Bem-vindo ao canal Recanto das Histórias. Prepare-se para se emocionar com a história de hoje. Clara estava parada diante da janela. Amanhã para o início do verão, estava surpreendentemente fresca, como se a natureza, de repente tivesse se lembrado de devolver aos humanos alguns dias frios esquecidos no estoque. Ela pegou uma grande caneca de café na mesa e a envolveu firmemente com os dedos, Sentindo calor agradável. Fechou os olhos por um instante, levou a caneca ao rosto e inspirou com prazer o aroma forte e reconfortante. Quando se tratava de café, Paixão Nacional, Clara era exigente. O café
da casa precisava ser encorpado, fresco e saboroso. Nada de bebida morna e sem graça. Com certa dúvida, lançou um olhar à janela entreaberta, por onde entrava um ar fresco quase invernal. Ainda assim, apenas estremeceu levemente e balançou a Cabeça com teimosia. Aquela brisa era, de certo modo, bem-vinda. Clara sabia que tinha muitas decisões a tomar e ainda mais ações pela frente que mudariam para sempre sua vida e a dos filhos. Enquanto seguia com olhar um carro lá embaixo, mergulhou fundo em seus pensamentos, mas de repente levou um susto e se sobressaltou. O café, que enchia
a caneca quase até a borda, derramou com movimento brusco e caiu sobre seus dedos. Ela fez uma careta de Dor, colocou a caneca de volta na mesa e, sacudindo os dedos queimados pelo líquido quente, virou-se para a porta fechada que levava ao quarto. A expressão em seu rosto mudou. A contemplação serena deu lugar a uma tensão visível. Seus olhos marcados por olheiras de uma noite mal dormida, agora estavam cheios de apreensão. "Foi impressão minha?", murmurou Clara para si mesma, mas logo balançou a cabeça. "Não, não foi." Do outro lado da porta, Ouviu-se claramente um murmúrio
abafado. Com passos suaves e cuidadosos, ela se aproximou da porta e a abriu com cautela. Dentro do quarto, deitado na cama, estava um menino de 10 anos, seu filho mais novo, Rafael. "Ah, Rafa, meu pequeno", sussurrou Clara com carinho, cobrindo menino com cobertor. "De fato, dizem que desgraça nunca vem sozinha, como se o dia anterior já não tivesse sido arrasador depois da conversa devastadora com Marcos, que bagunçou Toda sua vida. Agora ainda surgia a doença de Rafael. Nada sério, ao que tudo indicava, mas o suficiente para deixá-lo prostrado, ardendo em febre alta, como infelizmente já
tinha acontecido outras vezes. A febre de Rafael estava altíssima e, provavelmente, o burburinho e os coxichos involuntários de Clara o haviam despertado. Na cama, ao lado do outro lado do quarto, André, dois anos mais velho que o irmão, começou a se mexer. Ele ergueu a cabeça do travesseiro, com os cabelos tão bagunçados quanto os de Rafael, e ainda sonolento, olhou em volta até encontrar o olhar da mãe. "Mãe, o que foi?", murmurou o menino. "Nada", respondeu Clara em voz baixa. "Só vim ver o Rafa. Passamos a madrugada tentando baixar a febre. Ela se aproximou do
filho mais velho e ajeitou o cobertor que estava quase caindo no chão. Desde que nasceram, os dois meninos sempre foram extremamente Agitados, não só durante o dia, mas também à noite. Horas se enrolavam nos cobertores, como casulos, o jogavam para longe. Ainda assim, dormiam profundamente, como só crianças saudáveis e cheias de energia conseguem dormir. "Dorme, meu André! Ainda é cedo", sussurrou Clara, cobrindo de novo. Ele resmungou baixinho em sinal de gratidão e logo voltou ao mundo dos sonhos interrompidos. Tudo bem, que durmam. Era domingo, afinal, e as férias Tinham começado. Que descansassem o quanto quisessem.
Clara, por sua vez, precisava de tempo. Precisava tentar entender o que estava acontecendo com sua vida e o que, afinal deveria fazer com tudo aquilo. Porque Rafael, doente de forma tão repentina e intensa, não era o único doente naquela casa. Na verdade, o que estava doente e havia muito tempo era a família inteira, mais precisamente o casamento dela com Marcos, que já durava 15 anos. Se no Caso do Rafa, tudo provavelmente estaria resolvido em três, quatro dias, o estado da relação entre Clara e o marido era bem mais grave. Ali tratava-se de uma doença antiga,
negligenciada, que já vinha apresentando complicações e que talvez nem tivesse mais cura. O que houve na noite anterior entre ela e Marcos? Aquela conversa que terminou com ele saindo de casa e batendo a porta foi um verdadeiro colapso. Ou eles dariam um jeito juntos, tentando recuperar o que Restava, ou desistiriam de vez, dizendo conhecido: Morreu, morreu. Embora convenhamos, que recuperação? Para que se enganar? Clara serviu para si um pouco de água quente, ou que restava de quente, do bullymorno e sentou-se num banco, encostando as costas na parede. Será que alguém no mundo é capaz de
dizer com exatidão o momento em que começa a ruptura entre duas pessoas próximas? Clara, de fato, não sabia dizer quando exatamente começou a Ruptura entre ela e Marcos, mas sabia com toda certeza que o amava profundamente quando se casaram. amava com sinceridade, com intensidade e com total entrega. Ele não apenas parecia, ele era de verdade o homem mais importante do mundo para ela. A personificação de tudo que ela acreditava serem as melhores qualidades em um homem. Marcos era honesto, verdadeiro, corajoso, confiável. Ela poderia enumerar essas virtudes Indefinidamente, sem que nenhuma aparecesse fora de lugar. E
entre todas havia uma que se destacava, o amor genuíno que ele sentia por ela. Claro, havia esse sentimento nos olhos dele, como se estivesse olhando para um espelho. E ele também não economizava palavras naquela época. Clarinha, você é a mulher mais incrível do mundo. Eu te amo. Sou tão feliz ao seu lado", sussurrava Marcos enquanto apertava em seus braços fortes. E ela realmente se Sentia assim, a mulher mais incrível do mundo, completamente feliz ao lado do homem mais incrível que já conheceu. Claro que ambos queriam estar juntos, não só no presente, mas por muitos e
muitos anos pela frente, juntos para sempre. E assim se casaram. No começo, tudo parecia saído de um sonho romântico. Rindo, colar um papel de parede nas paredes tortas do pequeno apartamento antigo que Marcos herdou da avó e colocaram potes de geleia num Charmoso armário junto à janela. Trocaram canecas com seus nomes e se divertiam só de ver Clara e Marcos lado a lado no escorredor de louças. Aproveitavam cada minuto juntos, cada pensamento sobre o outro, colecionavam sorrisos e faziam de tudo para multiplicar os motivos para eles acontecerem. Até o filme mais chato parecia interessante quando
