Bom, vamos paraa África agora. O, a gente inicialmente o convite era para falar sobre Burquina Fáo. Burgina Faço é este painho ali tingido de vermelho na África.
Eh, ele está, ele faz fronteira com a costa do Marfim, com a Gana, com o Togo, com o Benim, com a Nigéria e com Mali. é um país de 16 milhões de habitantes. Foi colônia francesa de 1896.
000, o final do século XIX até meados do século XX, até 1960. Era conhecido como República do Autolta, um nome detestado, odiado pelos habitantes de Burkina Faço em 1984, né? abandonou então a denominação que era uma herança ainda do período colonial e passou a se chamar Burkinafasso.
Era o Thomas Sancara, que era então o líder eh do país, criou um nome nove, o nome novo nome que é uma que que é burquina fácil, né? A partir das palavras burquina, que quer dizer homens íntegros, e faço terra natal, o que resulta em terra das pessoas íntegras. Este é o nome do país, hoje liderado por essa figura que todo mundo quer conhecer, que é o Ibraim Roré, né, que foi e que teve um destaque grande agora na ida do eh na ida dele para o Dia da Vitória.
Foi recebido pelo Putin, teve grande destaque a ida dele lá. E aí tem uma grande interrogação, que que é essa Burquina Fo? Quem é esse tror e que processo tá rolando lá?
Bom, vamos lá. A primeira coisa que a gente tem de mentalizar tem umas coisinhas a respeito à África. Burkina Fá é um país rico.
Burina Fá um país rico. Burquina Fá é um país rico. Vocês vão olhar lá.
Não, Hugo, é um país muito pobre. Não, porque na face é um país explorado, é um país dono de riquezas naturais extremas e é um país que foi empobrecido mediante a exploração num processo colonial muito violento, que como você bem colocou, é uma coisa começa no século XIX. Porque foi inclusive o território atual sede de muitas civilizações no passado com cidades.
Não vou fazer aqui um elogio à civilização, mas se a gente for fazer um elogio à civilização, era um território civilizado, teve reinos, teve riqueza, que conviveu com o antigo império do Mali ali no em cima dele, com quem ele sempre teve uma relação de contradição. é um país eh multiétnico, é um país que tem e muitos grupos, mas basicamente se dividem entre os grupos gur e os grupos lá mandé, os mandinga, palavra mandinga em português, né? Dos grupos ali do grupo étnico dominante ali no norte, no Mali, e que sempre teve uma relação ali de de contradição e de colaboração com o Mali ao longo do tempo, mas é um país que tem ouro, é um país que tem recursos naturais, que os franceses exploraram para caramba.
E um detalhe, Burkina faz como Autovolta se torna independente num processo muito hábil da França, porque pouca gente discute a descolonização, mas tem um ponto importante, porque na Fá se tornou um país independente, como com os franceses tramando uma independência de mentirinha, que é mais ou menos o processo do Gabão. Então, como os franceses perceberam que iam perder o os dedos, eles entregaram os anéis. Em alguns casos em África, eles foram hábeis de empossar uma elite local para continuar fazendo negócios coloniais, explorando para caramba o país com aquela ilusão que agora é um país independente.
Houve casos, é claro, de levantes, alguns lugares de África. O Senegal foi um exemplo de um de um levante aí de um um grupo burguês e e o Senegal que tá ali do lado, eh, mas que era no primeiro momento independência contra a França, que na Fáil não foi um ardiu. Então, os militares de Burgina Fáo, eles eram, claro, treinados, tinham um estudo e eles continuaram servindo nessa fraude que era autovolta como um exército colonial.
