[Aplausos] [Música] hoje temos o prazer de receber um dos maiores biógrafos e uma das provas mais refinadas da literatura brasileira contemporânea ele começou na arte no Ofício escrevendo a vida de Rodolfo Teófilo um médico sanitarista que enfrentou uma epidemia de varía em Fortaleza lá no século XIX depois biografar o General Castelo Branco José De Alencar a cantora maissa Matarazo padim Padre Cícero e legou a trilogia Épica da vida de Getúlio varges mas pesquisou e escreveu sobre muitos outros temas históricos que não só sobre personagens né uma história Urbana imobiliária de Fortaleza uma melodiosa uma história
do samba e o ficou arrancados da terra a história do êxodo êxodo dos judeus sefarditas portugueses que fundaram Olinda e depois Nova York biógrafo consagrado premiado Ele lançou recentemente uma obra que muito mais que um manual é uma densa reflexão sobre a arte da biografia no entanto na sua página inicial na internet Lemos apenas Lira Neto escritor e jornalista recebeu o prêmio Jabuti em quatro ocasiões e um apca graduado em comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará e mestre em comunicação e semiótica pela pontifícia Universidade Católica de São Paulo meu querido amigo Lira você não
aplicou as sofisticadas Reflexões de escrita biográfica na sua própria biografia agora você vai ter que escrever o Lira Neto uma autobiografia meu querido amigo seja muito bem-vindo e eh nos dê as suas primeiras impressões está aqui com a gente muito obrigado pela por aceitar o nosso convite ol Lá j um prazer enorme uma alegria enorme falar contigo você sabe que eu sou seu fã né você sabe que te acompanha acompanha teu trabalho acompanha tuas Reflexões sobre história sobre narrativa e gosto muito das provocações que você faz inclusive por vezes ao próprio mundo acadêmico e essa
tua esse teu interesse que combina muito com o meu de falar para eh eh a universidade mas também falar para a lei dos moros da universid cade acho que é um pouco onde eu C Tom o meu trabalho né nessa Perspectiva da escrita biográfica da escrita da biografia como algo legítimo do ponto de vista historiográfico então um prazer Enorme a tuas ordens vamos nós vai ser um prazer com certeza mas a biografia com os critérios do do manual você vai ter que escrever né Não adiant ô Lira você já expressou em outros lugares a centralidade
doern e do Rui Castro do Boom e do biografismo no Brasil que nos anos 80 esses caras escreveram obras primas né o Fernando com chatô Principalmente agora o l o Lula né e o Rui né Chega de Saudade garricha Nelson Carmen então eles ali Redescobriram um gênero que apesar do desdé da academia sempre teve uma pelo de público muito grande e promoveram esse Boom do gênero no mercado editorial dos anos 80 para cá 90 muito fortemente então eles traçaram um caminho próprio para chegar ao grande público contando a história do Brasil Fala um pouco pra
gente desse caminho dos biógrafos e principalmente do teu caminho né o caminho que você construiu como contador de histórias e mais já puxando o fio da Conversa como nesses Mestres é flagrante a situação da tua obra numa intersecção né num terreno comum situado a na fronteira do jornalismo da história e da literatura né da literatura de não ficção explora para nós um pouco dessas provocações amistosas é sem dúvida eh Essa centralidade é inegável né Fernando Fernando Moraes e Rui Castro ali no final dos anos 80 começo dos anos 90 eles modernizaram o gênero biográfico no
Brasil eh também não queria deixar de Citar um querido e saudoso amigo o Alberto que fez uma biografia fantástica Fabulosa reescrita ao longo de muito tempo né Eh eh uma biografia caudalosa de Stephan Wi morte no Paraíso então Dinis eh Sem dúvida abriu essa verida e Fernando e Rui levaram ela adiante com muita maestria com muita competência e fazendo algo que é eh espantoso né ou seja eles eles conseguiram eh vender livros né Cordilheiras de livros né Eh sobre histórias do Brasil e sobre personagens alguns muito conhecidos como é o caso de garicha como é
o caso de Carmen e eh e outros nem tantos como o caso pel no grande público como o caso fator chatão magnata da Imprensa então sem dúvida Fernando e Rui foram definidores desse processo são meus Mestres vamos dizer ass S sou amigo eh eh de Fernando Moraes eu comecei a trabalhar com biografias com Fernando como assistente do Fernando Há muito tempo atrás Dizem que ele ensinava muito e pagava pouco verdade é mas aprendi muito com ele e veio o o Jurandi de uma geração posterior n geração imediatamente posterior que aprendeu e bebeu na fonte desses
Mestres mas que de uma certa maneira tomou seus próprios caminhos né então no meu caso por exemplo eh muitas vezes a discordância por mais que haj muitas confluências por por mais que haja muitos Entendimentos Há muitas discordâncias e muitas semelhanças e muitas assimetrias entre o tipo de trabalho que eu desenvolvo e o trabalho que esses Mestres eh fizeram e continuam a fazer eh exatamente nesse Território que você situa de zona fronteirista de zona de borda entre essas três grandes esferas né na Esfera da do jornalismo na história na da da da história e da literatura
de na ficção eu sempre repito isso com muita frequência e tá no meu Livro porque acho necessário esclarecer o temo Fronteira uma vez que sempre que se fala de Fronteira se pensa em algo que separa em algo que divide em algo que limita em algo que não permite a passagem fácil o livre trânsito entre um território e outro né logicamente todas as fronteiras são arbitrárias por mais que às vezes pontuadas por acidentes geográficos e fronteira eu prefiro entender como uma zona de confluência né uma zona de impacto muto uma zona de Permanente trânsito eh eh
de semelhanças né de impactos mutos e como toda a zona de Fronteira uma tentação para o contrabando né então no no caso da biografia ao se situar nessa zona de recessão nessas bordas entre TRS esferas eh No meu caso eu Eu me permito eh estabelecer algumas regras nesse nesse contrabando de de de de de métodos né então enquanto enquanto os mestres como Fernando e Rui se situam muito com pé encado Ali no jornalismo Eu pretendo e Muitas vezes na literatura principalmente o caso do lucast que é um texto maravilhoso e tal eu faço questão de
fincar uma bandeira muito firme no território da história ou seja da pesquisa documental eu acho que as a biografia hoje como gênero eh eh eh eh eh Literário de não ficção ela se exige eh determinado vigor eh e determinada recusa ao Impressionismo que até B de pouco tempo era possível ou seja uma certa confusão ali entre a a a a a Pesquisa histórica o jornalismo mas também um certa uma certa ficcionalização uma certa Liberdade poética coisa que eh nessa área de Fronteira eu não me permito preciso que eh nós tenhamos sim a limpidez do texto
