Boa noite, Dom. Comecei a perceber que tinha algo diferente em mim desde bem jovem. As pessoas me olhavam com aquele misto de elogio e inveja e logo me acostumei a ser o centro das atenções em qualquer lugar.
Cresci ouvindo comentários sobre minha beleza, minha voz suave, até meu jeito de andar. E para ser sincera, eu gostava disso. Gostava de saber que chamava a atenção e que de alguma forma as pessoas me tratavam de um jeito especial.
Por volta dos meus 20 e poucos anos, notei que minha vida estava longe do padrão luxuoso que eu achava que merecia. Eu não tinha um emprego fixo, não fazia ideia do que queria e ainda morava de favor na casa de parentes que viviam me cobrando postura adulta. Foi nessa época que conheci Alberto.
Eu estava acompanhando uma amiga da minha mãe num evento beneficente. Ela insistiu para que eu fosse ajudá-la, porque precisava de gente bem apresentada. Achava que eu chamaria a atenção em qualquer lugar e, de fato, acabei sendo notada por quem eu menos esperava.
Alberto não era um homem bonito. Tinha o rosto cheio de marcas na pele, como se tivesse passado por alguma alergia crônica. Os ombros eram largos.
E ele se curvava de leve quando falava, além de exibir um sorriso que eu só conseguiria definir como desconfortável. Mas acima de tudo, ele passava a sensação de poder. Naquela noite usava um terno que certamente custava mais do que vários meses de contas da minha família.
Parecia me observar o tempo inteiro e quando finalmente foi apresentado a mim, senti um arrepio que misturava repulsa e uma estranha excitação. Num tom de voz grave, mas desajeitado, elogiou meu cabelo como se fosse impossível para ele acreditar que estava diante de alguém tão encantadora. "Você tem um brilho diferente", disse ele, tomando um gole de um drink caro que eu nem sabia pronunciar.
Obrigada, respondi forçando um sorriso. Acho que é a iluminação do salão. Ele riu de um jeito arrastado, sem muito humor, e continuou me encarando com uma intensidade desconfortável.
Ainda assim, não recuei. Lá no fundo, eu sabia que ali poderia estar a oportunidade que eu queria. Não porque eu estivesse apaixonada ou pensasse em casamento, nem de longe.
Mas se eu desejava a vida que sempre sonhei, viagens, roupas, joias, tudo que eu via nas redes sociais e nas revistas, Alberto era o caminho mais rápido. A conversa avançou e descobri que ele era dono de uma empresa de transportes envolvido em outros negócios que não entendi direito na época. Algo em investimentos e construção, disseram.
Para mim bastava saber que tinha dinheiro e poder. Desde aquela noite, as investidas dele só aumentaram. Ele mandava mensagens de bom dia, perguntava se eu precisava de algo, enviava presentes cada vez mais caros.
Não vou mentir. No começo eu achava aquilo tudo meio ridículo. Pensava, ele acredita mesmo que pode me comprar, mas eu aceitava tudo e ele parecia jogar muito bem esse jogo.
Alguns meses depois, Alberto me pediu em casamento. Não foi surpresa. O que surpreendeu foi o jeito megalomaníaco.
Como ele fez isso. levou a um resorte afastado, alugou o restaurante inteiro pro nosso jantar e, com músicos tocando ao vivo, ajoelhou-se, com certa dificuldade, para fazer o pedido. Foi exagerado, brega, mas eu já me imaginava aproveitando todas as vantagens de dizer sim, então aceitei sem hesitar.
Nos casamos numa cerimônia em que parei de contar os gastos lá pela 13ª contratação de serviços exclusivos. Nos primeiros meses, eu mal suportava ouvir a voz de Alberto. Ele fazia barulhos irritantes ao comer, suava demais nas mãos e ainda tinha o hábito de passar a língua nos lábios enquanto falava.
A simples ideia de intimidade com ele me dava tanta repulsa que eu vivia inventando em xaquecas quase diárias. Mas, curiosamente, ele não era um tolo. Por trás daquela aparência bruta, Alberto prestava atenção em tudo.
Ele ouvia meus comentários sobre lugares que eu queria conhecer, anotava meus gostos musicais e, às vezes, me surpreendia com gestos que mostravam ter alguma sensibilidade. Certa noite, cheguei arrasada por uma briga com minha mãe e ele me abraçou em silêncio. Foi a primeira vez que senti algo próximo de um carinho sincero.
Aos poucos deixei de ter tanta aversão. Passei a olhar para ele com uma espécie de compaixão. Quando ele ria alto, já não me dava tanta irritação.
Em momentos raros, eu chegava até a dar um sorriso verdadeiro na presença dele. Foi aí que parei de notar os sinais mais perigosos. Alberto tinha um jeito estranho de me observar quando falava de mim para outras pessoas, como se eu fosse um troféu.
E comecei a sentir um medo que no começo, eu não sabia explicar. As coisas ficaram mais claras num dia em que falei que queria viajar sozinha para visitar uma amiga. Uma discussão aparentemente banal virou um diálogo frio.
"Viajar sozinha? ", ele perguntou, cerrando os lábios. Só por uns dias", eu disse, tentando soar tranquila.
Sinto falta de algumas amigas antigas. Ele não levantou a voz, mas a firmeza no tom me congelou. "Você acha mesmo que está sozinha em algum momento?
Foi como se tivesse acendido uma luz na minha cabeça. Ele sabia que eu andava me encontrando com Felipe, um cara que eu conhecia antes do casamento. Felipe e eu tínhamos uma atração forte, bem física.