assistido a dois. Dormir debaixo do mesmo cobertor nunca foi apertado demais, e um pedaço De pizza dividido entre os dois sempre parecia mais gostoso. Marcos olhava com encanto para os bolinhos de queijo mal formados que Clara preparava na frigideira e dizia, com brilho nos olhos, que pareciam nuvens. E ela, com o mesmo encantamento, observava seu homem querido, estragando a primeira prateleira da casa deles. Clara media com os dedos e, por garantia, até com as palmas das mãos, a largura das camisetas de Marcos para não errar na hora de Comprar. E ele, por sua vez, tirava
fotos escondidas do pote do creme preferido dela para acertar quando fosse presenteá-la. Eles disputavam quem chegava em casa primeiro depois do trabalho. Clara corria para conseguir preparar algo saboroso e especial para o marido, resmungando consigo mesma por não ter pensado nos ingredientes com antecedência. Agora teria que se espremer pelos corredores do mercado, desviando das senhoras que andavam Devagar, impaciente na fila do caixa, quando só queria correr para casa e fazer tudo a tempo, recebendo Marcos com aromas deliciosos e, se possível, com o rosto revigorado, para que ele esquecesse na hora qualquer problema do trabalho. Ele
também se apressava. Queria que Clara percebesse e sentisse o quanto ele havia sentido falta dela, o quanto ansiava por abraçá-la de novo e, em tom de brincadeira dizer: "E então, minha esposa querida, o que é que está Cheirando tão bem aí no forno? Vamos alimentar este homem faminto?" E de repente agarrá-la no abraço apertado e sussurrar no ouvido que o jantar, bem, poderia muito bem esperar. Esse período mágico de descobertas mútuas durou cerca de um ano. Depois, ou tudo que havia de novo em ambos se esgotou, ou o entusiasmo dos exploradores se dissipou. Eles deixaram
de correr para casa à noite e passaram a apenas voltar com calma. E não havia nada de errado nisso. Afinal, o famoso período de flores e bombons acaba em qualquer casal, por mais românticos que sejam. A euforia e o encantamento dão lugar aos hábitos e às tarefas. Em vez de cinema e noites animadas, vem as pilhas de roupas para lavar e as idas ao mercado com carrinho lotado. Programas não exatamente empolgantes. Os desejos e fantasias aos poucos cedem espaço ao cansaço e à preguiça. Mas não. Clara e Marcos não haviam enjoado um do Outro. Não
tinham se transformado em dois seres que só se irritavam mutuamente. Longe disso, eles ainda se amavam e se respeitavam. ou pelo menos era nisso que acreditavam. Clara continuava admirando em Marcos aquela calma firme e masculina, a segurança, a visão clara e realista das coisas, além da aparência, talvez não encantadora, mas interessante, de um homem que gritava por si só. Era um homem de verdade. Marcos, por sua vez, olhava Sempre com prazer e um desejo que nunca desapareceu para o rosto bonito de Clara, emoldurado por seus cabelos fartos e brilhantes. Admirava também seu corpo harmonioso e
feminino, no qual quase não se notava o fato de ela ter dado a luz dois meninos bem grandes. Reconhecia sua inteligência e o senso de humor afiado. Gostava da forma como ela cozinhava. Sentia prazer em se esticar nos lençóis recém-lavados e sorria agradecido enquanto tirava a camisa Passada com tanto capricho por ela. Mas em meio a tudo isso, algo foi se dissolvendo, justamente aquilo que faz uma pessoa querer dividir a vida com alguém. Os homens talvez demorem mais para perceber isso. De qualquer forma, Marcos parecia totalmente satisfeito com a vida. falava em comprar um novo
apartamento, enquanto Clara já começava a sentir os primeiros sinais de inquietação. Ela não se sentia mais a mulher mais incrível do mundo para ele e Também não via mais em Marcos, o homem que um dia ofuscou todo o resto da realidade ao seu redor. Só que, é claro, não admitia isso nem para ele e principalmente nem para si mesma. Besteira, todo mundo vive assim, resmungou mentalmente, tentando se convencer. Preciso parar de ler esses livros românticos e assistir a séries com galãs apaixonados. E num tom ríspido consigo mesma, concluiu: "Em vez de ficar Pensando num problema
que nem existe, vai fazer algo útil. O balcão está encardido desde o inverno. O casaco nem foi para a lavanderia. Acabou a farinha, as meias do Marcos estão todas sujas. Que bela dona de casa você, e Clara, e ainda se acha no direito de querer ser a mulher mais maravilhosa do mundo. E os anos de vida em comum não se arrastaram, voaram, passaram correndo, assobiando pelos cantos, não por dentro deles, mas quase como se tivessem passado por fora, Sem que percebessem. Parecia que tinha sido ontem que eles comemoraram mais um ano novo juntos, trocando presentes
e comendo salada como se fosse para abastecer o estômago para o ano inteiro. Mas num piscar de olhos, já era hora de desejar um feliz dia dos pais, tanto para os que realmente se esforçavam, quanto para os mais ou menos. E logo em seguida chegava o dia da mulher, aquele que liderava disparado nas vendas de flores, especialmente as tulipas Inocentes. As mulheres, com sorriso tímido e olhos um pouco perdidos diante de tanta tensão, colocavam os buquês nas jarras, depois jogavam fora as pétalas murchas e rapidamente se aproximava o fim do ano e o Natal. E
foi nessa correria em que um dia se confundia com o outro, que eles acabaram aparentemente deixando cair o sentimento verdadeiro que um dia tiveram um pelo outro. Claro que mesmo nessa rotina monótona que não parava um minuto, houve alguns momentos De brilho, pequenas explosões que pareciam prometer uma virada total. Uma dessas foi o nascimento dos filhos. Primeiro veio André, o primogênito, dois anos após o casamento. Um bebê esperado, desejado e mesmo assim uma surpresa completa, o filho mais velho e maravilhoso. Durante toda a gravidez de Clara, Marcos esperava por uma menina. Ignorava as previsões dos
médicos, os exames, os palpites populares e até a intuição da própria esposa. Queria uma Filha, custasse o que custasse. Clara apenas ria e prometia fazer o possível para que aquele menino, que os exames garantiam com 100% de certeza, nascesse menina. Claro que não conseguiu, mas assim que Marcos viu o filho pela primeira vez, esqueceu completamente todas as expectativas e decepções. Apaixonou-se na hora pelo bebê. Se pudesse, teria trocado de lugar com Clara no período da licença maternidade. André crescia ativo, barulhento e Exigente e trouxe um caos alegre à vida do casal. Clara e Marco se
perderam nos horários do dia e nos dias da semana, mas aos poucos conseguiram ajustar o corpo e o espírito rotina de sono, passeio, mamadeiras do novo pequeno rei da casa. Eles ajustaram seus corpos e até suas almas à rotina de sono, passeios e mamadas do bebê, tentando arrancar algumas migalhas de tempo para si mesmos e um para o outro. Também fortaleceram bastante braços e costas, Revesando-se durante dias e noites para carregar o pequeno André pela casa, já que ele detestava dormir. Aprenderam a transformar qualquer música conhecida em canções de Ninar, até rock e o hino
