Narrativas compartilhadas tem o prazer de continuar conversando com João Paulo Rego Jezel. Segundo bloco agora e, de início, eu vou mostrar para vocês do "Aproveita a Julieta", né? Vou ler um texto aqui chamado "Poesia da Fome".
Assim, você já consegue perceber um pouquinho da linguagem, um pouquinho só, porque o universo da linguagem do João Paulo é muito amplo, né? Então, chama-se "Poesia da Fome". "Poesia da Fome e o Poeta come".
É tanto pófago, come vírgulas e vesículas, aumenta a sua palavra, alimenta-se desta palavra. Concomitantemente, o poeta sente o buraco do estômago, o vazio do âmago, o sentimento Flávio. Faminta-se do Amor, o cruel, o concreto, o real, já que só vivencia seu eterno voo de condor, o benévolo, o abstrato, o ideal.
Poesia da fome e o Poeta come versus, se não sustenta por inteiro. Esse aqui também, logo em seguida, é muito legal. Também vejo uma coisa: porta sentimentos.
O sólido do papel higiênico coletou minhas lágrimas, forma líquida e oblíqua, escorrida da abstração da minha vida. O sólido do papel higiênico coletou minha coriza, o geriza, forma pastosa e viscosa, suada de uma depressão enclausurada. Que fique claro, meus sentimentos são gasosos e somente coletados em papel higiênico perfumado.
Agora vejam o texto que dá nome ao "Aproveita Julieta". Então, o nome do poema é "Aproveita a Julieta": os olhos lacrimejam, mesmo opacos, excesso de tesão a ser drenado. Julieta, aproveita urgentemente que o Romeu te ama e não é teu parente.
Ah, por trás do romântismo existente, quatro arrobas de carne adolescente. Nem ele carregou pelos no sovaco, porém já carrega hormônios no saco. Aproveita, Julieta!
Aproveite enquanto Romeu ainda nem é homem, enquanto tem o tanque no abdômen. Aproveita a Julieta, aproveita, pois tudo que é novo um dia envelhece, pois tudo que é duro uma hora amolece. Então, esse daqui para vocês terem um pouquinho de base dos textos, né?
Do dele. Mas aí vem um que é bem diferente desses que vocês ouviram agora, né? Chama-se "Dêncio".
Alguém acredita que já faz 10 anos que o curau de milho acabou, que a cadeira de balanço quebrou, que o horror primaveriam se desvaneceu e que o segredo do feijão se perdeu? Completa um decênio de saudades do riso, com pisca-pisca todo enrolado, das caminhadas pelo atalho cheio de mato, da preocupação em cobrir a minha cabeça antes que eu dormisse e do aparelho de som que me esclava. Teodoro e Sampaio, compadre Marcelo Rossi, restam apenas as lembranças das histórias sobre a infância dura, das piadas com a própria dentadura, da palavra algotano que, mesmo eu gostando, nunca precisou de um significado.
Ainda me lamento pelas louças quebradas sem motivo, pelo suco de manga nunca bebido, pela minha desobediência, ou seria molecada que um dia te responsabilizaram pela minha queda da escada? Após uma década, fica à vontade de contar que agora eu tenho um diploma de mestre, que escrevo, que leciono, que reviso, que sigo com uma confiança que me deste. Vontade de agradecer por ter me defendido tanto e revelar que cada sonho contigo é um presente.
Santo! Queria te dar mais um abraço, um cafuné, um beijo, algum laço. Quem sabe até te levar à praia, queria ouvir de novo a tua voz e poder, mais uma vez, te chamar de avó.
Para vó Cida, 1924 a 2004. Então, quer falar alguma coisa sobre o "Aproveita Julieta" ou esse contexto? Muito curioso, que eu nunca me vi como poeta, né?
Nunca. . .
Eu sempre falo que eu sou da prosa. Sempre falava, né? Ainda falava que eu sou da prosa, eu sou dos textos longos em parágrafos.
Mas, de vez em quando, acontece de sair algum texto em verso, né? Alguns mais perdendo para o humor, outros mais para o lado mais romântico, e alguns como esse último aí, mais melancólicos, saudosos, né? E é curioso você ter resgatado alguns desses poemas, que eu mesmo não me lembrava de alguns deles.
Esse decênio, por exemplo, ano que vem completa 10 anos, né? Que ele foi escrito. É o "Destino do Desenho".
