Estamos no Camboja, no corredor de um hotelzinho barato em Phnom Penh, a capital. Esses dois homens são policiais à paisana. No quarto um turista ocidental e uma menor de 15 anos.
Ela está doente. Ela está doente. Ela está doente.
Ela está doente. Dei remédio pra ela. A gente não teve relação sexual.
Por favor, seu passaporte. Seu passaporte. Fique quieto!
O homem é um turista grego. Ele tem 62 anos. Nas coisas dele, os policiais encontram fotos pornográficas tiradas com a adolescente.
O homem é preso na hora. Eu vou com vocês, eu vou com vocês. Não tem problema.
Não desse jeito. Por favor. Eu vou, sim.
Não preciso disso. Ele foi julgado três meses depois e condenado a cinco anos de prisão. O Camboja decidiu combater estrangeiros que vêm ao país para abusar de crianças ou adolescentes.
Hoje, pra turistas pedófilos, é tolerância zero. O Camboja recebeu quase 2 milhões de turistas no ano passado. Com seus templos, seu palácio real e monges budistas, virou um destino da moda pra quem busca exotismo.
Mas por anos, esse pequeno país de 14 milhões de habitantes, entre a Tailândia e o Vietnã, foi principalmente o destino preferido dos pedófilos do mundo todo. O Camboja é um dos países mais pobres do Sudeste Asiático. Aqui, um terço da população vive com menos de 1 euro por dia.
E na capital, Phnom Penh, tem quase 2. 000 crianças de rua. Um campo de caça ideal pros predadores sexuais.
Thierry Darnaudet descobriu esse fenômeno pela primeira vez em 1994, quase por acaso numa viagem. Foi aqui, na piscina municipal de Phnom Penh. Na época, era o ponto principal da pedofilia.
Turistas ocidentais vinham aqui escolher crianças. Eles nadavam no meio das crianças, escolhiam e levavam pro hotel. Chocado, Thierry decide investigar e descobre coisa ainda pior.
Bordéis onde crianças se prostituem. O que eu vi foi que pedi menininhas, trouxeram 5 ou 6 que ficaram ao meu redor assim, bem pequenas mesmo. Quantos anos elas tinham?
5, 6 anos, 7 anos, não mais que isso, não mais. Ao meu redor e o mais louco é que elas tentavam tocar no meu pênis. Então eu fiquei meio meio recuado, né e elas me diziam.
. . "Me, Miam-Miam number one.
Me, Miam-Miam number one. " Miam-Miam quer dizer felação aqui. Então, elas me diziam, uma empurrava a outra porque queriam que eu fosse o cliente.
As pequenas já estavam acostumadas a brigar pra conseguir cliente. Então, elas se empurravam. "Me escolhe, me escolhe.
Eu sou a melhor, sou a melhor pra fazer felação" e tal. Elas tinham 6 anos? 5 anos, 6 anos, 7 anos.
Era uma coisa absurda. Aqui estão imagens desse lugar. Foram filmadas em 2004 por um cinegrafista independente.
Senhor, venha aqui. Temos meninas jovens. Ali, meninas jovens.
O local é mantido em segredo. Cafetões cambojanos acompanham o cliente por um corredor até um quarto imundo. OK, sente-se.
É um dos quartos do bordel. Pouco depois, uma criança entra no quarto. Tem menores ainda?
Não, não, ela pode ficar. Ele quer ver todas antes de escolher. 12 anos, 11, 11, 11.
As pequenas, elas chupam picolé. Essa aí é pra transar. Na época, as autoridades faziam vista grossa.
Os pedófilos agiam impunemente. Thierry quer reagir. Ele trabalha com humanitário há anos.
Começou na Índia, ao lado de Madre Teresa, e fundou abrigos pra crianças de rua em Calcutá. Depois, criou no Camboja uma ONG única no mundo, Ação Para as Crianças. O objetivo: caçar pedófilos.
Em 6 anos, conseguiu reunir uma equipe de uns trinta detetives. Todos são cambojanos. E toda manhã, é o mesmo ritual, o briefing dos casos em andamento.
Esse cara é bem suspeito. Ele marcou encontro com as duas meninas. Na sua opinião, quantos anos elas têm?
Elas têm 12 anos! E essas duas, é igual? Sim, igual.
