Eh, estamos aqui agora com o professor Donizete Ramos, que é o diretor do Colégio Santa Escolástica, nosso querido. Nós chamávamos também de Donizete Benedito Ramos, né? Então, ele é conhecido por várias formas, mas pelos alunos, né, queridíssimo, né? Professor Donizete, o Donizete foi um dos componentes do grupo de teatro Cuts da Uniso durante o tempo que ele era aluno lá na escola e participou de duas peças conosco: "Encontro no Bar" e "A Zebra". Depois, ele participou de duas peças, né, com Zé Henrique de Paula, que era aluno lá do Getúlio Vargas e foi também
um grande participante do Festival de Teatro Getúlio Vargas, que hoje é um dos grandes diretores de teatro de São Paulo e do Brasil. O Zé Henrique, com o Zé Henrique, ele participou de "Mabet" e "Morbus". E daí, depois, ele também participou de "Senhora dos Afogados", né, que foi um início de ensaios, né? Mas que depois o Zé Henrique foi embora para São Paulo e não desenvolveu a peça aqui em Sorocaba, só em São Paulo. No Sesi, ele esteve depois com a Edmeia Pereira e, se não me engano, foi o "Baile" que ele participou e, com
o Ar Maral, ele participou de "Oelo". Então, é um prazer enorme estar com você aqui hoje e eu quero que você conte um pouco dessa sua história com o teatro na sua vida e essas grandes conquistas que você fez. Porque, como professor, nós sabemos que você sempre foi muito querido. Aqui, né, você entrou como professor na Santa Escolástica, depois passou a coordenador e hoje é o diretor do Santa Escolástica. É uma grande conquista, nós sabemos disso, e você desenvolve um trabalho maravilhoso aqui dentro, nada fácil. Então, é isso que nós queremos que você comece a
contar. Seja bem-vindo, querido Donizete. Obrigado, professor querido, professor Roberto Samuel! Quando eu dei aula na faculdade, há 6 anos, eu tinha uma dinâmica no início das aulas: "Qual o professor que marcou a sua vida?" Então, quero já render essa homenagem ao meu querido professor Roberto Samuel. Ele me marcou; ele foi um divisor de águas na minha carreira. O grupo Catarsis, eu estava lá no nascimento, naquela roda onde se discutiu o nome do grupo de teatro e da faculdade de Filosofia na época, né? Não era a Uniso. Então, que bom participar desse projeto do professor Roberto
Samuel, professor que é muito querido. O Cortella fala que professor é a única profissão que nós atravessamos a rua para cumprimentar, né? Se você for analisar de fato, eu acho que o impulso que te dá, né, de você atravessar uma rua e entrar é pelo professor. E o Roberto é muito querido. Cada vez que a gente se encontra em uma festa, por esse carinho, e eu acho que eu faço parte dessa legião de fãs de tantos alunos que passaram por ele e têm o mesmo carinho, esse sentimento tão bonito. Meu nome é Benedito Donizete Ramos
da Silva e, em Mairinque, a minha terra onde eu nasci, me chamavam de Dito, né, pelo Benedito. E eu não sei direito como, aqui em Sorocaba, ficou Benedito Ramos. O nome artístico de teatro foi esse nome que eu escolhi, mas nas escolas os alunos começaram a me chamar de Donizete. E aí, aluno adora abreviar as coisas, e Don, né? Isso na rede particular ficou Don, no estado professor. Depois, eu desenvolvi algumas coisas que os alunos dão essa referência. Eu nasci em 18 de julho de 1967, fui, acho que por volta de 22 anos aproximadamente, e
ingressei na faculdade de Filosofia. Era uma luta, porque eu morava em Mairinque e vinha para Sorocaba de trem, desembarcava na estação porque era mais barato. Estudei com muito orgulho na faculdade de Filosofia. No meu tempo, tinha vestibular, continua tendo, mas acho que hoje as coisas estão diferentes, a demanda também das universidades, elas oferecem mais vagas. Mas no meu tempo, quando eu prestei História na faculdade de Filosofia, em 1986, tinha uma certa concorrência. Não era todo mundo que entrava, e era o tempo de lista, não tinha outra forma. Então, saí de Mairinque, fiz o vestibular, aguardei,
e no dia marcado fui até General Osório, onde era o curso de História, e fui consultar a lista dos aprovados. Comecei lá do número um e fui descendo, descendo, descendo: 50, 60, 70. Aquilo foi me desanimando. Falei: "Não, não passei." Quando chegou no número 78, estava lá: Benedito Donizete Ramos da Silva. Isso foi uma das coisas mais significativas, um dos momentos mais felizes da minha vida, quando eu vi o meu nome aprovado no curso de História que tinha 80 vagas. Quase que eu fiquei fora! Saí numa felicidade; eu lembro que levei um tombo ali na
frente da faculdade e fui pra estação, a rodoviária, que naquela época ou era o ônibus ou o trem. Muito feliz, eu queria tanto dividir aquela alegria com alguém e cheguei em casa, mas a minha mãe não dava muita bola, não entendia; meu pai, muito ausente de casa. Eu compartilhei com meu avô Anivaldo, né, que está no meu coração. Ele não entendeu direito, mas eu precisava dividir. Eu estava explodindo de alegria por ter passado no vestibular e comecei a estudar com uma luta muito grande, vindo de Mairinque até a faculdade. O curso era noturno, trabalhando numa
metalúrgica. Fui trabalhando. No segundo ano, eu não aguentava mais a metalúrgica. Nunca foi um trabalho repetitivo, nunca gostei, e era muito difícil porque na metalúrgica tinha que acordar de madrugada e eu chegava... De madrugada, de volta então, no meio do ano, eu saí da empresa. Fiz um acordo, mas não conseguia pagar a faculdade, e aí foi um abalo muito grande porque meu sonho estava ameaçado. Eu fui três vezes na Uniso; o tesoureiro, temido na época do Geraldo Casagrande, e superando minha timidez — que vou falar daqui a pouco — eu consegui ultrapassar esse limite da
timidez por um sonho, e ele me atendeu. Quando a gente se encontra esporadicamente, eu sempre falo que sou muito grato a ele. Na terceira vez, ele falou: "Olha, tem um projeto lá no Salesiano para você resgatar meninos de rua". Isso em 1988 era Sorocaba. Tinha muito o que chamávamos de "trombadinhas" na época, meninos que ficavam fazendo delitos, cheirando cola. O nosso trabalho social era levá-los para uma casa da Rua da Penha para que eles aprendessem algum ofício, tomassem banho e criassem um projeto de vida. Aquilo foi muito marcante na minha vida; eu consegui pagar a
faculdade. Eu só tinha dinheiro para pagar a faculdade; o que eu comia era junto desses meninos, o que eles comiam nessa casa de recuperação. Mas foi um tempo maravilhoso! Eu levava dez dias, duas semanas, para ganhar a confiança de um para conseguir levá-lo ao projeto. Eu ficava o dia inteiro na praça, eu e na concha acústica. Uma vez, tinha uns bancos na Praça Concha Acústica, ali próximo do mosteiro, e eu lembro que uma vez eu comecei a me arrastar por baixo daqueles bancos, e aquilo foi chamando a atenção dos meninos. Eles acharam engraçado e foi
uma forma de eu criar uma conexão e levá-los, né? Porque esse que era meu trabalho. Meu trabalho não era fácil; eles eram muito ariscos, só apanhavam, sofriam violência, então não era fácil você chegar e convidá-los para ir a algum lugar; eles ficavam com medo. Então, primeiro, a gente tinha que criar uma conexão, e essa conexão demorava. E era uma felicidade quando a gente conseguia levar alguém para lá; muitos foram resgatados. Para não esquecer: eu fui candidato a vereador na última eleição, em 2020, e eu comentava: "Nossa, eu queria saber se eu pudesse encontrar um desses".