jornalístico a clareza do texto jornalístico e a possibilidade Inclusive a missão de decodificar conteúdos complexos para uma audiência mais Ampla que é típico do jornalismo mas ao mesmo tempo fazendo essa clareza com Determinados recursos que vem da da da do texto literário Ou seja a constitução de suspense a construção de personagens a construção de cenários tudo isso logicamente bebendo na na na na nos recursos e nos aros típicos da escrita literária mas eh cada vez mais a biografia se exige algo que é fundamental para a credibilidade para a manutenção do pacto do biógrafo com seu
leitor que é um trato rigoroso com as fontes documentais n hoje se fala muito Eh de literatura criativa né escrita criativa eh eu acredito que a biografia ela pode sim ser uma uma espécie de escrita criativa de prática criativa da escrita mas ela exige que a pesquisa documental que a fase da investigação seja igualmente criativo Não no sentido como pode parecer apressadamente da invenção de de preencher as vacunas da investigação com a imaginação Não essa pesquisa criativa tem que ser no sentido de saber extrair Da documentação saber extrair dos documentos e eh cores texturas sabores
se possível SS para fazer algo que eu acho fundamental que é fazer o leitor entrar na cena né aqui no que que que que Cícero dizia lá já na antiguidade eh fazer um um aquele que está ouvindo o discurso incorporar-se nesse discurso e ver o discurso então isso Exige uma criatividade no sentido do olhar atento eh eh do pesquisador e tratar os documentos não como aluro mas ali dentro Buscar essas sugestões auditivas visuais principalmente visuais mas também sonoras olfativas e buscar as cores desse tempo os sons desse tempo os jos e costumes desse tempo a
fala desse tempo né a a cor desse tempo a textura desse tempo então É nesse sentido que eu busco eh trabalhar e É nesse sentido que eu entendo a biografia como Essa zona de confluência essa Tríplice zona né de confluência entre essas três esferas maravilha maravilha Nira eh Eu te agradeço pelo gancho que você já me deu usando um um jardão jornalístico né Eh eu queria falar um pouquinho do do getuli Então vou começar vou pegar algumas obras tuas para provocar sobre essas eh pontuações que você fez lá no doutorado eu caí no engodo de
pesquisar um tema Talvez o mais estudado da história do Brasil que é Independência né centenas de anos sucessivas efemerides Acabaram dando a luz uma extensa umaes Otávio historiografia né Da dimensão talvez que só os estudos sobre projet turismo e você enfrentou o dragão de escrever uma biografia do velho né uma obra literalmente monumental em todos os aspectos eh Talvez venha do jornalismo Essa obsessão pela apuração refinada né correr atrás do detalhe que te levam até as fontes arquivísticas como você acabou de sublinhar eh pro primeiro volume lé dos anos trita até a formação né E
quando ele chega lá no poder você leou eh eh Tudo sobre o personagem tudo que existia biografias teses acadêmicas Fontes primárias né das mais variadas jornais de época panfletos marchinhas de carnaval fotografias né até processos crime né para eh elucidar o aqueles casos de assassinato que o Júnio foi ligado tentar atribuir para ele né e que você mostra que indevidamente né No primeiro desses casos a lendária briga lá em Ouro Preto Nosa estudante de Ouro Preto isso até hoje é lenda lá em ouro Das suas de Ouro Preto onde o Getúlio estudava lá com seus
irmãos mais velhos que acabou resultando na na morte do filho de um figurão né paulista então no processo crime que você correu atrás você encontrou a definição do assassino que trazia um detalhe né o assassino usava bigode e o Júlio era um Gu berbe né como se diz aqui no no Rio Grande do Sul e o outro essa lato que é daquela Índia no interior do Rio Grande do do do Rio Grande né se esse cara funou até Encontrar o inquérito para descobrir que se tava de um homônimo né Eh a persistência do repórter é
o cara que não desiste nunca né fez com que eh eh você terminasse encontrando o documento que a pasta estava fora do lugar e tal desvendando esse mistério Então essa verva indiciária né investigativa própria do juiz do Historiador como diz o ginsburg né do jornalista eh tá muito presente né na na no teu Trabalho de pesquisa conta pra gente um pouco e como é que essa corda vibra né tanto da pesquisa quanto da escrita perfeito Ô eu acho que a minha formação como jornalista me deu essa esse essa técnica esse método e essa obsessão não
só pelo detalhe mas também eh pela pela busca desse olhar detetives mesmo isso que eu que o que o Carlos Gin chamava do desse dessa coisa indiciária da pista dos sinais do vestígio de tentar encontrar e Contar uma história a partir de pequenos de pequenas pistas de pequenos vestígios no meu livro eu digo que eu que esse livro Arte da biografia e eu eu digo aqui Inclusive tem um capítulo que eu dig o biógrafo excesso de detetive olhar de antropólogo e espírito de arqueólogo né detetive nesse sentido de você em busca às vezes da pista
mais infinitesimal né que pode te levar a a a desenrolar um grande fio no caso o diretor foi exatamente isso ou seja Havia essas histórias que cercavam essas acusações inclusive levantava-se contra Getúlio e eu não me satisfiz simplesmente com o que já tava escrito né E muito menos me satisfiz com uma única frase que tinha no mund dos vivas do filho do Getúlio do rero vagas Getúlio a revolução inacabada em que ele dizia ah desconversava né ele dizia Ah esse coisa que meu pai matou o micho tal isso isso é um caso de honia tal
eu não poderia simplesmente me me confortar e Me conformar unicamente com esta frase eu fui aos cartórios com a ajuda de um pesquisador Gaúcho danado o Marcelo Campos que eh fez um trabalho maravilhoso de parceria comigo e que nós fomos aos cartes de Registro Civil nós descobrimos a a certidão de nascimento do homônimo do goro puxamos a ficha corrida puxamos o inqurito Então esse esse esse Faro detetives é realmente muito eh obsessivo para mim muito fascinante é Algo que eu faço com imenso prazer e ao mesmo tempo tem esse olhar né esse sentimento e esse
excesso de um mergulho etnográfico em determinadas realidades quando eu fui pesquisar Padre Cícero eu fui um unigo de um manancial bibliográfico com a fonte secundária com ideias preconcebidas portanto eu eu que nasci em Fortaleza nasci portanto no litoral de costas para o Sertão eh sem eh com muito desdém inclusive para a figura de padre cía que sempre para mim Encarnava o símbolo da exploração eh da boa fé do homem sertanejo eu fiz um mulha etnográfico jento com os piros para entender o sentido dessa devoção e nesse mergulho na convivência com os riros inclusive acampando com