Não era alguém capaz de me dar segurança financeira, mas eu me sentia viva com ele. Achei que tinha tudo sob controle, mas estava enganada. Alberto sorriu e deu para ver uma raiva contida em cada músculo do rosto dele.
Sentei no sofá, o coração acelerado enquanto ele parecia gostar do meu medo. "Não precisa fingir", disse me olhando como se eu fosse um objeto em exposição. "Eu sei do Felipe, sempre soube.
" "Você sabe? ", gaguejei com a voz quase sumindo. Ele demorou uns segundos para responder, sem tirar os olhos de mim.
Claro que sei, não sou burro. E se fosse, você não teria tudo o que tem hoje. Depois de uma pequena pausa, cruzou os braços e completou.
Mas não se preocupe, tenho uma proposta. Eu esperava gritos, ofensas, talvez até violência física, mas a frieza dele foi ainda pior. Você vai continuar se encontrando com seu amante, mas desta vez eu quero participar.
O quê? Como assim? Gosto de ver as coisas de perto", falou se inclinando paraa frente.
"Tudo o que é meu eu controlo. Senti meus lábios ficarem secos, meu corpo inteiro tremer. Não via amor ou ódio nos olhos dele, mas sim a certeza de que ele tinha todo o direito de decidir cada detalhe da minha vida.
A partir desse dia, percebi que sair de casa sozinha ficava cada vez mais complicado. Tinha sempre um funcionário dele por perto e Alberto me fazia assinar todo tipo de documento, supostamente ligado aos negócios da família. Comecei a entender aos poucos que esses papéis me envolviam em várias transações e contratos nebulosos e que assim ele me tornava corresponsável por tudo.
Felipe, por sua vez, acabou cedendo. Aceitava o dinheiro disfarçado de presentes. Ganhou carro, viagens, até verba para montar o próprio estúdio.
No começo, ele parecia achar tudo aquilo empolgante, mas eu sentia algo sombrio na forma como Alberto se aproximava dele, querendo saber seus hábitos, preferências, seus medos. Alguns meses depois, a situação ficou sufocante. Eu não vi a saída.
Minha mãe já não falava comigo, incomodada com tudo, e eu estava cercada de seguranças e contratos que me prendiam à empresa de Alberto, de um jeito que eu nem entendia direito. Passei a perceber que ele tinha contatos em várias esferas, conhecia gente na polícia, no judiciário, financiava campanhas políticas, tudo para garantir favores e silenciar investigações. Quando ouvi rumores sobre isso, vi que ele não apenas tinha poder, ele comprava silêncio onde fosse necessário.
Para piorar, descobri que as cicatrizes no rosto dele não eram de acne, mas fruto de algum acidente ou acontecimento que ele nunca me contou. Passei a ter pesadelos com gritos abafados e labaredas, mesmo sem Alberto jamais ter me mostrado sinais de ser um incendiário. Tudo envolvia boatos de acidentes e mortes suspeitas na família dele.
O pai teria morrido numa explosão, a mãe num incêndio mal explicado. Comentavam que as investigações nunca foram a fundo por causa dos contatos de Alberto e de seu pai, que sempre tiveram influência suficiente para abafar acusações. Foi aí que caiu a ficha.
Alberto herdara tudo depois de cada tragédia e, aparentemente ninguém conseguiu provar nada contra ele. Felipe também desapareceu. Dizem que viajou com Alberto a negócios.
Nunca mais recebi ligação ou mensagem dele. Passei dias angustiada, rezando sem muita fé e me perguntando se eu tinha provocado aquela situação. Dormia mal e quando conseguia tinha sonhos que me deixavam ainda mais tensa.
Certa madrugada acordei com um cheiro forte de queimado. Corri até a cozinha e não vi nada, só uma panela vazia e um pano velho perto do fogão. Alberto estava parado num canto, me olhando fixamente.
Ele deu um sorriso de lado e foi embora, me deixando com uma sensação horrível no peito. Nos dias seguintes, isso se repetiu. Aparecia uma brasa ou um objeto chamuscado em lugares aleatórios da casa.
E ele sempre por perto, quieto, como se esperasse minha reação. "Um dia você vai entender a minha natureza", ele me disse em voz baixa, encostando o rosto marcado no meu. "Hoje estou aqui", escrevendo com a mão tremendo.
Uso luvas quase sempre para esconder ferimentos que não cicatrizam. Ele não me agride com socos ou ponta-apés, mas me força a participar de brincadeiras que envolvem calor, metal quente e pressão. Tudo parte de uma espécie de ritual de domínio.
Eu gostaria de gritar que isso é agressão, mas estou tão envolvida na teia de contratos e chantagens que mal consigo reagir. Minha pele já não é a mesma e as poucas pessoas que encontro notam que evito qualquer toque. Tenho certeza de que isso é só o começo e que se eu tentar fugir, posso ter o mesmo fim das outras que cruzaram o caminho dele.
Ao mesmo tempo, sei que também sou responsável. Eu quis dinheiro, quis uma vida fácil e agora não tem mais volta. Assinei papéis que me tornaram sócia, herdeira e corresponsável por empresas que nem entendo.
E Alberto repete sempre: você não é minha prisioneira, é minha parceira. Toda noite fico me perguntando quantas faíscas faltam para eu ser consumida de vez. Ele parece se divertir vendo meu medo aumentar e eu me sinto mais frágil a cada dia.
Como posso denunciar algo que já está marcado na minha pele e na minha consciência? Se algum dia surgir uma notícia sobre um acidente na casa de um empresário influente e descobrirem que havia uma mulher lá dentro, alguém que um dia foi tão admirada, pode ser que essa mulher seja eu. Talvez nem saia na imprensa, pois ele tem meios de abafar qualquer escândalo.