E assim, é muito curioso ouvir alguém recitando os meus poemas para mim, porque eu tenho uma outra perspectiva, um outro olhar, diferente de quando eu escrevo. Obrigado pelo presente, gostei bastante dessa experiência. Nós que agradecemos por você produzir tanta coisa boa!
Fale um pouquinho sobre "Pelo Amor da Parafina". Esse foi um dos mais recentes, né? Saiu em 2021, esse daí.
Na verdade, é um apólogo, né? Contemporâneo. Então, são os objetos da cozinha que ganham vida e é uma história de comédia romântica, vamos dizer assim, né?
Infantil, em que a vela se apaixona pelo espeto de churrasco, né? E a vela lá de parafina, o espeto de churrasco em alumínio, ele morando perto da churrasqueira e, se ela chegar próxima da churrasqueira, vai derreter, né? Então, é basicamente esse amor impossível entre os dois, tendo ali os aliados e os oponentes, né?
Tendo os amigos e os vilões, que são nada mais nada menos que os objetos da própria cozinha. Mas que eu acho que, na parte textual, o que chama mais atenção mesmo são os jogos de palavras, né? São as brincadeiras com as linguagens.
É o fato da vela se chamar Luzia, né? Pelo fato dela "luzir". Ou o fato de chamar Ferreira, né?
O churro que amarrou o burro porque ele queria ser churrasco e não churro, né? E nasceu sem o FC. Então, tem essas tentativas de brincar com a palavra, que eu acredito que vem muito das leituras e dos estudos da Lygia Bojunga, da Ruth Rocha e que eu acabo herdando, é emprestando um pouco desse artifício para tentar trazer mais ludicidade para a literatura infantil.
E esse livro especial, né? Ele foi feito em parceria com os alunos da Saet, que é um centro universitário lá de Criciúma, e foi meio que uma espécie de concurso, assim, que o professor de design fez. Com eles em que eles tinham uma história, tinha um texto, e aí tinha esse desafio de transformar esse texto em livro, cuidando de toda ilustração, projeto gráfico, entre outras coisas assim.
E aí essa dupla que foi premiada, né? A Maria Eduarda Alves e o Marcos Gava, eles chegaram a ser finalistas ano passado de uma premiação de design gráfico com esse trabalho. Então, assim, mais do que a experiência de ter, né, esse livro publicado em parceria com alunos, em parceria aí com quem estava de fato aprendendo a fazer, a gente tem essa gratificação de perceber que o trabalho foi tão bem realizado, feito com tanto carinho, que chegou à premiação de um concurso nacional da área de design.
Eu não vou lembrar agora exatamente o nome do festival, mas é um dos festivais aí que a galera de design gráfico acaba sendo contemplado. Mas aí temos algumas ilustrações, né? Ficou muito bonito.
Agora, a linguagem. . .
Deixa eu só um trechinho: “O churro na geladeira lacrimejava, doce de leite, e soluçava granulado. Como nasceu sem o ar, senhor, senhor. .
. Acabou não se tornando um churrasco, por isso não podia ser considerado prato principal, mas somente a sobremesa. Os amigos da prateleira de cima e da prateleira de baixo tentavam animá-lo.
Diziam que ele era um docinho que fazia alegria das crianças. Entretanto, mesmo com o alento dos alimentos, ele se queixava. Ai, se eu tivesse nascido chuchu, assim repetidinho, estaria na mesa na hora do almoço.
Se eu tivesse nascido apenas burro, assim, senhor, estaria na coragem do leão. Mas nasci churro, uma massa mole melada de açúcar. Ai como eu queria ser churrasco!
Podia ser de qualquer tipo: churrasco de picanha, churrasco de frango, churrasco até de ovo! Só queria ter o prazer de ser a refeição mais importante do dia. A cozinha era o lugar mais fofoqueiro da casa.
Os objetos começaram a comentar entre si sobre o churro. Ter amarrado burro, os palitos de dente cutucaram o saleiro, que salpicou a notícia pelo cômodo, e a páprica apimentou as coisas. O bolo nem deu bola, a banana se descascava de rir, e o fósforo colocou fogo na citação.
Logo, o assunto chegou até o espeto de carne e por aí adiante. ” Como vocês perceberem, é divertidíssimo! É incrível essa brincadeira com as palavras, né?