eles comendo com eles dormindo no acampamento e comecei a perceber que o meu vão eh materialismo e meu vão agnosticismo jamais daria conta de um personagem como padre sío se eu não procurasse pelo menos compreender a Visceralidade dessa Fest ctanejo né então foi algo muito definidor continuo agnóstico mas como diz a Caetana inspirado no aquela bela música do Caetano inspirado no Jorge Amato quem me ateu e viu Milagres como eu né então assim é algo facilmente e e o arqueólogo entra também um pouco nisso jo Uma vez eu tava zapeando uma noite dessas de insônia
zapeando na TV e vi um documentário sobre eh eh um arqueólogo que tava Fazendo uma investigação uma pesquisa num grande poço naquele cenotes ali que existe na América Latina aqueles Poços enormes naturais sem bordas sem margens e eles encontraram lá dentro de um desses Poços um um fóssil uma carapaça de uma tartaruga e de um crânio de um crocodilo e a datação de carbono 14 eh apontou que eram contemporâneos e um detalhe curioso é que na carapaça da taruga eh existia um furo que coincidia exatamente com o diâmetro da Presa do Dia né aí e
aí o arqueólogo explicando que eh a partir das evidências a partir desses vestígios ele elaborou a tese a hipótese de que os dois animais né fizeram famosa abraço dos afogados né que a taruga caiu no poço o jacaré provad foi atrás os dois acabaram morrendo então é um pouco desse espírito eh eh eh do do do do do palinho Nesse caso nem arqueólogo porque o arqueólogo é cultura material humana nesse caso é de arqueólogo né então o arqueólogo Construiu uma narrativa com base nas evidências ou seja ele precisou usar sim da sua imaginação mas simplesmente
não no sentido da pura invenção não no sentido que o romancista usa a livre criação Não ele tá calcado ali em documentos aquilo que o p fala né Ou seja que reconstrução ou a constituição ou a tentativa disso pela história do passado é sempre uma ilusão né uma ilusão controlada uma ilusão controlada pelo Quê pelo documento e aí isso isso me leva fazendo um breve parêntese me leva a um a a a lembrança me traz a lembrança de uma das críticas mais eh eh eh pertinentes e mais frequentes que se faz a ao exercício da
biografia que vem de bord né da a famosa ilusão biográfica ou seja o biógrafo teria a ilusão de contar a história de alguém quando essa história seria e contar a vida contar uma existência narrar uma vida seria absolutamente impossível e e e bord é Parte da de uma de uma de uma crítica muito muito aguda e muito pertinente e eu concordo com né que é de achar que todos os caminhos já estão dados né e que o seu bió biografa eu para como destino pronto para ser aquilo que virá Inclusive a justificar a esrda de
uma biografia dele muito pelo contrário minha própria existência j a minha própria vida mostra que a vida de um indivíduo é feito de acasos de erros sobressaltos não ter nenhuma eh eh eh Nemum Destino Dado a partida né eu pró descobri que ia ser biógrafo depois de muito depois de muito ralar em outras coisas que eu conto inclusive da introdução do meu livro técnico de R x topógrafo vendedor de de de hambúrger e tudo mais ou seja é é é tentar inclusive T mostrar tinha uma vida né de um de um biografia se gente que
for no casoo V nasceu para ser presidente da república n tava o destino não tava pronto ele construiu isso né e a partir de muitos Acasos né a partir de muitos de Muitas coincidências e as coisas foram eh se arrumando ninguém nasce para ser nada né ninguém nasc com destilo pronto e o biografado tem que estar atento a essa armadilha né não tentar justificar o futuro do seu do seu biografado com de forma muito mecânica e de forma muito automática a partir do que aconteceu Por exemplo na infância na no ventude queo determinante no futuro
Jú nasceu para ser biografado pelo Lil Neto né Senor é É aquela coisa só para só para terminar J eu logicamente tive que ler também ali uma avalanche de livros eh sobre jho Vargas e muita gente me dizia mas ainda há algo a se escrever sobre Ret o personagem já tão biografado Talvez seja o personagem sobre quem mais já se escreveu na história do Brasil e eu sempre dizia Olha se você sempre terá o que dizer sobre uma personagem Paul f porque primeiro eu não acredito em biografia Definitiva né não existe biografia definitiva não existe
história uma história definitiva Claro se eu colocar a mesma maçaroca de documentos pro Jurandi e pro Lil Neto mas ter os dois livros absolutamente diferentes porque o documento vai ter logicamente os documentos vão ter logicamente ser filtrados Pelas nossas escolhas Pelas nossas seleções Pelas nossas sensibilidades pelos nossos repertórios então não há não há possibilidade Então Se havia quietas biografias de Júlio Vargas quietas em um o que eu dis e Que ótimo né e Que ótimo que seja assim mas com certeza a sua marcou e a a literatura sobre o jetur de maneira definitiva né uma
obra realmente eh hum consistente e e referência pros inclusive pros estudos acadêmicos Vamos dar um salto do do personagem para o o o elemento cultural né a história do Samba história do Samba eh o uma história do samba né que também não é definitiva né Então você usou mais uma vez para escrever a sua versão e né da história do Samba muito eh cativante mais uma vez a biografia você mesmo fala isso né ou biografias cruzadas né como você usou como fio Então você contou numa entrevista pro el país que o seu olhar é o
de alguém que tentou explicar o processo de formação do gênero a partir dos perfis das biografias individuais desses protagonistas então Eh você dizendo né acho que o meu olhar de Lira Neto é o do biógrafo não do musicólogo não do Historiador musical por exemplo ou seja com essas trajetórias individuais essas histórias de sambistas compositores músicos né instrumentistas na sua conjunção produziu a formações do samb não obst não obstante o fio biográfico você produz uma narrativa geral muito rica da história do Rio de Janeiro né do do que a gente usaria a fam gerada palavra contexto
né da Virada do 19 pro 20 você fala da pequena África justamente Onde nasceu o samba né mas também sobre a transformação das fazendas na periferia da zona norte lá do Rio sobre as políticas higienistas da época das tentativas do Estado de disciplinar né de controlar o carnaval numa chave muito foco Tiana diria né ou se diria na academia então eu sei que você não tava escrevendo uma tese mas em que medida Você conversou com a historiografia do período né do Diálogo né Eh da conversa mesmo verbal né Não só Do debate mas com historiadores
historiadoras de história Urbana e cultural do Rio de Janeiro para fechar essa pergunta nessa obra da história do Samba você trabalha mais uma vez com muita pesquisa documental né inclusivo entrevistas Fontes fotográficas as biografias dos eh de todos aqueles sambistas Donga Pixinguinha Ismael mas também a história das escolas de samba né as festas populares cheias de Fé Mas também de Sabores de odores de music de gostos de texturas como você disse né da Musicalidade do povo negro n e foi construindo esses espaços reconstruindo esses espaços de existência né esse calo de Cultura a marcado por