Mas se por acaso você ler ou ouvir algo, lembre-se de mim e se pergunte até onde alguém iria para conseguir tudo o que deseja. Antes de irmos para o próximo relato, verifique se você já está inscrito aqui no canal e se já ativou o sino de notificação para receber as próximas histórias. Aprecio sua companhia e seu apoio faz toda a diferença.
Bem, vamos continuar. Eu não consigo tirar da cabeça o que aconteceu naquela noite. Às vezes fico lembrando de cada detalhe como se tudo estivesse acontecendo de novo.
E é difícil acreditar que passei por aquilo. Boa noite, Dom. Me chamo Artur.
Na época, eu ainda era um adolescente curioso, achando que nada de ruim poderia acontecer comigo ou com meus amigos. A gente acreditava que entendia de tudo, mas no fim não entendíamos de nada. Desde criança, ouço dizer que existe um terreno abandonado nos arredores de onde moro, uma área que fez parte de uma grande fazenda em algum momento.
Nunca fiquei sabendo exatamente quando foi construída, porque os mais velhos falam de um passado muito distante, numa época em que aquela terra era cheia de plantações e abrigava famílias inteiras. O que sobrou são paredes caindo, escombros e pedras cobertas de musgo. Quase não há mais telhado em boa parte do que dizem ter sido a casa principal.
Anos atrás, a fazenda ainda tinha cercas de madeira, mas hoje está tudo derrubado, tomado pelo mato. Eu e meus amigos, Vinícius, Pablo, Cecília e Antônia, sempre íamos explorar por lá, mesmo contra a vontade de nossos pais. Eles avisavam que era perigoso.
Falavam de uma maldição antiga, que ninguém em sã consciência devia pisar ali, mas proibir adolescente só instiga ainda mais. Então, quase todas as tardes depois da escola, a gente dava um jeito de chegar às ruínas. Atravessávamos um riacho raso e subíamos um barranco de terra vermelha com mato alto que nos escondia do pessoal que passava na estrada.
Era a nossa forma de encarar o desconhecido e, de certa forma, sentir um gostinho de liberdade. Naquele dia em especial, saímos mais cedo que o normal. O povoado estava agitado, algumas pessoas comentando sobre uma mudança brusca no tempo.
A gente não deu bola. Atravessamos o riacho, pulamos uma cerca de arame farpado e corremos até a casa em ruínas. Devia ser meio da tarde quando chegamos.
O sol ainda estava alto, mas o vento soprava de um jeito diferente. Mesmo assim, começamos nossas brincadeiras de sempre. Pique esconde entre os muros antigos, disputas para ver quem encontrava coisas interessantes.
Quase sempre pedaços de louça quebrada ou algum objeto enferrujado que, na nossa imaginação virava tesouro valioso. O tempo foi passando e quando me dei conta, o céu já estava coberto de nuvens. Achei que seria só uma chuvinha.
Antônia comentou ter ouvido falar de um temporal, mas a gente riu. Uns minutos depois, porém, o vento ficou tão forte que levantava folhas secas e galhos pelo chão. De repente, a chuva caiu com tudo, sem dar tempo de pensar.
Corremos até o que devia ser um cômodo grande. Talvez a cozinha da casa atrás de abrigo. Não tinha mais telhas, mas algumas vigas e partes de laje ainda estavam de pé.
Ouvi as gotas pesadas e o vento passando pelas brechas das paredes. Cada som parecia mais forte do que o normal. Quando demos por nós, estávamos ensopados, tremendo de frio.
Vinícius, que sempre andava com um isqueiro no bolso, tentou acender uma fogueira com os galhos que estavam menos molhados embaixo de uma parede caída. Foi difícil, mas depois de muito esforço conseguimos um pequeno braseiro. Ficamos ali em volta do fogo, abraçando os joelhos, tentando esquentar.
Pablo estava preocupado porque o rio que a gente tinha atravessado devia estar transbordando agora e realmente dava para ouvir a água correndo com mais força que nunca. ir naquela direção seria arriscado. "Acho melhor esperarmos aqui", disse Cecília, passando a mão nos cabelos molhados e olhando para fora, onde os relâmpagos brilhavam ao longe.
Olhei ao redor. A luz cinzenta da chuva e o fogo tremulante projetavam uns contornos estranhos nas paredes quebradas. Por um instante, achei que vi algo se mexendo atrás dos pilares, mas logo concluí que devia ser o vento agitando os galhos.
Mesmo assim, não consegui disfarçar o quanto eu estava inquieto. Ninguém ali parecia relaxado. Dava para sentir que o clima tinha mudado.
"E se a gente contasse histórias? ", sugeriu Antônia, tentando distrair. "Histórias de quê?
", perguntei sem muita animação. Histórias de assombração, aquelas que os avós contam, sabe? Vinícius revirou os olhos, mas acabou topando.
Cada um conhecia alguma lenda local. algum causo que se espalhava pela vizinhança. Começamos a compartilhar relatos cheios de boatos e superstições, com aquela mania adolescente de querer impressionar o outro.
Lembro de contar uma história que meu avô falava sobre um velho caminho de pedras perto do cemitério. Eu fazia um suspense exagerado em cada frase e todo mundo ria no fim. Aquela conversa ajudava a distrair do medo.
Até que ouvimos um barulho que não fazia parte de nenhuma dessas histórias que a gente estava inventando. Foi um grito seco, desesperado. Soava como uma voz humana, mas ao mesmo tempo tinha algo meio feroz.
Vinha de algum ponto do pátio, onde a grama era mais alta e havia vários escombros. A gente se olhou sem saber o que dizer. Tive a impressão de que tudo congelou por alguns segundos.
