Você sabe qual o impacto das plantas exóticas na biodiversidade, na sociedade e na economia? Vamos descobrir no episódio de hoje. Eu sou Carolina Bucuzi, sou bióloga, professora e doutora em ensino de ciências.
E esse é mais um do nosso Resenha. Para fazer minha audioodiescrição. Eu sou uma mulher negra de pele clara, com tranças castanhas, com pontas um pouco mais claras, olhos castanhos.
Estou vestindo um vestido verde, sapatos verdes e um casaco quadriculado. E hoje para participar aqui do nosso resenha, nós temos o Ricardo Cardim. Ricardo, ele é botânico, paisagista e mestre em botânica pela Universidade de São Paulo e tá aqui para conversar um pouquinho com a gente.
Seja muito bem-vindo, Ricardo. Obrigado, Carol. Um prazer participar.
Eu sou Ricardo Cardim. Eh, eu sou um homem alto, cabelo preto, grisalho, pele bronzeada, morena. Estou com uma camiseta preta e uma calça preta também.
Obrigada. Eh, e como que você chegou nessa carreira, né? O que faz um paisagista e como que foi a sua formação até aqui?
Olha, a minha formação é muito diferente do que as pessoas usualmente pensam. Eu tenho 46 anos, a vida é toda em São Paulo. E quando eu me formo na escola, isso lá 95, 96, eu já era um apaixonado por plantas desde criancinha, mesmo tendo nascido em um apartamento pequenininho no meio de outros prédios, um lugar super urbano.
E eu falo: "Vou fazer biologia". Esse 95, 96. Mas aí eu descubro que naquela época a única carreira que eu ia conseguir desenvolver era de ser professor.
E eu não queria ser professor, eu queria estar no mato, eu queria eh fazer outras coisas ligadas à vegetação. Então eu eu vou fazer a aí surge a minha ideia de eu eh ganhar dinheiro e conseguir ter uma fazenda, morar no mato, né? E aí eu fazer odonto porque porque eu eu eu gosto muito de desenhar, tem muito jeito rumão.
Falei: "Vou fazer odonto caiu, eu não tenho patrão, vou morar numa cidade pequena, ganhar dinheiro, comprar uma fazenda". Bem, no final o plano não deu certo porque eu me formei, fui trabalhar, mas aí fazenda ficou carésimo, não consegui comprar nada com dinheiro que eu tinha conseguido juntado no trabalho. E aí eu eh eu resolvo, depois de um tempo trabalhando, mudar de carreira para voltar pra botânica, que eu sempre fui apaixonado.
Então eu entro na eu já tava fazendo mestrado em Odonto na USP, aí eu entro eh como aluno ouvinte da botânica da USP. E aí, aí ouvinte, estagiário, entro no mestrado em botânica e aí me torno botânico. E e paralelo eu tava já trabalhando com uma empresa que eu desenvolvi junto com outros sócios de telhados e paredes verdes.
Isso em 2009, 2010. E aí eu começo a ganhar dinheiro com isso. Então eu começo a me sustentar com a as plantas.
E aí em 2016 eu eu eu vendo essa empresa e começo um escritório de arquitetura paisagística voltado pro paisagismo sustentável, somente com biodiversidade nativa e embasado em ciência. E é uma coisa completamente nova. Na época as pessoas falam: "Não, isso não vai dar certo, o brasileiro não gosta disso.
O brasileiro gosta só de pinheirinho, buchinho, coisa importada. E no final dá super certo. Eu e a minha esposa, que é arquiteta, a gente monta essa sociedade e hoje a gente é um escritório que tem 35 arquitetos e uns 200 projetos em andamento no Brasil inteiro e sempre com a biodiversidade nativa e projetos embasados em ciência.
Nossa, muito legal. E você comentou que desde quando você era pequenininho você já se interessava por botânica, né? Você tem muito conteúdo, você ganhou muito destaque falando sobre botânica nas redes sociais.
Como que é o interesse das pessoas sobre isso? Botânica ainda é um patinho feio. As pessoas não valorizam a a vegetação no Brasil, via de regra.
Eh, o que eu percebo é que existe um analfabetismo botânico, independente da classe social, do nível socioeconômico. As pessoas vem as plantas como um borrão verde, onde os animais se movem e os animais são interessantes, não as plantas. Isso é muito forte aqui no Brasil, mas está mudando com as gerações mais novas que estão prestando atenção nisso.
E é um trabalho ainda, eu brinco às vezes de pregar no deserto, né? Mas a coisa vai andando. Sim.