E não encontrei na campanha, né? Pela projeção da campanha, Paulo veio até mim, e um daqueles que foram resgatados. Esse projeto Salesiano foi muito importante; consegui terminar e pagar a faculdade. Em 1989, ainda morando em Mairinque, eu fui para uma atribuição e já comecei a dar aula em 88, poucas aulas, professor eventual, mas consegui alguma pontuação. E aí, no começo de 1989, eu tive em São Roque numa atribuição de aula onde o auditório estava lotado. Eu cheguei lá às 7 da manhã, abri às 8, e esse dia também foi um dia marcante na minha vida.
Eu fiquei das 7 da manhã até às 4 horas da tarde, sem levantar, sem ir ao banheiro, sem comer nada, que eu tinha medo de chamar meu nome e perder aquele auditório. Foi esvaziando, esvaziando, esvaziando, e só sobraram dois: eu e mais um. Ou seja, eu era o penúltimo da lista. Quando cheguei na mesa do supervisor, ele falou: "Olha, só tem aula em biú, e tá tudo picado em três escolas, mas juntando aqui dá umas 32 aulas". Eu falei: "Quero todas". E eu sei que, daquele dia, foi outro dia muito feliz na minha vida. Eu
tinha pegado todas as aulas, não importava que eram escolas diferentes. Depois, na atribuição, eu fui até as escolas, e era bem longe uma da outra. Não tinha carro, tudo bem, mas as diretoras ajeitaram o horário e eu ia de uma escola a outra, caminhando, bem longe mesmo, mas muito feliz. Aí eu consegui pagar a faculdade, mas foi bem difícil. Saía de Mairinque, ia para São Roque, pegava o ônibus até Ibiúna, trabalhava o dia todo em Ibiúna, Piedade, com ônibus de estudante, até chegar a Sorocaba. Chegando em Sorocaba, estudava à noite. Era comum, às vezes, faltar
professor, terminava mais cedo, mas tinha que esperar às 11 da noite, que era o ônibus que partia para Mairinque. Chegava em casa quase 1 hora da manhã; no outro dia, de madrugada, acordava, mas eu estava feliz, muito feliz. E eu sei que em 89 teve uma greve muito longa, a maior greve, acho, do magistério, de três meses. Então, a princípio, Ibiúna não entrou, mas depois foi uma greve que generalizou-se, e eu trabalhava nessas três escolas. Numa dessas, no escalão André, teve ali uma aluna que olhou para mim de um jeito. Eu falei: "Acho que essa
japonesa tá gostando de mim". A Márcia, minha esposa, até hoje, fiquei com uma aluna. Depois que terminou, fiquei, mas estou com ela até hoje. E eu não acreditava direito, né? Mais pro fim do ano, eu falei: "Será que essa japonesa tá de fato me dando bola? Não é possível". Tinha um cabelo black power, né? E ela me deu um livro, "Brasil, Nunca Mais", de um assunto que eu tinha abordado em sala de aula, regime militar, para a terceira série do ensino médio — naquela época, falava-se colegial, terceiro colegial. E vi aquele livro. Estava tudo bem,
acho que não tem nada, e estava escrito lá no índice: "Leia na página 168". E ali tinha uma linda e inesquecível declaração de amor; ela estava apaixonada por mim. Eu também me apaixonei por ela. Terminei o ano e terminei a faculdade. Continuei trabalhando em Ibiúna e, em poucos meses, eu já estava com a Márcia, minha esposa, porque ela também teve algumas dificuldades com os pais, foi para São Paulo, teve muita dificuldade em São Paulo. Falei: "Ó, se você quiser vir para minha casa em Mairinque..." Tem um cantinho. Lá tem um quartinho e ela veio, e
a gente se juntou. Eu falo que o nosso casamento começou pelo telhado, né? A gente não fez a coisa, o ritual que tinha que ser feito, mas diante da circunstância da carência que a gente vivia na época, um se juntou com o outro na sua dificuldade. Não ficou legal. A gente viveu alguns meses em Mairink, na casa dos meus pais, e começou a ter desentendimentos. Meu pai colocou a gente para fora de casa e viemos para Sorocaba, né? Ali por volta de 91. Isso, eu e a Márcia. Um amigo nos deixou aqui perto do Shopping
Sorocaba. Ele me deu quatro ves de alimentação que ele tinha e nós tínhamos... cada um tinha uma trouxa de roupa, coisa mínima. A gente não tinha nada, não tinha nem mala, né? Não sei se era um saco de lixo ou uma sacola que nós trouxemos. Nós fomos lá para Vila Aro, alugamos uma casa. Nossos primeiros banhos eram com cano de chuveiro, não tinha chuveiro, não tinha nada, né? E a gente começou desse jeito. Eu lembro que a gente tinha um prato e dois garfos. Eu até hoje penso nisso. A Márcia falou: "Nossa, de novo essa
história!", né? E ela dividiu um frango em quinze partes. Não sei como é que pode, mas a Márcia sempre cozinhou muito bem, e aquele frango era delicioso. A gente comia muito bem, mas eu fico pensando como ela conseguia dividir um frango em quinze partes. Então foi uma luta, nossa, no começo. Eu trabalhando em biú, já tinha terminado a faculdade. E apesar disso, de pagar aluguel, de viajar, de ter que arcar com as despesas do ano, eu já tinha dinheiro para comprar a nossa casa, só que teve um problema em Mairink que foi a separação dos
meus pais. Meu pai sempre foi muito violento e, enfim, minha mãe veio morar conosco. A Márcia aceitou, junto com meu avô, que era pai da minha mãe, e nós fomos para Sorocaba. Na última casa que tinha em Sorocaba, no Jardim Santo André, de uma maneira bem precária, mas estávamos lá, estávamos bem. E o meu filho, né, mais velho, Rodolfo, já tinha nascido. Isso foi por volta de 92. O Rodolfo nasceu em 7 de dezembro de 92, então a gente estava indo para a nossa casa em 93. Era uma casa que chovia na casa inteira, porque