Depois corremos juntos até a fresta da parede para olhar. Não vimos nada, só chuva, vento e mato se mexendo. Olhei para os outros, todo mundo assustado, tentando entender aquele som.
"Que coisa foi essa? ", perguntou Pablo com a voz mais fina que o normal. Deve ser algum bicho", sugeriu Antônia, mas nem ela parecia acreditar na própria explicação.
"Não sei não," murmurei. Quando voltei pro canto onde a gente tinha aceso a fogueira, o grito soou de novo, mais baixo, como se estivesse se afastando. Senti um calafrio que me paralisou.
Lembrei na hora das histórias que meu avô contava sobre lobisomem em noites de chuva. Aquilo mexeu comigo. Não falei nada para não deixar meus amigos ainda mais nervosos, mas só conseguia pensar nisso.
A chuva não dava trégoa, o vento continuava forte. Cecília sugeriu que tentássemos voltar para o povoado, mesmo com o rio cheio. Era melhor isso do que ficar a mercedivesse gritando lá fora.
Ninguém discordou. A gente juntou tudo rapidinho, pisou no resto de brasa para apagar e foi embora. Atravessar o terreno foi péssimo.
O barro grudava nos sapatos e a água que descia dos barrancos formava umas correntezinhas. Enquanto corria, vi algo de relance atrás de um monte de pedras, uma forma que se moveu e sumiu. Podia ser só coisa da minha cabeça, mas até hoje sinto um aperto no peito lembrando disso.
Chegamos na estradinha de terra que levava ao povoado. Nenhum sinal de gente. Continuei correndo, afundando o pé na lama.
De repente, demos de cara com um grupo de pessoas vindo na direção contrária. Eles andavam em fila, alguns usando capas escuras e chapéus para se proteger da chuva, e percebi uns facões brilhando quando relâmpagos cortavam o céu. Entre esses adultos, reconheci meus pais e também o pai do Vinícius, que carregava uma tocha improvisada na mão direita.
Quando nos viram, fizeram sinal pra gente parar. "Onde vocês estavam? ", gritou meu pai, mais preocupado do que bravo.
A gente se abrigou nas ruínas, respondi tentando fingir que não fizemos nada demais. O rio tá perigoso, pai. Achamos melhor não atravessar.
Minha mãe se aproximou, examinando meu rosto e tentando secar minha testa. Vocês viram alguma coisa? Perguntou a voz trêmula.
A gente ouviu uns gritos. Parecia. Comecei, mas parei quando reparei no olhar preocupado que minha mãe e os outros adultos trocaram entre si.
Ouvi meu pai coxixar algo com um homem ao lado dele e eles balançaram a cabeça. Vinícius aproveitou para comentar que talvez fosse um lobo. Me bateu aquela lembrança das histórias de lobisomem que meu avô contava.
Os adultos não quiseram esticar o assunto. Só disseram que a gente deveria seguir com eles até o povoado. Notei que alguns homens, mesmo debaixo da chuva, pareciam prontos para enfrentar seja lá o que fosse, como se esperassem por esse momento há muito tempo.
Quando chegamos, cada um foi paraa sua casa. Meus pais me mandaram tomar banho e trocar de roupa. Depois me chamaram paraa cozinha.
Enquanto eu comia, eles me olhavam até que minha mãe pediu pro meu avô explicar porque aquele lugar era tão perigoso. Ele demorou, respirou fundo e começou a falar sério, como quase nunca ficava. "Você não devia ter ido lá", ele disse, olhando firme para mim.
Aquela fazenda já foi a mais próspera da região. O dono era um homem diferente. Ficou rico de repente.
Comprou aquelas terras numa época em que nada crescia direito, mais com ele tudo dava certo. Tinha carroças cheias de grãos, frutas, verduras. Gente de longe vinha fazer negócio.
Meu avô fez uma pausa, ajeitou a bengala ao lado e continuou. Com o tempo começaram a acontecer coisas estranhas. Crianças que iam buscar lenha ou levar comida pros pais no campo sumiam sem deixar pista.
Mulheres grávidas também desapareciam, não uma ou duas, mas várias em poucos meses. Todo mundo no povoado entrou em pânico. Alguns juravam ter visto um bicho grande rodando as terras de noite.
Outros desconfiavam que o fazendeiro tinha feito algum tipo de pacto esquisito, porque a fortuna dele só crescia. "E como isso terminou? ", perguntei com um gosto ruim na boca.
Em certa noite, as pessoas se uniram, pegaram facão, pedaço de pau, tudo que podia servir de arma. Foram até a fazenda tirar satisfação, só que o homem estava sozinho, trancado. Ninguém quis ouvir a explicação.
Arrastaram-lo até o centro do povoado e, bem, deram cabo dele. Algumas testemunhas dizem que ele confessou ter se envolvido com feitiçaria. Outras falam que ele se declarou inocente, mas foi torturado sem chance de se defender.
No fim, mataram o fazendeiro, destruíram a casa e tudo que lembrava a história dele. Meu avô deu de ombros, mexendo na bengala de novo. Desde então, o povo diz que o espírito dele vaga pelas ruínas, procurando vingança.
Tem quem jure que em noites de chuva ele aparece como um lobo, resultado do tal pacto que trouxe riqueza. Ninguém nunca provou nada, mas os gritos que muita gente escuta até hoje podem ser dele ou da criatura. Ninguém sabe.
Minha mãe soltou o ar cansada. Por isso que a gente proíbe vocês de irem lá. Tudo em volta da fazenda é coberto de mistério.
E faz muitos anos que nada mais vinga naquela terra. O pessoal diz que é castigo pelo que fizeram. Fiquei um tempo girando a colher no prato, sem conseguir comer mais.
