Você tem 24 anos. O som do bip das fritadeiras ainda ecoa na sua cabeça, mas hoje é diferente. Depois de 5 anos ouvindo deseja batata grande por mais R$ 1, você está do outro lado do balcão.
Você foi demitido. O gerente que entrou ontem te deu um aperto de mão frio e um envelope pardo. No aplicativo do banco, o número brilha.
R$ 8. 000. Seu acerto, seu FGTS, seu tempo de vida convertido em papel.
Você caminha pelo bairro sentindo o cheiro de óleo diesel e asfalto quente. Você olha para aquele dinheiro e sabe, se pagar as contas atrasadas e comprar um tênis novo, em dois meses você estará implorando por outro subemprego. Mas o destino tem outros planos.
Você senta no bar do seu Jorge para tomar uma gelada e pensar na vida. É aí que a oportunidade bate a porta. ou melhor, senta na mesa ao lado.
Nível um, o primeiro favor. O seu Jorge está com a cabeça baixa, as contas de luz vencidas sobre o balcão. Ele precisa de R$ 2.
000 ou o bar fecha amanhã. O banco negou o crédito. Você olha para o seu celular, para os 8.
000 parados. Você sente uma mistura de pena e poder. Você diz: "Seu Jorge, eu te ajudo, mas mês que vem você me volta 2500".
Ele aceita na hora, quase beija a sua mão. Naquele momento, você deixa de ser o menino do Mac e vira o homem com a solução. 30 dias depois, ele te paga com um sorriso.
R$ 500 de lucro sem fritar uma única batata, sem aguentar desaforo de cliente. Você percebe que o desespero dos outros é a sua mina de ouro. Nível dois, a caderneta e o juro de 20%.
Passaram-se meses. O boca a boca no bairro é rápido. Agora você não é mais o desempregado.
Você é o banco da quebrada. Você comprou uma caderneta de capa preta e uma caneta que nunca falha. Sua regra é clara.
20% de juros empresta 1000, volta 100. Se não pagar no dia, o juro corre sobre o total. Você começa a emprestar para a manicure que quer comprar estoque, para o vizinho que quer consertar o carro, para o viciado em aposta que jura que vai ganhar no bicho.
Você aprende a matemática das ruas. Quanto mais ferrado o cara está, mais ele aceita qualquer condição. O seu acerto de 8.
000 já virou 20. 000. Você troca o ônibus por um carro popular, mas ainda discreto.
O poder começa a subir a cabeça, mas o medo de ser passado para trás também. Nível três, o cobrador e a perda da inocência. O primeiro calote dói mais que a demissão.
O Juninho, que pegou 3. 000 para investir sumiu. Você liga, ele não atende.
Você vai na casa dele, a mãe chora e diz que ele não mora mais lá. A raiva ferve o seu sangue. Você percebe que se o bairro vir que você é bonzinho, ninguém mais te paga.
Você vai até a academia de luta e chama o alemão, um cara que é mais pescoço do que gente. Você paga R$ 500 para ele dar um susto. Quando você vê o Juninho com o olho roxo devolvendo cada centavo, você não sente pena, você sente satisfação.
Agora você não anda mais sozinho. O alemão é a sua sombra. As pessoas não te chamam mais para o churrasco.
Elas baixam o volume da música quando seu carro dobra a esquina. Nível 4, o capitalista das sombras e as garantias. Você tem 28 anos.
Sua empresa mudou de nível. Você não empresta mais notas de 50 amassadas. Agora o jogo é de gente grande.
Você empresta 50. 000 para o dono da revendedora que está com o pátio parado. Mas agora você não quer só a palavra, você quer o documento do carro, a escritura do terreno, a joia da família.
Você abre uma factoring de fachada em um prédio comercial no centro. Ar- condicionado gelado, café expresso, terno de corte italiano. Por trás da mesa, você é um empresário respeitado.
Por trás das cortinas, você é o dono da vida de dezenas de famílias. Você aprende a gostar do desespero alheio, porque é ele que paga suas viagens para o Nordeste e seu relógio de ouro. Mas você começa a perceber que quanto mais alto você sobe, mais forte é o vento.
Nível cinco, o búnker e a solidão do poder. O dinheiro não cabe mais na gaveta. Você tem milhões espalhados em contas de terceiros e em caixas de sapato escondidas.
Mas você não dorme. Sua casa virou um búnker. Câmeras em cada ângulo, vidros blindados, seguranças na porta, 24 horas.
Você desconfia até da sua sombra. Se um carro desconhecido para na frente da sua casa, sua mão vai direto na pistola que você carrega na cintura. Você não tem amigos, tem ativos.
Sua mãe não quer mais o seu dinheiro porque sabe de onde vem o sangue que o mancha. Você senta em restaurantes de luxo, mas sempre de costas para a parede, analisando cada pessoa que entra. Você é rico, mas vive em uma prisão que você mesmo construiu.
O juro que você cobra agora é o seu sossego e a taxa é de 100%. Nível 6: a queda e o sistema. O sistema não gosta de concorrência.
Um cliente, um político que te devia favores e fortunas, decidiu que era mais fácil te apagar do mapa do que te pagar. Ele entrega sua cabeça para a Polícia Federal. A operação Juro Zero estoura sua porta às 5:50 da manhã.
O barulho do arrombamento é o último som de liberdade que você ouve. Seus bens são bloqueados. Seu nome é jogado na lama do telejornal.
Na cela fria, o agiota não é ninguém. Os mesmos que te chamavam de chefe, agora cospem no seu caminho. Você percebe que no jogo do poder você era apenas uma peça descartável.
O dinheiro que você usou para comprar o silêncio de todos não compra a sua paz na cadeia. Nível sete, o ciclo que nunca termina. Você sai da cadeia 10 anos depois.
O mundo mudou. O dinheiro agora é digital. As pessoas pagam com o celular.
Você caminha pelo seu antigo bairro. O bar do seu Jorge agora é uma farmácia moderna. Você está velho, cansado, com as mãos vazias e o peito seco.
Você passa na frente de um McDonald's. Na calçada, você vê um rapaz de uns 20 e poucos anos com um uniforme sujo de graxa, saindo com um envelope pardo na mão. Ele acabou de ser demitido.
Ele olha para o envelope com um brilho de esperança e ódio nos olhos. Ele senta no banco da praça e começa a contar as notas de 100. Você abre a boca para dizer algo, para avisar que esse caminho não tem volta, mas a voz não sai.
Você percebe que as ruas não precisam de você. Elas sempre encontram um novo dono para a caderneta preta. E o ciclo nunca termina.
M.