ela só tinha laje, não tinha telhado. Eu lembro que só não chovia na cama do meu avô, da minha mãe, na nossa cama e na cama do Rodolfo. Fora isso, a casa inteira pingava, mas pelo menos para a gente dormir na nossa cama não chovia. Em 94, tá fazendo 30 anos, eu ingressei na escola particular, também lá em Porto Feriz, na escola São José. Eu sempre quis trabalhar na escola particular. Depois de meses trabalhando nessa escola particular, eu consegui cobrir a casa com telha de eternite, mas nunca mais choveu na casa. Quando eu fui até
essa escola, eu fiquei pensando, né? A gente tem essa questão do negro, do racismo, que você sofre, de ser diminuído. Eu tinha isso, né, dentro de mim e fui pensando: "Nossa, uma escola particular só de brancos. Será que eu vou passar na entrevista?" Eu fiquei esperando na salinha e, quando chegou o coordenador do curso, querido e saudoso Betuel Dias, um enorme, quase um 90, um negão maravilhoso. Ele olhou para mim e me abraçou com os olhos, tá? A gente, na hora, se identificou, e eu me senti tão acolhido. Foi maravilhoso começar nessa escola como professor
de geografia. Eu falo para meus filhos que eu me perco até com GPS, mas quando apareceu a oportunidade, sou formado em história, mas a escola estava precisando de professor de geografia. Eu fui o melhor professor de geografia para aqueles alunos, para aquela época. No ano seguinte, a irmã Elisa, saudosa, querida irmã Elisa da Escola São José, uma escola católica e confessional, me chamou para ser coordenador do curso. Aquilo para mim foi... Eu falei: "Não imagina, não tenho capacidade nenhuma", mas ela já tinha visto um valor. Mas aí apareceu aqui no Santa Escolástica, então eu ficava
como professor de história aqui e de geografia em Porto Feriz. Em 95 foi assim. Eu não viajava mais para Ibiúna, porque em 89, 90, 91, 92 e 93 eu já tinha vindo para Sarava no Genésio Machado, que foi uma experiência fantástica, foi muito bom. Encontro alunos do Genésio Machado até hoje. Em 94, daí ficou o Genésio e Porto Feriz, Escola São José. Em 95, então eu entrei aqui no Santa Escolástica. Eu fiquei no Santa Escolástica, na Escola São José e também no Genésio Machado, correndo bastante, trabalhando bastante, mas feliz. Tinha filho, esposa, minha mãe que
não tinha pensão, dependia de mim. Então meu avô, construindo, comprando o primeiro carrinho. Estava muito bem, trabalhando bastante, mas também feliz em relação a isso. E em 96, a irmã Elisa me chamou de novo, que ela queria que eu fosse o coordenador do ensino médio. E eu acho que uma pessoa me falou uma coisa que também não esqueci. Eu falei: "Paga quanto você quiser". Ela vai pagar, eu fiquei pensando, né? Sempre naquele sentimento de incapacidade: “Será que eu tenho tanto valor assim? Será que eu tenho esse valor?" Eu fui e conversei com ela e falei:
"Tudo bem, irmã, eu peço R$ 100,00." Na época era uma fortuna para mim. E ela foi e conversou com o Betuel, que era o coordenador, mas ele não conseguia atender a escola, porque ele era um professor muito requisitado na época. Na hora do cursinho, pagavam até jato fretado para ele dar aula em Bauru, Araçatuba, Araraquara e ele não estava dando conta de coordenar o ensino médio. Ela queria que eu ficasse. E, não é que eles conversaram? Não foi o R$ 100 que eu pedi, mas foi R$ 200. Para mim, foi uma fortuna. Também foi outro
dia que eu saí muito feliz e comecei, né? Essa coordenação desse colégio maravilhoso, marcada na minha vida: alunos maravilhosos. Fiz muitas coisas nesse colégio, projetei esse colégio. Os alunos tiveram excelentes resultados, eles passavam em federais. Os nossos resultados no ENEM, quando começou o ENEM em 98, sempre foram resultados extraordinários. Foi uma comunidade que me abraçou, acreditou no meu trabalho. Houve toda uma conexão e caminhei, né, nessa escola junto com o Santa Escolástica. Daí, eu ficava um dia só aqui no Santa Escolástica e no Estado. Nunca deixei a escola pública. Eu fundei aqui o grupo de
teatro no Colégio de Santa Escolástica. Então, eu vinha só um dia para Santa Escolástica. Eu dava aula de manhã e à tarde tinha esse grupo de teatro, tá? Então, a direção me apoiou e eu montei esse grupo junto com os alunos. Saiu o nome do grupo de teatro: "Seja o que Deus Quiser", que existe até hoje e que hoje é dirigido no colégio pela Ana Guerra, que foi minha aluna, tanto na história aqui no colégio como no teatro. E ela seguiu carreira de teatro, fez na Uniso, né, o curso lá de teatro. E a nossa
professora de arte aqui é diretora, né, desse grupo de teatro que existe até hoje. Então, nós fizemos muitas coisas desse grupo, com apresentações aqui, e apresentamos externamente também na Fundec, asilos. E eu lembro que a primeira montagem nossa, que depois virou três edições, chamava-se "A Música Como Ela É", e era autoria minha. Eu fiz o texto, eu fiz todo um enredo e era contando a história através das músicas. Foi muito bacana, né? Cheguei a ter mais de 40 alunos de teatro aqui nesse colégio. Pelo menos uns quatro ou cinco foram seguir a carreira de atores,
a carreira artística. E com tudo isso, né? Trabalhando, sendo coordenador de uma escola, vindo para cá, professor de história, professor de teatro e do Estado. Então, fui caminhando dessa forma até 2007, quando daí terminou lá em Porto Ferreira. Eu achei que estava viajando muito e era muito desgastante. Então, foi feito um acordo com o colégio; saí muito bem. O colégio me ajudou muito, indenização, todas essas coisas. Saí muito bem pela porta da frente. É uma escola queridíssima, mas aí me possibilitou se aproximar um pouco mais dos meus filhos, né? Porque em 92 nasceu o Rodolfo.
