A própria noção de criança, como sendo aquela que tem a sua maior força no lúdico, na ludicidade. Ou seja, na possibilidade de fruir, de aproveitar. E fruir e aproveitar como criança significa, entre outras coisas, a possibilidade nessa fruição de nós conseguirmos conviver com outras gerações, o que é extremamente prazeroso.
A possibilidade, entre outras coisas, de perceber que não se pode colocar o número de obrigações que hoje se coloca, por exemplo, nas crianças de camada média como as nossas. Há crianças, e vocês sabem, que têm uma agenda semanal superior quase, às vezes, à de um executivo. Coloca-se para criança, com sete ou oito anos de idade, com dez anos de idade, que ela precisa fazer isso, aquilo e aquilo pra ela se preparar para o futuro.
Eu fui Secretário da Educação na cidade de São Paulo, e uma das coisas que eu fiz como Secretário, logo depois do professor Paulo Freire, foi discutir com as educadoras, as educadoras na rede, a seguinte ideia: não se dê tarefa para criança no final de semana. É uma violência tornar a criança um ser pragmático, utilitarizado o tempo todo. Por exemplo, sexta-feira dar tarefa para a casa.
Qual é a consequência? Nenhum de nós gosta de levar atividade pra casa no fim de semana. Consequência?
A criança passa o final de semana inteiro sem fazer aquilo e preocupada. Vai fazer quando? No domingo à noite, com raiva e com sono.
E aí a gente diz que ela tem que apreciar, porque aquilo é importante pra ela. Ora, uma escola que organiza isso é aquela que não entende que parte do conteúdo está na possibilidade exatamente dessa ludicidade.