E como que você começou nessa questão de divulgar esse conhecimento botânico nas redes sociais? Em 2007, quando nem existia smartphone, eh, eu monto o Amigos das Árvores de São Paulo. Era para ser uma associação que defendesse as árvores da cidade.
Uma coisa que sempre me incomodou desde criança, o descaso com isso. Mas quando eu percebo que para montar uma associação, uma ONG, eu precisava ter uma burocracia enorme, conselho deliberativo, conselho fiscal, recursos, eu não sou herdeiro, não sou rico nem nada, eu falei, é impossível montar uma ONG sem você começar a passar o chapéu e um monte de gente que não quer pagar. Enfim, eu vi que era muito difícil.
E aí surgiu a ideia de montar um blog. Na época era blog, não tinha rede social, só tinha Orcut, que não era uma tipo de rede social como hoje, né? Então eu montei um blog que era como se fosse um jornalzinho que chamava Árvores de São Paulo.
E o primeiro post teve lá quatro acessos, o segundo 12, de repente eu tava tendo 4. 000 acessos por dia. Nossa, bombou.
E aí naquela época ainda existiam as revistas, a mídia era muito forte porque não tinha rede social. as gerações mais novas não vão nem conseguir entender o que era o poder de uma revista na época, o poder da TV, dos jornais, era outro mundo. E eu começo a ser chamado pela grande mídia para fazer matérias, explicando as árvores da cidade.
Agora, um parênteses, né? Por que que eu sei tanto de plantas? Eh, desde pequeno eu sou apaixonado, desde os 4 anos que já tinha lá minha mãe escrevia no livro do bebê, que eram meus principais brinquedos.
E eu sempre fui um rato de cebo. Eu ia muito em em eu adorava comprar livro usado sobre botânica, ir lá no centro de São Paulo ficar procurando os livros antigos, ir no mato, fic andando na flor. Então eu sempre me interessei muito, estudei muito, li muito e aí eh quando chegou no meu época do meu mestrado em botânica, é, foi uma fase que eu tive muito tempo disponível, porque o meu custório praticamente estava fechado como dentista, né?
Eu só ganhava algum dinheirinho para pagar minhas contas. E aí esse tempo que eu tinha, eu comecei a escrever um livro que chamava Flora Paulistana, Histórias e Transformações, livro que não foi publicado porque eu não consegui patrocínio, mas eu fiquei eh muito tempo na biblioteca da Fefeleste, da USP, da FAUSP eh e Arquivo Público e outros lugares, pesquisando o que era a relação entre humanos e natureza na cidade de São Paulo. Aí eu li todos os inventários eh e testamentos da cidade de São Paulo, aquela coleção, datas de terra, atas da Câmara Municipal até o século XIX.
E eu escrevi oito cadernos universitários, nossa, juntando todas as informações sobre a relação humana e a vegetação, porque me entregava muito como é que era São Paulo antes dos humanos, pelo menos da civilização europeia. E eu consegui respostas maravilhosas e eu comecei a colocar isso no blog. Então, essas coisas que eu ia achando, essas informações que eu tinha nesses oito cadernos universitários cheios, eh, eu fui passando para as pessoas gratuitamente.
Meus amigos falavam: "Você é maluco, você apenas seu tempo, vai fazer uma coisa que dá dinheiro, porque você tá fazendo isso? " Mas isso me trouxe, como eu disse, uma uma um lugar de fala. Uhum.
Então, eu comecei a sair na Veja São Paulo, na Rede Globo. Aí me chamaram para ser o Drtor árvore na Rede Globo, ao vivo nos telejornais. Eh, aí eu fui fazer uma coluna que durou quase 10 anos na Rádio Estadão, que era na coluna Natureza Urbana.
Fui indicado empreendedor social de futuro pela Folha. Então, aí a coisa começou a acontecer naquilo que eu acredito muito, né? Quando você entrega algo pra sociedade sem esperar nada em troca, vem mais troca do que você imaginava.
E aí esse caminho me levou até aqui. Nossa, muito bom, muito bom. E quando você começou a falar sobre as espécies exóticas, assim no seu blog, na sua produção de conteúdo logo desde o começo, porque eu lembro, eu eu nasci em Moema e cresci em Moema num apartamento de 70 m², num e num lugar que tava verticalizando muito rápido.
E eu lembro com a minha mãe de de passear na rua, ver os quintais que iam desaparecendo e virando prédios. Um dia eu voltei de férias da casa da minha avó e o córrego que tinha na minha rua, que eu adorava ver, que era todo poluído, mas eu adorava ficar vendo, fizeram um prédio em cima do córrego. Nossa, fizeram uma lajem e fizeram um prédio, mas em cima, não é que ficou do lado, ficou em cima do prédio.
