
E desenho é o futuro, porque é projeto. Olha o barulho. Eu tinha um amigo pintor, Boi, muito importante para mim.
Quando eu estava fazendo o colegial, eu não sabia o que queria fazer, Sabia que tinha a ver com desenho, com arte. E aí o Boi falou assim, "Ah, porque você não vai fazer a FAU? Nos projetos legais sempre tem um cara da FAU".
E aí eu falei assim, poxa é isso que eu quero, eu queria estar envolvida em projetos legais. Tem esse caderno aqui do Narradores de Javé, dirigido pela Eliane Caffé, minha querida irmã, parceira do cinema, a gente gosta de aprontar juntas. Aqui é legal que tem esses desenhos de processo.
O desenho, para mim, ele perpassa várias áreas de atuação. Então, por exemplo, na direção de arte, se você quer entender a quantidade de figuração para uma cena, você desenha. Para entender como vai ser aquela decupagem você também, usa o desenho para dizer onde está a entrada, como é que entra, onde vai estar a câmera.
Quando você desenha, você permanece. É como se fosse uma espécie de performance. Ao permanecer, você cria vínculo.
A pessoa chega: "O que você está fazendo? Ah, você está desenhando! ".
Aí você começa um vínculo. E era incrível como não importava o desenho, o que importava era a memória que aquele desenho trazia. Não existe um desenho errado, um desenho certo.
Existe o desenho. Então, para mim, o desenho é uma brincadeira o meu desenho ele não é fidedigno. Ele é um gesto.
Gosto de observar, eu gosto de contemplar, eu gosto de buscar o que eu estou enxergando, mas, ao mesmo tempo, eu gosto de despirocar. Onde me interessa eu observo, onde não me interessa eu desprezo. E também tem uma grande influência do cinema.
Para contar uma historinha, você vai deslocando a câmera, você vai mudando a lente e vai criando essa narrativa. Então eu trouxe isso para o desenho. Eu vou construindo o meu desenho nesse percurso, que não é um desenho estático.
É um desenho que vai sempre buscar onde tem um rastro da presença humana. Mas eu não preciso da figura humana. O personagem são os edifícios.
Eu dou aula no Sesc, vai fazer uns 13 anos, olha número bom, número da sorte. Eu aprendi a ser professora na sala de aula. Essa maturidade eu acho que se eu tivesse interrompido a minha minha trajetória lá no Sesc, talvez eu não teria chegado onde eu cheguei hoje como um condutor dessa investigação coletiva comunitária com a folha, com lápis, com aquarela, com guache, com carvão, com o que for.
Eu me sinto muito sortuda de estar lá no Sesc, um lugar aonde você experimenta! E aí você tem que prover isso, a Lina proveu espacialmente isso. E o Sesc é a alma dela, né!
Aquele conjunto de ateliês que você tem o de gravura, junto com o de tear, junto com a marcenaria. Você criar uma classe multidisciplinar, essa diferença de profissões e essa diferença de idade dá uma coisa assim, sabe, é muito interessante para uma sala de aula. Então, você vê uma senhora que já passou pela menopausa, eu estou na menopausa, aquela garota que está iniciando, está com 18 aninhos, está na flor da idade.
No momento eu tô em crise. Mas a menopausa é uma mudança muito grande na vida, sim. Eu posso dizer que é, nossa, existencial também.
A coisa mais difícil da menopausa: a insônia. Eu parei de ter sonhos e é bom acordar com sonhos. É difícil quando você não sonha mais.
Sabe aquela prepulsão de acordar e falar, vou fazer isso. Vou descer no meu ateliê porque eu vou continuar aquela pintura, sabe? Isso é sonho.
Tem momentos que são difíceis mesmo, que você está no vazio. A Louise Bourgeois vai falar isso né, que a arte é uma forma de sanidade. Eu eu venho para cá, eu empacoto e aí estou refletindo sobre tudo, eu olho a minha mapoteca e falo: Cara, que que eu vou deixar?
Que que eu não vou deixar? Que que não faz mais parte? Porque eu estou procurando um novo corpo.
O corpo da menopausa ele não é um corpo para o prazer ele é um outro corpo que é um corpo mais espiritual. Então eu desço aqui muitas vezes aqui pro meu ateliê buscando sabe, entender esse novo corpo, esse novo estar. E quando essa angústia fica muito grande, eu vou para as minhas letrinhas.
Eu vou lá, fico ouvindo o Krenak e fico buscando algum sentido para minha pena. "Se tem a possibilidade de uma inteligência artificial sair nos governando, é porque nós teremos chegado a uma qualidade radical de afastamento da natureza e de uma burrice artificial. Porque nós não somos burros artificiais.
. . " Eu estou num momento de busca.
Eu estou tentando me sensibilizar por outras naturezas. E a semente! Olha que delicadeza.
E aqui está registrado um código genético. Não sei no que isso vai dar. Eu acho que é uma loucura achar que agora eu vou continuar fazendo a mesma coisa que eu fazia sabe, com o mesmo olhar que eu tinha.
E isso é desenho, né! Isso é desenho. Por quê que tem que queimar?
É o Boi que me ensinou que trabalho tem que queimar. Trabalho não pode rasgar, tem que queimar. Acho que fênix, né?
Vê queimando e aquilo de alguma forma se transformar em algo, né. Acho que queimar é uma coisa meio de transformar.