No outro dia, nós fizemos uma enquete aqui na comunidade. Vocês me disseram que a exaustão pela tentativa de se encaixar na sociedade é o maior desafio das mulheres autistas. Então, vamos lá conversar sobre um recurso prático e maravilhoso para aliviar o estresse e ajudar as nossas queridas autistas a cultivarem mais saúde física e mental.
E para justificar essa conversa, e até a queixa das autistas, olhem só que interessante: os especialistas chamam de "confusão catastrófica" a tendência que boa parte dos autistas, tanto meninos quanto meninas, tem de entrar nessas combinações obsessivas e pensamentos cíclicos na mente quando estão confusos a respeito de alguma questão. É, obviamente, um conflito mental gerado pelo contraste entre as expectativas sociais e o nosso comportamento atípico, que causa muita confusão, muito cansaço e muito estresse. E eu me incluo nesse exemplo, porque, como você já deve saber, eu sou hipersensível.
Agora, para a mulher autista, que é ainda mais propensa a camuflar os seus traços neurodivergentes, os pensamentos catastróficos podem se transformar em um filme do Tim Burton, que é excelente para assistir no cinema, mas nem tão agradável assim para ter o tempo inteiro rodando na mente. Então, o que fazer se você ou a sua cliente, ou seu aluno, tem esse tipo de pensamento catastrófico e muita confusão mental? O que fazer para redirecionar sua energia poderosa, que tem sido, na verdade, perdida em combinações?
Bom, primeiro, vai ser ampliar o repertório semântico. As minhas clientes costumam ter um vocabulário muito rico; elas escrevem para artigos científicos e falam muito bem sobre o hiperfoco delas. Contudo, uma dificuldade frequente das autistas está em falar dos seus próprios sentimentos.
As palavras fogem quando elas tentam explicar o que sentem, o que querem ou quais são os seus conflitos emocionais. Essa dificuldade atraiu tanta atenção dos pesquisadores que ganhou até nome científico: Alexitimia. E isso não é exclusivo dos neurodivergentes; acontece quando a pessoa está abalada.
A Alexitimia significa a incapacidade de expressar as próprias emoções, e essa dificuldade causa uma elevação gigantesca da ansiedade. Mas isso não precisa ser assim sempre, porque a maior parte das pessoas consegue cultivar e treinar essa habilidade de expressar as próprias emoções. E, inclusive, vou compartilhar aqui com vocês um recurso excelente que tem sido utilizado pelas equipes do Canadá, Reino Unido e Califórnia, que são bastante conceituados e trabalham com mulheres autistas e adultas.
O recurso é simplesmente oferecer aos nossos clientes um quadro com as emoções, que é uma lista de palavras para facilitar a expressão dos sentimentos delas. Assim, a pessoa pode nomear o que está sentindo, e, ao nomear, consegue organizar melhor os pensamentos e se comunicar mais facilmente sobre suas próprias necessidades. Isso facilita a vida dela e limpa a mente.
E agora, por que esse quadro funciona de verdade? Porque a confusão mental, muitas vezes, é a dificuldade de ver sentido em uma situação da vida. A pessoa pode não chegar a sentidos simplesmente porque não tem palavras para elaborar uma determinada experiência que está acontecendo.
Eu não sei se é verdade, mas dizem que os índios aqui no Brasil não enxergaram as caravelas quando os portugueses chegaram, porque elas não faziam parte da realidade deles; eles não tinham palavras para aquilo. E, por outro lado, olhem só que interessante: os polinésios têm muito mais palavras para representar os tons de azul e verde. Muitas mais palavras do que nós temos.
Aqui, as mudanças na coloração do mar são muito significativas na vida deles, seja para alimentação ou para transporte. Ou seja, se alguém na Polinésia nos perguntar qual é a cor do mar, talvez a resposta seja "azul claro", "turquesa", porque basicamente são essas palavras que temos disponíveis no nosso repertório. Quando você pergunta a uma pessoa angustiada o que ela está sentindo, especialmente se essa pessoa for autista, ela pode ter apenas uma ou duas palavras para expressar aquele sentimento, aquele sofrimento.
Muitas vezes, ela vai nos dizer: "Eu estou sem 100% triste, eu estou 50% irritada, estou 100% deprimida. " Isso, na verdade, mostra que boa parte da ansiedade vem justamente desse pensamento. Enfim, quem sabe a palavra tem poder!
Como diz Lacan, "a angústia é um afeto desligado da palavra. " Então, quando temos um afeto desligado de outra pessoa e encontramos uma palavra para nomear esse afeto, esse sentimento, essa conexão, isso ajuda a dissipar a angústia, e ficamos claro, menos exaustos e mais produtivos, que é o nosso objetivo aqui. Ou seja, você tem excelentes motivos para usar o quadro das emoções.
Inclusive, vou deixar o meu aqui; vou compartilhar com vocês o meu quadro com muitos sentimentos diferentes, cheios de nuances, das sensações e das emoções, com intensidades distintas, que é muito importante também. É só baixar gratuitamente usando esse link que eu vou deixar na descrição aqui. Para as crianças, eu costumo usar um termômetro das emoções, que é usado não só para neurodivergentes, mas para neurotípicos também.
E a gente faz com imagens, cheias de cores, e isso ajuda muito a saber, por exemplo, se uma criança está se aproximando de uma determinada emoção, porque ela consegue se comunicar melhor. E quando isso passar, aí sim a gente vai conversar sobre o que aconteceu ou gerar novos recursos para a criança. E agora, quero saber de você: você já conhecia esses recursos?
Espero que eles sejam muito úteis e tragam mais clareza mental e fluidez para o seu dia. Depois, me conte aqui como foi o resultado, porque eu amo receber as mensagens de vocês. E claro, vou pedir para vocês curtirem e compartilharem o vídeo com a sua equipe da escola e com a família, porque sempre tem!
Um livro divergente precisando do nosso suporte para ir em um grande abraço. Até quinta! Tchau, tchau!