E aí, depois, em 2001 veio o Rodrigo e, em 2003, veio a Sofia. Sou pai de três filhos. Então, em 2007, quando eu venho [Música] só para trabalhar em Sorocaba, foi bom porque eu fiquei mais próximo dos meus filhos. Eu os levava aqui para o colégio; eles sempre estudaram aqui no colégio, os três, aqui no Santa Escolástica. Então, fiquei no Santa Escolástica e no Estado, sempre na escola pública. E a escola pública, para [Música] mim, é outra referência, tá? Porque eu trabalhei muito, acreditei muito. A escola pública me incomodava muito com as reclamações, murmúrios, depreciação
da escola pública. Isso me afetava muito porque eu sempre acreditei na escola pública. Sou aposentado, consegui a aposentadoria da escola pública no ano passado. Sou muito grato pelo que eu vivi desde aquela atribuição de aula que eu peguei, as 32 aulas. Nunca me faltou aula no Estado. Então, eu tenho essa gratidão, né, pela Rede Pública. Sempre fui atrás, lutei, protestei, fiz greve. Não estou falando que está tudo bem, não. É isso: lutei muito. Mas eu sou muito grato, muito grato pelo que eu vivi, pelos diretores que eu tive, pelos professores que conviveram comigo, principalmente pelos
alunos que eu tive, que me encontram hoje. Cada vez que a gente se encontra, é uma festa. Sinal que, no tempo, eu procurei me dedicar a eles com muita paixão. E o teatro, Roberto, o teatro foi essa referência, né, para o meu profissional. Porque eu sou muito tímido; a minha natureza é tímida. Então, quando eu te procurei no grupo de teatro em 89, tudo isso estava acontecendo, trabalhando o dia inteiro. E ainda essa experiência que era aos sábados. Você tinha um Fiat 147 amarelo. Na época, você estava em transição também, então você tinha um apartamento
lá no Jardim Planalto, né? Armando Panzio. Então, a gente se conheceu lá no seu apartamento, que tinha todo um cenário. Não sei como cabia tanto. Era apartamento pequeno, o carro também pequeno, mas ia tudo para lá. Então, foi muito bacana porque você me acolheu muito bem. Você encontrou valores em mim que eu não sabia que tinha. Você foi descobrindo, e aquilo foi me fazendo tão bem. Então, tudo isso me marcou para enfrentar salas com os pais, reuniões, reuniões de pais. Então, é comum eu falar para 400, 500 pessoas. Então, esse exercício do teatro, o processo
que você sempre falava, que o importante no teatro não é simplesmente a apresentação, mas o processo de criação, das leituras, as marcações, a parte disciplinar, isso me fez tão bem. Isso tudo eu fui levando para a sala de aula, tá? Eu, como professor, fui muito criativo com os alunos. Eu não gostava que a minha aula, que os alunos ficassem perguntando. Eu queria que os meus alunos tivessem aquela aula. E falo isso com os professores; sempre falei com os professores, como se fosse a última, a única, a primeira, que ela fosse intensa. E o teatro me
ajudou muito a levar essa intensidade. Quando eu percebi os alunos mais amuados, falava: "Esse assunto não está legal". Eu criava uma situação do nada, com o recurso que eu tinha ali, mas para que eles fizessem conexão, né, e comigo, para que a gente tivesse ali uma oportunidade de passar a eles o conteúdo, mas não de... Um jeito pesado. Não! Para que aprender isso? Para que a gente não? A gente tinha que dar um significado, que aquela aprendizagem fosse significada, significante para eles. Então, o teatro, para mim, foi fantástico. A gente estava falando um pouquinho antes
e tem os troféus, né, de sala de aula. Então, trabalhava muito coordenação, e trabalho de coordenação é um desafio. Só um parênteses antes de eu falar desse troféu: nos primeiros anos de coordenação, talvez, acho que foi no primeiro ou segundo ano, eu tive aquele sofrimento, porque é diferente, né? A sala de aula é uma coisa, a coordenação é outra. É a relação com os professores, com a direção, com os alunos. E aí, uma professora queridíssima, Catiana, Catiana de química, me falou uma coisa inesquecível: ela falou: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser
o que é.” Caetano Veloso. Eu nunca esqueci disso. E, desde então, estou na gestão. Até agora já têm mais de 30 anos que estou na gestão e agora na direção, o segundo ano de direção, mas sempre em gestão de escola particular. Então, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Então, foi dolorido, mas foi delicioso ser coordenador, assim como foi dolorido, mas foi delicioso ser professor. E aí, numa aula do noturno, eu trabalhava na coordenação de dia e ia para o estado à noite. Então, imagina, está toda aquela carga da
coordenação, aquele peso do dia, tantas coisas que você passa, aborrecimentos. Aí você vai para um noturno, para encarar os alunos, e sempre eu encarei o desafio com leveza. Se eu estava lá, é porque eu precisava, mas também eu queria que eles fossem felizes e eu também tinha que estar feliz. E sempre aquela luta: chegava a sala, estava suja, desarrumada. Os alunos sempre, alunos, eh... chegavam. Eu falava: “Gente, vamos lá, vamos começar a nossa aula, vamos arrumar essas carteiras. Vamos lá, vou passar o lixo, vou apagar a lousa.” Sabe, o mínimo para tornar digno, né, aquele
ambiente para a gente ensinar alguma coisa. E aí, um aluno me falou uma coisa inesquecível, um troféu: falou: “Professor, você é o único bem-humorado de segunda-feira.” Eu parei, eu escutei aquilo. Eu não tinha tomado banho, não tinha passado em casa, não tinha visto os meus filhos. Por dentro, não era para estar lá, eu queria estar em casa. Eu queria estar lá com a minha família. Mas o que eu estava passando para os alunos, isso não é fingimento, né. Mas eu estava passando para os alunos um senso de profissionalismo muito forte, ou seja, era um compromisso.