Depois, os detetives saem pra caçada, com câmeras digitais pequenas e máquinas fotográficas. Eles foram treinados em investigação e técnicas de vigilância pela polícia inglesa e pelo FBI americano. Na motinha eles se misturam na multidão, impossível identificar.
O objetivo: identificar e filmar turistas ocidentais que agem de forma suspeita com crianças. Hoje de manhã, Thierry está justamente vendo um vídeo suspeito. Um dos investigadores gravou na noite passada no centro de Phnom Penh.
Na imagem, um turista de uns trinta anos brincando com uma menininha. É um estrangeiro que aparentemente está interessado numa menina. Eles trocaram um pouco de comida, talvez batata frita.
Acho que ele deu a garrafa de água pra ela. Pode ser só alguém simpático, interessado nessa criança. E quer dar umas coisinhas pra ela comer.
Também é bem possível. A princípio, nada suspeito. Aqui, eu vejo que o estrangeiro e a menina estão brincando.
Ela bate nele com uma garrafa plástica, assim. Ele age quase como uma criança. E é justamente esse comportamento que alerta o Thierry.
Um adulto pode brincar com uma criança, claro. Não é crime. Um pai brinca com a filha, com o filho, rola na grama, no jardim.
Mas aqui, nesse contexto, um estrangeiro no Camboja, tarde da noite, brincando de garrafa plástica com uma menina. Desculpa dizer, mas é tão típico de certas atitudes, de alguns pedófilos. Tim, tem alguém que pode seguir ele agora?
Sim, tem alguém cuidando disso. Ainda não conseguimos descobrir onde ele mora. Porque ontem, ele foi pro bordel e ficou lá muito tempo.
E à 1 da manhã, nosso agente teve que ir pra casa. Mas a gente falou com a menina. E sabemos que ele marcou com ela pra hoje à noite pra ver ela de novo.
O encontro deve ser nesse cais. Bem no centro de Phnom Penh, é um dos pontos de caça dos pedófilos. É aqui que ficam os restaurantes e cafés pra turistas.
E é naturalmente o ponto de encontro dos pequenos mendigos e vendedores ambulantes. Presas fáceis pros estrangeiros. A maioria dessas crianças não tem casa.
Dormem numa pracinha a poucos metros dos pontos turísticos. Algumas estão com a família, outras sobrevivem sozinhas. É o caso do Chatra.
Ele tem 15 anos. Fugiu de casa. Vamos lá, eu sou o chefe.
Já faz 3 anos que ele vive na rua. O que você faz todo dia? Todo dia?
Eu peço esmola no cais. Vou falar com quem está sentado nos bancos ou quem vai rezar no templo. Vamos lá, o carro, por aqui!
Senhora, a senhora está atrapalhando o trânsito. Chatra faz o que pode, mas os trocados que ganha todo dia nem sempre dão pra sobreviver. Então, às vezes, por uns dólares a mais, ele se vende pra turistas pedófilos.
Quando você quer encontrar um estrangeiro, vai onde? O que você acha desses estrangeiros? Não tenho dinheiro, senão nunca iria com eles.
Eu saio com eles pra eles me darem dinheiro. Quanto de dinheiro? 5 ou 6 dólares.
E você não tem medo deles? Tenho. Você tem medo, mas vai mesmo assim?
Porque tô com muita fome. E hoje, qual é seu sonho? Meu sonho é ter uma casa pra trazer minha mãe pra Phnom Penh.
Os pedófilos sabem que aqui podem comprar uma criança por poucos dólares. Por isso os investigadores do Thierry vigiam sempre o bairro. Hoje à noite, eles estão atrás do homem que brincava com a menina.
Ele deve chegar a qualquer momento. O esquema já está montado. Oi!
Tudo bem? Cadê a menina? A menina está andando pelo cais.
Ela está sozinha? Sim, está sozinha. Ela está com uma cesta nas mãos e usando uma calça vermelha.
Você sabe de onde o suspeito vai vir? Daqui ou de lá? Ontem ele veio de lá.
Eles têm que se encontrar no mesmo lugar? Sim, acho que sim. Ontem, quando perguntamos pra ela, ela disse que o homem ia encontrar ela no mesmo lugar.
A espera começa. Vai durar mais de uma hora. Os agentes não tiram os olhos da menina que brinca no cais.
