Vamos falar de Suzume, anime de 2022 de Makoto Shinkai ou, no sentido original, Shinkai Makoto, que já tem uma obra considerável, inclusive vocês aqui estão falando para mim desses outros animes, mas esse é o meu primeiro contato com ele. Vamos começar falando, antes mesmo de destrinchar a obra Suzume, falar um pouco sobre o estilo, pelo menos a partir desse anime, que o diretor optou. Como eu disse, não vi as outras obras dele, então vou pegar essa.
E eu diria que, de pronto, é uma obra que acho bastante singela, ela é bastante bonita, ela é talvez bonita demais, isso é sério, é tudo muito belo, é tudo muito deslumbrante, é muita cor, é tudo muito luminoso, parece que às vezes falta sombra, mesmo em momentos sombrios, não há sombra. E tem uma coisa que, pelo menos para mim, está em um tom um pouco acima do que eu estou acostumado. Dá para dizer, de uma maneira muito maldosa, que o Shinkai, se ele elevar o tom, vai ser o Romero Brito dos animes.
Mas, sério, não estou querendo zoar com ele, porque Suzume é um anime muito bom e é uma obra que, em alguma maneira, me parece ser muito um dorama, existe ali uma dramaturgia que me lembra muito um dorama, um bom dorama. Mas vamos lá, vamos falar um pouco da sinopse e eu vou comentar várias coisas, porque é uma obra que tem uma série de questões mitológicas, de questões ligadas à memória, à paixão. Aliás, já adianto, Suzume é uma obra sobre a importância de você se apaixonar pelos seus traumas, e eu sei essa frase é esquisita, mas vai fazer sentido, mas vamos lá.
Sobre o que é Suzume? Bom, é aquele caso, mais um para eu passar raiva aqui neste canal, de obras que o nome da obra é o nome da personagem. Para quem faz análise, tipo eu aqui, audiovisual, isso é horrível, porque Suzume, que não é personagem, que é o anime, mas daí a Suzume, que agora é a personagem.
. . Suzume, a personagem, é uma menina de 16, 17 anos, estudante, uma colegial japonesa típica, que tem uns pesadelos e o filme constrói um certo mistério, mas já vou meio que adiantando aqui, ela perdeu a mãe em um grande terremoto, seguido de tsunami.
E aqui a referência principal é ao sismo e tsunami de Tohoku, de 2011, que é aquele que a gente conheceu melhor no jornalismo brasileiro, porque foi aquele que afetou as usinas nucleares de Fukushima. Então ela é uma menina que perdeu a mãe, em uma condição extremamente trágica, e ela tem sonhos, ou pesadelos, enfim, de reencontro com essa mãe perdida, com essa mãe nebulosa. Ela foi criada pela tia, com quem ela tem uma relação meio, sei lá, uma relação meio esquisita daquelas duas, porque elas se gostam, mas ao mesmo tempo, elas têm um vão entre elas.
Parece que aquele momento de finalmente uma se encontrar totalmente com a outra, isso nunca acontece, embora ao longo do filme elas vão se estreitando, as relações entre elas vão se estreitando. E tudo muda na vida de Suzume, quando um dia ela está indo para aula e vê Souta, que é um carinha que ela já tinha tido uma imagem que talvez fosse ele no sonho dela, ela não sabia bem claramente. E Souta é uma espécie de cara bonitinho, andando pela rua, que pergunta para ela se ela conhece algum lugar abandonado ali perto.
E aí mais para frente a gente vai saber que ele é uma espécie de guardião, ele é um cara normal, ele está estudando para ser professor também, o que eu acho bem coerente, porque como ele fala, ser guardião não dá dinheiro, e professor é uma profissão que a gente mais trabalha por coisas que não dão dinheiro, então achei que o personagem nota 10 na coerência, isso a gente não pode discordar. E o Souta, nessa condição de guardião, está garantindo que as portas não estejam abertas para que um verme, uma figura bizarríssima, acabe saindo desse outro espaço, desse outro mundo, como eles chamam de todo sempre, e que esse monstro não acabe provocando terremotos no Japão. Então, basicamente, a brincadeira aqui, que eu acho muito legal, é de construir uma explicação fantástica para o motivo de haver terremotos no Japão, e de criar toda uma imageria em cima desse monstro, que é o que produz os meteoros.