A imagem daquele lugar agora pesava na minha cabeça, ainda mais depois de lembrar do grito que a gente ouviu. Subi pro meu quarto e demorei para pegar no sono, olhando pela janela e achando que a qualquer hora veria alguma coisa estranha lá fora. O tempo foi passando.
Cresci e terminei a escola e anos depois comecei a namorar uma garota de um povoado vizinho, a Clara. Nos conhecemos numa festa e logo de cara puxamos conversa. Em uma dessas vezes que trocamos histórias, contei o que aconteceu na fazenda e repeti tudo que meu avô tinha dito.
Achei que Clara fosse ficar assustada, mas ela reagiu de um jeito bem diferente. Ela contou que o bisavô dela trabalhou como peão naquela fazenda e sempre falava bem do dono. Segundo o bisavô, o fazendeiro era generoso, pagava um bom salário e ajudava as pessoas com remédios e mantimentos quando as plantações delas não iam pra frente.
E ela disse que a história de feitiçaria podia ter sido pura inveja de outros fazendeiros que não aceitavam o sucesso dele. "Para minha família, tudo foi um grande erro", disse Clara. "Eles contam que depois da morte do homem, a colheita nunca mais prestou naquelas terras.
Foi como se a maldição tivesse sido lançada por quem cometeu a injustiça. Ela deu de ombros com um olhar sério. Gritos em lugar abandonado sempre podem ser vento, coruja ou um bicho que a gente não conhece.
Ou pode mesmo ser o espírito dele pedindo justiça. Fiquei sem saber o que dizer. Minha cabeça se encheu de perguntas.
Sempre acreditei que houvesse algo sobrenatural por trás de tudo aquilo. Mas e se fosse só uma grande injustiça? com alguém que foi expulso de seu lar por ganância dos outros?
Por outro lado, e se o fazendeiro usava de fato práticas escuras para conseguir prosperar? A verdade é que não há resposta exata, só histórias que se misturam, cada uma com seu toque de mistério. Mesmo depois de adulto e mais cético, ainda hoje sinto um desconforto quando lembro daquele grito.
Foi a primeira vez que encarei de frente algo que não consigo explicar. Depois disso, nunca mais voltei às ruínas. Evito passar perto do riacho e do barranco.
Evito até olhar para aquele lado. Agora que sou mais velho, entendo melhor o medo dos mais antigos e os avisos que eles viviam dando. Não sei se realmente existe um lobisomem rondando aquelas bandas ou se tudo não passa de uma lenda alimentada pelo povo.
Só sei que no fundo, toda vez que escuto o vento forte balançando as árvores numa noite chuvosa, lembro do som que me tirou a inocência. aquele grito que ressoou como puro desespero. E seja lá qual for a verdade, prefiro não descobrir.
Se estiver gostando dos relatos, não se esqueça de já deixar o seu like. Ele é muito importante. Bem, vamos continuar.
Meu nome é Elisa. Até pouco tempo atrás, eu achava que medo de verdade era coisa de filme ou de história que a gente conta só para arrepiar os amigos numa conversa. Mas me mudei para uma cidade de médio porte há pouco mais de um ano para trabalhar como cuidadora de crianças em troca de moradia e alimentação, enquanto cursava disciplinas livres na universidade comunitária local.
Eu acreditava que seria uma boa oportunidade de crescimento pessoal e profissional, e de certa forma até foi, mas pelos motivos mais assustadores que se possa imaginar. Tudo começou de um jeito quase imperceptível. A primeira vez que ouvi falar de gente sofrendo com pesadelos constantes foi num dia de aula em que a professora, já bastante preocupada, comentou que vários alunos estavam faltando fazia mais de duas semanas.
Ela não deu detalhes, mas pediu que ficássemos atentos se alguém na família apresentasse sinais de privação de sono. Parecia só um recado de saúde, nada que indicasse algo sério. Eu morava na casa da família Cardoso, Paulo, Irene e o filho deles, Jonas, de 6 anos.
Além de cuidar do menino e ajudar nas tarefas do dia a dia, eu aproveitava as manhãs de folga para frequentar as aulas. Naquela semana notei que Jonas andava mais quieto. Quando perguntei se ele sentia alguma coisa, ele só me deu uma resposta que me intrigou.
"Eu não quero dormir", disse com aquele olhar enorme, encarando o prato de comida. Ele era uma criança tímida, mas sempre disposta a conversar. Aquela reação me deixou encucada.
Perguntei se ele tinha tido algum pesadelo, mas ele não insistiu no assunto. Só falou que preferia ficar acordado porque sonhar estava machucando as pessoas. Confesso que na hora não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas aquilo fez meu coração apertar.
Nas semanas seguintes, a tal epidemia de pesadelos começou a ser comentada pelos corredores da universidade e nos noticiários locais. Muita gente relatava experiências parecidas, pesadelos tão reais que provocavam taquicardia, tremores e até ferimentos sem explicação. Num telejornal matinal, um especialista chegou a dizer que podia ser algum tipo de distúrbio coletivo influenciado pelo medo que circulava.
A teoria inicial era de que só de ouvir falar daqueles pesadelos, a pessoa já passava a tê-los também, como se fosse um contágio psicológico. Só que as coisas foram saindo do controle. A primeira situação realmente assustadora que presenciei foi na universidade.
Uma colega chamada Rane, que estava sumida havia dias, apareceu de repente no corredor cambaleando. Ela tinha olheiras tão profundas que parecia ter envelhecido de uma hora para outra, a pele amarelada e os cabelos caindo aos tufos. Antes que eu pudesse ajudá-la, ela se agachou no chão, segurando os joelhos e chorando sem parar.
