Não há educação sem esporte, não há beleza sem esporte; apenas o homem educado fisicamente é verdadeiramente educado, e, portanto, belo. Platão ♪ ♪ Em geral, o esporte tem uma presença marcante como elemento da cultura. Por vezes, um país é conhecido por seu grande número de torcedores, sua tradição sólida e pela paixão generalizada por este ou por aquele esporte, como o futebol no Brasil, o beisebol e o basquete nos Estados Unidos e demais esportes populares em seus países.
Os significados atribuídos variam de acordo com o tempo, o local e o contexto. Nos últimos anos, os diferentes aspectos das práticas esportivas vêm sendo reconhecidos e explorados como ferramenta de educação, basta lembrar as inúmeras vezes que ouvimos a expressão: o esporte educa. Nas aulas de educação física, o esporte passa a ser discutido para além dos aspectos motores como correr, pular, arremessar, driblar, passar, chutar etc.
Os alunos continuam tendo contato com essas habilidades, porém o esporte passa a ser explorado como fenômeno social, em toda sua riqueza cultural. Essa discussão não permanece restrita ao campo da educação. A vida em sociedade é uma vida em que todos estão relacionados, e portanto as discussões extrapolam o confinamento das áreas.
O que é descoberto e discutido em uma área reverbera em outra, e logo a conversa não está mais contida em somente uma delas. Assim, as pessoas envolvidas com o esporte, em suas diversas manifestações e áreas, estão discutindo a necessidade de as práticas esportivas estarem disponíveis para a participação de todas e todos. E quando dizemos de todas e todos, queremos dizer independentemente de sua raça ou etnia, crença, religião, sexo, orientação, gênero, capacidades e habilidades motoras entre outros.
Ou seja, as práticas esportivas devem ser apreendidas em todas suas dimensões: social, cultural e educacional. Muitas pessoas, inclusive pesquisadores, defendem os benefícios da prática regular de atividades físicas. Imediatamente pensamos no combate aos problemas de saúde gerados pelo estilo de vida que o cotidiano na cidade nos impõe: sedentarismo, desregulação dos tempos do organismo, desmotivação.
Embora a questão da obesidade no Brasil seja muito importante, o esporte pode ir além daquilo que identificamos somente com o corpo e a saúde. No vídeo sobre a Escola Ulisses Falcão, em Curitiba, podemos ver o encontro do esporte com a educação numa perspectiva inclusiva, onde a participação de todos é contemplada. Este curso tem um módulo inteiro dedicado à Educação Física Inclusiva, em que o assunto pode ser visto de maneira mais aprofundada.
É importante retomar: as concepções mais antigas sobre deficiência, e que ainda sobrevivem no senso comum de certa maneira, tendem a encarar a deficiência como uma doença, como um problema da pessoa. A deficiência é a causa dos problemas pelos quais essa pessoa venha passar. A atual definição constitucional coloca uma concepção em que a interação entre impedimentos e barreiras pode resultar na obstrução da participação plena e efetiva das pessoas com deficiência na sociedade.
Nos módulos sobre histórico e legislação, acessibilidade e educação inclusiva você pode encontrar explicações mais detidas sobre o assunto. Então, quando a gente vê a professora Viviane, por exemplo, falando que a turma do segundo ano trabalhou mais a parte lúdica no vôlei sentado, se concentrando em aprender a ficar sentado e a passar a bola para o outro lado, quer dizer que essas escolhas estão ligadas unicamente à concepção da educação física inclusiva? Na verdade, não somente.
Essas escolhas também estão ligadas aos locais de ocorrência dessa prática. Portanto, podemos falar em esporte de alto rendimento, esporte de participação, esporte educacional. Como se caracteriza cada uma dessas formas?
O esporte de alto rendimento é aquele praticado seguindo estritamente as regras de suas federações, confederações e outros órgãos e formas de organização, nacionais e internacionais. Ele é praticado com a finalidade de obter resultados, como obtenção de vitórias, superação de performances e estabelecimento de recordes. Em geral, é feito em clubes, associações ou instituições similares nos quais as crianças podem praticá-lo e os adolescentes se profissionalizar.
Já o esporte de participação é aquele praticado de maneira voluntária. Ele é caracterizado pelo lúdico, ou seja, essa modalidade pode prescindir de todo rigor reservado ao esporte de alto rendimento. Sua função é contribuir para a integração dos praticantes na vida social de maneira plena.
O Esporte de participação promove o bem estar, a recreação e o lazer para todas e todos. E, por fim, o esporte educacional, é aquele praticado em instituições formais e não-formais de ensino, em todos os seus níveis e dimensões. No esporte educacional o foco não é a seleção e o excesso de competição entre os praticantes, sua finalidade é alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo.
Nele, se usam princípios socioeducativos que preparem seus participantes para o exercício da cidadania. Assim, no ambiente escolar, independentemente do perfil dos alunos, a aula de Educação Física para além das vivências motoras, tem por objetivo a conscientização da importância dos aspectos relacionados para a vida em sociedade. Dessa forma, diferentemente de um clube esportivo, por exemplo, a prática do esporte na escola deve promover a compreensão de diferentes modalidades, que é o que a gente vê por todo o vídeo sobre a Ulisses Falcão: as crianças são apresentadas ao vôlei sentado, à bocha, ao futebol de cinco, à corrida com guia.