É um monstro invisível que nós não vemos, a não ser o Souta e por algum motivo a Suzume também, depois isso até vai ser uma das questões da história, por que a Suzume enxerga esses vermes gigantescos. E a referência até a esses vermes é bastante interessante, porque tem a ver com os Namazu, que é uma criatura da mitologia japonesa, uma espécie de peixe gigante que fica se debatendo embaixo da terra e é por isso que volta e meia tem terremoto. Aqui sai de ser um peixe, entra um verme abstrato que vai crescendo como uma torre, e depois saem umas linhas amarelas do chão, é muito bacana a construção desse elemento, e quando ele finalmente cai, você tem terremoto.
E daí está feita mais ou menos a história. Mais ou menos porque o que acontece, a Suzume, por algum motivo que ela não sabe explicar qual, ela se sente intrigada e vai atrás do Souta, que ela nem sabe ainda como é que se chama, mas que foi parar lá no meio de um spa abandonado, que é perto da casa dela. E chegando lá ela vê uma porta, ela vê que essa porta dá para um lugar mágico que ela não consegue acessar.
E daí ela vê um tótem, esse tótem descongela na mão dela, e daí a gente tem um personagem que vai ser recorrente, que é o gatinho Daijin, que na verdade é um deus, basicamente é isso. Ele é uma entidade caprichosa, ele era um dos, como eles chamam no filme mesmo? É guardião também, mas eles usam outra palavra, tô tentando lembrar.
Mas enfim, o Daijin é um dos guardiões, depois a gente vai saber que são dois que são aqueles que garantem. . .
É Keystone, caminho em japonês, são figuras mais totêmicas, então vamos chamá-los de tótens. . .
Mas que também cumprem a função de lacrar, olha, começou a lacração, de lacrar esses portões para que esses vermes gigantes não saiam e não produzam grandes terremotos, grandes catástrofes. E aí começa a dinâmica para valer, porque esse Daijin, que de uma maneira ingênua a Suzume libertou da sua função, uma vez agora que ele não está mais ocupando a função, esses vermes estão começando a sair um atrás do outro dos portais e daí começa a ter um problema. Ou seja, tudo está indicando que o Japão se encaminha para uma sucessão de terremotos catastróficos, coisa que só a Suzume e o Souta sabem.
Por sua vez o Daijin, que é esse gatinho, se é que é um gato isso, que é um gato que fala, inclusive com frases extremamente macabras como "todos vão morrer". . .
Esse gatinho aparece diante da Suzume, a Suzume acha ele bonitinho, fofinho e ele logo em seguida gama nela, só que o Daijin pega ranço do Souta e por pegar ranço do Souta transforma ele na cadeirinha de infância da Suzume. E aí você vai ter um elemento de animação que gera momentos muito legais, que é essa cadeirinha de três pernas, uma cadeirinha infantil, pintada à mão, já velha, correndo para lá e para cá atrás de um gatinho, que é um deus macabro. Você está assistindo a um corte de uma live exclusiva para os apoiadores e membros do Quadrinhos na Sarjeta, então caso você queira debater comigo filmes que ninguém mais dá bola, se torne um apoiador.
Além disso curta, se inscreva e compartilha esse vídeo, que ajuda bastante. É, o japonês adora gato, eu diria até demais. Cabe a gente comentar o quanto que, pelo que eu entendi, é uma marca recorrente do Shinkai, é ele brincar com elementos da mitologia Então obviamente nada é muito fiel, nada é muito rigoroso no sentido de: ah, não, porque para tratar desses personagens eu vou constituir a mesma história que determinados mitos recontam.
Não. Ele pega, na verdade, um bolsão de referências e funciona legal, e é o caso o Daijin. O Daijin, como o gatinho é chamado, na verdade, ele é um.
. . A palavra Daijin, ela remete a ministro, especificamente.
. . deixa eu até pegar aqui a referência certinho.