nacional. Por alguns anos, viveram completamente sob o comando daquele pequeno tirano doméstico. Quando André cresceu um pouco, Clara descobriu que tudo começaria de novo. Grávida! Repetiu Marcos, surpreso. É, parece que sim, respondeu Clara, espantada, mas com Sorriso nos lábios. Que maravilha! Exclamou Marcos. Perfeito, Clarinha. Estou tão feliz. Vamos ter outro filho. E dessa vez vai ser uma menina", decidiu ele, embora não demonstrasse mais a mesma convicção de antes. E de fato, tudo recomeçou do zero. Embora para Clara, em certos momentos parecesse que, na verdade, nada jamais tivesse terminado. Para diversão dela e surpresa de Marcos,
o segundo bebê também era um menino e ganhou o nome de Rafael. Agora Mais experientes, os pais conseguiram transformar esse segundo ciclo de fraldas e mamadeiras em algo mais organizado, sensato e tranquilo. Ainda assim, o tempo para si mesmos e um para o outro era ainda mais escasso do que antes. Os anos em que Rafael tinha até 3 anos e André 5 passaram como se estivessem vivendo em outra dimensão. Os dois meninos, como se fossem baterias humanas, se alimentavam e não deixavam ninguém descansar por um segundo. Claro, Eles foram crescendo, mudando. E Clara, depois de
ler muitos livros sobre educação e ouvir conselhos de especialistas, reuniu toda sua determinação e passou a ser mais firme e exigente. Mas os meninos, com suas carinhas travessas, riam da rigidez da mãe e faziam questão de se queixar com o pai, que chegava do trabalho no fim do dia. Mesmo assim, aos poucos, os gritos, a bagunça e algazarra diminuíram, e a ordem na casa começou a melhorar. Quer Dizer, mais ou menos, porque tudo desandou de novo quando os garotos arrastaram da rua um filhote de cachorro, magrelo e sujo, escondendo atrás das costas. Marcos, que tinha
sido pego de surpresa pelos garotos, olhou para Clara com certa insegurança e soltou um suspiro. "Não", disse ela firme, colocando um ponto final e vários pontos de exclamação na conversa. Os meninos começaram a chorar em couro, em alto e bom som. O viraalata peludo, Depois de farejar o sapato de clara com seriedade e aparentemente guardar essa informação para o futuro, deu alguns passos desengonçados, sentou-se bem diante dela e com a língua de fora simplesmente sorriu. Sim, sorriu. Se Clara não tivesse visto com os próprios olhos, jamais acreditaria. Então ele soltou um bocejo tão amplo e
barulhento que chegou a soar como se dissesse mamãe Clara balançou a cabeça surpresa e sua mão, quase sem querer se estendeu para Coçar aquelas orelhas peludas e ruivas. Mas ao notar a possar que se espalhava debaixo do cãozinho, ainda sentado no meio do corredor, ela se conteve. Não repetiu, hipnotizada pelos olhos do filhote. Clarinha. Marco se aproximou e passou o braço pelos ombros da esposa. A gente já deu o nome dele, Caramelo. Entende? Ele já tem nome. Marcos abaixou o olhar meio culpado. Vai, Clara. Os meninos precisam de um cachorro. Eu prometo que vou dar
banho, passear com Ele todo dia cedo e também vou ensinar os meninos a cuidarem. Eles me juraram solenemente que vão ajudar. Já pensei em tudo. Agora mesmo levo ele ao veterinário para fazer um checkup, embora de cara ele já pareça saudável e até meio de raça. Depois passo no pet shop e compro tudo. Coleira, guia, ração, brinquedos. Marcos continuava falando enquanto os meninos já se enrolavam com o filhote em um abraço. Clara, por sua vez, fez uma anotação Mental. precisava guardar toda a sapateira no alto, ou melhor, se possível, pregar tudo no teto. E assim,
o número de crianças do sexo masculino na casa de Clara subiu para três, embora às vezes ela tivesse a sensação de cuidar de quatro. Marcos era apaixonado pelos filhos. Cada segundo livre que tinha, ele aproveitava para demonstrar isso. E essa dedicação frequentemente levava resultados um tanto excêntricos, como, por exemplo, ele ordenar que o Jantar fosse servido diretamente no quarto das crianças, sob o pretexto de se tratar da refeição de bordo de uma nave prestes a decolar para o espaço. Clara entrava no quarto e dispersava os astronautas enlouquecidos, inclusive o de 30 anos e também o
de quatro patas. Clara então decretava que o lançamento da nave estava cancelado e fazia um apelo geral à ordem. Os meninos cresciam. O filhote peludo e babão havia se transformado em um cão bonito, forte E, para desgosto de todos, bem grandalhão. Fazia jus ao nome pomposo de caramelo e agia como se fosse um cachorro de sangue azul. Pelo menos recusar ração seca do pacote era com ele mesmo. Preferia que Clara preparasse mingal com ossinhos cozido na panela grande. Quando os dois meninos finalmente começaram a ir à escola de forma mais independente, Clara decidiu voltar ao
trabalho. Sentia-se como uma aluna no primeiro dia de aula. Clara, Para que isso? A gente já tem dinheiro suficiente, resmungava Marcos. Eu ficaria muito mais tranquilo se você ficasse em casa com os meninos. Sabe de uma coisa, querido?", rebateu Clara com firmeza. "Eu não vou passar a vida toda na cozinha, prestando atenção no barulho da máquina de lavar. Aliás, eu quero me arrumar, me vestir bem, me maquiar, me pentear. E para quem eu faria tudo isso? Em casa? Pro caramelo, para ele não morrer de vergonha de mim no parquinho De cães na frente dos amiguinhos
peludos?" Marco suspirava derrotado. Talvez tenha sido exatamente nessa fase que algo começou a mudar entre eles. Algo sutil, quase invisível, mas certamente ruim. Marcos, você não acha que está acontecendo alguma coisa entre nós? Arriscou Clara certa noite. Clara, poxa, para com isso. Vai, respondeu ele, como ela já esperava. Tá tudo bem entre a gente. Eu trabalho que nem um camelo. Embora pensando bem, acho que nem camelo Aguenta o que eu aguento. Você tem dois meninos para cuidar, uma casa, um cachorro. Não pensa que eu não valorizo tudo isso. Mas sobre esse algo acontecendo entre nós,
sabe o que eu acho? Sinceramente, acho que está acontecendo entre nós muito pouco e devia acontecer mais. Clara levantava sobrancelhas constrangida. e logo colocava um prato de comida na frente do marido. Os meninos corriam até ele e se penduravam de todos os lados, e as Tentativas de conversar sobre o relacionamento afundavam inevitavelmente na confusão típica das noites em um apartamento pequeno, onde moram dois adultos, uma grande orgulhosa criatura de quatro patas e dois filhos que ainda não decidiram se pertencem a uma tribo indígena, a uma banda de rock ou de um grupo de cavaleiros medievais.