Enfim, o homem aparece. Thierry segue ele de longe. O homem vai direto até a menina e começa a brincar com ela.
Thierry está atento. Ele espera o momento certo pra puxar conversa com o suspeito. Vou lá, ver como está a situação.
É um bom lugar pra relaxar! É, muito bom! Você está de férias?
Está gostando? Já vim aqui cinco vezes. Cinco vezes!
Você deve gostar muito daqui! Depois das conversas de praxe, Thierry vai levando o papo pro lado do sexo e da prostituição no Sudeste Asiático. Ele finge ser ingênuo.
Você vê essas meninas vendendo bebida, se elas crescerem aqui, você acha que vão acabar se prostituindo? Sim, eu acho que sim. Não dá pra ter certeza.
Algumas são muito legais, não são assim. Mas sabe, a prostituição nos países asiáticos não tem o mesmo peso que pra gente. Aqui, não é tão proibido, não é um pecado tão grave.
Esse é o discurso clássico dos turistas sexuais. Mas depois de uma hora de conversa, Thierry ainda não está convencido de que o homem é pedófilo. Ele me diz que o Camboja é uma grande zona.
É uma grande zona. Prostituição pra todo lado, etc. E ele me fala, "olha, eu gosto de mulher, etc".
Eu digo, "sim, normal". Aí ele fala, "mas olha, eu não gosto de meninas como. .
. " E aponta pra menina, "Não gosto de meninas como. .
. " Como essa aí, e diz "não sou como os outros idiotas. .
. não sou como os outros idiotas que ficam com menininhas, etc. Vocês vão continuar vigiando ele?
Acho que vamos continuar porque, como a experiência mostrou, nunca se sabe quem está por trás. Então, vamos continuar. Mas no dia seguinte, o homem vai embora da cidade e os investigadores perdem o rastro dele.
Isso acontece muito. Às vezes leva meses, até anos, pra juntar provas suficientes pra prender um predador sexual. Um caso marcou especialmente o Thierry e sua equipe.
É o caso desse alemão. Eles o perseguiram por mais de um ano antes de conseguir colocar as mãos nesse vídeo. Nele, dá pra ver meninas pequenas trazidas por adultos entrando e saindo da casa do suspeito.
É esse documento que vai convencer a polícia a agir. O homem é preso, sua casa é revistada na presença das pequenas vítimas. Os policiais descobrem o horror.
Nessas malas, o homem colecionava todo tipo de equipamento sadomasoquista. E principalmente, ele tinha discos rígidos, cheios de fotos. E de filmes de pornografia infantil.
Durante a revista, o homem de repente finge um mal-estar. Ele sai para a varanda e se joga no vazio. O homem fica gravemente ferido, mas sobrevive.
Ele foi condenado a 28 anos de prisão. No escritório deles, todo dia, os investigadores veem passar imagens e vídeos, muitas vezes difíceis de assistir, às vezes insuportáveis. Algumas ficam marcadas na memória deles, como essas imagens de uma busca feita no ano passado na casa de um pedófilo francês.
Fotos e, no meio de uma porção de brinquedos sexuais, duas bonecas de criança. Da primeira vez, eu, eu não conseguia acreditar que alguém pudesse realmente ter relações com crianças tão pequenas. Crianças de 5 anos, de 6 anos, menininhos.
Eu não conseguia acreditar. Mas, caso após caso, descobri que era verdade. Então, como posso dizer, isso me machucou.
Isso me deixou muito revoltado com todos esses pedófilos que cometem esses crimes. Em 6 anos, os detetives ajudaram a prender mais de 100 pessoas no Camboja. A maioria em flagrante.
E se alguns anos atrás, a polícia hesitava em mexer com turistas, hoje, tudo mudou. As prisões são feitas por uma unidade policial especializada no combate ao tráfico de pessoas. Desculpa.
Desculpa. Nesse dia, é um francês pego com uma menor. Preciso dar dinheiro?
Sente-se. Tenho que pagar agora? Qual é sua nacionalidade?
Sou francês. Tenho um voo pra pegar. Quantos anos você tem?
63 anos. Os métodos da associação já provaram seu valor. Então, hoje em dia, os pedófilos desconfiam.