Daijin seria ministro da direita. Na verdade, especificamente o Daijin seria o ministro da direita. E até eu vi uma entrevista com o Shinkai que ele não quis chamar de Udaijin, e sim só Daijin, porque queria que fosse uma surpresa.
E em algum momento apareceu, o Sadaijin, que é um gato preto bem maior do que o Daijin, esse, sim, ainda mais macabro. Tem aquele momento, eu acho bastante sinistro na história, que quando a gente tem, pela primeira vez, a aparição do Sadaijin, ele faz a tia da Suzume falar coisas muito cruéis para ela. Então tem uma brincadeira meio yin-yang entre eles.
Um gato branco, um gato preto. Embora o gato preto é muito maior do que o gato branco, então é como se um elemento mais sombrio fosse prevalecente. E tem essas referências às palavras Daijin, Udaijin, Sadaijin, que são estruturas de estado antigas do Japão, período Nara, período Heian.
Depois ficou uma coisa mais obsoleta e a partir da restauração Meiji sumiu. O Sadaijin, que é o ministro da esquerda, era assessorado pelo Udaijin, que é o ministro da direita. E tem uma outra coisa interessante nessas produções, nessa busca por esses nomes e maneiras de se pensar figuras de.
. . buscar analogias em estruturas de estado ou em elementos míticos, porque uma coisa também que é bastante interessante é o fato de que o Daijin tem uma marca no olho esquerdo e o Sadaijin tem uma marca no olho direito.
E é interessante lembrar que na mitologia japonesa, a Amaterasu, deusa do sol, nasceu do olho esquerdo do Izanagi. É o Izanagi que é o homem, eu sempre confundo. E Tsukuyomi, que seria o deus lunar, nasceu do olho direito.
Então também dá para brincar um pouco, até que ponto o Daijin, nosso gatinho branquinho, fofinho e cruel, é também uma referência a Amaterasu e o Sadaijin a Tsukuyomi. Então assim, nada disso aí é definitivo para lacrar sobre os personagens, dizer que eles são isso, isso e aquilo. Tem toda uma discussão que eu já vi.
Eu fui atrás pesquisar sobre de fato quem são esses personagens, o que eles são, e a graça, obviamente, é deixar em aberto. Por isso que você pega uma série de elementos, mistura, torna eles minimamente singulares, carismáticos, são gatinhos super poderosos, mas também tem esse elemento de capricho divino, ou seja, são figuras da natureza e que, enquanto figuras da natureza, elas não estão muito preocupadas com o que nós humanos pensamos. Aliás, um dos motivos do Daijin gamar na Suzume é porque, em partes, a Suzume olha ele e acha fofinho, enquanto que o Souta simplesmente quer que se livrem daquele ser.
Quer dizer, se livrem, que coloquem ele de volta na sua função prévia. Então também tem um elemento do quanto que deuses buscam, de alguma maneira, serem lembrados, serem cultuados, ser ovacionados. Para um Deus, não faz sentido existir se não tiver quem o cultue.
Esse elemento não é por acaso, porque se a gente for olhar a história de Suzume, com base nesses elementos todos fantásticos que eu falei aqui, é, antes de tudo, uma história sobre como o Japão pode processar a memória. Mais especificamente, a memória de eventos traumáticos, a memória de grandes desastres naturais. Sim, e principalmente a partir, não só dos elementos das questões naturais, como, por exemplo, um terremoto ser uma entidade, mas esse animismo está presente na cadeirinha.
Tudo bem que tem uma explicação mágica, é o Souta que virou a cadeira. Mas, cara, o prazer que os japoneses têm em animar coisas inanimadas é um negócio imenso. Aí você vai dizer: pô, a Disney também faz isso.
Sim, mas no caso do Japão, não é à toa que também eles gostavam tanto de Disney, porque aí tem uma questão ligada ao próprio animismo xintoísta, à própria ideia do quanto que, isso é uma coisa que eu sempre falo aqui, do quanto que as coisas, as outras coisas também são sujeitos. A cadeirinha, mesmo que você diga, mas a cadeirinha foi transformada no. .
. O Souta virou a cadeirinha. Mas aquela cadeirinha, independentemente de estar o Souta preso dentro dela, vamos dizer assim, ela é um sujeito, ela é um sujeito na história.