Então isso tudo ia me revoltando. Eu tinha 8, 9 anos de idade e e aí eu fui eh meu pai me levava muito para passear nos parques que tinham Mata Atlântica em São Paulo ainda. Eu não tinha casa de praia, casa de campo, nada disso.
Meu pai me levava no Pico do Jaraguá, no Parque Alfredo Volpe, na o Parque Trianon na Paulista. E eu ficava maravilhado com aquela mata atlântica e ficava pegando semente, pegando muda. E na minha escola, por acidente, tinha sobrevivido um pedacinho de Mata Atlântica.
Era uma escola que era o Poriddomos da Verbo Divino em Santo Amaro. Aquilo era meu Éden. Então eu fugia da aula isso no primário e ficava lá olhando aquelas árvores gigantes, né?
Eu nem sabia o que era na época ainda, mas eu achava aquilo maravilhoso. E eu lembro muito dessa percepção, porque aquelas plantas que eu via nessas florestas que me encantavam, não estavam no meu prédio, não estavam no clube, não estavam na rua, não, eram plantas diferentes. Então, hoje eu sei, né, mas aquela época já me trazia isso.
E essa, eu diria, essa revolta mesmo, essa raiva, nessa indignação, ela veio me acompanhando depois de muita terapia, eu aprendi a lidar com ela e trazer isso para um lugar bom, que seria, tá, eu acho muito errado o que fazem com a natureza brasileira, então como é que eu posso mudar isso? Conversando com as pessoas, afinal as pessoas são as responsáveis pela natureza brasileira, né? Tá na mão delas se ela vai existir, se vai ser valorizada.
Sim. E para quem tá assistindo, o que que é uma espécie exótica? Espécie exótica é uma espécie que está fora da sua área de distribuição original, ancestral, trazida pelos seres humanos, seja intencionalmente ou acidentalmente.
E aí incluem tanto espécies vegetais, animais de outros seres vivos também. Vivos. Sim.
E você consegue pensar em algum caso de uma espécie exótica que tenha causado algum problema pra biodiversidade brasileira? Bem, um caso não só, Carol, dá para pensar em centenas, milhares, a coisa vai longe, né? Eh, mas eu acho que a gente tem um caso bem emblemático.
Eh, como a gente tá em São Paulo, eu vou falar de um caso de São Paulo. Uhum. Tem uma palmeira australiana que chama palmeira Sea Forte.
É uma palmeira que dá uma bolinha vermelha. Muitos de vocês certamente já viram andando pela rua. Essa palmeira que os paisagistas adoram e trouxeram para enfeitar, principalmente os europeus trouxeram, tinha no Haba Baú nos anos 30 do século passado, é uma palmeira que aqui não tem inimigos naturais.
E aí toda energia que ela gastaria para se defender dos inimigos naturais, que nem a gente, né? A nossa imunidade, ela investe em crescer rápido, com muito vigor. Então, é uma planta que quando ela começa a crescer, ela fica forte, rápida, cresce muito rápida e as pessoas adoram isso.
E outro lado é que aqui ela produz milhares de sementes, como ela produz na terra original dela, só que aqui as milhares de sementes todas germinam praticamente. Uhum. E tem os passarinhos, os bichos generalistas, que são aqueles que comem qualquer coisa, que comem essas bolinhas vermelhas, que elas são atrativas, e vão espalhando elas pelas florestas, porque o passarinho come isso no jardim da pessoa e aí vai dormir na floresta.
Tá? Ele faz o cocozinho lá, a sementinha passou pela barriga dele, foi preparada para germinar pela barriguinha dele e germina no chão. Então o que acontece que essa palmeira sea forte é uma palmeira que ela é, eu falo que nem um câncer na Mata Atlântica, porque ela, as células são essas sementes.
Uhum. As sementes criam no chão da floresta um tapete de mudas. Esse tapete cresce todo praticamente ao mesmo tempo e quando ele cresce, ele cria uma sombra tão forte no chão da floresta que a floresta não consegue mais rebrotar.
E aí vai crescendo, crescendo. Então tira a luz de todas aquelas plantas que estão lá embaixo, não só as sementes, as mudas da mata atlântica, mas as árvores da mata atlântica pequenas, os arbustos e eles morrem e e vira um deserto verde só de palmeira ser a forte australiana. Isso aconteceu na reserva de Mata Atlântica da USP, que é protegidas por todas as leis possíveis.