uma forte devoção eh sincrética religiosa né e junto com tudo aquilo que a gente já falou então nessa a apeos do Popular entra tudo né você usa letra melodia instrumento gravação eh sociologia do Ritmo os regulamentos dos desfiles e tal Então eu queria explorar mais uma vez esse gancho para você eh eh falar mais uma vez sobre a questão do seu processo de busca e tratamento de fontes né que se falou e já deixou muito eh marcado né Essa coisa da da eh desse pacto de de compromisso compromisso que você tem com as fontes embasando
no teu trabalho só Isso daria um seminário mas eu vou tentar eh eh cruzar um pouco todas as as possíveis respostas e as possíveis reflexões em tno do que você me pergunta A primeira coisa eu vou começar então de trás para adiante a primeira coisa é a questão das fontes de fato Eu eu levo e consider ação todo tipo de fonte histórica não eu não não desenho nenhum tipo de fonte histórica né então a a a a a char a música Tudo isso para mim e a a a a imagem eu não uso as imagens
simplesmente como ilustrações elas elas têm significado elas devem ser analisadas interpretadas Então tudo para mim é fundo histórico trabalho muito com Char com gingo político com com músicas de época comos filmes de época eh eh eh isso para mim tá dentro do grande repertório que eu quero mobilizar quando eu falo de fontes históricas e a história do Samba É né É vou dizer assim uma biografia coletiva em que vários indivíduos a existência de vários indivíduos eh se unem para contar e para fazer a um mapeamento né do do do surgimento do Samba do moderno samba
eh eh Urbano como nós conhecemos hoje E aí Essas biografias essas vidas que que são como se fossem fios eh eh de uma de um grande tecido de uma grande textura de uma grande Tapeçaria né E aí eu não deixo de lembrar que a palavra texto né vem de tecido vem de tecitura Então o que eu tento fazer numa biografia coletiva assim como eu fiz na cas da terra é fazer com que esses fios de cores diversas de procedências diversas de texturas diversas se entrelacem de tal a modo e que nessa Trama eles eles Revelem
um padrão eles revelem um desenho eles revelem né um mosaico de significados né plural portanto multifacetado né E logicamente eh nenhum homem a uma ilha já dizia o poeta John D né então o contexto ele é absolutamente necessário para que você entenda a trajetória desses indivíduos ou de um indivíduo no caso de uma biografia eh individual E no caso de uma biog coletiva ainda mais é entender De que modo a a a a as vidas dos indivíduos das Subjetividades foram impactadas eh pelo seu tempo pelo espírito de seu tempo pelas circunstâncias de seu tempo n
e de que modo também esse tempo foi impactado por essas próprias existências né De que modo essas duas esferas e eh se impactam mutu E aí eh logicamente nessa busca eh por documentos nessas buscas nessa busca por Fontes no caso do samb especificamente eu me deparei com uma grande dificuldade Inicial né que era o fato de que os primeiros sambistas maior Parte deles T pouca ou nenhuma educação formal muitos deles analfabetos muitos deles não produziram documentos por si a não ser a sua própria música né e muitas dessas músicas que se perderam com o tempo
e foram incorporadas numa grande tradição oral e muito aut congratulates de origem em relação a esse samba eu tinha uma dificuldade e aí como é que era o dia a dia dessas pessoas como é que era o cotidiano desse Sambista como é que vivia um liberto eh eh afrodescendente no final do século XIX começo do século XX no morro no subúrbio carioca eh já que ele não produziu e os documentos que existem como ele sobre ele são eh documentos com viéses n ou seja ou é os jornais de da época que se referiam a eles
como bandidos marginais ou a polícia que os tratava não só os não só se referi como os tratava como bandidos imaginários Então eu fui buscar nos Arquivos policiais eh eh uma fonte inesgotável para fazer o próprio cartografia do do do samba carioca do período sabendo que essa documentação tinha um viés o viés policialesco né E que eu precisava seguir lá grande lição de volta mesmo de ler esses documentos a contra pelo ou seja contra a intenção daqueles que o produziram né então eu precisava quando tava lá com processo ou os vários processos contra Ismael Silva
paraar só um exero né que passou boa Parte da vida dele na cadeia né Eu precisava entender eh eh eh os códigos de Conduta desse desse saista eu precisava entender na letra fria ali do escrivão foi todo o viés policiales que ali estava né como é que se como é que eram as manhas Inclusive das práticas de interrogatório né e é algo que eu vou também desenvolver no livro seguinte que é o arrancados da terra de que modo o o o a inquisição né De que modo o o interrogatório o o o a fala Inquisitorial
pode revelar muito não só de quem eh eh eh é interrogado mas também de quem Interroga né então é é é um pouco eu busquei e busco a todo momento em todos os meus filmos eh eh isso isso está eh Evidente nessa busca primeiro pela diversificação das fontes né para tratar as fontes de uma forma respeitosa eh eh e ao mesmo tempo crítica sempre crítica né ou seja eh não há fonte e Sem interesse né não há documento Sem interesse Inocente né E Até inocente exatamente então assim e eh eh e até entender os silêncios
da documentação né Por que que determinado documento é activado e outro não porque determinada lembrança é ativada durante uma entrevista e outra não porque outra fica subterrâ então por que que os Como é que os arquivos são construídos que é uma outra discussão que que cabe ao biógrafo a todo momento e ao pesquisador do passado se fazer como é que Getúlio construiu o seu diário por exemplo né um Diário que eh com letra escorreita sem nenhum erro sem sem nenhuma rasura ou seja um diário que foi passado a limpo se você passa Limpo um diário
você tá pensando em um leitor tem uma triagem é exatamente Então esse leitor tem nome is leitou é postan didade né então assim qual é a alta imagem de quem escreveu aquele dia quer que chegue que imagem essa pessoa quer que que chegue a posteridade Então tudo isso tem que est muito eh eh na Cabeça de quem pesquisa o passado você sabe disso e o BX não é diferente até para não cair na esparrela que eu vijo colegas meus biógrafos inclusive caído eh dizendo que tudo aquilo que eles publicam é a verdade que eles chegaram
a verdade absoluta dos Fatos e quando tem versões diferentes você dá um jeito de descobrir qual é a verdadeira eu disse gente ou é muita ingenuidade ou é muita arrogância né e assim e quando a ingenuidade é ar ou ou marketing ou Marketing marketing mas eu eu acho que a pior combinação possível é quando a ingenuidade se mistura e se une a arrogância né E aí temporado por um certo mar como se a história eh pudesse ser vista como osos positivistas há do século XIX viam ou seja essa é a verdade absoluta como a como