Várias pessoas se aproximaram. Ela tentava falar, mas soluçava tanto que mal saía a voz. Ele fica na fresta da porta, sempre me observando.
Não me deixa acordar, murmurou, tapando os ouvidos com as mãos. levaram Rane para a enfermaria improvisada que a universidade tinha montado. Enquanto isso, ouvi a professora comentar que os remédios receitados pelos médicos não estavam ajudando.
Pelo contrário, parecia que induzir o sono com sedativos piorava o pesadelo. Ninguém sabia explicar o que estava por trás de tudo aquilo. Em casa, a situação também não parava de piorar.
Jonas começou a ficar acordado quase a madrugada inteira, inventando qualquer desculpa para não dormir. Ele dizia que via vultos no espelho do quarto e contava os segundos até o coração dele disparar. Irene me pediu para ver se alguma coisa estava incomodando o menino.
Barulho, problema na escola, qualquer coisa. Cheguei a comentar: "Você já pensou em consultar um pediatra ou um psicólogo? Pode ser ansiedade.
Eu estava tão aflita quanto ela. Irene e Paulo eram bem católicos, mas também buscavam soluções práticas. Durante uns dias, tentaram rezas e promessas, ao mesmo tempo que procuravam ajuda médica.
Só que quando começaram a aparecer relatos de lesões físicas durante o sono, a situação ficou ainda mais sombria. Numa tarde, ao buscar Jonas na aula de reforço, me deparei com a mãe de uma colega dele. Ela segurava a filha pelo braço e andava depressa, quase arrastando a menina, que tremia de medo.
Cumprimentei as duas, mas a mulher me olhou com um pavor evidente. É o quarto dia sem dormir, sussurrou só para eu escutar. Não tenho mais ideia do que fazer.
Ela diz que tem algo morando debaixo da cama. Revirei tudo, mudei os móveis, mas não adianta. Mesmo assim, minha filha fala que sempre que fecha os olhos, sente mãos geladas puxando seus pés.
Tentei oferecer alguma palavra de consolo, mas a expressão dela me mostrou que nada adiantaria. Foi aí que eu entendi que aquilo não era conversa fiada, era um surto que se espalhava de maneira impiedosa. Não importava qual fosse a causa.
Lembro que na mesma semana Jonas começou a vomitar de nervoso quando a noite caía. Ele tinha pavor de adormecer sem que alguém ficasse de vigia. Coincidência ou não, um dos meus professores, o Sr.
Maurício, também passou a relatar sonhos perturbadores, sempre com pessoas sussurrando ao pé do ouvido dele. Quando tentava gritar para acordar, alguma coisa tampava sua boca. Ele chegou a me dizer: "Elisa, não se iluda.
Parece uma força invisível que se alimenta do nosso desespero. " Logo depois, o reitor da universidade anunciou que os casos graves seriam encaminhados a um hospital da região. Então, a imprensa começou a falar mais sobre o assunto.
As alas de psiquiatria e terapia intensiva ficaram lotadas. Ninguém descobria infecção ou toxina nenhuma que justificasse essa epidemia do sono, como os jornais passaram a chamar. Na época, os Cardoso decidiram tomar medidas extremas.
Paulo passou a comprar só mantimentos de fora da cidade, suspeitando que pudesse ser alguma contaminação na água local. instalou filtros em casa e restringiu os horários de uso de eletrônicos, pois havia quem dissesse que a luz das telas poderia agravar o problema. Só que Jonas continuava do mesmo jeito.
Certa noite vi algo que me marcou profundamente. Eu estava no quarto do Jonas, sentada ao lado da cama, contando histórias para ver se ele relaxava. Eram quase 2 horas da manhã quando de repente ele começou a bater as pernas contra o colchão, ainda com os olhos fechados.
Em questão de segundos, apareceu uma marca avermelhada no pescoço dele, como se dedos invisíveis o estivessem sufocando. Ele ficou roxo, sem conseguir respirar. Gritei chamando Paulo e Irene, que correram para dentro do quarto.
Meu Deus, façam alguma coisa. Irene berrou-se, ajoelhando ao lado da cama. Tentei balançar Jonas, mas ele parecia preso no pesadelo.
Eu tremia, sem a menor ideia de como acordá-lo. Parecia que alguma coisa impedia o corpo dele de se mexer. Depois de alguns segundos de puro desespero, ele deu um suspiro fundo e voltou a respirar.
abriu os olhos, chorando trêmulo. "Eu não aguento mais", foi tudo que conseguiu dizer antes de cair num choro desesperado. Enquanto a família se perdia em teorias, eu pensava nas tantas histórias que corriam pela cidade.
Porque algumas pessoas eram afetadas e outras não, porque os sedativos, que deveriam ajudar no descanso, só tornavam tudo pior. Amigos meus contavam de parentes que se feriam gravemente nessas crises. Outros relatavam que ouviam gritos no meio da madrugada e com medo nem saíam para socorrer.
Tinha também uma igreja bem influente por lá e um dos jovens que ajudava nas celebrações acabou sendo internado no hospital depois de desmaiar em plena missa. Contaram que ele se contorceu no chão com um rosto de dor tão grande que algumas senhoras começaram a rezar, achando que fosse um caso de possessão demoníaca. Nada saiu no jornal.
As autoridades religiosas abafaram com medo de gerar mais pânico. No meio disso tudo, soube de uma terapeuta, dona Ivone, que estava acompanhando muita gente afetada. Certa manhã, ela deixou um bilhete para a família, dizendo que não suportava mais encarar as mesmas visões que seus pacientes descreviam.