Aconteceu no Trianon aqui em São Paulo, que exigiu R 1 milhão deais de investimento da prefeitura para tirar as palmeiras seafortes. E a e trabalhos científicos da prefeitura provaram que em 20 anos ela teve uma expansão logarítmica ali e que tava realmente matando a floresta, asfixiando a floresta. E o pior de tudo, Carol, é que pro Leigo, a pessoa que é analfabeta botânica, ela olha aquilo, acha lindo.
Ai, que palmeiras maravilhosas, que vigor, que floresta viva, que mata atlântica incrível. Mas na verdade é uma mata atlântica terminal por culpa única e exclusivamente dos seres humanos e as suas escolhas inexplicáveis. Nossa!
E aí, nesse caso, essa é uma espécie exótica que se tornou também uma espécie invasora, né? Isso. Qual que vai ser a diferença entre esses dois conceitos?
Isso é muito importante, né? Então, como eu disse, né? Uma espécie exótica é aquela espécie que está fora da sua área de distribuição natural, original, ancestral, seja por ação humana intencional ou espontânea, né?
Eh, acidental. A espécie exótica invasora, ela é tudo isso, só que ela se comporta como invasora. Então, algumas espécies exóticas vão se comportar como invasora.
O que que é isso? São espécies que vão chegar num novo território e vão eh alguma coisa nelas interação com o ecossistema local provoca uma uma situação onde elas vão se reproduzir com alta velocidade agressivamente, eh vão vão acabar ocupando o espaço das espécies nativas, muitas vezes alterando a composição química do solo, tirando recursos das plantas nativas como água, luz, gerando problemas graves, como riscos de incêndios. Então, ela vai ocupar o espaço das nativas.
Aí você fala: "Tá, ela vai, então, então ela vai tirar as espécies nativas e entrar no lugar delas". Ah, mas só tá tirando as plantas, não. Nos trópicos, 75% das plantas dependem dos bichinhos para existir.
Então, os bichinhos nativos vão polinizar as flores, dispersar as sementes e em troca eles eles recebem abriga e alimento dessas plantas nativas numa relação de milhões de anos. Sim. O que acontece quando chega essa planta exótica invasora, que eu trouxe pro meu jardim e que depois de 5 anos virou uma exótica invasora na região, é que ela vai tirar as plantas nativas.
Se ela tira as plantas nativas, ela tira o alimento e o abrigo desses bichos nativos e eles desaparecem. Se eles desaparecem, a floresta não tem mais como regenerar e a floresta se fica condenada, porque muitas árvores que dependiam desses bichinhos para germinar as sementes, os bichinhos não estão mais lá porque só tem a planta exótica que não alimenta eles. Então você cria um colapso de vida que pro leigo é imperceptível, é um drama silencioso.
E o mais engraçado, Carol, é que isso acontece em eh florestas, cerrados, vegetações nativas preservadas por leis muito sérias, área de proteção permanente, reservas legais, parques estaduais, parques nacionais e que se você for lá e arrancar uma folha, você pode ser preso. Sim, mas se a planta do seu jardim for lá e destruir aquela área verde, nada acontece com você ou quem trouxe aquela planta. E vai totalmente contra o artigo 225 da Constituição Federal, nossa carta principal do país, que define o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Então, é algo completamente desconhecido, inclusive dos legisladores. Nossa, Senhora. E para além dos impactos no meio ambiente, a gente também vai ter impactos na sociedade e na economia, né?
Quais são esses impactos? Como que se impacta a sociedade do mundo, são muitos. Então, eh, por exemplo, né, vou citar um exemplo, nos Estados Unidos, que é um país que se preocupa com as espécies exóticas invasoras, a gente tem uma planta brasileira da Mata Atlântica que chama aeira pimenteira, que dá uma pimentinha cor de-deosa, uma planta linda, nossa, super legal aqui no Brasil.
Bem, os americanos adoram levar plantas estrangeiras, né? Aliás, a moda vem muito deles aqui no Brasil, inclusive. Então, eles levaram para lá aeira pimenteira porque acharam uma planta importante pra ornamentação do paisagismo lá em Miami.
Que aconteceu lá? A nossa planta brasileira virou uma exótica invasora agressivíssima. Ela começou a ocupar os Everglades, os pântanos deles.
E que acontecia? Eles viram que começou a ocupar com uma velocidade absurda, porque não tinha inimigo natural, encontrou o Éden dela lá e aí eles tentaram controlar. Então eles iam cortando ela, arrancando ela, só que não conseguiam.