E muitos deles, como Sancarrá nos anos 80, eles sacaram que eh o eles na verdade estavam tocando a fraude, influenciados pelo o socialismo, pelas leituras do marxismo, eh eles protagonizaram um uma independência e, claro, deram o nome no país, que é uma fusão, na verdade, de duas palavras, de duas línguas diferentes, dos dois grandes grupos, né, de línguas lá. uma palavra, uma vem do burquiná, vem do da língua principal lá do more ou mosse, e a outra vem do diula, que é a principal língua mandinga lá de Burquina Fáil. Então ele foi hábil até para criar o nome do país com uma palavra que vem de um campo e de outro e promoveu um um regime eh um regime socialista que inclusive até o o próprio Jones aqui, o dono desse canal, ele assina lá uma coletânia lá pela autonomia literária, não é, a respeito do processo africano, a revolução africana e trata das questão do sancarraque.
foi uma liderança iluminada, uma liderança que honrou eh, digamos, aquela os melhor as melhores intenções da luta anticolonial na África, ao contrário de outras figuras que foram importantes, mas tinham mil defeitos. O Sangará é uma figura muito difícil de atacar. E é claro que diante de dessa postura, ser uma liderança íntegra que reflorestou o país, que distribuiu renda, que levou educação, que levou modernidade, que buscava romper com esses laços coloniais, é óbvio que começou a haver uma manobra contra ele dentro das Forças Armadas influenciada influenciadas pelo Ocidente, pela França principalmente no momento em que a França estava retomando o controle das suas exolônias na África.
inclusive daquelas que romperam, rompendo, mas que se mantiveram capitalistas. A França e o Ocidente inteiro trabalhou para que esses países se tornassem inviáveis. E o Françoiterran, que era socialista, ele fez uma política bonitinha, doce, de abraçar todo mundo.
Vamos aqui fazer uma grande solidariedade internacional que na prática, Mauro, promoveu uma recolonização. E quem era o grande entrava esse processo de recolonização? Sancarrá.
Só que o Sancarrá tava no poder quando no momento que a União Soviética caminhava pro fim. Então, como é que ele poderia buscar um apoio internacional esse movimento, sendo que em África muitas lideranças caminhavam para voltar para o guarda-chuva francês, inclusive abrindo mão de suas moedas, inclusive passando a depositar suas riquezas lá no Banco Central Francês, voltando a utilizar a moeda francesa que os franceses que era o franco CFA, que era o franco das colônias francesas em África, que que virou da comunidade idade financeira africana e mantiveram o CFA como sigla, que é uma coisa ordinária. Eh, isso num momento em que essa África Ocidental, que é uma região grande, que hoje tem mais gente que a União Europeia e a gente ignora completamente aqui no Brasil, mas uma região que tem mais gente que a União Europeia e tem recursos eh naturais, incalculáveis, a França junto com a Inglaterra, junto com os Estados Unidos traçou esse reenquadramento daquela região.
Então eles matam o Sangkará e eles colocam um ditador lá que é o Bleskan Pau Reou, não trocou o nome do país, não voltou a se chamar Autovolta, mas manteve eh o regime como ele tava colocado ali. Eh, o Campau Rei ele tinha alguma dificuldade junto com movimentos islâmicos. Burquinafas é um país majoritariamente islâmico, porque aqueles grupos étnicos foram sendo islamizados, porque daquela região, daquele país até o Sudão, tem uma grande faixa que sempre foi ocupada por caravanas de comércio.
É, tanto é que tem muitas etnias semelhantes do Sudão até ali e as etnias locais que negociam com aquela com esse pessoal que cruzava o deserto nessa chamada região do sarrel que fica entre o Sahara e a África banto que tem as florestas assim tudo aquilo que como a gente imagina a África. Eh, então você tem islamismo e teve a penetração de um islamismo radical bancado de uma maneira estranha pela Arábia Saudita. [Música] E a a Arábia Saudita, esses grupos salafistas fazendo uma política que interessava o Ocidente.
E claro que a Rússia, claro que a China começaram a entrar ali mediante o quê? Comércio mesmo com campa rei. O que começou a mudar a correlação de forças o quê?
Econômica. Até que o campau re que ninguém aguentava mais, que era um ditador canalha derrubado. E aí o país passa por uma instabilidade e a maneira como o ocidente busca evitar que que ele caou um novo sancarraf o quê?