E é a transformação do sentido da coisa em si, do objeto em si, e que você brinca com a ação que ele, vamos dizer assim, que é possível desenvolver com aquele objeto. E você traz a brincadeira com a palavra e consegue coisas assim inimagináveis, porque tem que ser muito criativo para chegar nessa solução, vamos dizer assim, né? Então, é muito divertido mesmo.
Eu acho que foi essa brincadeira com a palavra mesmo que eu acabei fazendo bastante também na “Vaca Preseteira”, né? Que, mais do que a história em si, talvez tenha contribuído para que eu ganhasse o Prêmio Barco a Vapor, né? Que foi, ainda hoje, um dos mais importantes da Literatura Infantil e Juvenil.
E que, para mim, foi uma grande surpresa. Não esperava nem chegar na final. Na hora que vi meu nome na final, falei: "Caramba, já ganhei o ano, né?
Meu nome está na final do Barco a Vapor! " E depois, quando revelaram que a vaca tinha, de fato, conquistado o coração dos editores lá e, consequentemente, dos leitores, aí foi só festa mesmo. Acho que foi talvez a grande linha que separou o JP aspirante a escritor do JP com livros publicados e sendo aceito pelo mercado editorial, né?
Que a gente sabe que, assim, por mais que a gente publique, que a gente escreva, que a gente ganhe prêmios, a gente acaba ficando no nicho muito mais inicial, mas periférico mesmo, né? De pessoas que estão envolvidas naquele meio. Quando a gente consegue ir para o mercado literário, ir para as grandes editoras, ser vendido em livrarias, ir para as escolas, a gente parece que ressignifica essa noção do que é ser escritor.
Você comentou que estava na clínica, né? Mas não cheguei a ler nenhum trecho, né? Acho que ainda não.
Então, porque também é bastante divertida a linguagem, né? É muito divertido! Adolescente tem um jeito rebelde!
Posso garantir isso, pois tenho um primo mais velho que parece que comeu um querer e não gostou! Querer era no sentido do verbo, né? Talvez seja essa mudança da fase de criança para adulta que provoque assim uma inquietação de que nada nunca está bom.
Se é assim com os humanos, também é assim com as girafas, especialmente com aquela que encontramos e se chamava Mina Babalu. Ela era uma girafa adolescente que usava um visual punk. A crina era espetada e tingida de lilás, e as orelhas tinham brincos de argola.
Mina tinha também um piercing, usava casaco de couro. Polly e Astro já conheciam, mas acho que sempre teve dificuldade para se enturmar com ela. Por isso, se esforçou no cumprimento: “Qual é que é, menina?
Tudo na boa, bicho. ” Mina olhou para Astro com cara de tédio. Se fosse ele, ela queria dar uma cuspida!
Depois, virou para Polly e fez o pedido: “Pode dizer para esse idiota que não sou como ele pensa? Não é porque uso essas roupas e tenho o meu estilo que preciso falar como se eu fosse parte de uma gangue! Acredite, eu já disse milhares de vezes!
Mas quem é que consegue fazer o Astro entender alguma coisa? ” Astro continuava com cara de bobo, olhando para Mina. Mina respondeu mostrando a língua comprida e azul e ri.
Eu ri e aproveitei para comentar que nunca tinha visto uma girafa que mais “cassia” chiclete. O doce preferido da girafa são chicletes que deixam a língua azul, por isso passamos boa parte do tempo mascando. E vocês, os humanos, nos apelidaram de ruminantes.
E assim vai! Conta agora. Um pouquinho para nós sobre você enquanto editor: como surgiu isso?
Então, eu sempre tive essa vontade de trabalhar com livros, né? Mas geralmente foi escrita criativa; eu queria ser escritor e tal. Mas durante a faculdade, que a gente vai tendo experiências, e vai estagiando em sala de aula, e vai escrevendo para jornal, e vai publicando poema aqui, conto ali, me deu a vontade de fazer uma espécie de experimento assim: como seria trabalhar com editora, né?
E, bom, na região de Sorocaba, a gente sabe que as editoras não são tão fortes, né? Elas estão concentradas mais nas capitais, né? São Paulo, Rio de Janeiro.
Mas eu descobri uma que aceitava revisor freelancer e aí eu quis, né? Voluntariei, mandei o currículo para lá para ser revisor freelancer dessa editora, e eles falaram que ok, eu havia passado no teste, mas para que eles me contratassem, eu precisaria ter um CNPJ, precisaria ser uma pessoa jurídica, né? E aí, nesse sentido, eu pensei: já que eu vou ter que abrir um CNPJ, vou abrir um CNPJ de que, né?