Mas não importava quem eles fossem naquele dia, ao final da tarde, os dois estavam sempre descabelados, suados e Encardidos. E havia um detalhe importante. A casa tinha apenas um banheiro, bem pequeno. Por causa disso, a vez de Clara para tomar um banho decente só chegava de madrugada. Todas as tentativas de analisar profundamente sua relação com Marcos acabavam parecendo uma piada de mau gosto, tanto para ela quanto para ele. Quando Marcos comparava sua rotina a de um animal de carga, não estava exagerando. Ele realmente trabalhava muito. Era dono de Uma daquelas profissões quase exclusivas, técnico e
engenheiro especializado em instalação e manutenção de equipamentos importados. Essas máquinas eram conhecidas por sua complexidade absurda e, curiosamente, por uma delicadeza pouco comum. Bastava o menor desvio e tudo parava. Nessas horas, só alguém como Marcos Vasconcelos resolvia. Ele era literalmente o babá das máquinas. Por isso, vivia cruzando uma área que, em extensão, poderia Competir com um pequeno país europeu, garantindo bom funcionamento de diversas fábricas. Internamente xingava tanto quem projetou aqueles equipamentos sensíveis quanto quem teve a ideia de instalá-los em solo brasileiro. Um lugar onde, por tradição, se espera que máquinas sejam feitas de aço fundido,
resolvidas no grito e consertadas na marretada. Com o tempo, Marcos acumulou tanta experiência e prestígio que achou justo começar a ganhar mais. junto de Alguns colegas da faculdade, fundou uma pequena empresa. Continuava visitando os mesmos clientes, mas agora por conta própria. O problema, a carga de trabalho aumentou ainda mais. As viagens se tornaram mais longas e frequentes. Em compensação, o dinheiro que entrava era ótimo. Tanto que Clara conseguiu ficar em casa com os filhos por vários anos, primeiro no período da licença maternidade e depois por quase um ano, tentando relembrar, com certo pânico Divertido, o
básico de contabilidade que havia aprendido na faculdade. Na verdade, toda a vida de Clara, antes do casamento, do nascimento dos filhos, lhe parecia tão distante e estranha que ela preferia nem pensar muito nisso. Sinceramente, também não havia muito que lembrar. Nasceu, estudou como todo mundo, queria ter um gatinho, depois um cachorro, mas desistiu porque o pai tinha alergia a pelos. tentou desenhar, dançar, até cantar, mas nada daquilo a Empolgava de verdade. Nunca descobriu nenhum talento especial pelo qual valesse apenas se esforçar até o limite. Pensar na própria família também não era algo que Clara gostava
de fazer. Nessas horas, espera-se que a pessoa sorria com carinho, suspire e fale das tradições familiares, das histórias engraçadas, dos avós carinhosos, dos tios queridos, ou, no mínimo de rostos que aparecem nas fotos da infância. Mas Clara quase não tinha nada disso. O pai e a mãe até Existiam, mas nunca pareceram interessados em transmitir qualquer herança emocional ou afetiva. Viviam ocupados, brigando um com o outro. discutiam sem parar, só interrompendo para trabalhar ou dormir. Desde pequena, Clara se perguntava como duas pessoas que pareciam se odiar tanto podiam ter gerado uma criança. Não havia muitas fotos
da família, talvez porque quase ninguém quisesse pousar para elas. O pai veio de longe, cortando laços com suas Origens. A mãe foi criada num abrigo. Clara cresceu sentindo pressa. Uma urgência para virar adulta logo, sair de casa, deixar tudo aquilo para trás. Queria nunca mais ouvir frases, como foi por sua causa, que destruímos nossas vidas. Crescendo nesse ambiente, essas palavras perderam o impacto. Ficaram gastas, repetidas, ocas. Ela tinha a impressão de que os pais continuavam juntos apenas por hábito, brigando o tempo todo, porque ainda viviam sob o Mesmo teto, ela nunca entendeu. Mas uma coisa
clara sabia com certeza. Sua vida seria completamente diferente. Ela jamais permitiria que sua história se transformasse em uma convivência amarga e vazia com alguém que não amasse. Mas a vida com Marcos era completamente diferente, como se vivessem em outro planeta. O passado parecia cada vez mais distante, principalmente depois que o pai dela morreu de forma repentina. A mãe, sem seu principal e praticamente Único interlocutor e adversário, perdeu o sentido da vida e se fechou em si mesma. É claro que ela se importava com os netos e demonstrava alegria ao vê-los, mas nunca demonstrou muito interesse
em se tornar uma presença ativa e constante na vida da filha. Visitava-os de vez em quando, recebia os netos em casa por alguns dias, dava presentes nos aniversários e datas comemorativas, mas amar de verdade, isso ela nunca aprendeu. Observando a mãe, Clara sentia uma certa pena, mas também agradecia em silêncio por ter tanto amor em sua vida. Embora com o passar dos anos, esse amor parecesse diminuir pouco a pouco. Depois veio mais um momento marcante que reaccendeu uma esperança. Talvez tudo voltasse a ser como antes. Talvez ficasse tudo bem. Marcos, que durante todos aqueles anos
trabalhou incansavelmente, havia economizado uma boa quantia e, enfim, comprou um apartamento amplo, iluminado, em um Prédio novo e com luxo até então impensável para a família. Dois banheiros. e ainda por cima, separados da área do chuveiro e da banheira. Pronto, Clara, agora todos os nossos problemas estão resolvidos, disse ele, sorrindo, sem deixar claro se referia apenas à eterna fila para o banheiro ou a algo mais profundo. Como ela, ele também parecia acreditar. Agora sim, vamos viver como gente. A partir desse momento, todos os pensamentos, o tempo e As mãos dele se voltaram para o novo
lar. Reformar e decorar o apartamento virou prioridade. Discutiram e pesquisaram pisos, azulejos, tintas, louças sanitárias, portas internas, isolamento da varanda e tantos outros detalhes. Isso levou quase um ano inteiro. Só então perceberam que seria melhor derrubar uma ou duas paredes, ampliar a janela da sala, refazer a ventilação e mais uma lista de ajustes intermináveis. Até que caiu sobre Clara Uma missão tão inesperada quanto desafiadora. O projeto da cozinha era quase insolúvel. Tudo se tornava mais complexo pelo fato de que Marcos, considerando a cozinha o coração da casa, não impôs nenhum limite, nem de orçamento, nem
de imaginação. Clara mergulhou de cabeça no projeto. Passou meses planejando a disposição das áreas de trabalho, a parte elétrica, escolhendo os eletrodomésticos, os acabamentos dos armários, as luminárias, As bancadas e a pia. Exausta e mesmo tendo recorrido à ajuda de uma designer profissional, Clara decidiu que aquela era a cozinha dela e só ela sabia como tudo deveria ser. Por isso, jogou fora todos os esboços anteriores e recomeçou do zero. Enfim, o tão sonhado dia chegou. O apartamento estava completamente reformado, os eletrodomésticos instalados, as cortinas penduradas, os móveis posicionados com cuidado. De forma unânime, todos Concordaram
que o resultado ficou maravilhoso e a cozinha, em especial, despertava encantamento imediato. Clara se sentou no enorme sofá, percorreu a sala com os olhos do teto brilhante laqueado até o tapete felpudo sob seus pés. e não sentiu nada, nada. E pensar que anos atrás ela e Marcos haviam reformado com as próprias mãos aquele antigo e minúsculo apartamento velho. E na época aquele lugar parecia para ela o melhor canto do mundo. Não havia nada Mais confortável do que o velho sofá afundado com uma mancha de chá no braço de madeira. E aqueles papéis de parede simples,