se na pesquisa histórica nós vamos estar sempre trabalhando com versões nós vamos estar sempre trabalhando com visões espaciais po diz uma coisa linda mesmo que eu Fosse Napoleão Bonaparte o WL se eu fosse narrar Era só a minha visão sobre o WL não seria o WL né seria é isso né você buscar e aí vejo muita gente diz não mas eu tô dizendo que foi assim porque fulano de tal viveu esse acontecimento tem me contar que foi assim como se a memória também não fosse plástica como se a memória também não fosse construída fosse seletiva
como se a memória também não fosse um construto né então assim é é é é isso que na Escrita da biografia né nesse nessa área de confluência voltando ao que nós estávamos dizendo antes nessa área entre um texto ímpeto jornalístico que busca uma clareza de legibilidade né de um contato direto com o leitor usando dos recursos típicos do texto literário para construir suspenses recursos que vem lá do velho folletin construir P de não contar tudo para o leitor de imediato fazer de conta que não sabe o que virar a seguir para provocar o suscesso tudo
Isso do Jornalismo e da literatura tem que estar ancorado numa prática e numa reflexão historiográfica bastante sofisticada ou bastante fina e Ou pelo menos não ingênua né pelo menos não ingênua perfeito lir eu tô tentando aqui lembrar o nome de um Historiador de História Moderna de Cambridge do final do século XIX mas com o passar dos anos a memória trai e ele usava Justamente esse esse exemplo da eh de water Lou fal Olha se você aplicar rigorosamente os Métodos históricos de crítica documental etc você vai chegar a uma versão definitiva Não importa se contada por
inglês ou francês isso é uma coisa mais eh eh né praticável impossível de ingenuidade aí no estado bruto né E aí jur se você me permite uma breve um breve parêntese por exemplo eh já me adiantando um pouco em relação ao livro imediatamente sequente que é o do do arrancados arrancados da Terra quando eu vou nrar eh a o momento da da do ataque Holandês a Salvador né eu vou fazer o quê eu vou me contentar com qual versão com a versão do holandês que ataca ou do Povo de Salvador que se defende eu tenho
que contar com todas eu tenho que contar todas elas eu tenho que contar essa história a partir dessa multiplicidade de fonte né então eu narro a o mesmo Episódio a partir do Olhar do holandês doos canhões holandeses e ao mesmo tempo a partir do olhar de um jovem noviço que estava em Salvador daquele movimento que Era o Padre Antônio Vieira futoro grande pritor Padre Antônio Vieira então a mesma história contada né Por perspectivas e por pontos de vista diferentes é isso que eu acho que é importante né para não dizer assim não a história do
Vieira é mais verdadeira de que a do Lola dele não é isso né não é isso tinha gente do lado de lá e do lado de cá do balcão né não tem como E aí você me trouxe para arrancar né Eu acho assim o livro eh que é uma lição de Pesquisa histórica adora esse livro né e neles eh Só lembrando você narra a travessia dos judeus sefarditas né que formaram ali a primeira comunidade eh das Américas lá no Recife e depois ajudaram a construir Nova York né então você constituiu magistralmente correndo atrás da saga
desses 23 refugiados essa biografia coletiva né desses 23 refugiados que lá no século 1 né 1654 desembarcou na nova Amsterdã né na colônia holandesa lá na costa da America Do Norte né fogo na inquisição portuguesa lá de Pernambuco que é maravilhoso tive em Recife o ano passado fui lá na na na sinagoga maravilhosa né então é é esse projeto né eu quero falar um pouco do livro Você fica à vontade mas esse projeto tinha começado com a ideia de escrever uma uma biografia do Maurício dinal não é isso Lira conta para nós um pco Por
que que ele seguiu outro rumo né A partir e do que você e eh falou não vou Fazer isso vou fazer aquilo e aproveita e conta também pra gente como é que foi trabalhar esse tema né porque embora seja uma biografia coletiva é tão diferente é dos dos personagens que você vinha trabalhando é do século XX né então você vai trabalhar com Resgate histórico pessoal que tá lá atrás né lá do do século X e tal então fala um pouquinho pra gente sobre sobre ados e o processo de escrita del de fato a ideia Inicial
surgiu há muito tempo eh eh Antes mesmo de eu biografar Castelo foi o meu primeiro livro que de circulação nacional que saiu ali em 90 2004 né em 2004 e antes disso eu já vinha com essa ideia de biografar nassal como nordestino a figura de nassal sempre me fascinou sempre me encantou e e e aí eu depois pensei não mas uma biografia de nassal não faz muito sentido Talvez uma biografia do período de nassal no Brasil então já fiz ali um recorte Ah e Comecei a ler comecei aunar material comecei a Comprar bibliografia primeiro momento
de escrever um livro que eu acho Fantástico é corri os cebos da cidade de São Paulo em busca mesmo com com instante virtual eu continuo indo no CEO gosto de fazer o cheirando cheirando aquele bolor né goos exatamente E aí eh uma história paralela começa a me chamar a atenção nos meus nas minhas leituras sobre o chamado Brasil holandês que era o da Comunidade Judaica né da Comunidade Judaica que eh eh teve a a possibilidade de expressar a religião livremente uma vez que na época dos portugueses isso não era possível né Por causa da Inquisição
mas aí um uma viagem de trabalho eu fui dar um curso sobre história e cultura brasileira na Universidade do Estados Unidos lá no estado de vermol lá em cima perto do Canadá já e e foi passar uns dias em Nova York né e e em Nova York eu tive contato com aquela com aquele portal do Tempo que é o cemitério o cemitério mais antigo de Nova York Na verdade ele é o segundo cemitério mais antigo de Nova York mas o primeiro desapareceu ninguém sabe exatamente inclusive onde era e esse segundo cemitério que data do século
X eh tá lá no caminho sh Natal e o o set financeiro de Nova York e os túmulos e os mais antigos estão com inscrições eh em hebraico e os sobrenomes dos sepultados são eh ibéricos Portugueses e Espanhóis e ali Eu tive a exata noção de que era essa história que estava precisando ser contar estav me pedindo para contar né então mudei todos os planos incl furei a fila né tinha outros projetos eh eh isso muito tempo depois da ideia original isso já foi depois do da história do samba né foi o que acabou me
levando a Portugal me levou para para para trabalhar na na pesquisa na torre do Tombo em Portugal e e para reconstruir essa história desde o começo Né para contá-la desde a sua origem n ou seja uma história aí no tempo longo aí vamos dizer assim né e que se looca no tempo tá os protagonistas né ou seja começa em Lisboa na Lisboa cientista se volta para a Holanda onde os judeus fugidos da Inquisição buscaram uma rota de fuga Um quto porto seguro e dali eles vêm ao Brasil lá no período da ocupação Holandesa eh eh