Elas entram em contato com diferentes práticas esportivas inclusive com práticas que de outra forma não entrariam, ao mesmo tempo que experienciam o respeito com o colega, a construção de confiança, de cuidado, que é a prioridade da professora Vivian. Quando a Elaine, técnica da secretaria municipal de educação, fala que se a escola não acolhe adequadamente, os estudantes se sentem autorizados a assumir a posição de resistir, ela está falando, também, sobre isso. O esporte na escola pode ter um papel fundamental em fazer seus praticantes se colocarem no lugar do outro.
Nesse sentido, ele vai além do ensino das habilidades necessárias à sua prática. Nas aulas de educação física, os estudantes, envolvem-se com o aprendizado dos aspectos gerais ligados à uma ou mais modalidades esportivas. É importante que sejam apresentados a eles os fundamentos de diversos esportes e suas conexões com os diferentes contextos.
Da mesma forma, é necessário que o educador compreenda que embora fazendo parte do fenômeno esportivo, a especialização e o alto rendimento não são focos, a princípio, que devem ser destacados nas aulas. A especialização esportiva diz respeito ao aprendizado de aspectos específicos de uma modalidade definida. A própria especialização pode ser composta por diversas fases menores, de maneira a focar e aprimorar aprendizados específicos.
Nessa fase, inicia-se a participação em competições, mas com o objetivo de desenvolver as bases para o alto rendimento. Ou seja, os novos atletas competirão, mas o aperfeiçoamento para competições ainda não é o objetivo maior, usado como critério seletivo. Por fim, o alto rendimento, que é destinado a uma parcela ínfima da população: aos atletas já profissionais, ou que se encontrem nas últimas etapas da especialização.
Nessa fase ocorre a especialização profunda em uma única modalidade, de maneira a buscar o melhor rendimento possível. As competições serão disputadas desde o nível local até níveis internacionais. Do ponto de vista das práticas esportivas, a função primordial da escola é oferecer aos estudantes a oportunidade de vivências.
Isso exige uma mudança na maneira de pensar as práticas de professores e escolas. Tendo o esporte uma dimensão social, é possível utilizá-lo para quebrar preconceitos existentes na sociedade, se nos esforçarmos para não reproduzi-los na prática. Uma aula de educação física inclusiva não é voltada apenas para a inclusão de crianças com deficiência, mas para a inclusão de estudantes com todos os níveis e formas de habilidades.
Podemos pensar em crianças com deficiência, mas também em crianças com sobrepeso, ou mesmo crianças que, em sua relação com a família e a comunidade, não tiveram a oportunidade de entrar em contato com nenhuma prática esportiva. Por isso, as práticas corporais, ou seja, as brincadeiras, as lutas, as danças, a ginástica e o esporte são apropriadas ao espaço escolar. E para o pleno desenvolvimento dos estudantes, não basta que eles estejam somente inseridos na sala de aula.
É preciso que cada um deles possa, de fato, participar das atividades, aprendendo conjuntamente e se desenvolvendo de maneira a acompanhar o desenvolvimento do grupo. Hoje, de maneira geral, por meio da Educação Física escolar, de projetos sociais e de outras formas, procura-se oferecer a iniciação esportiva ao máximo possível de crianças e jovens. Porém, após essa fase, a proposta restringe seu público-alvo aos jovens mais habilidosos, e à medida em que as outras crianças vão ficando mais velhas, elas têm cada vez menos acesso ao esporte, diminuindo suas chances em participar de práticas esportivas.
Isso não precisa ser assim. É possível ampliar as possibilidades de prática do esporte, bem como de outras práticas corporais, combinando-as com elementos de educação, de forma a serem oferecidas a todos. Dessa maneira, inclusive, abre-se a possibilidade para que o professor utilize estratégias para fazer com que diferentes interesses, desejos e níveis de habilidades coexistam na mesma aula.
Durante a formação básica geral, busca-se fazer com que os estudantes aumentem e enriqueçam seu repertório cognitivo, afetivo e motor, inclusive, por meio de atividades lúdicas. Com tal objetivo, é necessário que o professor se preocupe com a relação entre a cultura escolar e a cultura experiencial dos alunos. Significa estar sempre atento a diversidade do cotidiano e a valorização da contribuição que cada um dos alunos oferece para o desenvolvimento da aula e seu replanejamento.
É possível afirmar que crianças, jovens e adultos independente do gênero, habilidades ou origem, podem realizar coisas que antes pareciam impossíveis. Aliás uma frase muito comum ao longo de todos os módulos do curso é: “eu não sabia que meu filho podia fazer isso! ”.
É preciso saber aproveitar o potencial que as aulas de Educação Física oferecem para quebrar barreiras. Dado o compromisso de formar identidades democráticas e atender a diversidade cultural da sociedade, são bem-vindas situações didáticas que promovam condições de diálogo entre posicionamentos de origens diversas.