No final eles tiveram que gastar milhões de dólares para colocar retroescavadeiras, grandes máquinas para arrancar elas com essas máquinas para até a rocha mãe, porque se eles não arrancassem as raízes, ela voltava a germinar. Mas no final, o que aconteceu? Nem mesmo assim eles conseguiram, porque as sementes que estavam nos solos já germinavam tanto que ficou impossível, ou seja, entregaram os pontos, não conseguiram mais controlar.
Isso acontece em todos os lugares. Hoje o serrado brasileiro, a maior ameaça dele não é um agronegócio, na minha opinião. A maior ameaça do cerrado hoje é o capim, são os capins estrangeiros trazidos pelos órgãos de pesquisas no século passado aqui no Brasil, como BRAPA, para salvar a pecuária nacional.
Então, um exemplo é o capim braquiária, que é um capim africano. Ele evoluiu numa condição africana com grandes mamíferos, incêndios, eh, humanos ali há dezenas de milhares de anos atuando nisso. E ele chega aqui no Brasil e começa a competir com os capins do serrado.
Que acontece? Os capins cerrados não tm toda essa estrutura de evolutiva. Eles foram engolidos pelo pelo capim africano eh braquiária e tantos outros, Andropogon, tal.
E hoje o capim braquiára, ele ele pega as reservas legais de serrado, os parques nacionais de serrado, parques estaduais. Ele cria tapetes tão espessos, com até 1 m de altura de matéria orgânica, que não entra luz no solo. Se não entra a luz no solo, as sementes do serrado não germinam mais.
E quem dependia de de luz que estava abaixo de 1 m, tá engolido pela pela fotossíntese do capim braquiária. Então morre. E como o serrado é principalmente herbácio arbustivo, ele desaparece.
Fora que a biomassa vegetal da braqueária é tão densa que no inverno, que é a nossa época de seca no serrado, ele pega fogo. E quando ele pega fogo, ele alcança uma temperatura muito maior do que a evolutiva dos capins nativos. Então o serrado não tá apto a resistir a esse calor tão intenso de alguns graus a mais causados pela braquiária africana.
E aí esturrica não só o serrado, mas as sementes que estavam enterradas do serrado. Então você mata o serrado, é um trator passando em cima. Ninguém sabe disso.
Nossa, é é realmente gravíssimo. E você comentou sobre algumas espécies exóticas que são introduzidas para fins econômicos, né? E espécies como o café, a soja, elas são exóticas, mas elas são consideradas como espécies invasoras.
Então, como eu disse, né, nem toda espécie exótica é invasora, algumas são assim, embora tenham trabalhos científicos que mostram que muitas espécies que são introduzidas em um local, elas demoram décadas para se tornarem invasoras. Então, não é que você colocou aquela espécie ali, dia seguinte ela começa a invadir. Pode ser que ela ela espere um momento que mude alguma coisa no ecossistema, mude a temperatura.
Agora, com as massas climáticas, muita coisa vai mudar e ela se torna uma planta predadora do ecossistema, invasora. Das plantas alimentares, né, a gente tem uma muito pouca opção no Brasil, porque a gente tem milhares de espécies eh alimentares no Brasil nativas, mas a gente consome aquilo que o mundo consome, as commodities. O café, por exemplo, é uma espécie exótica invasora da Mata Atlântica.
Você vai nas matas atlânticas aqui no município de São Paulo, você encontra muito café, principalmente na cantareira. Por quê? Eram antigas plantações que foram abandonadas ou que desapareceram e viraram floresta e o o café continuou lá dentro se reproduzindo porque é uma planta de subbosque.
Ele não é tão agressivo, mas ele ocupa o espaço de muitas plantas nativas e a gente não sabe até que ponto isso eh danifica o ecossistema original. Agora, a soja não é exótica invasora. A gente não viu ainda a soja se comportar como exótica invasora, nem o milho, enfim.
Mas nada impede que se torne uma exótica invasora no futuro. É preciso o quê? Não é que a gente vai deixar de ter essas plantas, mas a gente precisa de monitoramento, a gente precisa de um ministério do meio ambiente atuante, a gente precisa de órgãos de pesquisas como a Embrapa atuante nisso.
A gente precisa acordar para essa questão das plantas exóticas invasoras. Sim. E como que funciona a competição entre espécies brasileiras, nativas, que são de biomas diferentes?
Então, é possível a gente ter uma espécie que é da Mata Atlântica, sendo invasora em um outro bioma, por exemplo? Ótima pergunta, Carol. Planta não reconhece fronteira política.
A gente que inventou esse negócio de município, estado e país. Então, é muito engraçado. As pessoas falam: "Ah, essa planta é nativa do Brasil, tá?