A aparição de crianças sem rosto circulando ao redor da cama, sussurrando ameaças. Ivone tirou a própria vida de modo cruel. Não vou entrar em detalhes, mas foi algo que abalou a cidade inteira, ainda mais porque muitos depositavam nela a esperança de um tratamento profissional.
Para mim, o pior foi perceber que eu também estava começando a ter problemas para dormir. Passei a evitar cochilos e a tentar me manter acordada o tempo todo. Qualquer barulho acelerava meu coração e às vezes eu acordava de madrugada, achando que alguém puxava meu braço ou me chamava pelo nome, mesmo com a casa em completo silêncio.
A cada dia me sentia mais sufocada e pensava seriamente em ir embora antes que aquela situação também me engolisse. Quando Paulo e Irene resolveram se mudar para longe, tentando salvar Jonas, eu não pude acompanhar. Eles foram embora em poucos dias, deixando para trás a casa, os amigos, tudo.
Nunca mais tive notícias, então não sei se conseguiram resolver. Sem emprego certo e com o curso interrompido, juntei o pouco dinheiro que tinha e voltei para minha cidade de origem, levando na bagagem lembranças perturbadoras e a sensação de que aquilo tudo talvez fosse só o começo de algo ainda maior e mais terrível. Mesmo distante, vez outra recebo mensagens de colegas que ficaram.
Contam que os casos diminuíram, mas não sumiram completamente. Alguns acham que houve um tipo de pacto de silêncio das autoridades, porque ninguém mais falou oficialmente sobre essa epidemia. Muitos comentam que pode ter sido alguma experiência secreta ou um surto coletivo tão intenso que se refletiu de forma física.
Seja lá o que foi, cada pessoa que passou por aquilo carrega um pedaço desse pesadelo na memória. Não sei se um dia vão explicar tudo. O que me perturba é o silêncio que ficou.
Não existem pesquisas ou reportagens novas. Só o eco das histórias que vivemos. Histórias que até hoje me fazem hesitar toda vez que sinto meus olhos pesarem de sono.
Boa noite, Dom. Foi em um sábado de meados de dezembro do ano passado, por volta de 9 horas da noite, que tudo aconteceu. Eu estava na sala com meus pais, conversando e terminando de assistir a um programa na televisão.
Já tínhamos jantado algo simples, aqueles sanduíches típicos de fim de semana, mas meu pai decidiu que queria mais alguma coisa para finalizar a noite. Ele me olhou e disse: "Meu filho vai até o armazém do seu Jonas e traz uns biscoitos ou um pão, algo pra gente comer de sobremesa. " Eu estava meio cansado, porém não vi problema.
Levantei, peguei meu celular e saí. O armazém ficava a cerca de duas quadras da minha casa, numa rua que costuma ser bem silenciosa, especialmente naquele horário. Fui caminhando com as mãos nos bolsos, tentando me proteger do vento que estava bem forte.
Normalmente não tenho receio de andar por ali, mas naquela noite algo parecia diferente, como se o ar estivesse mais pesado. Tentei não dar muita atenção e segui meu caminho. A primeira parte da rua é relativamente bem iluminada, pois há postes em cada esquina.
Mas conforme me aproximei do trecho mais antigo do bairro, as lâmpadas começaram a ficar mais espaçadas. Era a área onde existiam algumas casas antigas, muitas delas fechadas há anos. Algumas até desmoronando aos poucos.
Lembro de ter visto um desses imóveis completamente abandonado, com o portão coberto de mato. As janelas, velhas e tortas, davam a impressão de serem olhos sombrios, encarando quem passasse. Senti um calafrio na hora, mas continuei andando.
Já estava quase na esquina que desce direto para o armazém, quando reparei um pouco adiante que havia uma garota parada na calçada. Ela era de estatura mediana e não parecia ter muito mais que 18 ou 19 anos. Vestia um casaco escuro, um lenço fino no pescoço e uma saia curta, algo que me soou fora de época, talvez inspirado em um estilo escolar antigo.
A combinação inteira parecia deslocada. Não consegui ver o rosto dela com nitidez à distância, mas tive a impressão de que estava pálida e séria. Por um momento, pensei que ela pudesse estar passando por algum problema, talvez precisasse de ajuda.
Só que nos dias de hoje, abordar alguém à noite pode ser arriscado. Fiquei parado por uns segundos, sem saber se valia a pena me aproximar. Ela não me encarou diretamente, mas parecia saber que eu estava ali.
A sensação era estranha. como um aviso para eu ter cuidado e fiquei dividido entre tentar ajudá-la ou continuar no meu rumo. Nesse instante, um rapaz passou por ela sem nem notar a presença dela.
Aquilo me fez pensar que talvez ela não quisesse falar com ninguém ou que simplesmente estivesse ali por outro motivo. Balancei a cabeça, achando que eu estava exagerando e prossegui. A cada passo sentia uma tensão esquisita.
Mesmo sem olhar para trás, eu tinha certeza de que ela permanecia no mesmo lugar, imóvel. A vontade de virar o pescoço para conferir era enorme, mas eu temia cruzar olhares com ela. Virei a esquina e desci em direção ao armazém.
O estabelecimento ainda estava aberto, como sempre. Lá dentro encontrei duas ou três pessoas conversando com o seu Jonas, que já passou dos 70 anos. Ele vende de tudo um pouco, bebidas, biscoitos enlatados e o pessoal mais velho do bairro gosta de aparecer lá para jogar conversa fora.
Boa noite, seu Jonas. Tem biscoito doce? Ele me cumprimentou e apontou para a prateleira.