Fazendo vista grossa para esse eh e eh e e essas organizações terroristas que na verdade faziam um jogo ocidental, justificavam a presença militar do ocidente ali dentro. Uhum. não faziam nada contra o interesse ocidental, dominando áreas, porque o norte do Burkina Fá tá basicamente dominado por esses grupos.
Ainda há uma guerra civil em curso lá. E muitos dos militares que combatiam eh e essas organizações com dinheiro saudita, com e e alinhada à política externa ocidental, começaram a se questionar. Um deles é esse jovem brilhante Ibrahim Traoré.
Eh, acho que a pronúncia do nome dele não é essa, é é Traorai. Eh, é a pronúncia a francesada, francesada, né? A gente sempre sabe muito pouco, né?
Porque a maneira como as colônias elas pesam ali, ele é um cara do interior, ele não é um cara da capital, eh ele é acho que de etnia mandinga, que é ligada mais aos grupos étnicos do Mali. Isso é o Sarahrel, entendeu? essa essa faixa e é uma faixa, eu costumo dizer, a África ela foi mapeada muito tempo depois, mas assim tem duas e três Áfricas, mas as duas Áfricas que o Sarrel tá aí no meio e o norte que é o Magreb e o Egito, eles sempre foram regiões assim horizontais, né, de migração leste a oeste, de itinerância de comerciantes.
E é assim que o islamismo entrou na Ponta Oeste, né, que chegou ali na costa do Atlântico. É dessa maneira como isso aconteceu. Enquanto a parte central e sul da África é uma região que já aí tem eh fluxos e em outra em várias direções, mas sempre giraram em torno desse grande estado que tá aqui no meio, que é o Congo, né?
O grande império que também precisou ser destruído para submeter à África. Agora essa eh veja aí, volta voltando ao traurê, ele é geólogo de formação, ele é um cara que estudou, ele é um cara de forças especiais, né? E é um cara que junto de um oficial jovem parou e se perguntou: "Pera aí, o que que tá acontecendo?
" E ele teve aliança com quem? Porque na faculdade ele teve contato com associações nacionais marxistas que ainda existiam. E como é que tem o marxismo ali?
As pessoas vão se perguntar, porque na época que a França vai e domina o o que hoje burquina faço, é óbvio que ela precisava formar um elite local para manter a tarefa colonial. E tinha muita gente que ia estudar na França, porque veja, eh, precisa ganhar a vida, mas precisa entender como funciona. E lá na metrópole, muitas dessas pessoas que já tinham uma consciência anticolonial, às vezes nem sempre expressa, e outras que não tinham, passaram a ter contato entender o que era a metrópole e que tinha um movimento anticolonial dentro da França por outro viés da luta contra a burguesia francesa que se mantinha com a colonização.
Em grande medida, o Partido Comunista Francês, no seu início teve um papel muito importante, inclusive com muitos estrangeiros, inclusive gente de colônias da Ásia. Imagine, Rochimin foi fundador do Partido Comunista Francês, porque ele tinha esse compromisso contra a anticolonialidade. Então, surgiu na década de começo do século XX, mas com muita força no século XX, um marxismo anticolonial na França que formou também intelectuais e num sistema de solidariedade internacional marxista.
formou boa parte da luta anticolonial de lá, que mais tarde deu no Sancarrá nos anos 80 e que dá no Traur também agora. Então ele teve sim, comprovadamente contato com essas associações eh marxistas, embora ele seja um cara muçulmano do interior. E ele começou a olhar, bom, eu vi isso aqui de teoria, eu tô vendo isso aqui no campo de batalha, que tem algo muito muito muito estranho com essa história desses insurgentes aqui, supostamente islâmicos e que tão estão combatendo o norte do país.
E tem uma postura muito estranha de como toda essa confusão que tá aqui instalada favorece ao quê? mandar ouro de graça, mandar minerais de graça eh para os países ocidentais, seja paraa França, seja pro Canadá, com suas mineradoras lá dentro, explorando brutalmente o povo e não deixando nada em troca, destruindo meio ambiente, né? Eh, esse era o cenário.
E Traurel era um movimento militar, mas apoiado pelo povo local, contra o os militares que estavam ali daquele caos que tava pós campar o rei. E ele chega ao poder e vai fazer uma reforma social. E ele vai fazer uma aliança com quem?