Eu precisava estar lá, eles também precisavam estar lá. Todos nós tínhamos um compromisso, uma obrigação. O ensino é obrigatório, básico, e eu também tinha uma obrigação profissional. Só que eu fiquei tão feliz com esse comentário, que para eles eu estava passando que eu era o cara mais feliz do mundo naquele momento. E eu sempre pensei isso nas minhas salas: tudo é importante, mas no momento que você está numa sala de aula, o mais importante da sua vida são aqueles alunos. Então, fazer daquele momento um momento feliz. Então, posso dizer que eu fui muito feliz: 32
anos no estado, dando aula sem parar. Só nos últimos 3 anos é que eu fui para a gestão no estado também. Aí eu acumulava a vice-direção no estado e a coordenação na escola particular. E, eh... antes, né, dessa... desse acúmulo todo que se deu nos últimos anos do estado como, eh, coordenador, professor do estado, eu também tive uma experiência muito boa: eu queria ser professor do universitário, eu queria dar aula na faculdade. E eu tive o meu mestrado, ficou parado no meio. Eu tive aula com Milton Santos na USP, eu amanheci na USP, a gente
tinha que chegar lá 9 horas da noite e pousava para você escolher os módulos. E, quando foi em 96, acho que para 97, eu nem tinha ideia de que tinha escolhido o módulo do Milton Santos, que estava completando 70 anos, o maior geógrafo do mundo. A mídia toda estava lá e foi fantástico conviver com ele, né? O tempo... embora eu não conseguisse evoluir, entrar na defesa, na publicação, não conseguia avançar nos créditos do simulado do mestrado, mas foi fantástico, né, a convivência com ele e com outros professores. Eu lembro que, na aula final, ele agradeceu
todos aqueles que interagiram e aqueles que acompanharam, olhou para mim. Isso foi muito significativo, porque eu trabalhava tanto e não tinha tempo para fazer as leituras, mas eu gostava tanto da aula dele. O Milton Santos tinha uma profundidade intelectual, mas tinha hora que ele parava a aula e falava: “Vocês querem comprar casa, comprar carro? Depois vocês querem estudar!” Nossa, ele está falando isso para mim, né? E ele tinha essa preocupação humana com a gente e eram aulas fantásticas. Tenho muito carinho e saudade do Professor Milton Santos, né, como referência. Mas eu fiz, na Uniso, a
psicopedagogia, que era um curso presencial muito importante. Todo sábado, trabalhava a semana toda, manhã, tarde e noite, e fui fazer a psicopedagogia. Depois eu fiz pedagogia, que também foi presencial, mas me ajudou muito, né, o curso de psicopedagogia, principalmente no relacionamento com os alunos e pelo título de especialista. Então, o centro tinha a cota de doutor, mestre e os especialistas. Então, eu entrava com a mão de obra mais barata, né, o professor mais barato. Mas foi ótimo, tive ótimos alunos na faculdade. Eu acho que ajudei muito também. Tem alguns alunos com quem eu falo até
hoje, me comunico com eles até hoje. Tive muita criação na faculdade, porque quando eu cheguei na faculdade, eu tinha vontade de ser professor universitário, mas eu não tinha prática. E eu lembro... Que eu dei um módulo. O primeiro módulo foi História e Ética da Psicopedagogia. Estudei muito, muito, e todos os transtornos também, que me ajudaram na prática de coordenador a entender essa situação toda. E o segundo módulo, eu fui trabalhar no curso de Docência do Ensino Superior. Eu falei: "Mas Meu Deus, eu não tenho experiência nenhuma. Eu vou dar aula para um grupo que está
fazendo um curso de Docência do Ensino Superior." E eu fiquei pensando na minha semana, de tanta coisa acontecendo: coordenação, trabalhando no estado, manhã, tarde e noite. Então, as aulas, eu ia lendo, montando e passava para meu filho Rodolfo; ele que montava os slides. Aliás, a minha família sempre foi suporte para mim. Para montar, às vezes, as aulas, eu recorria ao meu filho ou à Márcia, minha esposa. Quando tinha prova, em teste, aquela montanha de prova, eu corrigia a parte escrita e aí ela pegava a parte teste, já me ajudava um pouco, né? Então, sempre a
minha família. Eu trabalhava muito para prover a casa, mas eles sempre também me incentivando. Inclusive, quando eu aposentei do Estado, eu escutei coisas assim, muito tocantes, por parte dos meus filhos, porque eu sempre me achei um pai ausente. A festa do Dia dos Pais aqui no Santa Escolástica, a Márcia, minha esposa, que vinha, era a festa dos Pais, porque eu estava trabalhando, né, aos sábados. Então, sempre achei um pai ausente. E eles, quando eu aposentei, eles me escreveram coisas assim, muito bonitas, tocantes, mostrando que valeu a pena, eles sentiram que era por eles e que
eu preenchia, nos poucos momentos que estive com eles. Então, terminando essa parte da Docência do Ensino Superior que eu estava falando, nessa dificuldade toda de encontrar, de estudar, ver o que eu ia passar para eles num horário de 8 da manhã até 12h25, por seis sábados, haja conteúdo, e para uma turma que queria ensino superior. Aí eu tive uma ideia de fazer uma coisa que nós fazemos aqui no colégio, fazia também na outra escola em Porto Ferraz, ao contratar professor aqui, nós temos... vamos analisar o currículo e tem uma aula teste. Então, o professor dá
uma aula para a gestão, para a gente saber como é essa aula. E eu levei isso para a faculdade. Roberto, foi um sucesso! Eles foram atrás da coordenação, da direção. Mas é isso que a gente queria, é só teoria. A gente foi um sucesso, né? O meu nome começou a circular como um professor ali referência, começou a aparecer mais coisa, mas aí não dava mais tempo e, em seis anos, fechei o ciclo, porque falei que não dava para conciliar. Era muita coisa acontecendo durante a semana, mais aos sábados e, durante a semana, o pouco tempo
que tinha, tinha que preparar, porque tinha muito conteúdo, né, para preencher. Mas foi uma grande aprendizagem, gostei muito. E sempre falei na faculdade também: "E lá, uma boa parte eram professores ou queriam ser professores de ensino superior ou trabalhavam na Educação Básica. Falei: 'Olha, façam sua sala de aula o melhor lugar que vocês puderem, da maneira mais feliz, porque isso vai fazer bem para vocês'." Eu acho que, nessa minha caminhada de educação, graças a Deus, ficamos até aqui e peço para que Deus continue me abençoando. Mas eu não adoeci mentalmente, emocionalmente, porque eu sempre tive