Aí, vendo a lista de possibilidades de empresas que caberiam no meio, né, no microempreendedor individual, vi a opção de editora de livros. Então, eu acabei criando a Editora Jogo de Palavras. Nesse contexto, para que ela fizesse exercício no papel, para que eu pudesse ter um CNPJ e prestar serviços para essa editora como revisor, né?
E durante, parece, uns seis meses, um ano, assim, foi palavras estão falando nesse sentido. A editora mandava o material para mim, eu revisava, devolvia e fazia nota fiscal como uma editora precisando de serviço. Aí, o Professor Luiz Fernando, né, na época do TCC, que era meu orientador e tudo mais, soube dessa história que eu tinha uma editora no meu nome, e tudo isso me veio com dois livros, assim, originais, né?
Ele falou para mim: "Tome, edita para mim. " Eu falei: "Não, Luiz, mas eu não trabalho com edição, tenho editora não. " Ele respondeu: "Eu confio no seu trabalho.
" E foi a primeira experiência que eu tive como editor de fato: ler o texto, sugerir modificações, entrar em contato com diagramador, entrar em contato com capista, né? Que, na época, inclusive, foi a professora Daniele Oliveira que fez a capa, que fez a diagramação do meu, também. Olha, então é muito boa, né?
Profissional. E aí, que das Letras, inclusive, né? Letra somada ao design, design gráfico.
E aí então foi minha primeira experiência ali editando um livro, e eu percebi que aquilo estava sendo legal. E aí eu comecei a editar livros de amigos, né, pessoas próximas que queriam publicar. Então, eu fazia todo esse contato com ilustrador, com revisor, com editora, né, com gráfica, no caso, né, e propondo isso daí.
Até que chegou o momento em que eu comecei a trabalhar de fato como editor, né? No momento em que eu estava já no meu doutorado, já estava fora de sala de aula, eu comecei a propor antologias e chamar publicações de autores que até então não conhecia. Então, foi a fase mesmo ali de conhecer, dialogar com autores, de propor ideias, de propor antologias, de propor livros, de fazer inscrição em editais, de fazer inscrição em festivais.
E ali eu aprendi muito, sabe? É um universo que a gente não aprende na faculdade, a gente aprende na prática mesmo, né? Mas que a capacidade de Letras te dá a base para revisar bem um texto, para editar bem um livro.
Essa questão de editais e fomento, de conhecer concursos literários, festivais literários, de como fazer o livro chegar até a escola, né? E isso tudo é muito questão prática mesmo, questão de cursos livres que a gente acaba adquirindo, experiências com outros editores, experiências com outros autores. E, nesse sentido, a gente conseguiu fazer livros de outros, livros meus mesmo, por meio desses incentivos fiscais que a gente tem no Brasil.
Tem livro meu que virou filme depois, um curta-metragem por meio da Secretaria de Cultura. Enfim, a gente acaba se conquistando novos aprendizados e novas experiências com base aí nessa loucura que foi, aos 19 anos, entrar para editar livro, né? Tem experiência básica, mas apenas a confiança do Professor Luiz Fernando, parabéns!
E vários colegas de classe, né? Você é muito admirado, querido pelos colegas, então vários que deram oportunidade da turma de letras e publicar com você, né? Quais, por exemplo?
Que publicaram pela Jogo de Palavras? Não sei dizer ao certo. Por exemplo, eu trabalhei com John Lennon, né?
Trabalhei na parte de edição, tudo assim, de revisão de texto, mas saiu com outro selo, né? O Caio também, o Caio também. Eu trabalhei junto com revisão, com orientação ali, leitura crítica, mas também saiu por outro selo com o selo da Jogo de Palavras.
Como eu trabalhava bastante com antologias, eu acho que os alunos mais que não faziam parte da minha turma, né, mas que vieram depois, acabaram conhecendo. E aí mandando, nós ficamos! Adriele, por exemplo, que já publicou comigo, né, que foi aluna da Diretas.
Mateus Pedroso também já publicou comigo, que é aluno de Letras. Fora os textos premiados, concursos literários da Unisa, que a gente fez uma parceria durante bastante tempo, aí, né, que os contos, as crônicas, os poemas, né, contemplados. Jornalistas do concurso ganhavam uma antologia depois.