com desenhos de losangos e arabescos, alegravam o ambiente. Na cozinha minúscula, com dois armários suspensos e um fogão a gás antigo que Clara levou quase se meses para aprender a acender sem medo. Tudo parecia mais fácil, mais gostoso. E mesmo sem entender de técnicas modernas ou de ergonomia, ela cozinhava com leveza e as Comidas sempre saíam deliciosas. A ventilação da cozinha, uma simples abertura na parede coberta por uma grade de plástico perto do teto. E agora, agora parecia que ao se mudarem eles haviam trazido móveis, livros e utensílios, mas deixado para trás, naquele pequeno e
apertado apartamento herdado da avó de Marcos, o que mais importava, o verdadeiro aconchego, aquele tipo de felicidade pessoal, íntima e impossível de explicar, só de Sentir. que aquilo com certeza não tinha nenhuma relação com forno embutido com 20 funções, geladeira que ultrapassava a altura de um adulto, ar condicionado com controle remoto, nem com dois banheiros brilhando de porcelana. Clara pensava cada vez mais sobre a vida deles. Uma vida que por fora parecia perfeita. Um apartamento espaçoso, moderno e bonito. Viagens em família todos os anos, roupas e calçados de qualidade, carrinho de supermercado cheio, toda semana
com os Melhores produtos. E se parasse por aí já seria bastante, mas indo um pouco mais fundo, também parecia tudo muito respeitável. Afinal, Marcos era sócio de uma empresa pequena, mas bem estabelecida. Marcos, apesar de já não tão jovem, ainda era um homem bastante atraente e em excelente forma física. Clara, por sua vez, já não era uma garota, mas continuava muito bem para sua idade. Cabelos bem cuidados, unhas feitas, aparência impecável. André e Rafael continuavam hiperativos, incansáveis, fazendo com que suas professoras regularmente se sobressaltassem e trocassem entre si as últimas histórias, sempre surpresas com a
inesgotável criatividade dos irmãos vasconcelos. Apesar de tanta energia, os dois meninos conseguiam tirar boas notas e, para sorte geral, gastavam a maior parte da pressão interna nas aulas de esporte. André tinha um talento evidente para matemática. Rafa, por enquanto, Ainda não mostrava nenhuma habilidade específica, mas também não parecia disposto a ficar entre os últimos. No geral, Clara e Marcos podiam se orgulhar dos filhos. Até mesmo o Inquieto Caramelo, agora já um cão de meia idade, parecia mais calmo. Passou a respeitar os sapatos da família e depois da mudança para o novo apartamento, comportava-se como um
verdadeiro cão de pedigri, digno de decorar qualquer lar. Ou seja, por fora tudo estava perfeito, Mas por dentro Clara começou a sentir que havia um grande vazio, uma sensação incômoda de que ela e Marcos já não precisavam um do outro. Afinal, quem era ela para Marcos agora? A mãe dos filhos dele? uma cozinheira eficiente naquela cozinha impecável, a zeladora de um lar que já nem parecia um lar de verdade. E aquela mulher maravilhosa de outros tempos, aquela que ele dizia ser a mais incrível do mundo, quando foi, afinal a última vez que ele lhe disse
algo Simples, mas bonito, quando haviam se sentado lado a lado, em silêncio, apenas segurando as mãos e sentindo o calor um do outro, ou juntos até os ombros tremerem. E as flores? Quando foi que ele lhe deu flores? Só porque sim, não por ser 8 de março ou aniversário, mas simplesmente porque quis. E quando saíram juntos pela última vez, só os dois, ela nem conseguia lembrar. Talvez, pensou Clara, as mágoas tivessem se acumulado uma após a outra, camadas e Mais camadas, pintadas com cores cada vez mais intensas, até que inevitavelmente precisavam de algum escape. "Marcos,
escuta, a gente precisa conversar", tentou ela em um impulso, como uma tentativa desesperada de sair daquele beco sem saída. Marcos, ao contrário do que Clara esperava, não revirou os olhos, nem suspirou como quem carrega o peso do mundo. Em vez disso, olhou diretamente para a esposa e disse com calma: "Então, vamos conversar, Clara." A disposição inesperada dele a deixou confusa, desarmada, talvez por impulso, ela atacou. Sabe, eu estou de saco cheio, cheia dessa vida", declarou, fazendo um gesto vago com a mão ao redor. Virei uma dona de casa, um robô doméstico, uma escrava. Marcos a
escutava com aparente indiferença, mas quando ela soltou a última palavra, ele se animou. Escrava. É que interessante. Porque sinceramente eu nem lembro da última vez que comi uma refeição decente Em casa. Clara. Você praticamente parou de cozinhar. Não entendo porque gastou tanto tempo e dinheiro naquela cozinha se mal a usa. Não me diga que cozinhar salsicha pros meninos agora é um feito culinário. Ah, então você queria que eu passasse os dias em pé no fogão, passando suas camisas, cuidando dos seus filhos, do seu cachorro, da casa e ainda te esperando à noite vestida de camareira
ou de enfermeira sexy. Calma, Clara. Marcos balançou a cabeça, mas Pensando bem, essa última parte não seria má ideia de vez em quando. Vai sonhando, retrucou ela, ríspida, só para te lembrar, eu também trabalho e além disso, cuido dos seus filhos. Clara falou com tanto drama que parecia que André e Rafael ainda eram bebês de colo, exigindo atenção o tempo inteiro. "Nossos filhos, Clara", rebateu Marcos, irritado pela primeira vez. E sim, você trabalha, mas quem realmente sustenta essa casa sou eu. E sustento bem o Suficiente para você trabalhar só para desfilar suas roupinhas novas, que,
aliás, também sou eu quem paga. Que nobre da sua parte, ironizou Clara. Então agora é um ato heróico sustentar a própria família. Meus parabéns, você é um mártir. Só falta agora jogar na minha cara as roupas que você me deu. Ela se levantou exaltada. Quer saber? Leva tudo. Pode doar, jogar fora ou dar para quem quiser. Quem sabe aquela minha roupa nova, aquela que nem abri ainda. Fica à vontade, leva. Aquela roupa nem teve a etiqueta cortada, disse Clara, com ironia. Assim a madame já vê logo o quanto você a valoriza. Marcos começava a perceber
que estavam indo longe demais. tentou encerrar a discussão. Clara, sinceramente, tudo isso aqui não faz sentido. Essa conversa, o que estamos falando um pro outro? Murmurou ele já cansado. Vamos parar com isso. Os meninos já vão chegar da escola. Não quero que eles ouçam. Eu também não Quero. Mas talvez fosse até útil eles ouvirem para entenderem que o pai deles não dá o menor valor à mãe. Rebateu Clara, com voz firme, antes de se retirar com dignidade do campo de batalha. Essas brigas tensas estavam se tornando cada vez mais frequentes. Às vezes começavam por provocações
bobas, mas geralmente surgiam do nada por motivos insignificantes. Clara, em mais de uma ocasião, pensou seriamente: "Talvez Tenha chegado ao fim. Talvez a gente só precise aceitar e seguir caminhos diferentes." Mas essa ideia, por mais simples e racional que parecesse, a aterrorizava. Como seria viver sem Marcos? Não era só sobre dinheiro, embora honestamente também fosse. Era sobre a ausência dele. Ela já nem se lembrava de como era existir sem a voz de Marcos, sem olhar firme e calmo dos olhos castanho escuros, sem aquele tom meio irônico de quem sempre parece saber O que está fazendo.