Escolhi um pacote, peguei também um refrigerante pequeno e fui até o balcão para apagar. Tentei agir como se nada estivesse acontecendo, mas meu coração ainda estava acelerado. Aquela garota tinha me deixado nervoso.
Paguei, agradeci e saí. Do lado de fora, parecia que o vento tinha ficado ainda mais gelado. No caminho de volta, fiquei pensando se valia a pena refazer o mesmo trajeto ou dar uma volta maior para evitar o ponto onde a vi.
Acabei optando por passar ali de novo, talvez para provar para mim mesmo que não estava inventando nada. Se ela continuasse lá, eu pensaria em perguntar se precisava de alguma ajuda. Mas quando cheguei mais ou menos na metade da rua, não vi ninguém.
Olhei para a calçada vazia para a frente do portão abandonado, e tudo parecia tranquilo demais. Fiquei parado por alguns segundos, observando o lugar onde ela esteve. Foi então que, de relance, percebi um leve movimento do outro lado da rua.
Quando me virei, notei algo se deslocando para trás de um muro velho de concreto que separava a rua de um terreno baldio. Na hora, senti um misto de pavor e curiosidade. Por que alguém estaria se escondendo atrás daquele muro?
Dei uns passos na direção do muro, usando a lanterna do celular, mas não havia ninguém. Tentei iluminar por cima de umas pilhas de entulho, mas só vi madeira e metal enferrujado. Naquele silêncio, a sensação de que havia alguém bem perto de mim era muito forte.
Meu coração batia tão rápido que eu ouvia meu próprio pulso. Engoli em seco e resolvi ir embora. Afinal, já estava tarde e meus pais me esperavam.
Cheguei em casa tremendo. Minha mãe percebeu que eu segurava o pacote de biscoitos como se fosse um escudo. Ela franziu a testa e perguntou: "O que foi, meu filho?
Tá com cara de quem viu assombração. Meu pai riu, mas logo notou que eu não estava brincando. Contei a ele sobre a garota, sobre o jeito esquisito de se vestir e sobre como ela sumiu atrás do muro.
Meu pai fez uma expressão de quem não sabe se acredita ou não. Já minha mãe pareceu um pouco preocupada. O povo conta muitas histórias sobre aquela parte velha do bairro.
Pode ter sido só alguém sem ter o que fazer por lá ou sei lá. vai saber. Preferi não prolongar a conversa naquela noite.
Fui dormir tentando deixar aquilo para trás. Só que algumas semanas depois aconteceu algo que me fez acreditar que não foi só coisa da minha cabeça. Em uma noite de janeiro, poucos dias depois do meu aniversário, tive um sonho muito vívido.
Sonhei que estava na sala de casa jantando com meus avós, que já faleceram há anos. Eles pareciam felizes, como se tivessem vindo me visitar em uma data especial. No sonho, meu avô se levantava e dizia: "Tem uma moça na porta dizendo que quer falar com você.
Parece que veio te dar os parabéns. " Na hora senti um calafrio. Me levantei e quando cheguei perto da entrada da sala, vi a mesma garota daquela noite de dezembro.
Ela usava as mesmas roupas, aquele casaco meio fora de moda, a saia curta e o lenço no pescoço. Mas dessa vez, em vez de parecer a batida, tinha um olhar mais sereno e um sorriso discreto. Falou comigo como se já nos conhecêssemos.
Sei que você fez aniversário há pouco tempo. Vim desejar felicidades. Espero que tudo o que você planeja dê certo.
Eu recuei confuso. Perguntei com a voz trêmula: "Quem é você? porque apareceu naquela rua vazia.
Ela respondeu de forma tranquila, quase como se estivesse me acalmando. Meu nome é Lídia. Eu estava por perto quando você passou, mas não queria te assustar.
Existem coisas que não posso explicar, mas estou aqui para te proteger de qualquer perigo. Não precisa ter medo de mim. Nesse momento, minha visão foi ficando embaçada e senti o corpo pesado, como se estivesse saindo de um transe.
Acordei suando, o coração quase saindo pela boca. Eu não sentia um medo tão forte havia muito tempo e, ao mesmo tempo, carregava uma estranha paz. Não conseguia parar de pensar nas palavras dela, no jeito suave com que falou e naquela promessa de proteção.
Depois disso, voltei a passar inúmeras vezes pela mesma rua. Nunca mais a encontrei. Fico me perguntando se ela era mesmo algum tipo de espírito, uma criação da minha mente ou algo que fica naquele limite entre o que é real e o que não conseguimos explicar.
Contei o sonho aos meus pais e eles ficaram entre o espanto e a dúvida. Minha mãe comentou: "Vai ver era a alma de alguém que morou naquelas casas velhas. Quem sabe se identificou com você de alguma forma.
Sinceramente, não faço ideia do que pensar. Só sei que toda vez que lembro daquela noite e desse sonho, me dá um arrepio esquisito. Parece que alguma coisa ou alguém anda por perto tomando cuidado para que eu não me meta em encrenca.
E mesmo que eu ainda questione se foi tudo criação da minha cabeça, uma parte de mim acredita que existem coisas que vão além do que a gente admite. Se essa garota, e seja lá o que ela for, realmente está ao meu lado, tomara que um dia encontre o que busca, talvez um pouco de descanso ou paz. Enquanto isso, carrego essa lembrança que faz com que eu olhe para a noite de outra maneira.
Nem toda a presença que assusta é de fato uma ameaça. Bem, amigos, esses foram os relatos de hoje. Espero de coração que tenham gostado.
Lanço vídeos novos por aqui todos os dias e ficarei muito feliz em te ver nos próximos. Agora na tela, estou deixando outros dois bons vídeos que certamente irão gostar. Um abraço do Dom e eu te vejo por lá.