Então, assim, foi essa experiência, assim, de editor também, que dependiu muito da Unisa, da Faculdade de Letras. Entendi! Certo, é falar um pouco agora também, é, vamos dizer assim, da sua experiência enquanto professor, tá?
Acho que até cheguei a comentar no primeiro bloco que, quando eu entrei na Faculdade de Letras, eu não me via sendo professor, né? Eu achava que eu seria apenas editor, que eu ficaria dentro do escritório, com meu notebook, lendo livros e sem contato com outros seres humanos. É porque eu era esse tipo de pessoa, né?
Mais tímida, mais fechada, mais recatada. As aulas de literatura me ajudaram. Muito me soltar essas performances que a gente fez e tal, e logo na faculdade mesmo que a gente tem oportunidade de fazer um estágio em sala de aula, foi quando, devido à falta de professores nos órgãos públicos, a gente acaba valendo por assumir a aula, né?
E aí, estar presente em sala de aula com alunos. Então, é basicamente assim: a gente tinha que aprender já sendo obrigado no pátio dos leões, né? Então, assim, ou vai ou não vai.
E era ali que eu tinha vários conflitos comigo mesmo, né? Ah, não, não quero saber disso, mas ao mesmo tempo eu estava amando. Era cada dia uma coisa nova, né?
Não tinha uma rotina, por mais que você tivesse as aulas certinhas, as turmas certinhas a seguir. Lidar com o ser humano, e ali, no caso, lidar com adolescente é sempre uma novidade. Você nunca sabe o que vai acontecer.
Às vezes você acha que a aula não vai dar em nada e sai uma coisa maravilhosa. E, às vezes, você faz todo um planejamento roteirizado, chega e dá tudo errado, né? Porque eu acho que essa é a graça de ser professor: ter um roteiro e, ao mesmo tempo, saber que aquele roteiro nem sempre vai ser seguido categoricamente.
Então, a gente sempre vai ter uma surpresa. Eu acho que essa surpresa mexe com as emoções, mexe com sentimentos. Algumas vezes, ok, de um lado negativo, a gente fica meio frustrado que não dá certo, mas acho que na maioria das vezes de forma positiva, principalmente quando algum aluno, depois que se forma, retorna até a gente após algum tipo de agradecimento.
Um exemplo que eu tenho é de um aluno do ensino médio que eu dei aula de redação durante três anos. E aí, mais recentemente, agora ele se formou em cinema e teve um filme, um curta-metragem, premiado em um festival internacional, alguma coisa nesse sentido. E aí, na postagem do Facebook, ele acabou até me agradecendo pelas aulas de redação, que eu sempre acreditei no potencial artístico dele na conversão de histórias.
Então, receber esse feedback acaba sendo bastante gratificante. Essa experiência de ser professor é algo que hoje não me vejo mais fora da sala de aula. Então, se 10 anos atrás eu não me via em sala de aula, hoje já não me vejo fora dela.
[Música] E você fez alguns roteiros também, né? Enfim, tem uma série infantil, inclusive, que foi roteirizada por mim. Eu até recebi um susto com um convite.
Não era uma produtora que chegou para mim e falou assim: “Olha, nós temos uma demanda de uma série que precisa ter um protagonismo feminino, né? Mas nós não temos roteiristas especializados em infantil. ” Como a gente conhece esse trabalho com os livros, né?
Com essa sua experiência com a Literatura Infantil, suas pesquisas que se dão nesse âmbito das webséries, das telenovelas infanto-juvenis, a gente queria saber se você não pode roteirizar pra gente. E aí eles passaram a instrução, né, que tinham que ser cinco episódios, se não me engano, 10 minutos cada, né, para rodar pela internet. A demanda é bastante reduzida.
E aí a gente tinha que, dentro do que foi me dado, criar uma história. Então, eu acabei criando a história de duas super-heroínas. Uma delas tinha o poder da língua portuguesa, a outra tinha o poder da matemática e, aí, elas lidavam com os problemas da infância no núcleo de amigas, né, tendo como super-heroínas essas duas personalidades.
Como é o João Paulo hoje? Uma boa pergunta. Porque, assim, eu acho que se você me perguntasse cinco anos atrás como eu me via, como eu, como seria em 2023, jamais eu imaginaria que estaria onde eu estou.
Eu acho assim, lá no início, né? Você fez uma apresentação dizendo da minha formação acadêmica. Então, assim, alguém que, com 30 anos, já tem, já passou até pela fase do pós-doutorado, que já está começando a ser reconhecido dentro da área da comunicação e da linguagem, né?