muita alegria e realização e retorno por parte dos meus alunos, isso me preencheu, né? Se tinha cansaço, se tinha situações difíceis, a relação com os alunos foi preenchida. Chegar numa sala de aula no meio da tarde para a noite, os diretores começaram a me escalar. Sexta-feira à noite, né? Então, eu tinha direito a uma noite livre, mas eles me davam outro dia porque eles queriam que eu ficasse na sexta, porque o diretor é pressionado numa escola pública pelo fluxo, né? E a frequência cai muito na sexta. Então, eles falaram: "Não, você vai ficar, porque os
alunos não vão faltar, não querem faltar da sua aula." Estava lá até 11 horas da noite, sexta-feira! Quando entrava às 10h15 na última aula, com aquela energia, com aquela potência, porque os alunos não tinham culpa se eu estava acabado numa sexta-feira à noite, na última aula. Não! Se tinha um último suspiro de energia, eu me entregava. E quando terminava aquela aula, às 11 horas, quando terminava aquela aula, era uma realização, porque eu tinha terminado uma semana intensa de muito trabalho. Eu estava realizado, porque eu estava acabado, estava cansado, mas eu tinha uma entrega ali para
eles. E o sábado, o domingo, com a família, com isso, ele era muito valorizado, tá? Porque a gente tinha aquele tempo de família e eu tinha aquela consciência que eu tinha me dedicado, e o cansaço, Roberto, ele era físico, tá? Eu sei que tem um pouco mental também, nós trabalhamos com educação, é assim, mas o mental não se sobressaía ao físico. Então, acordar um pouquinho mais tarde no sábado, algum tipo de atividade no sábado ou no domingo, pronto, já me dava energia para retornar de novo na segunda-feira e retomar aquela história, né? A musiquinha do
Fantástico, aquela agonia que dava, eh... Vou falar para você, não é que é uma alegria chegar no domingo à noite. Não, estou falando isso! Nossa, também, você é um... Não, não é isso, mas também não era uma coisa que me derrubava, que acabava comigo. Falar: "Não, vou ter que enfrentar..." E começando a segunda e caminhando, cada situação a gente ia enfrentando, e principalmente isso me trazendo uma realização, né? Profissional. Roberto, acho que um pouquinho da minha vida é isso. Maravilhoso! Inclusive, vontade também para perguntar: você é um grande educador, na verdade, né? Não é professor,
não é; você já foi além. Você é um grande educador, e você me fez lembrar inclusive da musiquinha. do Fantástico, porque era a mesma coisa. Eu estava, no domingo à noite, sentado no sofá, assistindo a Fantástico, com uma criança de um lado e outra dormindo em cima. Daí eu pensava: "Bom, agora tem que colocar na cama e preparar as coisas da semana inteira." Entende? Era, mas é maravilhoso, né? E você me deixou emocionada aqui o tempo todo, né? Fazer o quê, né? Graças a Deus, né? Graças a Deus! Ainda quero que você fale uma coisinha
e conta para mim: na hora que você chegou, estava no curso de História. Como você descobriu a respeito do Cats, que na verdade ainda não tinha o nome? Você foi um dos que participaram daquela reunião, batendo papo para decidir o nome do grupo. Como que foi, Roberto? Eu acho que foi uma divulgação que foi feita. Então, nós temos o grupo de teatro. Eu não lembro se você chegou a ir na sala passadinha. Ah, eu lembro que você já era uma figura na faculdade, você já tinha ali uma referência. É que, na verdade, nós já desenvolvemos
com o pessoal da faculdade atividades, principalmente montagens com poemas. Eu já te admirava, você era uma figura admirável. Quando você colocou... Eu sinto que eu lembro, né? Que fui, me inscrevi, participei e lembro que, desde a primeira reunião, você já deixou o grupo à vontade, e eu já gostei e quis voltar, né? Então foi aquela impressão que agradou, que já nos abraçou. E qual foi a primeira montagem que você fez? A primeira montagem? Nossa, foi a zebra, né? Do Bráulio Pedroso! Os dois textos que nós montamos foram do Bráulio, né? Foi a zebra e depois
Encontro no Bar, que foi maravilhoso trabalhar. Encontro no Bar! E por quê? Ah, porque a peça era uma linha cruzada. Naquele tempo, existia isso, né? As pessoas mais jovens nem imaginam o que é, né? Uma linha cruzada de telefone, e dois idosos começam a conversar pelo telefone e eles marcam um encontro no bar. E nesse encontro, eles vão falando da vida toda. É uma peça linda, emocionante. Emocionava o público e a nós. E na época, éramos tão jovens, né? Jovenzinhos. Então tinha que pôr um talco no cabelo, alguma coisa para tentar criar um envelhecimento. Fez
o papel do... Ai, meu Deus! Não lembrei o nome do personagem. Mas você fez qual figura? Você precisava até deixar o cabelo mais... É porque tinha, né? Eu esqueci o nome agora do que era. Eu e a Tânia, né? Que fizemos. Isso, então você era o velho, o velho e ela a velha. Ela era um casal exatamente. E teve alguma apresentação que você lembra que foi interessante, bacana? Sim, nós fizemos várias apresentações e uma delas que você lembra... Você participou daquela lá na Vila dos Velhinhos, foi, né? Extrapolou a faculdade, foi na Vila dos Velhinhos.
Foi muito emocionante contar essa história. E o Márcio que tocava o violão? Sim, foi lindo, né? Ah, o Márcio teve vários ali, vários amigos. Alguns, a gente ainda tem contato, né? Agora chegou um aluno da Tânia para eu fazer estágio. Ele vai fazer estágio de teatro conosco aqui. Sim, ah, então vou acompanhar o estágio. Essas apresentações foram lindas, assim como com o Zé Henrique também. Isso, Zé Henrique, você fez o quê? Bom, o Zé Henrique, nós fizemos Macbeth de Shakespeare. Foi a primeira! Eu era o Macduff e por essa peça eu ganhei o prêmio de
melhor ator coadjuvante. Foi maravilhoso, porque eu lembro do festival. Qual festival? Amador de Sorocaba. Era muito intenso. Os diretores aqui em Sorocaba eram muito respeitados e procurados. A escola de teatro amador de Sorocaba era maravilhosa. Eu acho que o teatro amador de Sorocaba tem muita gente ainda batalhando, mas eu peguei um tempo de teatro em Sorocaba, e eu acho que eu e quem fez teatro naquela época foi muito importante. Foi uma época de referência. E daí você foi pro Sesi. Eu fiz depois mais uma peça, né? Que foi do Edgar Allan Poe. Essa peça estreou,
eram contos do Allan Poe, certo? Que deu o nome de Morbus. Estreou meia-noite no Sesi. Sei, né? É a do Macbeth, que foi no Sesi também que o Zé Henrique fez. Eu lembro que ele, não sei quantas ardósias, né? Ele comprou, então ele forrou o palco com aquilo e tinha plantas. Era um cenário incrível, impressionava por ser teatro amador. E nós fizemos três meses de temporada no Sesi, todo sábado e domingo, e as pessoas ficavam uma hora da tarde na fila para conseguir o ingresso, porque no Sesi o ingresso é gratuito. Foi uma experiência incrível!