Com os chineses e com os russos. E os russos que estão querendo ferrar com Macron depois do do evento da Ucrânia, fazem uma tabelinha com ele. Uhum.
Né? E claramente o Putin banca o Traurê. Só que é importante dizer o Traurê, diferentemente de outras lideranças militares nacionalistas ali que tomaram poder na África Oental.
Que bom que tomaram, mas são conservadoras, são nacionalistas de direita, mas que derrubaram lideranças fantoches, como é o caso do Niger, como é o caso do Mali. Mas no caso do Burkina FAS, você tem uma experiência um pouco diferente, porque a esquerda tá de alguma forma dentro daquela coalizão, de uma forma orgânica. Existem nacionalistas, eh, muçulmanos conservadores nacionalistas, eh laicos nacionalistas, mas há presença de comunistas e de quadros marxistas que mantiveram um contato eh com o mundo exterior e que participaram do do governo sancarrá.
até se asilaram na França, mas nunca tiraram o pé de lá. E eles falam: "Bom, agora é hora". E há condições objetivas para esse agora é hora que a disposição da Rússia em bancar alguma proteção, dar alguma garantia de segurança para um regime, muito embora já tenham tentado matar o Traor várias vezes, mas é claro que ter o apoio russo, inclusive em campo, não é qualquer coisa.
Uhum. e o comércio da China, que dá uma base econômica de você não depender economicamente para ter o que comer amanhã do comércio americano, como era até bem pouco tempo atrás. Então, ainda que a China não faça uma incidência tão direta, ela traz ali uma um outro sistema econômico, uma outra lógica de comércio, que não é a lógica exatamente predatória como é o comércio europeu e americano com a África e dá uma uma possibilidade de escolha para um país como Burquina Fá falar não paraa Europa e ela e e o país não quebrar amanhã, porque boa parte do fracasso da política de descolonização na África passa pelo fato que a União Soviética não conseguiu criar um plano econômico para integrar aqueles países, muitos dos quais queriam estar próximos da União Soviética e que depois a União Soviética quebrou e vinha quebrando e e aqueles países passaram a depender do quê?
De um comércio e de uma economia ocidental que eram seus ex-colonizadores. Sim. Fez retroceder um processo colonial.
Então existe uma base econômica que permite o o Trauré existir também e que ele capaz. Olha, interessante esse aspecto, né? Porque você, eu até, é legal você tá falando isso, porque eu estranhava até, né?
Por que que a Rússia tá com esse peso todo em Burkina Fáilo, sendo que a África é chinesa, vamos dizer assim, né? A China é a presença preponderante na África. Mas agora você traz uma explicação, né?
A presença russa é uma presença muito não é só, né? Eh, a Rússia ela explora petróleo lá e tudo, mas a presença da Rússia é voltada mais paraa segurança. A China tem uma presença menos visível desse ponto de vista, né?
Eh, menos, mas é muito importante, mas pelo que você fala, fundamental, né? E veja, tem uma luta e eu vou repetir de novo, nunca se esqueçam quando estão tratando de Burquina Fá, que é um país rico, que é um país empobre. É muito diferente falar que é um país que tá ferrado.
Tem países no mundo que estão ferrados. Burquina Fá tem recurso, gente, para conseguir organizar sua economia e se recuperar, eh, ainda mais no momento que o ouro tá valendo tanto. É claro que o o os chineses estão de maneira invisível, mas eles estão lá.
Não, não é que eles não tão eles fazem um jogo casado com a Rússia. Eh, além desses militares europeus que foram sendo retirados, e o o Macron não teve coragem de brincar de Vietnã. E os americanos até agora não partiram para uma operação militar ali.
Mas onde é que eles operam? Eles operam com os tais grupos islamistas. Então, a Arábia Saudita cumpre um papel pro Ocidente.
