O Marcelo, o protagonista estupendamente interpretado pelo Wagner Moura, é um homem tentando fugir de algo, fugir da história que tá se desenrolando e que ele acha que é dele. Uma história com H minúsculo, mas na verdade é a história com H maiúsculo na qual ele tá emaranhado por acidente. O agente secreto já tá cartaz no cinemas a partir de hoje, 6 de novembro.
E como o próprio diretor, o Cléber Mendon Safilho, adianta na abertura do filme, neste Brasil de 1977 tem muita pirraça. O Marcelo mesmo, apesar do perigo da perseguição e do desespero em que ele tá para chegar ao Recife, pegar o filho pequeno e se mandar do país, é um cara cheio de senso de humor e um cara curioso, que se diverte com as coisas inusitadas que ele observa nos outros. E o Marcelo tem também reflexos tipicamente brasileiros, no sentido de que em um país em que nunca se sabe como a banda vai tocar, ele faz o possível para dançar conforme a música.
Algo que a sequência de abertura, aliás, uma sequência fenomenal, já estabelece com clareza no jogo entre ele e os dois policiais que param no posto em que ele tá abastecendo o Fusca dele. No pátio do posto tem um defunto largado lá há dias, porque é carnaval e ninguém vem buscar, muito menos os dois policiais que param ali é só para estorquir o Marcelo mesmo. No Recife, o Marcelo não quer só pegar o filho e arrumar documentos para sair com ele do país.
Ele quer também localizar algo muito importante para ele do passado. A espera pela chance de sair põe ele no pradinho da dona Sebastiana, que é a irresistível, encantadora e adorável Tânia Maria. Ela abriga pessoas que estão em fuga de diferentes tipos de perseguição.
Já a busca pelo passado, coloca o Marcelo bem dentro da toca do lobo, se escondendo em plena vista. O Cléber definiu o agente secreto como um thriller, mas é um thriller de uma stirpe curiosa e muito pessoal. O que a gente tem aqui é um protagonista que só por acidente vai descobrindo, tá no meio de uma trama e que só pouco a pouco vai se dando conta da extensão que essa trama alcança.
Esse período, 1977, foi um momento de endurecimento muito grande da ditadura militar em parte por causa da falência do chamado milagre econômico brasileiro, que foi de 69 a 73. E no fim não não era milagroso. Economia fragilizada significa poder sob ameaça.
E aí a reação vem em dobro. O Cléber é um grande memorialista de Brasis perdidos na transformação social, econômica, urbana, mas Brasis que persistem, apesar da mudança nos costumes. O melhor exemplo na filmografia dele é o som ao redor, a estreia dele em longa, que ele filmou na rua em que ele cresceu, no bairro de Setuba, no Recife, no apartamento em que ele morou com a mãe, que era historiadora.
E nesse filme ele destrincha como cada pequena troca cotidiana entre pessoas quaisquer vem carregada de todos os vícios e vicissitudes que um país vai acumulando nos séculos de existência dele. Por trás de cada gesto tem a história. Em geral, ela é uma história de atrito entre os infinitos degraus hierárquicos que vão se formando no interior de qualquer conjunto de pessoas e entre vários conjuntos.
O atrito é um componente fundamental, não só de som ao redor, mas também de aquários e de bacural. Mas eu acho que o agente secreto coloca outras coisas em relevo. Tudo bem, tem atrito, tem a guerra de um país consigo mesmo, claro.
Mas aqui tem também uma solidariedade que vem sem amarras, sem nenhuma moeda de troca. Vem porque vem, porque tem pessoas que se importam com outras e se importam com o que tá acontecendo no mundo em que elas vivem. E em o agente secreto como consequência do trabalho anterior do Cléber, o documentário/memorial barra autobiografia, Retratos Fantasmas, que aliás é um filme belíssimo, ele materializa aqui com temperatura, cheiro, cor, ruído, pé sujo, comida de rua, a Recife em que ele se formou como pessoa e que, como tantas outras cidades brasileiras hoje é outra.
Eu também sofro muito dessa nostalgia urbana. Quer dizer, eu tô atribuindo isso ao Cléber e talvez não seja essa a forma correta de definir o sentimento dele. Mas de qualquer forma, isso me pega muito fundo em um agente secreto, essa sensação de que uma coisa é uma cidade se transformar, que é um processo normal.