e depois tem que partir eh eh quando os portugueses retomam as chamadas Capitanias do açúcar e eu e vão Para essa esse pequeno Entreposto entre os outros destinos esse pequeno Entreposto comercial Holandês que era novaidade que virasse logo a seguir logo na sequência rebatizado como Nova York é uma história fascinante e que me exigiu sim um desafio até então novo para mim né e um desafio enorme que era trabalhar com documentos do século X eh em vários idiomas né Na época eu contratei inclusive um professor de de neerlandês né de Holandês eh profess particular para
me ajudar um pouco a a a entender o básico do holandês eh o básico porque o que é interessante é que a comunidade Portuguesa que se exilou em Nova Amsterdã eh mantinha como traço identitário como traço de pertencimento à língua portuguesa inclusive na Sua documentação o que por um lado me ajuda porque é português mas também é no português do século X N uma língua que ainda estava em formação né e ainda cada Um escrevia de jeito que queria e então foi foi muito sei muito bem sei muito bem como é você sabe muito bem
mas o mais curioso de tudo isso é que é o livro em que eu recou mais meu tempo do ponto de vista cronológico é onde eu for eu que trabalho muito com o século XX no máximo eu tinha ido finalzinho do século XIX com José decar quando volto com o século X um tempo mais remoto uma cronologia mais remota eu acabo por mim me deparar com a história mais atual de Todas sobre as quais eu já me devoli né porque é uma história que fala de perseguição é uma história que fala de preconceito ou de
discursos de ódio de fake News né de histórias inventadas de de do do do combate ao inimigo né do adversário transformado em inimigo ou seja o adversário delação premiada delação premi delação premiada delação premiada você assistindo o o os interrogatórios da lava-jato você acha que acha não tem absoluta certeza que os Juízes e promotores se inspiraram no manual do inquisidor porque eram as mesmas as mesmas táticas né de premiação e de engodo e de de de de articulação entre a acusação e e e e e e e o juiz né entre a promotoria e o
juiz que se confundi uma coisa só se acabou sendo meu livro mais atual e que me me despertou muitas ref sões s Como como o que é escrever sobre a história vamos puxar então a arte da biografia né teu último livro né Eh eu Queria pelo menos mencionar se eu não vou explorar e tal mas um destaque do Livro né que é um verdadeiro manual de escrita biográfica né é que você resgata a história do gênero fazendo aí uma espécie de história da historiografia Tin um ramo da historiografia né como que a gente faz é
muito comum a história da cografia que se pratica na academia então um dos pontos altos é a reflexão que você faz entre tantos né que você faz das Fronteiras entre ficção e Biografia né as as propriedades os limites do discurso memorialistas né e as implicações éticas desse tipo de escrita que são questões centrais hoje estão no CNE dos debates da teoria da história né você tem eh uma intimidade grande com academia com a universidade com a pesquisa e e a reflexão que se desenvolve aqui nunca negou o seu crédito né o crédito da academia na
na construção das suas obras né diferente de outros historiadores que tão que Descobrem né todo e inventam a pesquisa né então eh eh aí inclusive já se permitiu né Eh entrar nesse universo fazendo aí o percurso inverso de muitos acadêmicos E acadêmicas como eu né que tentaram com maior ou menor êxito se aventurar na na escrita de divulgação na escrita pelo menos popular no bom sentido da palavra né Por né é o que que te impeliu a esse movimento né e o que que você encontrou na academia e te surpreendeu positivamente e Negativamente né se
você quiser explorar um pouquinho disso puxando o fil do teu último livro tem passado tempo escrevendo meus livros e tudo mais começou a surgir uma demanda para compartilhar um pouco essa essa experiência então eu comecei a fazer com cursos né alguns de curta duração outros de mais longa eh curso de uma semana curso de vários meses e muita gente tinha a a a perguntas muito semelhantes sobre método sobre o próprio a própria Ética do do gênero e foi aí que surgiu a ideia de transformar essas notas de aula e em um livro de ao mesmo
tempo que fosse um um um um guia uma espécie de manual mas não fosse só isso também né fosse algo que eh faz parte inclusive do meu processo criativo que é refletir sobre o que eu tô fazendo porque nós jornalistas né temos um um defeito eu uso do cachilo deixa mesmo a boca torta né que é o de eh ligar o piloto automático e fazer a coisa sem pensar no Que tá fazendo é o próprio a própria lógica de produção da notícia e da informação jornalística ela é incompatível às vezes ou quase CPRE com o
exercício da reflexão então eu quis fazer algo que caminhasse nessa via de Man dupla né entre algo que desse orientações dicas conselhos macetes troca de experiências eh compartilhamento de conhecimentos ao mesmo tempo que houvesse também um exercício reflexivo que eh eh a partir De um determinado momento da minha carreira eu me obriguei a fazer eu me exigi fazer eu um determinado momento dentro da minha prática como biógrafo eu percebi que eh havia uma série de lacunas intelectuais uma série de lacunas de repertório que precisavam ser inevitavelmente preenchidas ou do contrário eu iria fazer um trabalho
que não me satisfazia afinal de contas quando eu larguei o jornalismo diária eh por causa da pressão da dupla pressão do Tempo e do espaço que me inquietava e que não me satisfazia ter que contar uma história de forma rápida apurando rapidamente escrevendo poucas palavras em poucas linhas é foi isso que me me libertou vamos dizer assim do jornalismo cotidiano e que me levou para uma escrita mais larga mais densa então ao mesmo tempo eu acho que esse livro precisava trabalhar essas questões desde uma um fazendo uma espécie de biografia da própria biografia para entender
Afinal de contas que gênero é esse e principalmente para entender Por que durante muito tempo esse gênero foi considerado um gênero menor bastardo né porque que ele foi considerado durante tempo por tanto tempo algo que não era sério algo que estava à margem das grandes discussões historiográficas eu me permiti fazer esse capítulo um pouco eh eh eh da história da biografia da história do gênero e ao mesmo tempo a a a a ao passo que eu narro a minha Própria experiência como biógrafo eu vou fazendo reflexões sobre esse próprio narrar né sobre essa própria narrativa