Eles tentam encontrar maneiras de escapar. As equipes do Thierry agora enfrentam um novo fenômeno, muito mais perverso e muito mais difícil de combater, São as falsas adoções. Os pedófilos compram, pura e simplesmente, crianças de famílias pobres e depois, fingem ser pais adotivos totalmente ilegalmente.
É o caso desse australiano. O homem vive com uma menina de 4 anos. A gente ficou sabendo que esse homem comprou essa criança por 800 dólares, que ele pagou pra mãe dela.
E hoje, a mãe dela mora no Vietnã. É uma compra. Você compra uma família e, principalmente, o silêncio dela.
E principalmente, você compra uma sexualidade com uma criança. O que não dá pra fazer na Europa. O Thierry teve que lidar com um caso assim recentemente.
Envolve um francês. A gente quis encontrar ele. O homem adotou uma menina de 8 anos.
Ele é acusado de pedofilia. Hoje, a polícia cambojana quer expulsá-lo do país. A gente encontrou ele na prisão.
Estamos filmando com câmera escondida, porque as autoridades cambojanas não deixam a gente encontrar ele oficialmente. O homem sabe que somos jornalistas. Na bolsa, tem uma câmera.
Ele aceita ser filmado e entrevistado. Por que você quer adotar ela? Isso que surpreende.
Tem gente que vem aqui pra adotar? Faz 20 anos que eu quero um filho. Conheci uma menina que me disse "Quero ser sua filha.
" Me apaixonei na hora. Simples assim. Minha relação.
. . Porra.
Você não tem filho. É minha filha. Só isso.
É minha filha. Não precisa ser pedófilo pra. .
. porra, para de inventar histórias que não existem! É minha filha, eu amo ela como filha, amo como um louco!
É minha filha, porra, é minha filha! Faz 20 anos que eu quero um filho, porra! Conheci ela, ela me pediu.
. . Se fosse um menino, seria igual!
Depois, sim, percebi na prisão que me apaixonei pela minha filha! E daí? Não toco nela, não abuso dela Percebi que ela era indispensável pra mim.
Só isso. Preciso dela e ela precisa de mim. Essa é a Srey, a menininha que esse homem adotou há 2 anos.
Hoje, ela mora num abrigo, sob proteção de uma ONG. A gente foi conhecer a família dela. Ela mora numa das favelas de Phnom Penh.
Na bicicleta, a irmã gêmea dela. E aqui está a família dela. De rosa, a mãe dela.
E de camiseta listrada, a tia dela. Essas mulheres vivem no fim desse beco, num barraco de madeira, a casa delas. Um cômodo de 4 metros quadrados.
Quantas pessoas moram aqui? Somos 6 pessoas e dormimos todos lado a lado. Assim.
O homem na prisão admite ter dado cerca de 500 dólares pra família pra supostamente adotar a menina. Isso equivale a mais de um ano de salário médio no Camboja. Uma quantia providencial pra essa família.
Não concordo com quem acusa ele, porque ele é generoso com minha família e com minha sobrinha. Se ele tivesse feito algo errado eu também teria acusado. Ele foi correto com minha sobrinha.
Minha filha pedia esmola. Ele viu e ficou com pena. Deu dinheiro pra ela.
Pra ela poder ir pra escola, pra ela não pedir mais esmola. Porque sou pobre. Você acha que ele teve relações sexuais com a menina?
Não, ele não teve relações sexuais. Quem acusa ele está enganado. Ele ama ela como filha.
A família se une. Mesmo assim, o homem foi preso alguns meses depois dessa pseudo-adoção. Ele até foi condenado a 1 ano e meio de prisão por ato indecente com a menina, que admitiu ter sofrido toques e brincadeiras sexuais.
A gente decide voltar a vê-lo na prisão. Você acha que conseguiria uma criança assim em outro lugar além do Camboja? Claro, tem várias meninas que se apaixonam por mim, só que antes eu fugia.
Só isso. Meninas que se apaixonavam por você? Sim, sim.
Eu até trabalhei num. . .
E só fiquei 2 semanas porque isso me marcou, fui inspetor num internato. Só fiquei 2 semanas porque tinha uma menina. Todo dia, ela ficava na minha frente, cruzava os braços, começava a me perguntar.
Você tem namorada? etc. Sempre.