Quer dizer que se eu fosse uruguaio e eu ia falar: "Ah, essa planta nativa do Uruguai, que é um país muito menor, com muito menos plantas nativas". Então, é muito importante atentar, por isso que eu falo pra zona de distribuição natural da espécie. Esse vai ser o RG da espécie, da onde ela vem, da onde ela pode atuar sem danificar o ecossistema.
Uhum. Quando a gente fala de trazer uma planta, por exemplo, da Amazônia para São Paulo, ela é tão estrangeira quanto uma planta do Chile, uma planta da Argentina, ela é tão de fora quanto. Pode ser que ela não seja invasora, como por exemplo a amaranta xuto, que é uma planta ornamental bonita que vem da Amazônia e o pessoal tá usando muito hoje em paisagismo.
Eu uso também. Ela não é uma exótica invasora, ela é uma exótica só, mas ela tem um fator cultural da gente valorizar a biodiversidade do nosso país. Também a gente tem esse peso cultural.
A gente precisa apresentar os brasileiros as plantas dos biomas deles. Só que sempre precisa ter em mente. Quando você traz alguma coisa que não é daquela região, pode sim ocorrer invasão biológica.
Como é que eu vou saber o que que é invasor ou não? Você precisa ler ciência. Hoje é de graça.
Você vai no seu celular e escreve pro IA: "Tal planta é uma exótica invasora, já pode trazer pistas". Puxa, não consegui uma resposta legal. Vai no Google Acadêmico, é de graça.
Escreve lá o nome científico da sua espécie, escreve em em inglês, invasive, exótic invasive, ou coloca em português para você acessar os os artigos inglês e português. E aí você começa a ter pistas, vai andar na na região que você tá fazendo o projeto, olha no campo se você tem plantas exóticas invasoras atuando. Então é muito importante esse trabalho de conhecer.
Claro que a gente deveria ter um órgão federal atuando na preservação da maior biodiversidade do planeta. A gente não é um país qualquer. A gente é o país que tem a maior diversidade de espécies de plantas e bichos do mundo.
Isso não é pouca coisa. Por isso que a gente deveria dar um cuidado muito diferente do que dá a Europa, por exemplo, porque o que o patrimônio que a gente erdou é incalculável perto deles. Mas isso não acontece.
Então, a gente tem que fazer como pessoa física esse trabalho de científico, bibliográfico e de campo para entender o que que é invasor na sua região. E respondendo sua pergunta, eh, se eu trago uma planta de um outro ecossistema, de um outro bioma, sim, ela pode se comportar como invasora, mas não necessariamente. Entendi.
E pros impactos que já foram causados, o que que pode ser feito para minimizá-los? Manejo? Então, a gente tem dois tipos de situação, eu acho.
Primeiro, educar a população. É fundamental que a população entenda que, OK, a devastação da Amazônia é um assunto super importante, mas também a gente tem que cuidar do que sobrou fora da Amazônia. E hoje isso vem sendo muito negligenciado.
E a e o, por exemplo, a Mata Atlântica, Mata Atlântica restam 12% dela de fragmentos minimamente viáveis. Esses 12%, grande parte já tá muito deteriorada, seja por extrações de madeira antigas, incêndios, cortes rasos e principalmente pelos efeitos de borda, mudanças climáticas locais, globais e espécies exóticas invasoras. Então, esses 12% que sobraram, a gente precisa ter uma atenção muito grande com relação às plantas exóticas invasoras, porque elas estão degradando aos nossos olhos, só que ninguém sabe disso e o governo não se preocupa com isso.
E o que que tá sendo já colocado em prática? Existe alguma ação eh governamental ou de alguma ONG que esteja realmente tendo algum impacto nisso? No Brasil, a gente tem uma ONG que é muito interessante, que é o Instituto Oros com H.
Eles vêm fazendo um trabalho, né? A, principalmente a Ziller, que é a pesquisadora chefe, já faz 20 anos, pelo que eu tenho ideia, muito forte em cima dessa questão das invasoras, tal. Eles estão lá em Florianópolis e estão no sul do Brasil, às vezes não consegue chegar pro resto do Brasil, mas eles têm a única lista mais fidedigna com relação às espécies exóticas invasoras do Brasil.
Mas é um trabalho que é uma gota no oceano ainda, porque a gente vive num país continental com a maior flora do mundo. Então, o que que a gente precisava? de uma Embrapa, que é um órgão de pesquisa de excelência, trabalhando em todos os biomas para criar listas atualizadas com a melhor ciência possível sobre quais são as espécies exóticas invasoras daquele território, quais são as potenciais.