Outra coisa muito diferente é esse processo de escambar paraa selvageria, a cidade se descaracterizar, se desumanizar e meio que fugir da gente, como que cortar os laços com a gente. Mas nessas recuperações que o Cléber faz do passado, ele tá sempre renovando os votos dele com o Recife, o que eu acho muito bonito, muito bonito e muito eficaz, porque não adianta, é um clichê, mas é absolutamente verdadeiro. Quanto mais específico, se é mais universal o resultado.
Não é só nisso que o agente secreto me pega tanto que ele tá comigo quase o tempo todo, desde que eu assisti o filme. Acho que é porque eu encontrei tanto do que foi e do que é no filme de tantas maneiras, tanto ao lado do Brasil que da angústia, da violência, corrupção, miséria, instabilidade, todas essas mazelas que a gente tem, quanto no lado tão cheio de vida do Brasil. E o Cléber aqui tem muito tempo, ele dá muito tempo no filme para essa vida.
Ele dá tempo para lendas urbanas, como a da perna cabeluda, que eu não conhecia, paraas manchetes sensacionalistas do jornais, como tem uma manchete que meio que celebra 91 mortos e contando no carnaval do Recife. Ele também desdobra de várias maneiras o fascínio com o tubarão do Steven Spielberg. Ou por causa que eu não sei adivinhar, ele acha tempo também para uma gata com duas cabeças.
Eh, o agente secreto acho que é um entretecido ultra elegante e ultra eh envolvente, super comovente de drama, de comédia de costumes, de melancolia, de thriller. E essa combinação se reflete do roteiro, que também é do Cléber, pra direção, pra montagem, pra fotografia, pra direção de arte, pra música. Acho que do mesmo jeito que a interpretação do Wagner, que faz o Marcelo aparecer inteiro, inconfundivelmente, totalmente Marcelo desde a primeira cena, o filme em si também é uma criatura única e completa.
Nenhum aspecto dele pode ser dividido ou separado dos outros. Então, ao mesmo tempo que o filme tá ali aferrado ao protagonista dele, ele espraia o foco, joga a rede longe e apanha nela figuras inesperadas. deliciosas ou assustadoras.
A dona Sebastiana, de que eu já falei, dois matadores de aluguel vindos do Sudeste, contratados por um empresário, em que o mais velho deles terceiriza a parte dele do trabalho para um matador local, que é um legítimo cabra da peste, para farrear no Recife durante o carnaval. Tem o Euclides, um detetive da Polícia Civil que é super pândigo e muito perigoso. E a relação do Marcelo com ele, ele pega uma simpatia pelo Marcelo, é outro exemplo de como a pessoa tem que tá ligada e se virando o tempo todo.
E tem numa homenagem super bonita o seu Alexandre, o sogro do Marcelo, super meigo, que é projecionista do Cine São Luís. É uma homenagem ao verdadeiro seu Alexandre, que era o projecionista. do Cine São Luís, que o Cléber conheceu muito bem e que faleceu em 2002.
Aliás, eu não tô citando aqui os outros nomes do elenco porque ele é extenso, mas eu não tenho um ai que não seja elogioso para falar de ninguém aqui. O Godar era um ótimo frasista e uma das frases de efeito dele é que a boa ficção tem que parecer um documentário e o bom documentário tem que parecer ficção. E um agente secreto é meio que prova que essa frase de efeito é verdade.
Isso acontece de um jeito incrível no filme, porque os detalhes aqui parecem ainda mais vívidos do que nas imagens documentais de Retratos Fantasmas, que era um documentário que a gente acompanhava no desenrolar dele como se fosse uma ficção. O Brasil adora esquecer a própria história, tanto que ela tem de bom quanto que ela tem de ruim. A história aqui tende a se esfaccelar, como se ela acontecesse só para cair no esquecimento ou então para ser invocada tempo depois, como outra coisa que tem pouco ou nada tem a ver com o original.
Mas o agente secreto reverte isso. O agente secreto impede isso. Mesmo não sendo documental, ele é documento.
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