E a partir do momento que fugi, porque isso mexia comigo. Mexia comigo. Eu negava o que eu era.
E hoje, você ainda nega o que é? Aceito ser pedófilo, sim, sou pedófilo. Você admite, diz que é pedófilo.
E adota uma criança no Camboja. Você entende que as pessoas se preocupam? Isso não é incompatível.
Pedófilo é. . .
É uma identidade. Só isso. Uma identidade sexual, sem necessariamente ser uma sexualidade.
É algo que não se escolhe, que vem desde o nascimento. Pode falar o que quiser, dizem que são doentes, etc. Quem achou uma cura?
É uma identidade sexual, não tem o que fazer, é assim. Isso não impede de amar crianças, não impede. .
. Um heterossexual é necessariamente um estuprador? Um homossexual é necessariamente um pervertido?
Então um pedófilo é necessariamente um estuprador de criança? E o consentimento das crianças, o que se faz com o consentimento das crianças? Não se protege as crianças.
. . Consideram que uma criança de 8 a 10 anos não é capaz de.
. . Mas pela lei, não é mais 8 a 10 anos, agora é abaixo de 18 anos.
Você acha que uma criança de 10 anos pode ter sexualidade com adulto? Mas uma criança, de qualquer jeito, tem sexualidade. A primeira sexualidade de uma criança começa quando mama no peito da mãe.
Você teve brincadeiras sexuais com essa criança? A gente teve uma história de amor, não posso falar disso. Brincadeiras sexuais, não posso dizer brincadeiras sexuais.
Por que não pode falar disso? Porque é entre eu e minha filha, e cabe a mim saber com ela o que ela quer que a gente diga ou não. Desde essa entrevista, o homem foi expulso do Camboja.
Ele voltou pra França, onde foi preso e indiciado por divulgação de imagens pornográficas, e apologia da pedofilia. Hoje ele está preso. Mas pra cada pedófilo preso, muitos outros escapam da justiça.
É o caso desse homem de camisa vermelha que filmamos bem no centro de Phnom Penh. Já faz 5 anos que a ONG do Thierry persegue ele. Esse francês se mudou pro Camboja há 10 anos.
Ele vive com 2 crianças que supostamente adotou. Um tem hoje 8 anos, o outro 14. O homem já teria abusado de crianças na França e na Tailândia.
Aqui, os investigadores suspeitam que ele abusou de mais umas dez crianças de rua. Mas até agora, eles nunca conseguiram condená-lo. O homem anda tranquilamente e impune pelas ruas da capital.
É um caso que me irrita. É um caso que me deixa nervoso, porque já faz muitos anos que conhecemos ele. Conseguimos prendê-lo pela primeira vez até 2004, aqui em Phnom Penh.
Ele ficou alguns meses preso, mas saiu antes de ser julgado. Porque a criança, eu acho, acabou retirando a queixa, etc. 5 anos!
5 anos que vocês têm provas contra ele, 5 anos, vocês prendem ele, ele sempre escapa. Ele sempre escapa. É diabólico.
Segundo os investigadores, o homem se aproveita da corrupção que reina no país. Ele teria a proteção de um policial e já teria dado dinheiro pra juízes. Suspeitas, confirmadas por um julgamento que aconteceu em fevereiro passado em Sihanoukville, uma cidadezinha a uns cem quilômetros de Phnom Penh.
Nesse dia, no tribunal, uma criança aceitou testemunhar contra o francês por abuso sexual. Mesmo assim, dessa vez também, o homem vai escapar. Depois das primeiras audiências, o juiz decide adiar o julgamento, porque tem dúvida sobre a idade real da criança na época dos fatos.
O homem nem achou necessário comparecer à audiência. A gente falou com ele por telefone, mas ele se recusa totalmente a falar com a gente. Você não quer se pronunciar sobre esse caso?
De jeito nenhum, nenhum. Faz 10 anos que não falo nada, senhor. Mas então, não seria uma boa hora pra falar?
Não, não tem ocasião nenhuma. Tem acusações graves contra você. Acho importante poder responder.
Muito grave, muito grave. Agora você perde a chance de ficar calado. Se o homem está tão seguro, é porque tem um apoio forte.
As crianças que ele adotou. Em nenhum momento elas aceitaram testemunhar contra ele. A gente conseguiu encontrar eles rapidinho.