Só que manter tudo como estava também parecia impossível. Depois de mais uma dessas brigas, Clara foi tomada por uma constatação assustadora. Estamos ficando iguais aos meus pais. Pior, já estamos como eles eram. Marcos a chamou de teimosa, disse que ela só pensava em si e ela o chamou de insensível e egoísta, preocupado apenas com comida e conforto. O próximo passo, pensou Clara horrorizada, seriam acusar o outro de ter arruinado a Própria vida. Enquanto refletia sobre tudo isso, ela quase criou coragem para tentar uma abordagem diferente. Talvez, quem sabe, até pedir desculpas. Mas então aconteceu algo
que pôs fim a qualquer intenção de reconciliação. Clara, oi disse a voz familiar de Silvia ao telefone. Como vai a vida? Ah, mais ou menos respondeu Clara, sem entusiasmo. Silvia percebeu o tom na hora. Cruz. Credo! Que voz é essa? Quem fala assim parece até que tá sendo Traída. Nossa, Clara, você tá mesmo diferente", comentou Silvia. Continua atormentando Marcos com as suas cobranças. Olha, vou te dizer, desse jeito você vai acabar ficando sozinha. Ou melhor, não sei não, porque conhecendo teu marido, duvido que ele vai embora tão fácil. Silvia continuava falando, mas Clara já não
ouvia mais nada. Apenas uma palavra martelava em sua mente: férias. Há muito tempo, Clara nem Considerava essa possibilidade. Uma viagem com Marcos, impossível. Eles mal conseguiam manter uma conversa sem cair numa discussão. Pensar nos dois num resort, fingindo que estava tudo bem, soava mais como o roteiro de uma comédia trágica. Clara sempre sentiu pena. Em certos casos, até um certo desprezo, por casais que brigavam nas férias. estragando o próprio descanso e o dos outros com aquelas farpas mal disfarçadas. "Mas por você acha que eu Tô indo viajar?", perguntou Clara, cortando o raciocínio da amiga. "Ah,
para com isso," reagiu Silvia, rindo. "Quando o marido compra uma mala nova, é sinal de que ele não quer ouvir reclamação por falta de espaço, né? E vamos combinar, Clara. O Marco sempre foi muito econômico, contido, estilo monge. Já você, minha filha, leva bagagem como quem vai se mudar. Nunca vou esquecer aquela vez que você foi pra praia com oito biquínis. Oito? Silvia Caiu na gargalhada. Aí pensei, a mala antiga não deu mais conta, né? Precisou de uma mala nova pro guarda-roupa. Verão 2025 da Clara. Espera, Silvia. Quando foi que você viu, Marcos? Interrompeu Clara,
gelada. Ontem à noite no shopping respondeu Silvia, sem hesitar. Tava com o Simão, fui buscar ele da natação, só que me atrasei. Fiquei provando sapatos maravilhosos. Você precisa ver. Ah, e tem uma bolsa lá do jeitinho que você Queria, Silvia, insistiu Clara, voltando ao ponto. Você tem certeza de que era o Marcos? Ai, Clara, por favor, né? Tô ficando velha, mas ainda não tô cega. Era ele sim, com aquele sobretudo preto que ele adora. Aliás, onde vocês compraram mesmo. Tô pensando em arranjar um igual pro meu Igor. Vai que ele fica um pouco mais parecido
com o seu galã. Tá bom. Silvia, deixa para lá. E desculpa se fui meio seca", disse Clara, tentando disfarçar o desconforto. "Depois eu te mando o nome da loja do casaco." Desligou o telefone e por alguns segundos ficou parada, tentando processar a informação. O coração disparado, a cabeça girando. Quando Marco chegou em casa, no fim da tarde, Clara já o esperava na sala, sentada com as mãos entrelaçadas, lutando para conter a raiva e o nervosismo. Ele entrou com naturalidade, tirou o casaco e largou a mochila no canto, como se fosse só mais um dia comum.
Clara se Levantou devagar e o encarou. "A gente precisa conversar", disse com a voz firme. Marcos a olhou, surpreso com o tom. "Agora, agora?", confirmou ela, sem hesitar. "O que foi dessa vez? Você mentiu para mim, Marcos? Ontem disse que ficou até tarde no escritório, mas eu descobri que estava no shopping. Ele abriu a boca para responder, mas ela levantou a mão. Não adianta, interrompeu. Só diga a verdade. Seja honesto ao menos uma vez. Marcos desviou O olhar, pensou por alguns segundos e então encarou Clara de volta, com uma expressão dura. Se eu disser que
não tenho ninguém, você vai acreditar? Não", respondeu ela, sem rodeios. "Então, para que perguntar?", rebateu ele, impaciente. "Você já tirou suas próprias conclusões?" "Então é verdade", murmurou Clara, sentindo um arrepio percorrer o corpo. Marcos passou a mão no rosto, exausto. "Homem de verdade, né?", disparou Clara, perdendo o controle. "Claro, tá com outra. Resolveu trocar por uma mais nova, mais bonita. mais fresquinha. Por isso que tá tudo uma droga entre a gente. Clara, eu não tenho ninguém, afirmou Marcos com firmeza. Ah, não. E aquela mala enorme que você comprou ontem no shopping vai dizer que é
para uma viagem a trabalho? Me poupe, não acredito em uma palavra sua. Você é um mentiroso. Mala. Ele repetiu confuso. Que mala do que você tá falando? Não se faz de bobo. Já entendi tudo. É a Júlia, Né, sua queridinha assistente. Claro, cansou de levar papelada. Agora quer outro tipo de serviço, ou melhor, ela bufou. Sarcástica. Júlia é muito sem graça para você. Deve ser a Natália, aquela que cuida dos seus contratos. Aposto que vocês fecharam um acordo especial. Deve ser uma parceria bem lucrativa, né? E os carimbos? Quantas vezes por semana vocês usam? Ou
já virou rotina diária? Clara perdeu o controle e já não conseguia mais parar. Marcos, em Silêncio, levantou-se e saiu do apartamento, batendo a porta com força. Ela inventou qualquer desculpa para os meninos, assustados com o barulho. Depois ficou muito tempo sentada, olhando pela janela escura. E quando Rafael começou a ter febre, fingiu para si mesma que estava acordada apenas por isso, só por isso, e que o resto não importava. Assim, amanheceu que seria seu primeiro dia verdadeiramente solitário em muitos anos. Um dia frio, Vazio e sem esperança. Clara continuava ali parada, com uma caneca de
café já frio nas mãos, olhando para o nada. Foi o som do celular que a despertou do torpor. Ela pegou o aparelho e, ao ler a notificação, demorou a entender o que estava escrito. Precisou reler várias vezes até se dar conta do que tinha acontecido. Todo o dinheiro da conta que usava no dia a dia havia sido sacado. Clara sempre foi descuidada com cartões e senhas. Perdia com frequência, Esquecia os códigos, trocava os números. Depois de muito se irritar com isso, Marcos havia aberto uma conta separada e passou a transferir mensalmente valores generosos para o
uso dela e da casa. Justamente dessa conta havia assumido tudo até o último centavo. Essa crueldade tão explícita vinda de Marcos fez algo dentro dela despertar. Um tipo de energia fria e decidida. Ela pegou o telefone e discou o número dele sem hesitar. Bom dia, homem mais nobre do Mundo", disse claro ao telefone com ironia. "Vejo que começou o dia bem cedo, esvaziando as contas da família. Ficou com medo de eu, no desespero, sair gastando tudo numa onda de compras e te levar à falência?" Marcos suspirou do outro lado da linha. "Eu vou viajar a
trabalho. Preciso juntar todo o dinheiro que puder agora." "E o que eu tenho a ver com isso?", retrucou ela fria. Ele então respondeu com amargura: "Não era você que vivia dizendo que queria Independência? Pois aproveita. Sempre fez questão de lembrar que eu tinha o meu dinheiro e você o seu. Então pronto, agora viva com o que é seu, sem depender de mim. E com desdém, completou. Vai ficar um tempo à base de ração, mas não vai morrer por isso. Sempre quis emagrecer, não foi? Tá aí sua chance. Clara os dentes, tentando manter a calma, mas