Porque se o Traur foi for derrubado amanhã por essa turma desse dessa Alqaida, né, em Burgia, é Alcaq, quer perguntar, é a Alqaida ou o Estado Islâmico que atua lá? É mais a Alqaida e o Estado Islâmico no oeste da África tem representações também. Então essa maluquí que a gente vê que o cara do Estado Islâmico ganhou lá no no na Síria, agora, botou um terno e uma gravata, tá lá sendo recebido pelos líderes ocidentais.
Então, que diabos esse Estado Islâmico que, né, na verdade é uma cabeça de ponte ocidental usando um discurso muçulmano radical que serve inclusive para para islamofobia e e no fim das contas os caras operam uma política que interessa o ocidente. que são esses caras que estão ali, como também tem uma presença turca fazendo um jogo ambíguo em Senegal, mais do que em Burkina Fáo, mas eu tenho relato que uma parte da do campo conservador e Senegal é apoiado pela Turquia fazendo um jogo duplo, um jogo estranho. A Turquia tá colocando eh usando, digamos, uma uma diplomacia eh panislâmica, tá botando seu bloco na rua na África, porque ela tem interesse econômico também.
Então hoje o perigo é, talvez o Ocidente lance uma expedição militar, que não é tão simples, mas eles usam uma cabeça, eles usam uma ponte, usam um instrumento que é a Alqaida no norte de Burquina Fá. Perfeito. E que é uma presença de fato perigosa.
O Trauré não conseguiu destruir a a presença deles lá no norte ainda. O problemaão, por isso que o Traurê tem feito uma aliança com os demais países do oeste da África, tentando criar uma federação no no SA, né, do da do do da África Ocidental, que eles estão fazendo a federação ali com Nigéia, com Mali, na tentativa de construir uma coisa, fazer uma parceria com o Senegal que tem saída pro mar para tentar reprimir esses grupos, né, que operam e que, na verdade, foram colocados ali pelo ocidente. e tão por trás da guerra civil que estourou no Mali há um tempo atrás e que o atual governo do Mali não conseguiu resolver.
Sim, né? E é um problema grave e esses caras fazem essa política maliciosa naquela região. Eh, então há uma luta e já morreram aí dezenas de milhares de pessoas em Burquina Fáil.
Então não é um não é uma coisa pequena e é muito pouco falada. E na verdade o occidente que diz, né, contra eh se coloca até de uma maneira racista contra árabes, contra muçulmanos, estranhamente eles não têm nada contra o problema de Burkinafá é o Ibrahim Trauré, porque de novo, Alqaida, Estado Islâmico são eh eh movimentos islâmicos de brincadeira. Uhum.
Sim. É claro que tem contradições ali em Burquina Fácio, porque como é um país multiétnico, é um país que hoje, na verdade, tá com 23, 24 milhões de habitantes, eh, existe a turma que etnicamente se identifica com um blend étnico mais ali do Mali e e até tem uma disposição maior a criar essa federação. E tem a turma local, que é de uma etnia, eh, os gur, que eles são uma coisa meio intermediária entre povos locais e os povos do Gana, que tá ali embaixo.
Então esse povo tende a querer uma distância um pouco maior ao Mali, o povo da capital e pessoas como Trauré defendem uma união maior, porque para ele é até uma coisa natural, até porque essas divisões nacionais, elas são divisões nacionais que foram construídas em cima das divisas coloniais europeias, porque o próprio conceito de fronteira e da terra como espaço de partição é um conceito europeu. E aqueles países quando constituíam suas unidades políticas e constituiam unidades políticas muito mais móveis do ponto de vista do marco de fronteira e eram unidades políticas multiétnicas. Por isso que você tem uma uma etnia aqui, outra a mesma etnia no outro país.
E aquelas fronteiras não correspondem exatamente a uma verdade histórica, eh, local, né? Até porque a fronteira não era uma prática daqueles povos, mesmo quando haviam unidades diferentes, podia ter guerra ou não, mas nunca foi exatamente uma fronteira. Sim.