Quem mais estava no elenco? Você lembra? Tinha a Fernanda Maia, né? Depois, é um elenco bem grande, né? Do Zé, Luiz, Humberto, Marivaldo. Ah, acho que ali tinha umas 20 pessoas, certo? Entre todos que participavam da montagem, foi fantástico! E o Morbus do Allan Poe estreou meia-noite no Sesi. Então aquilo tudo gerou um impacto na imprensa. Fantástico! Naquela época tinha os críticos, que acho que é uma coisa que hoje não sei se tem. É verdade, mas cada peça lançada pelo Zé Henrique, depois eu fui pra Edmeia e no teatro Sesi, depois com Ari Marsal. Cada
peça lançada na cidade depois tinha as críticas e aquilo tudo chegava pro grupo, né? Certo, de uma maneira boa, de uma maneira tão boa quanto negativa. E o público, né? Que frequentava vibrava conosco. Viajamos também, saímos, participamos de outros festivais. Aí depois eu fiz no Sés com a Edimeia e a última peça foi Quari Marçal, onde Hotelo, Hotelo, e onde, nas escadarias da Oficina Grande, Hotelo era ao ar livre. Uma peça fantástica! E onde vocês ensaiavam, ensaiamos numa escola na Barão de Tatuí. Eu não lembro o nome da escola direita, onde tem um restaurante japonês
ali naquelas imediações. Era todo sábado e domingo, isso tudo, trabalhando toda semana e toda essa questão com a Márcia, também com a esposa, porque ficava muito tempo fora de casa pelo trabalho. Mas o teatro se tornou uma paixão. Sim, se tornou uma paixão. Foi fantástico, né? Essa peça foi... E você se diz ainda tímido? Sim, a minha natureza é tímida. Para a escola, para a profissão, não. Eu acho assim: quando me convidam, por exemplo, para um almoço, e eu não conheço as pessoas, eu fico muito retraído, chateado, não gosto. Agora, se é um almoço de
profissão, se é um encontro profissional, nossa, eu me transformo! Então o teatro te soltou. Você é tímido? Sim, entendi. Então, na articulação com as pessoas, quando você falou de profissão, isso já me motiva. E eu tenho que ir até as pessoas. Eu tenho que me relacionar, tenho que conversar com um, conversar com outro, eu tenho que criar conexão. Tudo isso dentro da profissão. Então, o teatro, para mim, foi maravilhoso. Uma escola de dicção, né? De fala, de postura certa, e de entonação, de colocar emoção nas coisas quando necessário. Porque isso, na nossa profissão, né, é
uma ferramenta importantíssima. E quantos elogios, quantas pessoas reconhecem, quantas pessoas comentam sobre essas habilidades, né, que eu fui desenvolvendo? Sim, essa competência que eu não sabia que existia e que fui aprimorando numa habilidade, tanto pro teatro, onde eu poderia ter profissionalizado, né? Poderia ter ido, poderia ter ido para São Paulo, poderia ter seguido essa carreira. E pensei nisso, não fui porque eu sempre fui muito seguro, e pessoas que dependiam de mim, então eu não podia me aventurar. Eu não tinha esse direito. Por isso que a educação foi uma forma onde eu encontrei mais segurança para
provimento. Mas a educação se tornou meu palco, né? Então, através da educação, das minhas aulas com os meus alunos, tinha gente que queria assistir à minha aula. Falava assim: "Posso assistir? Nossos alunos falam tão bem de você, da sua aula!" Eu falava assim: "Não, por favor, é ridículo!" Falava muito isso lá na faculdade para quem trabalhava com escola. "Não tenha medo de ser ridículo!" Pode ser que seja mesmo alguma coisa, não? Falar: "Ai, nada a ver!" Agora, quantas coisas eu fiz e os alunos se matavam de dar risada! Você vê uma gargalhada de alunos em
plena noite, numa tarde, os alunos chorando de rir de uma situação. Gente, isso é vida! E quantas vezes outros troféus... Ah, mas já acabou a aula! Isso é fantástico, né? Então, o teatro me possibilitou, né? As salas de aula se tornarem um palco, né? Para que eu me apresentasse e apresentasse a minha história, o meu conteúdo. Sempre fui também muito sério nos estudos. Eu tive uma escola aqui no Etapa, no sistema Etapa de ensino, que durou muito tempo aqui no Escolástica, e eu peguei desde 1995, quando ele chegou aqui. O sistema era muito denso, exigia
muito do professor, e eu tive muitos alunos de altíssimo nível, onde eu tinha que estudar horas e horas e horas. Eu não podia chegar na sala de aula. Não tinha como. Tinha aluno que era do rodapé, tinha aluno que fazia todos os exercícios, tinha aluno que estudava muito. Então, eu tinha que estar muito bem. Isso me ajudou muito, foi uma escola, e eu levei isso pra escola pública. Essa qualidade foi fruto de muito trabalho, de muito estudo. Eu lembro que os alunos falavam: "Como é que você chega na sala de aula sem nada e monta
essa lousa enorme? De onde que sai tudo isso de conhecimento?" Gente, é prática de ensino, né? É tempo, é conhecimento. Então, fui muito fiel aos programas, aos livros, às fontes históricas. Eu procurei não ser tendencioso, sempre fui muito fiel, estudando e levando aos alunos aquilo que a história naquele momento poderia oferecer para eles, mais próximo do que aconteceu. Porque nós sabemos que a história é dinâmica: os estudos, as pesquisas. Mas tudo que era mais atual, eu procurava levar. Eu nunca gostava de ficar repetindo caderno de um ano para outro, a mesma aula de um ano
para outro, a mesma prova do ano. Não, não, não, não, não! Cada ano era diferente, era uma dinâmica diferente, uma prova diferente, uma aula que acabava sendo diferente. E sempre com esse cuidado, né? Do conteúdo ser levado de maneira muito séria pros alunos. Não era minha opinião, não era a minha tendência, não era o meu gosto político, né? Tanto é que sempre esses caras falavam: "Nossa, você tem que ser candidato! Por que você não se candidata?" E até em 2020, né? Acho que foi a primeira e a única vez que fui muito bem votado, graças