não conseguiu. A raiva transbordou e ela gritou, chorando de indignação. Canalha, miserável. Eu sei Muito bem qual é essa viagem de trabalho. E com quem você vai? Como fui burra por tanto tempo. Você destruiu a minha vida. E então, sem querer, deixou escapar a frase que jurou nunca dizer. Aquela maldita frase que sempre prometeu engolir, mas agora estava dita. Como tinham chegado àquele ponto? Marcos aproveitou o silêncio repentino e falou com a voz mais baixa. Clara, me desculpa, isso tudo tá errado. Me perdoa. Ela permaneceu parada, imóvel, Até ouvir o som de uma notificação no
celular. Era uma mensagem do banco. Clara olhou a tela confusa e precisou reler mais de uma vez para acreditar. Parte do dinheiro havia sido devolvida à conta. Ele se arrependeu, pensou, esboçando um sorriso torto, quase involuntário. Mas o sorriso durou pouco. Seu olhar endureceu de novo. Podre. Que enfie esse pedido de desculpas onde quiser. A alma dela gritava por vingança. Tudo bem. Ele tinha pego que Era dela, mas ela sabia revidar e faria da forma mais dolorosa possível. Aquele miserável ia se arrepender. Em poucos minutos, Clara encheu duas bolsas grandes com essencial e levou até
o carro. Depois entrou no quarto dos filhos e anunciou com firmeza: "Vamos embora, meninos, para bem longe da cidade." Ao ouvir a voz decidida da dona, Caramelo entendeu na hora que vinha aventura e correu até ela, abanando o rabo. Em seguida, pulou na Cama e começou a puxar o cobertor dos meninos. Ah, mãe, deixa a gente dormir", resmungou André, enfiando o rosto no travesseiro. "A gente tá de férias e eu tô doente", completou Rafa com a voz abafada. "Vamos, vamos, doentes, saudáveis, bagunceiros ou comportados. Todo mundo de pé agora", disse Clara, decidida, abrindo a janela
e puxando as cortinas para deixar a luz invadir o quarto. "Muito bem", anunciou Clara, erguendo a voz. "Quem não estiver de pé E pronto em 10 minutos vai ficar em casa lendo os livros da lista de leitura obrigatória das férias." Mesmo com o coração apertado, ela não conseguiu segurar o riso ao ver os filhos praticamente saltarem da cama como se tivessem levado um choque. "Mãe, a gente vai para onde? O que é para levar? Vamos de carro mesmo. Posso levar o tablet e precisa arrumar a cama? Mãe, o caramelo pegou minha calça. Fala para ele
devolver. Que nojo, Rafa. Para de Encostar em mim. Sai com esses donuts. Seu X9. Algazarra tomou conta do quarto. Os meninos falavam todos ao mesmo tempo. Caramelo latia e pulava ao redor, animado como se comandasse a bagunça. De repente, André parou, franzindo a testa, e o papai Clara respirou fundo antes de responder, mantendo a voz calma, mas firme. O papai não vai com a gente por enquanto. Você sabe como ele trabalha muito. Agora precisou viajar a trabalho. Ela disse aquilo com tanta convicção que Sua própria voz lhe pareceu estranha. Sabia que ele não voltaria tão
cedo, talvez nunca mais. Cerca de uma hora depois, os meninos já estavam sentados no banco de trás do carro. Entre eles aparecia a cabeça dourada de caramelo. Curioso. Clara checou a bagagem no porta-malas, conferiu os filhos e então se sentou ao volante. Foi nesse momento que uma voz interna sussurrou. O que você está fazendo? Ficou maluca? Não pode simplesmente fugir assim. Brigou Com Marcos. Tudo bem. Mas e os meninos? O que eles têm a ver com isso? Você sabe o quanto ele os ama. Ele vive por eles. Ele vai sobreviver, respondeu teimosa, uma força nova
que despertou nelaquela manhã. E os meninos, eles precisam do pai. Vai desaparecer? Tirar os filhos dele assim? Isso é crueldade. E o que ele fez comigo? Não foi rebateu outra voz dentro dela, ferida, amarga. Clara balançou a cabeça como se pudesse calar os pensamentos e deu a partida. O carro Saiu devagar pelas ruas da cidade, com o céu nublado ao fundo. Horas mais tarde, estacionou num vilarejo escondido entre campos e matas. Ao avistar uma mulher baixinha e sorridente caminhando pela rua, a única do lugar, Clara desceu do carro e se aproximou. Com licença, será que
a senhora pode nos ajudar? Estamos procurando um lugar para ficar por alguns dias. Ora, sejam bem-vindos, respondeu a mulher, abrindo um sorriso caloroso. Que turma simpática. Vamos ver O que conseguimos por aqui. Posso indicar algumas opções disse a mulher. Mas se quiser podem ficar lá em casa mesmo. Meu filho se mudou paraa cidade no ano passado e metade da casa ficou vazia desde então. Poucos minutos depois, Clara já examinava a casa de madeira, ampla, com alpendre alto e janelas limpas e bem cuidadas. Perfeito. Gostei muito disse ela. Se a senhora não se incomodar com vizinhos
um pouco agitados e com o cachorro, então acho Que ficaremos aqui por uma semana. Mas é claro, fiquei sim. Aqui é bom demais", respondeu a mulher com um sorriso acolhedor. "Você deve ter sentido o ar puro, né? Tem nascente aqui por perto. O mato é cheiroso e o rio fica logo ali. Só peço para não deixarem os meninos irem sozinhos até lá", disse, franzindo um pouco a testa. São bem espertinhos, pelo que vi. À noite, meu sobrinho Vittor chega da cidade com a mãe. Posso trazê-lo para conhecer os seus filhos. Ele é um rapaz sério
e responsável. Pode ajudar a manter esses dois sob controle. Só tem um detalhe aqui. A conexão de celular é bem ruim, avisou, observando os garotos correndo pelo alpendre com os braços erguidos, tentando caçar sinal com celulares. Ótimo comentou Clara, satisfeita. Assim eles vão passar menos tempo com os olhos grudados em tela. Caramelo, não larga isso! Gritou ao ver o cachorro cavando furiosamente um canto sobre o alpendre, jogando terra para Todo lado. Ah, o pobrezinho deve estar doido com cheiros novos", riu a anfitriã. "Deixa ele cavar. Quem sabe em uma semana ele não acaba com a
alicerce da casa, né?" A dona da casa, dona Emília, os abasteceu com alimentos frescos e, garantindo que traria o tal Víor mais tarde, se despediu. Clara, ainda semerrando os olhos sob o sol, balançava-se devagar no velho balanço de correntes, pendurado no galho de uma enorme bétola. Os meninos, deslumbrados Com espaço, o ar puro e as novas aventuras, corriam felizes pelo terreno. No início da noite, Víor finalmente chegou. Um adolescente de 15 anos, sério e educado, que logo passou confiança clara. O ar realmente tinha algo especial, límpido, com notas de pinho, ervas frescas e mais algum
elemento que Clara, sendo uma mulher da cidade, não sabia identificar, mas sabia sentir. Ela não conseguia entender aquele aperto no peito e a confusão na cabeça. Como seria Bom se não fosse por essa névoa nos pensamentos e esse peso frio no coração. Mas tudo bem, Clara sabia que ia superar esses arrependimentos tolos. Bastava tempo. Afinal, não era como se tivesse perdido um sapato. Era algo muito maior. Caramelo, para com isso! Gritou de repente ao perceber que o cachorro havia voltado a cavar embaixo do alpendre. O que você tá procurando aí, seu danado? Clara se levantou,
foi até o alpendre, puxou o cachorro pela coleira e se Agachou para ver o que ele tanto escava sob as madeiras antigas, já escuras pelo tempo. Pelo visto, Caramelo não tinha ficado parado esses dias. Ele parecia um escavador nato. Havia aberto uma cova considerável no chão, misturado com barro. Pestinha, resmungou Clara para o cachorro. Vai pro cabresto e fica preso até a hora de irmos embora. Ela pegou uma pequena pá e foi até a cova para tentar apagar o rastro da bagunça que o cachorro fez, mas então congelou. No Fundo do buraco, entre a terra
fofa e o barro, aparecia um canto de algum objeto. Clara esticou a mão, puxou o que parecia ser um embrulho. Após alguns minutos de esforço, com resmungos, suspiros, arranhões, batidas na cabeça nas vigas do alpendre e xingamentos carinhosos ao caramelo, conseguiu retirar um pacote retangular envolto em um tecido grosso ou talvez papel encerado, amarrado várias vezes com barbante quase podre. Dona Emília, posso Entrar?", chamou Clara, batendo na porta da parte principal da casa. "Olha só o que meu bandido cavou debaixo do alpendre", disse, ainda sem acreditar, e apontou para o cachorro, o de quatro patas.