Mas como veio o Ocidente, como o Ocidente retalhou arbitrariamente no final do século XIX em diante, esses países eles surgem desses espaços divididos dessa maneira. E então são espaços que são mantidos por elites brancas ou ligadas ao ocidente e que são mais ou menos validadas pelas etnias que estão no território. O traurê, por hora, tem sido bem-sucedido eh em conduzir um movimento em torno de uma integração maior com os países da região, que é óbvio que favorece a todos, né?
Mas pode ser visto de um jeito ruim por algumas etnias. Por enquanto ele tem sido bem-sucedido nisso. O processo de integração entre os países ali da daquela região do coração do do oeste africano tem funcionado e tem levado um aumento da distribuição de renda, tem levado ao desenvolvimento econômico porque eram países eh espoliados.
Tem um texto que inclusive a gente reproduziu na diácono em ter um tempo do Vidi Prahad, que ele até comentava escrevendo com com um camarada da África a respeito da do nível da exploração francesa no Niger que tá ali do lado também. Niger sendo responsável por boa parte do urânio, que serve para iluminar a França. E é um país que ele próprio não tem rede elétrica em seu território, né?
Eh, veja a contradição. E Paris é a capital da França, que é a cidade de luz. E esse é o tipo da coisa.
E aí vamos entrar numa coisa que interessa, que a nossa esquerda, boa parte da nossa esquerda, de classe média alta, alta universitária, ama ir paraa França, acha aquilo legal, olha para para as contradições de uma experiência como Burquina Fáil e desce o reio, sem ver a condição que os caras estão. Mas é uma condição que os caras estão lá porque eles estão fornecendo os insumos pra França ser chique, pra França ser luminosa. Uhum.
Só que na cabeça de boa parte da nossa esquerda, não. A França é luminosa porque o povo cultua liberdade ali. Uhum.
Porque o povo é civilizado, porque é educado. Então tem um imaginário colonial e muito pior do que o o o a consciência racista é o inconsciente racial. E o inconsciente racial brasileiro expressa automaticamente um racismo.
Sim. onde uma liderança como Trauria, que inclusive passaria no checklist aqui, é um homem da prática, um homem da teoria, ele é um geólogo, tá bom? Se o negócio é a ciência, se o negócio é a formação, é a formação intelectual ocidental e o ele é um geólogo.
Ele é um geólogo e um oficial de forças armadas, um oficial de forças especiais testado no campo de batalha dentro da guerra convencional. E aí, mas ele é questionado, ele é interpelado. Será que esses líderes, mas essa esquerda que não se questionava sobre a exploração no NG, nem procurava saber o que era o Nigé, olhava: "Ah, meu Deus, coitado desse país que não desenvolveu suas forças produtivas".
que eram países que ao longo da história tinham um grau de desenvolvimento no sentido da civilização. De novo vou repetir isso. Tinham cidades, tinham rotas de comércio, pô, aquilo não era pobre, aquilo foi destruído.
Aquilo tinha guerra, tinha guerra também ao seu modo, mas não tinha uma desestabilização. Essa desestabilização que conduziu a miséria ali foi trazida pelo ocidente. Se a gente pegar a história da ocupação humana naquela região, eles desenvolvem o ferro mais ou menos na mesma época que se desenvolve o ferro na Europa.
Eles desenvolvem cidades, eles desenvolvem impérios ricos, reinos ricos e e estruturados ao seu modo. Então, de novo, a chave é essa. E o traurê é essa parte de um elite local, eh, embora ele venha do interior, mas que poôde estudar, pôde entender a ciência do dominador e usar a ciência do dominador contra ele numa direção de uma liberdade de inclusão social.
E a esquerda brasileira não prefere tirar foto com Macron, que é o colonizador. Uhum. Interessante.
Sim, essa essa distância da África, né? Não, e essa ideia, né? Não, se é militar que tá liderando essas tomadas de poder na África, isso é golpe de estado, isso é contra a democracia e tem uma parcela da esquerda que vai cedendo cada vez mais, né, ou chamado setores progressistas esse ideal, né, da esquerda da democracia liberal, né, e uma democracia liberal que, entre aspas, funciona na Europa e nos Estados Unidos baseado nessa exploração.