a Deus: 2180 votos, foi muito bom! Quase fui eleito vereador com pouquíssimos recursos, né? Acho que minha campanha custou R$ 7.000, e uma campanha de vereador pode custar milhões, né? Em Sorocaba, as pessoas gastam. E a minha campanha foi modesta, mais nas redes sociais e nessa comunicação e conexão, né? Com os alunos. Mas eles perguntavam na sala de aula: "Em quem você vota?" Eu nunca falei, eu nunca falei. Mas por que você não fala? Eu falei: "Olha, se eu influenciar um aqui dentro, tá errado! Vocês devem se interessar por política, porque a política se apresenta
a vocês como uma coisa suja, ruim, que não é." Para vocês, eu acho que vocês devem se aproximar da política. Vocês devem estudar, vocês devem participar da política. Mas eu jamais vou falar para vocês que eu voto nesse ou naquele, porque eu acho que sou um influenciador; não é nenhum tipo de vaidade aqui, não é nenhum tipo de pretensão. Mas eu estou aqui na frente, eu poderia influenciar, e se eu tiver influenciando, eu estou equivocado. Agora, o que é meu papel é transformá-los em seres críticos, e aqui está a ferramenta: os livros, no caso da
minha parte, a história, que eu vou aprofundar o máximo para vocês. E vêm os meus outros colegas professores, prontos. Vocês saem daqui com uma formação, e a escolha é de vocês; o caminho é de vocês. Então, eu tive muito esse cuidado, sabe, Roberto? Eu acho que é muito sério, né? Você chegar para uma sala de aula, você tem que estar preparado. Não dá para chegar de qualquer jeito. E, quando você chega numa sala de aula, não dá para pegar uma tendência daqui, uma tendência dali. Não, eu tenho uma programação, eu tenho um tema a ser
dado. Agora, esse tema tem que ser respeitado, porque não pode se apresentar para um aluno de forma desatualizada. História não é uma coisa simplesmente que passou e acabou; não é uma ciência exata, né? Ela é fruto de muita investigação. Então, muita gente, gente que se dedica, passa a vida se dedicando, e tem pessoas que, nessa vida de dedicação, chegam à conclusão de que uma coisa que estava sendo falada não era bem assim. Por isso que a gente tem que tomar cuidado com o que fala com o aluno, da maneira que fala, com os conceitos que
você apresenta para eles. Então, o Benedito fala que ele ainda é tímido, né? Mas ele tem, dentre outras coisas, a natureza que deu para ele esse tom de voz grave, que já foi perceptível logo que ele chegou ao grupo. E olhar, sim. Ele é tão bem quisto porque nós estamos aqui na sala dele, no Colégio Santa Escolástica. E aqui ao lado tem uma porta de vidro, e é uma belezinha, porque todo mundo vai passando. Olha, mas só que agora há pouco passou uma menininha, bateu no vidro, olhou para ele e fez sinal de "tchau" para
ele. Quer dizer, por aí vocês percebem como ele é bastante querido. Benedito, eu sei que você tem reunião agora também. Então, antes de finalizar, eu queria só perguntar assim: tem alguma coisa que você gostaria de dizer? Olha, Roberto, o que eu poderia deixar de mensagem, né, sem pretensão, mas como a gente está falando, e principalmente para os educadores, que é a minha área: nunca desistam da educação, sempre levem entusiasmo. Eu passei por tudo na educação: professor eventual, sei o que é isso; professor substituto; professor efetivo; coordenador, vice-diretor e agora na direção. Lembrando a frase: cada
um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Mas acho que nunca é perder o entusiasmo, o equilíbrio em tratar com as pessoas. Na direção, às vezes eu sinto algumas coisas. As pessoas imaginam ou têm no imaginário um diretor que bate na mesa, fala alto, grita. Não é meu perfil! Então, esse é o meu jeito de trabalhar: eu vou ouvir, eu vou ser firme na hora que precisar, mas eu não vou alterar o tom de voz. Uma vez, um diretor, Milton, que foi uma referência de gestor para mim, ele, enquanto estava como
diretor, foi ser supervisor um tempo na diretoria de ensino, e depois ele voltou. Numa reunião ele falou pra gente: "a escola é feita de alunos e professores". Outro dia, eu estava fazendo essa analogia também com a igreja, porque eu sou católico, participo da igreja, e às vezes as pessoas que estão ali montando a missa ou muito próximas ao padre, não sei, parece que pensam que estão mais do que o padre. E eu falei: "o que é a igreja? O que é? Se o padre abrir a igreja, vai ter missa; se o padre não abrir a
igreja ou alguém abrir a igreja, não tem missa". Então, eu digo da educação o seguinte: hoje estou na direção, sei dos desafios, mas esse diretor falou: "a escola é feita de professores", por isso, eles precisam ser valorizados, e alunos. Nós, coordenação, direção, funcionários, somos suporte. Então, um prédio, se o professor pegar a chave e a sala estiver suja, vai ser complicado; vai faltar alguma coisa. Mas, se ele pegar a chave e abrir e os alunos entrarem, vai ter aula, vai ter conhecimento. Por isso que esse país precisa olhar pelos professores, ele precisa valorizar os professores.
A Coreia do Sul era muito mais pobre que o Brasil, eles não tinham nada depois da guerra de 50-53, que dividiu as duas Coreias. Mas a Coreia do Sul, o pouquinho que sobrou, eles colocaram tudo na educação. E assim, outros países do Oriente, outros países da Europa, a educação é a alavanca do país. Então, para a gente ter esperança no Brasil, a gente precisa valorizar o professor, e todos nós, do suporte, contribuirmos para essa valorização. Muito obrigado, querido professor Donizete. Deus abençoe você, né? E gratidão por esses momentos que você nos proporcionou agora. Bem, muito
obrigado, e para quem está nos acompanhando, está nos ouvindo, né? Também a nossa gratidão e até o nosso próximo encontro. Tudo de bom a todos. Obrigado!