Estamos filmando com câmera escondida. Eles sabem que somos jornalistas. A gente pode falar francês?
Sim. Você mora com o senhor? Sim, ele é meu pai, mas agora ele tá doente.
Ele voltou pra Phnom Penh. Posso. .
. Você aceita dar entrevista? Não.
É você que cria esses problemas, moço! Agora a gente tem boas escolas. Antes, a gente não tinha nada, nada.
Mas agora tem escola, tem comida, tem roupa, tudo graças a ele! Tá vendo esse menino? Ele tem 8 anos.
Ele fala francês, graças a ele! Antes, ele catava saco de lixo. Entendeu?
Agora ele pode falar, pode ir pra escola, tem comida. Por que vocês ficam enchendo o saco da gente assim! Ele nunca fez nada de ruim pra gente.
Ele só fala assim: "Estuda direitinho, meu filho. " "Tem que ser sempre melhor, meu filho. " É só isso.
Fora isso, ele não fez nada: nem encostar nas partes íntimas, nem nada. . .
Não é verdade! Entendeu? Mostramos essa entrevista para Thierry Darnaudet.
Tá bom, já vi o suficiente. Pra mim já basta, pra. .
. Não quero ver mais, já entendi. Mas então, qual é sua pergunta?
E se esse garoto estiver falando a verdade, e se ele nunca foi abusado, e se. . .
Ele só tinha encontrado um benfeitor. Um bom pai. O senhor que abusou do próprio sobrinho quando ele tinha talvez de 8 a 11 anos na casa dele, na Córsega.
E crianças na Tailândia. O bom pai que quer que não tenha nenhuma ONG no Camboja, Porque as ONGs são tão ruins, fazem tanto mal pras crianças. Claro, seria ótimo pra ele se não tivesse ONG no Camboja.
Aí ele poderia ter quantas crianças quisesse. Mas esse caso é exceção, porque hoje, graças ao trabalho dos detetives, no Camboja, os pedófilos já não se sentem totalmente seguros. O país não é mais o paraíso que eles conheciam.
O problema, é que eles já acharam novos territórios de caça. O novo destino favorito deles fica a milhares de quilômetros daqui, na África. É o Quênia.
Conhecido por suas reservas de animais e safáris, o país virou um destino de praia da moda. Suas praias de areia branca na beira do Oceano Índico atraem mais de um milhão de turistas todo ano. Mas nem todos vêm pra cá pra admirar a beleza das praias.
Em 2006, um relatório da UNICEF caiu como uma bomba. Ele denuncia a exploração sexual que as crianças sofrem ao longo da costa do Quênia. Os números são preocupantes.
Entre 10 e 15 mil meninas menores se prostituem de vez em quando, ou seja, uma em cada três meninas da região. Sem que ninguém perceba, O Quênia virou, em poucos anos, o novo paraíso dos pedófilos. Mas aqui, isso é um tabu.
Pouca gente aceita falar disso abertamente. Essas duas mulheres trabalharam muito tempo nos hotéis da costa e até já recrutaram prostitutas pra turistas. Elas conhecem tudo desse mundo.
Elas aceitaram mostrar pra gente os bastidores dessa prostituição infantil. E começa muito cedo. A gente mal chegou na praia e a moça, já aborda três adolescentes passeando.
Ela abraça as meninas pra ganhar confiança. Ela vai mostrar pra gente como, em poucos minutos um turista branco pode conseguir uma menina bem nova. Essa é a Akini.
E você? Zawaidi. E Betty.
Ah, tá, vocês são amigas e estudam na mesma escola. Quantos anos vocês têm? 13 anos.
13 anos. E você, Akini? 13 e 14 anos.
No começo, as meninas ficam tímidas e olham pra gente com curiosidade. Depois, rapidinho, com interesse. 2 pontos, 1 ponto.
Ela gosta de você. Elas te escolheram. E pra você, só uma gosta de você.
E ela me disse, com certeza, tenho que passar a vida com esse menino. E aí, a gente vai descobrir que não é só uma brincadeira de adolescente. Você tá pronta pra ir com um branco como eu?
Sim, sem problema. Eu sou muito velho pra você. Ela disse que não importa.
Sim. Se eu disser beleza, vamos juntos, você quer ser minha namorada? Vai lá, pode falar.