é uma coisa que eu tenho batido muito, que é criar uma empaismo e arborização, tanto para desenvolver as espécies nativas para o paisagismo e arborização, quanto para estudar essas espécies exóticas invasoras que destróem a nossa biodiversidade tanto quanto uma motosserra e um trator. Sim. E em questões mais individuais, o que que as pessoas, para além delas pesquisarem, se aquela espécie que elas estão querendo trazer é uma espécie exótica, se já se comporta como uma espécie invasora, o que mais as pessoas podem fazer assim no seu dia a dia?
Bem, elas primeiro, eu acho que a gente tem que votar bem, a gente tem que procurar políticos que tenham essa agenda também, que entendam que isso é importante, que preservar a maior biodiversidade do mundo é importante. Então, acho que o nosso voto tem grande poder. A gente tem que lembrar que nós somos pagadores de impostos altíssimos e que a gente tem que parar com essa coisa de querer fazer tudo nóss.
A gente tem que cobrar de quem a gente paga e delega para fazer. Então, a gente tem que cobrar o poder público que crie esses órgãos de pesquisas, que protejam o meio ambiente, como está previsto na nossa Constituição Federal. Isso é primordial.
Eh, eu tenho brigado muito na com com pessoas que vêm comigo e falam: "Ah, cara, vamos fazer juntas as coisas sozinhos? " Não, a gente tem pessoas que recebem dinheiro para fazer isso, cidadãos que nem nós, só que eles estão daquele lado e eles têm que atuar, tá previsto na Constituição. Então é muito importante a gente cobrar.
Outra coisa muito importante é cobrar os profissionais de paisagismo de que usem espécies nativas que não sejam negacionistas ecológicos. Hoje a gente tem muito negacionismo ecológico no mercado de paisagismo. Os viveiros também não produzem.
Então, se eu começar a cobrar os veiros também, puxa, produza plantas nativas. Hoje 90% da vegetação usada em paisagismo é estrangeira. 90%.
Muita coisa. Eu não tô falando de 30. Então, é um absurdo isso.
E aí você fala: "Eh, Ricardo, mas qual é o problema? É uma xenofobia, né? Além das, não, além das espécies exótica invasora, tem um assunto, tem uma coisa muito interessante que eu vou trazer aqui.
Todo mundo sabe o problema da dengue e das doenças associadas ao mosquito exótico invasor, a EDS Egipt. É um mosquito estrangeiro do velho mundo, não existia aqui nas Américas antes. Ele veio para cá em pneus importados, em uma situação bizarra.
Bem, o que acontece? Saiu um trabalho científico ano passado que mostrou que o mosquito da dengue ou a edipt lida muito mal com a biodiversidade brasileira. Ou seja, nos lugares que tem biodiversidade, ele não consegue sobreviver adequadamente.
Ele gosta de lugares com baixíssima biodiversidade. Uhum. Onde ele pode proliferar e fazer o estrago que ele faz nas populações humanas.
Bem, se 90% da vegetação urbana é estrangeira, o mosquito da dengue nada de braçada. Mosquito da dengue encontra um paraíso porque não tem biodiversidade nativa que justamente ele não se dá bem. Sim.
E aí eu pergunto, se ao contrário nós tivéssemos 90% de plantas nativas nas cidades, quantas vidas poderíamos ter salvo que perdermos por causa do da dengue, do egg? Porque a gente teria uma cidade com biodiversidade nativa e muito menos mosquitos da dengue. Sim.
Então é muito importante o que a gente tá falando aqui. Sim, com certeza. E a gente vê que tem algumas restrições em aeroportos, por exemplo, para transporte de sementes, transporte de material biológico vivo, né?
Como que isso funciona e qual que é o impacto disso quando a gente fala dessas espécies exóticas invasoras? Isso é da maior seriedade. O que acontece é que muita gente vai viajar para fora e pessoas que gostam de planta e não vem mal nenhum em trazer algumas sementes no bolso, algumas sementes na mala, disfarça, alfândiga não vai ver.
e e realmente não vê, né? Eu vejo um monte de gente que traz sementes e ninguém olha. E aí, justamente nessa falta de conhecimento ou negligência, planta essas espécies e muitas delas podem se tornar exóticas invasoras severas.
Então, aquela plantinha que você plantou ali pode destruir uma floresta em 30 anos, porque a gente também não tem controle na nossa vida. O pessoal da Agrofloresta que adora uma planta exótica invasora, né? Alguns não são todos, mas muitos adoram, eles colocam, por exemplo, leucena.