Pouco depois, as duas estavam em silêncio diante da mesa. Haviam desembrulhado camada por camada de papel, tecido e saco de estopa até encontrarem uma pequena caixa de madeira. Dentro dela jazzia uma antiga imagem religiosa. "Meu Deus do céu", Sussurrou dona Emília, tocando com reverência o couro envelhecido. "Isso aqui é uma Bíblia. Deve ser da antiga igreja do vilarejo." Ela ficou algum tempo contemplando o livro com os olhos marejados. Na época em que tentaram destruir a igreja, muita gente escondeu objetos sagrados como pôde. E uma dessas bíblias ficou aqui todo esse tempo embaixo do nosso alpendre.
Um achado desses disse dona Emília com os olhos marejados. Eu é que não vou cobrar nada De vocês. Pelo contrário, acho que sou eu quem está em dívida agora. Dos traços apagados da capa, parecia que olhos vivos, escuros e firmes olhavam de volta para elas. atravessando tempo, ao mesmo tempo sérios e compassivos. Clara nunca tinha sido uma pessoa religiosa, mas o que sentiu naquele instante a surpreendeu. Era uma vergonha quente e sincera, igual à aquela que a gente sente na infância quando a mãe pega a gente fazendo algo errado. Clara olhou Em volta, sem saber
o que dizer, encontrou o olhar compreensivo de dona Emília. Tem algo pesado aí dentro, minha filha. Senti isso logo que vi você. Não sei se posso ajudar, mas diante disso aqui, ela indicou a Bíblia com gesto respeitoso. Quem sou eu? E Clara contou tudo para uma mulher que conhecia havia poucas horas e para a velha Bíblia sobre a mesa, que parecia escutar com atenção e firmeza. Ele não me ama mais, não me valoriza, não precisa de mim. A verdade É que ele não me merece, desabafou clara a voz embargada. Isso se chama orgulho, minha filha",
disse dona Emília após um silêncio. Orgulho. E só tem uma coisa que vence o orgulho, o amor. Só o amor traz felicidade verdadeira, mas tem que ser o amor de verdade, viu? Aquele que não exige nada em troca, que só dá. Clara ficou ali imóvel, abalada, olhando para a capa e de repente sentiu como se toda a mágoa e a confusão tivessem sido lavadas do seu peito. No fundo, era tudo Tão simples. O amor não espera, oferece. Em vez de se queixar, porque Marcos não lhe trazia flores, não dizia palavras bonitas, não a convidava para
sair ou não demonstrava carinho, ela se perguntou: "E ela, quando foi a última vez que teve um gesto de afeto? quando ouviu de verdade, quando abraçou sem cobrança, foi ele quem me deixou, dizia. Mas será que não foi ela quem o abandonou primeiro? Se ele se perdeu, então que ela o ajude a se reencontrar. Apoie, perdoe e ame, e seja feliz você também. Era isso que ela queria, amar, perdoar, ouvir e estar ao lado dele. Sim, ela queria. Então ela ainda amava Marcos e todo o resto não importava mais. Toda a confusão, os medos tolos,
as desconfianças, todas as acusações que fez a ele, tudo isso parecia tão pequeno agora, principalmente considerando que Marcos nunca teve um casaco preto. E mais importante ainda, ela sabia, com toda a certeza do mundo, que ele não Tinha ninguém além dos meninos e dela. Sim, ela tinha certeza disso. Então, o que estava esperando? Com mãos trêmulas, Clara discou o número do marido. Alô, Clara, é você? A voz dele veio trêmula do outro lado da linha, clara. E naquela voz não havia nada daquilo que ela temera. Não havia raiva, nem mágoa, nem gritos, nem cobrança, nem
julgamento. Havia apenas dor, uma dor funda, uma saudade tão densa que dava para sentir até pelo telefone. Sou eu! murmurou ela Com a voz embargada. "Clarinha", respondeu ele, um sussurro cheio de emoção. "Como é bom ouvir sua voz. Como é bom você ter ligado. Eu preciso dizer: "Eu não consigo viver sem você. Eu te amo. Você continua sendo a mulher mais incrível do mundo. Me perdoa por ter passado tanto tempo sem dizer isso. Clarinha, meu amor, eu não preciso de nada, nem do apartamento, nem do dinheiro, nem dos jantares, nada. Só preciso de você, de
vocês, dos meninos, Até do nosso cachorro maluco. Eu não sei viver sem vocês. Não sei. Ele continuava falando emocionado, com a voz abafada e urgente. E Clara deixou as lágrimas rolarem, quentes, livres, porque eram lágrimas de alegria, da mais pura e simples felicidade. Com o coração leve e a mente clara, Clara voltou para casa com os filhos e o cachorro ao seu lado. Ao abrir a porta, encontrou Marcos parado na sala, com os olhos marejados, como se tivesse esperado por ela a vida Inteira. Sem dizer uma palavra, os dois se aproximaram e se abraçaram forte,
como quem sabe exatamente onde é o seu lugar. Ali, no silêncio daquele reencontro, prometeram um ao outro que, dali em diante escolheriam amor todos os dias e que nunca mais deixariam tempo ou orgulho afastá-los novamente. Muito obrigado por assistir a mais uma história aqui no Recanto das Histórias. Se gostou, não se esqueça de curtir. Para você é só um clique, mas para mim Faz toda a diferença.