Sim. Fala à vontade. A gente pode ir pro meu hotel?
Você não tem medo? Não, ela não tem medo. Se você disser vamos, ela vai.
Mas me explica, por que você quer ir com um branco? Pra ele me ajudar. Pra ajudar ela.
Porque você acha que se o branco gostar de você, ele vai te ajudar. É isso, né? Ela tá apaixonada por você.
Ela tá chorando. É bem chocante. Por quê?
Elas são virgens e não ligam pra isso. Elas estão prontas pra tudo. Elas acham que todo branco é rico.
Elas têm isso na cabeça, se conseguirem um branco, todos os problemas vão acabar. Elas nem querem mais ir pra escola. Só pensam em arrumar um branco.
Só pensam nisso. O branco é tudo que importa. E essas adolescentes que encontramos por acaso não são caso isolado.
Cada vez mais meninas deixam o vilarejo pra ir pras praias. E o fenômeno se espalha por toda a região. Casas de barro, alguns prédios de tijolo, Estamos num vilarejo a só 3 quilômetros da praia e dos hotéis de luxo pra turistas.
Como vocês estão? Oi, crianças. Marie Rukungi é professora.
Essa mulher de 42 anos dedica todo o tempo livre pra combater o turismo sexual. Na frente dela, quatro meninas que largaram a escola pra se prostituir. Elas têm entre 15 e 16 anos.
Ela tenta alertar elas. Aqui, na nossa terra, todo mundo acha que quando uma menina arruma um branco, a vida dela muda completamente. Mas eu, já vi muitas vezes esses brancos se aproveitarem das meninas e depois largarem elas e irem embora.
Mas claramente, a mensagem não entra. Vocês acham que vão continuar? E você?
E você? Às vezes, elas me desanimam. Quando eu falo com elas, acham que só tô fazendo elas perderem tempo.
É deprimente. Parte meu coração. Marie se sente impotente.
Mas ela não tá sozinha. O chefe do vilarejo também, tá totalmente perdido. Isso me machuca muito.
Eu nunca deixo meus filhos irem pra praia. Uma vez, eu até tive que trancar eles em casa e bati pra eles não seguirem esse mau exemplo. Eles não vão me desobedecer tão cedo.
Essas crianças, por enquanto, estão protegidas, mas o resto do vilarejo não. Você sabe quantas meninas largaram a escola pra se prostituir? Já parei de contar.
Mais de vinte, com certeza. Eu mesmo conheço umas dez. A luta é ainda mais difícil porque essa prostituição infantil virou um negócio de verdade.
No centro desse mercado, os Beach Boys, São esses jovens que abordam turistas na praia oferecendo todo tipo de serviço, passeios de barco, lembrancinhas e principalmente sexo. Com as mulheres, eles são tipo gigolôs e vendem o próprio corpo. Com os homens, viram cafetões e oferecem produtos de todas as idades e às vezes crianças.
A gente reencontra as mulheres que aceitaram falar desse negócio. Elas moram na região há muito tempo e conhecem quase todos os Beach Boys que atuam por aqui. Vocês conhecem Beach Boys que se especializaram em crianças?
Sim, conheço o Michael. Quem é o Michael? Michael é um Beach Boy.
Faz tempo que ele faz isso aqui. E ele sabe como conseguir meninas e meninos pequenos? Sim, ele sabe.
Pedimos pra elas entrarem em contato com esse Beach Boy. O encontro foi marcado, na mesma noite, num bar perto do mar. A gente tá procurando meninas bem novas.
Você consegue uma criança? Michael quase não fala inglês. A moça vai servir de intermediária pra gente.
Ele disse, 8 anos, 9 anos, ele consegue. Menino ou menina? Os dois.
Os dois! Ah, você consegue qualquer um? Vai demorar quanto tempo?
Dois dias. Ele disse que até amanhã já dá. OK, mas de onde eles vêm?
De um vilarejo. No dia seguinte de manhã, a gente vai pra esse vilarejo. Fica a poucos quilômetros da costa.
Essa região é uma das mais pobres do país. O dinheiro do turismo não chegou nessas comunidades rurais. A gente reencontra o Michael.
Ele tá esperando a gente na porta de uma casa. As crianças estão lá dentro. Você pode trazer eles aqui pra eu ver?