A leucena é uma espécie exótica invasora na América Central que era das mais agressivas do planeta. Ela atrapalha a regeneração da mata atlântica, do serrado, ela forma populações puras, ela cria desertos verdes. Bem, a a agrofloresta usa leocena para criar biomassa.
Ela cresce muito rápido porque ela é uma espécie exótica invasora, que não tem inimigos naturais, né? aquilo que eu falei. E aí eles vão podando ela para criar matéria orgânica no solo.
E aí quando eu bato boca com eles no Instagram, eles falam: "Ricardo, mas eu estou cuidando, estou manejando, não tem sementes. Antes de ter semente, eu já tô cortando ela no chão, tal. Então não tem problema.
Eu falo: "Só que você esquece que você é um filho de Deus, assim como eu, e que não tem controle da sua vida. A gente pode adoecer, a gente pode morrer ou a gente pode ter uma grande paixão, mudar de lugar, né, casar. Tudo pode acontecer na nossa vida.
e aquela plantação que você fez virar um problema enorme para aquela região e criar todo um desequilíbrio ecológico por sua culpa. E para quem tiver mais interesse sobre isso, que materiais que você recomenda? A gente tem hoje um relatório maravilhoso do governo brasileiro que está na internet, tá no meu Instagram, inclusive eu coloquei no link tri, que é um relatório sobre a invasão biológica no Brasil, que que fizeram um levantamento de toda a ciência produzida até então e mostram que é consenso geral entre os cientistas de que a invasão biológica é extremamente preocupante e grave paraa nossa biodiversidade, para diferentes fatores, paraa economia, aspectos sociais.
Então esse a esse esse relatório tá disponível gratuitamente na internet, uma leitura acessível com uma linguagem acessível, muito bacana. Outra coisa legal é acessar o o site do Instituto Horus para conhecer as listas, tudo. E aí tem o meu livro também que é o paisagismo sustentável para o Brasil, integrando natureza e humanidade no século XX do editor Olhares, que tá na na Amazon em livrarias virtuais e físicas, que eu dedico um bom trabalho dentro do livro a isso.
Tem uma lista das espécies exóticas invasoras do Brasil, tem muita ciência, né? é um livro que eu fiz todo respaldado em ciências, quase 700 referências bibliográficas, para justamente poder discutir isso com ciência, né? Porque é aquilo que o meu amigo meu sempre fala, que é um cientista muito bom, ele fala: "Ricardo, né?
O fato de você ter uma opinião não significa que você tenha conhecimento científico. Sim. Ciência se discute com evidências científicas de qualidade.
Sim. E para quem quiser um dia trabalhar com isso, qual que é o caminho? Bem, eh, o caminho primeiro é gostar, amar.
Eh, eu acho que o mundo precisa cada vez mais de profissionais competentes, ativistas, né? Uma coisa que eu acho que não dá para deixar de ser quando a gente vê esse monte de coisa errada nesse plano espiritual que a gente vive, é ser ativista, né? Se se você conseguiu obter conhecimento, teve a chance de obter conhecimento, você precisa lutar por esse conhecimento para que chegue às outras pessoas, para que sensibilize as outras pessoas, porque é isso que nós estamos fazendo aqui, né?
a gente precisa servir. Então, eh, eu acredito que com a paixão você consegue adquirir conhecimento, esforço, persistência, foco. E hoje a gente vive uma um um momento único na humanidade.
Nunca a informação esteve tão acessível a todos. Hoje, com o seu WhatsApp, se você escrever lá por que as espécies exóticas invasoras são ruins, ele vai trazer aquilo referenciado em monte de trabalho legal. Não é infalível ainda, mas é muito bom.
Já eu tenho testado. Então, a gente vive um momento único da humanidade que a gente tem que aproveitar para construir a sociedade que a gente precisa e proteger esses nossos irmãos, essas nossas formas de essas outras formas de vida que até hoje não aprendemos ainda a valorizar. Sim, Ricardo, muito obrigada por esse papo.
Acho que deu para aprender muita coisa. E quem quiser continuar te acompanhando ou entrar em contato com você, como é que pode fazer? O melhor caminho é pelas redes sociais.
Eu estou no Instagram, é Ricardo 2 Cardim. Ricardo Cardim. Lá eu todo dia coloco posts educativos, respondo a embaixo dos posts.
No direct não dá porque é muita coisa, mas eu tô à disposição e eu acho que uma andorinha só não faz verão. Então eu convido todo mundo que goste de plantas a encampar essa luta porque é muito importante. Muito bom.
Muito obrigada pela sua presença aqui e muito obrigada também a você que acompanhou mais esse resenha. O próximo episódio vai ser sobre Bets. Até lá.