sobre essa própria prática da narrativa e as questões inúmeras questões éticas que estão para Presentes todo dia no trabalho tem biógrafo as dúvidas as inquietações os dilemas as armadilhas os sobressaltos natureza ética que estão permeadas no trabalho dos biólogos Então esse livro eh eh para minha surpresa tem gente que não quer fazer biografia mas Tá lendo o livro porque acha que ali tem algumas eh eh reflexões interessantes sobre a escrita de uma forma geral sobre a escrita de não ficção né sobre o trabalho com mones ou seja ali uma série de de de de caminhos
que o apesar de ser um livro finin de de de um pouco mais de 100 pgas 200 páginas no máximo é o livro que tenta ali trabalhar em várias perspectivas entre elas essas todas que que a gente tá falando aqui é um livro que que eu só tive logicamente cometia a Ousadia de fazer depois de um Largo trabalho de uma larga reflexão e de começar a ter muitas dúvidas sobre o próprio trabalho porque uma coisa que eu sempre digo meu querido Jurandi é que eu não escrevo para produzir certezas né Eu não escrevo para estabelecer
verdades prontas muito pelo contrário eu escrevo para desconstruir as minhas próprias certezas dia D um colega jornalista me entrevistou e me perguntou se não era muito ruim o trabalho do biógrafo porque Ele acaba se desencantando com seus próprios biografados eu digo Felizmente eu me me decepcionei com todos os meus biografados infelizmente eles é infelizmente eles são humanos né Aham não panto perfeitos e quanto mais eu escrevo sobre alguém mais perguntas eu faço e portanto mais dúvidas su gente se eu tivesse eh digo isso sempre vou repetir né se me fosse dado a oportunidade de de
encontrar com J Vargas em alguma outra dimensão e se eu Me fosse dado o direito de fazer uma única pergunta a ele a pergunta que eu Faria depois de anos anos e anos trabalhando sobre a vida dele escrevendo Três livros volumosos sobre única pergunta que eu faria é de Júlio Vargas afinal de contas quem é você eu ia falar assim por que que você se suicidou né mas não essa pergunta é melhor ótima ótima pra gente fechar N A A A Arte da biografia ela saiu pela mesma Editora junto com o livro do Mestre né
no mesmo ano era combinado isso ou não e em que medida essas duas obras tua e do Rui se complementam ou dialogam perfeito e eh Foi uma coincidência eu quando eu falei para o Luiz schartz né meu editor na companhia das letras que tava pensando em escrever esse livro ele disse ah O Rui também tá fazendo um né e eu disse ah que bom que bom porque e quanto mais gente escrevendo sobre o tema melhor E aí a editora resolveu lançar os dois Simultaneamente Oris chegaram praticamente no mesmo tempo na editora e eu achei uma
decisão editorial sábia né Lógico se se Puxaram né se Puxaram porque eh eh eh eu acho que ainda está por ser escrita né uma uma uma resia em que mostre todas as semelhanças mas também as ass simetrias de percepção e de método e de própria abordagem e do próprio fazer e do do próprio pensar eu acho que s são duas gerações de biógrafos respeito Enormemente o Rui eu um por ele uma admiração enorme Como eu disse no começo da nossa conversa modernizou o gênero brasileiro mas também esponde de muita coisa que que ele que ele
faz que ele escreve e ele porventura logicamente também discordar de muito do que eu faço então uma leitura eh eh eh comparada dessas duas obras né pode eh chegar a algum ponto Eh consensual Ou não né havendo história são é a mesma história contada por perspectivas diferentes Então é isso um pouco que eu acho que é importante e Que bom saber que livros como esse que despertam um interesse cada vez maior eh os cursos que eu dou sobre biografia sobre biografia são cada vez mais concorridos mais cheios com turmas enormes e pessoas das mais variadas
formações vi isso para quem trabalha com com divulgação histórica para quem trabalha com história pública é interessante perceber o interesse cres e contínuo e Sistemático pela escrita da história seja qual for o seu formato né então isso é importante para que a gente saiba que as pessoas estão ávidas pelo conhecimento histórico exatamente E então você tava falando eu tava pensando aqui das peculiaridades da academia né como você diz tem eh tem muita gente de várias áreas que se interessa por escrever eh eh e biografias e a gente tem uma coisa muito engraçada que a gente
tem Vários especialistas da academia que escrevem avaliando o que que seria e como deveria ser o processo de escrita biográfica e que nunca escreveram uma biografia é muito legal assim os debates teóricos fantásticos sobre e E aí cadê o cara não fez a dele pra gente julgar se é bom ou não eu queria deixar que que que parecer que eu fugir agora essa tua pergunta me me me retornou a ela a a quando você me Perguntou sobre os que ouvi de positivo ou de negativo nessa minha reação tanto quanto tardia com a universidade eh eu
acho que tem muito de positivo naquilo que que eu falei antes ou seja de eh me permitir e me possibilitar o acesso a leituras que foram fundamentais e que são fundamentais hoje no meu trabalho elas estão no meu trabalho estão subjacente ao texto né todo Livro meu tem um problema tem uma hipótese mas eu não vou fazer como um texto acadêmico Que eu vou revelar explicitar Qual é a minha hipótese Qual é a minha metodologia não isso o leitor vai perceber que existe subjacente ao meu texto e ali um problema existe uma teoria existe um
aporte teórica e foi a minha querida orientadora na P São Paulo professora Saudosa Jerusa Pires Ferreira que me ensinou a fazer assim né a não precisar ficar citando eh eh eh três por do para saber que ali tem eh que ali tem baktin que ali tem ginsborg que ali tem Uma série de autores que eu nesse livro inclusive artigo da biografia acabo por revelar que são meus inspiradores meus norteadores e ao mesmo tempo o que há de ruim você sabe né Você sabe muito bem o que é de ruim na na academia que é um
certo produtivismo uma lógica absurda de de de publicação e de autopublicação e de plágios de al plágios né uma coisa impressionante em que as pessoas repetem-se de forma de forma despudorada até né que forma isso de ficar eh nessa Lógica de tradução e de quise isso e dos rituais do próprio texto acadêmico né do o que Jerusa me dizia né Eh eh só para terminar eh eu digo a Gerusa quando eu apresentei a minha no livro quando apresentei a minha primeira versão da minha dissertação de Mestrado para jerus ela pegou tá um lixo está um
lixo porque você tá querendo macaquear mimetizar noos piores vícios da academia escreva como você gosta escreva com prazer Dê prazer ao seu Mentor e eu dizia mas gerus e a banca né banca que se lasque né a banca que a banca que a banca que lute né então é isso eu só sei escrever com prazer para mim conhecimento é prazer sabe Ah se não houver prazer para mim não há sentido né A minha escrita tem que eh eh ser movida pelo prazer e tem que buscar gerar prazer para o leitor é um pouco isso a