Vem! Você, vem aqui. Mas por que você tá com medo?
Vem. Oi, qual é o seu nome? Como você se chama?
Estão perguntando seu nome. Pendo. Fala pro branco.
E você? E você, seu nome? E quantos anos você tem, Massie?
Quantos anos você tem, Massie? Ela não vai pra escola. Ela nem sabe a idade dela.
Pergunta se ela tem medo de ir com a gente. Você quer ir com o branco? Esse aí disse que sim.
Você tem medo de chegar perto do branco? Durante toda a negociação, um homem ficou sentado de lado, na casa. É o pai das crianças.
O que você falou pra ele? Falamos que vocês vão levar as crianças pra tirar fotos, essas coisas assim. Ele disse que não tem problema.
Quanto você cobra pra gente? 250 euros cada. 250 e 250?
Sim, 500. 500. E se eu te der 500, quanto você dá pra família e quanto fica pra você?
Eu dou 300 euros e fico com 200. E se eu te der o dinheiro agora, tá certo? Sim.
Posso ir embora com as crianças? Sim. O acordo fechado com o Michael.
Vamos falar com o pai. Bom, você entendeu direitinho. A gente vai sair com as crianças, mas elas não estão perdidas.
Tá bom. Beleza, então. A gente pode ir com as crianças, né?
O branco quer ter certeza de que você concorda que a gente vá com as crianças. Sem problema. Todos concordam em deixar a gente ir embora com as crianças.
Aí a gente inventa que tem um compromisso urgente e explica pro Michael que vai entrar em contato com ele logo. Dessa vez, as crianças vão voltar pra casa, sãs e salvas. Vocês acham que os pais sabem o que está acontecendo?
Não, eles não entendem direito. Eles não sabem que as crianças vão ser usadas como objeto sexual? Não, eles não sabem.
Mas quando as crianças voltam pra casa, elas devem contar o que fizeram. Sim, elas podem contar. Mas tenho certeza que se vocês disserem pras crianças: "Não fala nada.
Se você não contar nada, eu te dou mais dinheiro. ", as crianças não vão falar nada. Se você não machucar a criança, se não tiver marca visível, Tenho certeza que a criança não vai falar nada.
Essas crianças africanas, principalmente essas, que estão entre as mais pobres, Elas nunca vão contar nada. As crianças nunca fazem denúncia e o governo faz vista grossa. No Quênia, os turistas são uma fonte de renda pro país.
Nem pensar em incomodar eles. James é policial. Ele fica revoltado com a impunidade dos predadores sexuais.
Ele aceitou dar depoimento com o rosto coberto. Nosso país só pensa em dinheiro, no que os turistas trazem de renda pro Quênia. Mas esquecem que essas mesmas pessoas que trazem dinheiro também são as que destroem a gente.
Não importa o quanto a gente ganha com os estrangeiros. O outro lado, o lado oculto desse turismo, é disso que o governo não quer falar. A gente precisa de instituições fortes que possam dizer, "Olha, vocês são visitantes.
Mas lembrem-se, isso e isso, vocês não têm direito de fazer. " É isso que falta pra gente. Às vezes você fica enojado?
Ah, sim, muito. Ninguém fica feliz de ver isso. É o nosso futuro que a gente destrói.
Eu queria que a nossa comunidade se levantasse e dissesse não pra tudo isso. Só depende da gente, do nosso povo. Cabe a nós hoje recusar o que está acontecendo aqui entre nossas crianças e esses brancos.
Não, de verdade, Eu não gosto disso e até tenho vergonha de fazer parte dessa comunidade. No Quênia, hoje, diferente do Camboja, não existe nenhuma ONG estruturada pra combater o turismo pedófilo. Tem, claro, a Marie, a professora que tenta salvar as adolescentes da prostituição.
Ela criou um time de futebol feminino com crianças vítimas desse turismo sexual. E ela organiza torneios pra passar sua mensagem. Mas os recursos dela são mínimos.
Uma tenda e um som alugados pro dia e o coral da associação. Essa música diz, "Eu tenho um objetivo. Um objetivo forte.
E eu não tenho medo de nada. Não importa o que aconteça, eu não tenho medo de nada. " Mas nesse estádio, como no resto do país, tem pouca gente pra ouvir a mensagem dela.