Muitas pessoas pensam que o sexo biológico é uma coisa muito simples: ou alguém nasce homem ou mulher e é isso ai. Não raramente, a biologia é bem mais complicada do que aparenta. A ideia de que podemos descrever bem o sexo biológico das pessoas apenas em termos de duas categorias separadas, a masculina e a feminina, vem sendo cada vez mais questionada por descobertas científicas.
Ao invés disso, o sexo parece variar ao longo de um espectro contínuo que vai de um extremo masculino até outro extremo feminino enquanto passa por diversos possíveis níveis intermediários de diferentes características sexuais. A fecundação de um óvulo por um espermatozóide carregando um cromossomo Y foi vista por muito tempo como o principal fator para determinar o sexo biológico que o feto desevolveria no futuro. A ideia era de que um gene presente no cromossomo Y, conhecido como SRY, codifica uma proteína que estimula o desenvolvimento dos testículos e, na ausência desse gene, o feto desenvolveria ovários via de regra.
Mas cientistas conseguiram identificar alguns genes que não só estimulam diretamente o desenvolvimento dos ovários como também inibem o desenvolvimento dos testículos, tais como o WNT4 e o RSPO1. Pessoas com cromossomos X e Y que possuem cópias extras do WNT4 podem desenvolver características inesperadas como um útero ou tubas uterinas rudimentares, enquanto que se o RSPO1 não estiver funcionando bem, alguém com cromossomos X e X pode desenvolver uma espécie de "testovário", ou seja, uma gônada com áreas testiculares e ovarianas. A determinação do sexo parece então resultar de uma complexa interação entre as atividades de diferentes redes de genes e pequenos detalhes nesse processo podem fazer a balança pesar mais para um dos lados.
Na verdade, essa balança pode acabar pesando um pouco para cada lado e existem estimativas de que 1 pessoa a cada 100 tende a possuir alguma diferença no seu desenvolvimento sexual típico. Isso significa que os cromossomos dessas pessoas podem não bater perfeitamente com a anatomia sexual esperada. Tais diferenças podem ir desde a formação de mais de uma genitália até mudanças bem mais sutis e invisíveis ao olho nu.
Alguém que não possui um cromossomo Y, por exemplo, pode desenvolver o sexo masculino mesmo assim. Isso ocorre com mais frequência em casos onde o gene SRY acaba indo parar em um cromossomo X durante a divisão celular dentro dos testículos do pai. Pessoas com cromossomos X e Y podem desenvolver características femininas se os seus corpos não respondem da forma esperada à testosterona e alguém com 2 cromossomos X e 1 Y pode desenvolver a síndrome de Klinefelter.
Essa é uma condição cujas principais características são a infertilidade e os testículos reduzidos. Muitas mulheres com 2 cromossomos X podem exibir diferenças mais sutis, tais como ovários policísticos ou a produção excessiva de testosterona. Para derrubar o último tijolo de certeza que você ainda poderia ter sobre a relação entre cromossomos e sexo biológico, existem evidências de que nem todas as células de um homem ou mulher típica vão possuir necessariamente os mesmos cromossomos sexuais.
Em um estudo de caso, por exemplo, médicos descobriram que o corpo de uma mulher que estava grávida era composto de células de dois embriões diferentes que acabaram se juntando no útero da mãe dela. Algumas células do corpo dela tinham 2 cromossomos X, enquanto outras, tinham um cromossomo X e outro Y. Mesmo que parte do corpo dela fosse cromossicamente masculina, ela não desenvolveu nenhuma repercussão visível ou indesejável para ela.
Pelo contrário, ela já estava tendo o seu terceiro filho e a sua maior diversidade genética não parecia estar atrapalhando em nada. Como seria possível definir o sexo de alguém como ela com base apenas nos seus cromossomos sexuais? Quanto mais estudamos a biologia por detrás das características humanas, mais complexa ela parece ser.
Longe de ser um processo simples e previsível, a determinação sexual pode levar uma pessoa a várias trajetórias de desenvolvimento que serão indiferentes a qualquer capricho cultural de humanos. Veja o nosso vídeo sobre sexualidade e também o nosso último vídeo! Se gostou do vídeo de hoje, se inscreva no nosso canal e clique no sininho para receber notificação nossa quando tiver vídeo novo no canal!