Sim, entendeu? E, e, e as pessoas tratando, ah, mas o que que eles fazem em matéria de governança, sendo que eles têm um excedente que é tirado como é tirado da da África ou da Ásia, né? O legal, o Pedro Vasquez tem uma pergunta a você.
O Pedro Vasques é que deu a ideia de a gente debater porquina fácil o traorré ou traoré ou traorai, né, como você falou. Existe chance do Traoré liderar um panafricanismo? que eles já lideram pana-africanismo na região dele.
É que muitas vezes tem uma ilusão de pana-africanismo. Primeiro, a África é muito grande, gente, ela é distorcida nos mapas. Eh, e a África corresponde a realidades muito diferentes e milenarmente, né?
Inclusive, os atuais grupos étnicos que ocupam o oeste da África, eles na verdade não vieram há tanto tempo. Eh, essa é uma região que, ao contrário do Sul e do centro da África, é ocupada pelo ser humano há não muito tempo e ele constrói ele toda uma civilização. Então, a, as pessoas falam panafricanismo, mas eh a gente sempre tem de entender que é um processo longo.
A gente tá falando, quando a gente fala de oeste da África, a gente tá falando de excolônias aí, eh, majoritariamente a Inglaterra e da França, mas tem alguma coisa da Espanha, de Portugal também, eh, e que são também é uma região grande. A gente tá falando da União Europeia, a gente tá falando mais, a gente tá falando de mais de 400 milhões de habitantes, gente. Então, só o esforço, digamos, o PAN oeste africanismo do traurê já é uma coisa muito grande, muito grandiosa e muito complexa pelo grau de acordo que você tem de fazer eh entre a população do do local.
Só o país dele tem mais do que o dobro da população de Portugal. A gente não fala aqui da política portuguesa para então o Portugal e a Grécia juntos tem menos gente. Se você juntar a população do Burkina face é como se você juntasse Portugal, Grécia e a Finlândia.
Sim, é mais ou menos isso. Então, eh, e seria etnicamente mais complexo, é etnicamente mais complexo do que se você juntasse Grécia, Portugal e a Finlândia num lugar só, porque teria três etnias e tem mais do que três etnias na lá em Burquina Fá. Uhum.
Então é um esforço grande. Ele lidera sim um esforço internacionalista na sua região e tem tido êxito nisso. Numa direção que tira o isolamento, que defende o nacionalismo como, digamos assim, uma autonomia nacional, uma autonomia do país, mas que produz e que tá engajado numa solidariedade internacional, sabendo que ele tem de costurar com as duas mãos dentro do seu próprio país, que não é eh uma coisa só, né?
E e outra coisa importante a gente dizer sempre que fala em África, quando a gente fala em Ásia, é sempre aquele imaginário racista ou racializado de que é todo mundo igual. Então vamos tomar muito cuidado com isso também quando a gente olha paraa Ásia, quando a gente olha paraa África, que existe uma profunda complexidade étnica como tem na Europa. Não é tudo branquinho na Europa, é tudo igual, não é?
Não, já teve guerra mundial, inclusive porque esses estudo branquinho são muito diferentes entre si e isso é um fenômeno que Mas eu acho que o Trauret tem se saído bem nessa tarefa e por ser uma liderança eh diferente e destacada desses que chegaram no poder ali. Uhum. Legal.
O Goberk, nós aqui passeamos pela América Latina, Colômbia e Bolívia e terminamos nosso encontro em África lá em Burquina. faço. Mudou meu olhar para Burquina Fáil.
Eu vi aqui pelo nosso eh chat que tem bastante gente que tava por dentro do processo lá de Burquina Fá que acompanha a luta lá. Então é bem importante realmente isto, né? O Pedro Vasques dizendo aqui que foi quem sugeriu tua o tema dizendo: "Entende muito, entende muito mesmo.
" Alguém aqui mais cedo tinha falado como é que esse cara consegue dar tantas informações sobre temas tão diferentes, tudo de cabeça. Insônia. Insônia.
Obrigado, viu? Bom fim de semana para você, cara. Abraço.
Abraço para todo mundo.