Que recebe convites para dar pareceres, para participar de congressos, que coordena grupos de trabalho, né? Que está sempre ali envolvido com redes e grupos de pesquisa e que está dando aula numa instituição de renome, é algo assim que eu não imaginava que aconteceria comigo tão rápido. A gente vê aí muitos professores que, depois dos 40, 50 anos, conseguem chegar nesse patamar que eu cheguei.
Então, assim, eu, às vezes, fico até um pouco atordoado com a responsabilidade que eu tenho. Obviamente que eu tento manter meu lado jovial, meio crianção, né, até por causa do trabalho que eu faço com a Literatura Infantil, com as séries infantis, com as telenovelas nesse âmbito infanto-juvenil, mas ao mesmo tempo eu tenho essa, essa, não estou dizendo impressão, mas essa insegurança de fazer coisas erradas por causa do tanto de responsabilidade que caiu em mim tão pouco tempo. Então, acho que se fosse me definir hoje seria esse trânsito entre o ser que não deixou de ser criança, mas que ao mesmo tempo se tornou alguma maturidade muito rápida.
É realmente por isso que já perguntei, porque é realmente assustador quanta coisa que você faz ao mesmo tempo e consegue fazer, né? Qualquer um não? E tudo que você fez até agora e vai continuar fazendo, né?
Com certeza. Então, é muito bonito ver você no contexto dos seus colegas, né? Porque eu acho que o curso de Letras é um nizo.
Ele tem sido um curso, a gente sempre fala assim, um curso feliz. Feliz porque as pessoas gostam do curso e se gostam. E você, durante esse período que você foi aluno, você, eu já digo, até me ajudou bastante sem perceber, né?
Porque você aceitava as propostas e você topava. Logo em frente, que você liderava, né? Você ajudava na questão da liderança e aproximava.
Então, você tinha, interagia de uma forma que facilitava muito o meu trabalho também, né? E os resultados, né? Os resultados que vinham.
Então, a minha gratidão por isso tudo que você foi e está sendo, porque você continua presente no nosso curso. Com certeza, já o diagnóstico foi que eu continuo lá também, tanto que agora vai ter um sarau. Se você quiser participar, vai ser um prazer.
Você agora, o retorno dos alunos, né? Depois eu converso com você à parte, nós podemos conversar um pouco, porque você continua presente, né, e valoriza o curso e as pessoas que chegam. Tem em vocês um exemplo a seguir, comprova que quando você gosta de uma profissão, é como você falou: mesmo o que vem vale a pena.
Não é só ganhar aquela grande quantia, mas você vai ganhar também, você vai conseguir estar bem dentro do contexto social, né? Mas isso aí, atrás daquilo que você gosta, é o principal, né? Fale agora o que você quiser, né, em função de nós terminarmos esse nosso bate-papo, que poderia se alongar bem mais, né?
Eu só queria agradecer, Roberto, pelo convite, tá? Aqui, contando um pouco da minha história, relembrar também algumas coisas da minha infância, da escrita, também que eu não lembrava mais, né? E ter esse momento realmente de troca de contatos, né?
Que a gente, embora se converse sempre, é sempre prazeroso ter um momento assim, um pouquinho mais de tempo cara a cara, né? Ainda que virtualmente, esse diálogo, essa troca de carinhos, né? Então, só quero agradecer o convite e espero que esteja nos assistindo aí e tenha gostado do breve relato que a gente teve aqui.
Com certeza, tem bastante coisa ainda, mas nesse momento, é porque nós diríamos, né, que é essa beleza, né, dessa sua produção, essa beleza dessa sua vida e a sua formação, né? Sabemos que tem algumas pessoas como seu pai sempre presentes conosco lá. Ele adora ficar participando e vendo.
Ele curte muito seu trabalho também. Então, o sarau, os nossos, né, as nossas apresentações, então, você sempre trazendo pessoas, e a figura dele sempre foi muito carinhosa. A gente sempre pediu: "venha, nós queremos esse presente", né?
E sempre compartilhou também. Então, é isso. Muito obrigado.
Deus abençoe você e continue nesse contexto, nesse caminho. E obrigado por permitir que nós partilhemos um pouco do seu caminho também, tá bom? Muito obrigado.
E obrigado a todos aqueles que estão nos acompanhando. Com certeza, estaremos juntos em outros momentos também. Obrigado.