essa a minha profissiona eu não sei fazer de outra forma é por isso que eu tenho tantos eh eh eh Flertes e ao mesmo tempo tantos embates né com com com a academia né uma relação de Amor e Ódio vamos dizer assim é mas e isso talvez que explique a o teu sucesso né como escritor de reconhecimento público de crítica de né você tá aí na nas paradas de sucesso e é é bom que seja Eh vamos finalizando Então eu queria agora só pra gente encaminhar né E aí você pode aproveitar e fazer suas considerações
finais eh falar um Pouquinho pod pensando no no público potencial desse desse curso né que são estudantes de história mas também é é um um curso aberto para grande público pessoas interessadas em escrita qualquer tipo de escrita mas escrita de não ficção de literatura de não ficção né Fala um pouquinho da tua rotina de trabalho né A questão da da da pesquisa como é que surgem os temas olha por que que o samba né porque o s você é o cara que Escuta Samba e a maissa né porque ca Par como é que surgem os
temas os diálogos os debates as os levantamentos bibliográficos as buscas de documento em em arquivo também falar um pouquinho para n da pesquisa a questão da dinâmica de construção do texto né é uma coisa que você vai fazendo ao mesmo tempo que a pesquisa Ou você tem um momento que você fala não parei de pesquisar e agora vou tentar escrever como é que essa essa passagem né do desse de um momento pro outro a questão do do dos Paratextos a tua relação com os nichos né historiográficos Eh você falou um pouquinho já desse diálogo com
o mercado editorial né E E essas essas sobre todo ass os projetos em curso né O que vem do Lira para nós aí que a gente pode esperar pros próximos Breves anos Obrigado Lira é um prazer enorme sempre te ouvir ó Jurandi então assim tentando sintetizar tudo isso eu diria que eh é uma um método tem que contar muito com a obsessão né o biógrafo é um Ob né Alguém já definiu a biografia com o exercício de biof agia ou seja se alimentar da vida de outro ou de outros eh e essa biof gia envolve
muitos anos de trabalho né Cada livro ele é uma maratona não é uma corrida de 100 m é uma maratona com obstáculos vamos dizer assim né então O Grande Desafio lógicamente eh eh acessar o maior número possível de fotes primeira tarefa lógic ente Fazer o que na academia se chama de revisão bibliográfica fazer o estado da Arte ou seja saber o que que já foi publicado sobre aquele assunto então no caso do Júnio Vargas por exemplo o primeiro ano de trabalho foi ler e debast essa vasta bibliografia fixá-las documentá-los eh eh eh eh com livros
das mais variadas procedências né uma consulta Ampla essas Fontes secundárias e tudo mais depois disso você tem ali uma já uma ideia geral que virá seu futuro livro mas muito ainda tênue mas você tem pelo menos uma cronologia uma Coluna vertebral mais ou menos delineada e que vai ser preenchida né com carne nervos ossso tutano eh no processo de imersão nas fontes primárias que para mim essa é a parte mais deliciosa de todos né que uma vez você tendo eh eh eh essa cronologia desenhada na tua cabeça essa linha do tempo mais ou menos desenhada
e não é uma linha logicamente ela ela é cheia de vai vem ela é cheia de ziguezagues né Mas você vai começando a preenchê-las né preenchê-la e e e e Porque ela é traçada inicialmente mas ela é flexível como convém a uma uma coluna vertebral né então você e e a pesquisa não para nunca na verdade não há isso de eu pesquisei agora sei tudo sobre esse assunto então vou começar a escrever Não Há momentos em que isso se d de forma simultânea e que o exercício da escrita exige a voltas fores e essa nova
voltas Fontes eh sugere novos caminhos de escrita e por aí é um processo cíclico de de de de de alta Rotação né Eh eh e até o momento em que você percebe que eh eh a tudo aquilo que você escreveu há de ser reescrito muitas vezes né muitas vezes mesmo né eu reescrevo cada parágrafo de meus livros centenas de vezes se necessário Não no sentido de enfeitar o texto mas no sentido exatamente de torná-lo mais fluido mais fluente de torná-lo mais rápido de torná-lo mais visual de torná-lo mais eh eh agradável né então é exatamente
tirar todo e qualquer Tentativa de fazer literatura ou de principalmente de fazer tese né e fazer texto fluir né Fazer o texto correr e isso é é um trabalho lento de carpintaria né de de aniversaria é um trabalho muito delicado de às vezes uma troca de palavra uma alternância de frase de construção de cenas então um trabalho que se retroalimenta a todo instante né e é um trabalho sim obsessivo não é à toa que ao final de cada livro é o biógrafo termina exaurido Né o biógrafo termina né no estertor das suas forças o biógrafo
é um escombro humano né porque foi ali eh eh muitas horas muitos dias muitos meses muitos anos de trabalho né Eh eh eh muitas viagens eu preciso ir aos locais sobre os quais eu escrevo preciso saber que P tem tem o p do Sol daquele local eu quando se diz biografar gertúlio vas por exemplo a primeira coisa que eu fiz foi a São Borja para lá na fazenda na terra da Fazenda onde ele nasceu me Agachar e pegar um punhado de areia de da fazenda e triturar TR triturar na aquele triturar aquele Torrão na minha
mão para sentir a textura daquela Terra A cor daquela terra o cheiro daquela Terra porque eu preciso disso para poder reproduzir pro leitor eu preciso olhar para cena para poder levar o leitor para dentro dessa cena então é um exercício eh que exige e algumas algumas habilidades e algumas técnicas que eu tento eh eh trabalhá-las e e Explicitá-las nesse livro né a da biografia e E então é um pouco isso eu escrevi um livro para isso né para compartilhar um pouco disso porque como eu disse já uma outra vez eh o conhecimento só é válido
se também for compartilhado né conhecimento precisa ser e na minha vida como biógrafo eu tive a sorte de contar com com muita generosidade de muitos pesquisadores de Muitos historiadores de muitos colegas jornalistas de muitos especialistas com Quem eu converso com quem eu tenho uma interlocução permanente porque é a generosidade que eu acho que faz o conhecimento andar e é e nada mais Generoso ter compartilhar o o este conhecimento e é o que é o que você faz também j o que esse moo pretende fazer também e é por isso que eu me dispus logo eh
a a seu primeiro chamado a seu primeiro chamamento estar aqui porque isso é de uma importância enorme Parabéns para você e a gente se encontra Por aí parabéns para quem tá nos vendo eu vou te explorar só mais um pouquinho o que que vem por aí o que que vem por aí muito obrigado J para que vem por aí cenas do próximo Capítulo tá trabalhando em duas biografias sarão dois livros é o não tem nada a ver com o outro próximo é a biografia josval de Andrade né que sairá pela companhia das letras a eh
ano que vem aniversário de morte de J de Andrade que morreu em 1954 e a outra né logo na sequência é Um sujeito que chama luí Lua Gonzaga luí Gonzaga por Gonzaga É isso aí sucesso Lira Muito obrigado obrigado querido [Música] i [Música]