Aliás, todo o arco tem a ver com a Suzume relembrar a importância daquela cadeirinha de infância que ela guardou, que ela conservou, da mãe dela que fez para ela pouco antes e depois do terremoto. Aliás, tem um momento, que é quando eles estão em Tóquio, que, cara, aquele momento ficou muito pesado. .
. Porque, assim, ao longo da história tem um elemento, um componente um tanto de roadmovie, porque a gente vê os personagens indo para lá e para cá, eles vão em diferentes regiões do Japão. Então também tem um pouco nesse anime uma declaração de amor do próprio Shinkai em relação ao Japão, de mostrar a beleza do Japão, de mostrar a força, a potência, não potência no sentido, sei lá, militar, coisa assim, não, uma potência de vida mesmo.
Um Japão cheio de luz, um Japão, em alguma maneira, solidário ou, pelo menos, como dá a entender que tem a sua solidariedade despertada quando reencontra os seus deuses. Pporque o Daijin, onde ele passa, ele faz com que as pessoas se encontrem, ele faz com que as pessoas sejam mais generosas. Mas para falar do momento sombrio das várias cidades, porque.
. . Aliás, isso é importante ressaltar, todas as cidades que aparecem na história são cidades que já tiveram terremotos bastante violentos.
E, no final, não é por acaso que a gente tem aquela batalha ali em Tóquio. . .
No final não, é meio do filme. Mas é quando a gente vê um verme gigantesco capaz de matar milhões de pessoas e, ali, há referência muito ao terremoto que aconteceu em Kantō, em 1923, que foi um terremoto muito forte, que afetou várias regiões, inclusive, Tóquio, um dos mais violentos e mais mortais já documentados no Japão. E isso é muito doido.
A gente para para pensar um pouco, o Japão não deveria existir, cara. Tem terremoto, tem tsunami, tem vulcão, usina nuclear, tem tudo ali, cara. E aí você entende muito por que, para os japoneses, é tão importante o conceito de impermanência.
É lógico que o conceito de permanência é importante, porque o chão embaixo deste não permanece igual. Por que as casas eram construídas com materiais leves? Caiu, você não acaba soterrado.
Você reergue a casa. Você acaba entendendo que a terra que tanto te dá também te tira, então nada é permanente. Mas não seria a primeira vez, sei lá, Akira de Katsuhiro Otomo já é assim também.
Nossa, é verdade, esse reencontro com objetos muito caros da nossa infância é algo maravilhoso. Até porque esse animismo é uma coisa. .
. Não estou dizendo que ser animista é ser infantil, mas o animismo tem uma relação muito próxima com a infância. Nós quando somos crianças, a gente tem uma facilidade muito grande de imputar, de reconhecer vida em objetos que, sei lá.
. . Eu lembro que às vezes eu criança conversando com um balde.
E isso é muito bonito, na verdade, nas crianças, na capacidade que elas têm de transformar tudo em personagens, de conseguir ver ali uma vida, ter uma criatividade tão exuberante que tudo se torna muito mais interessante do que simplesmente certos objetos descartáveis, inutilizáveis. E o objeto de infância da Suzume, não por acaso, essa cadeirinha tem dois olhinhos, então deixa ela ainda mais antropomórfica. Mas isso é uma receita, eu acho que é até bastante recorrente, sei lá, para 99% de qualquer criador.
Porque quando você pega uma discussão em nível social, em nível coletivo. . .
Assuntos sérios, vamos chamar dessa categoria assuntos sérios, aquela coisa que a gente fala: vamos falar de coisa séria, vamos falar de coisa séria? Esses assuntos sérios apelam muito para o nosso racional, mas têm. .
. às vezes falta neles algum componente que nos sacuda, que nos envolva de maneira mais afetiva, mais calorosa. Então uma receita de narrativa básica de qualquer roteirista, diretor que se pretenda trazer assuntos sérios e imobilizar e envolver o público é de você dar uma dimensão particular, singular, uma dimensão íntima, ou seja, o problema sério também é um problema íntimo.
Só que para você criar este problema íntimo, você tem que inventar uma intimidade. Daí você precisa criar personagens que a gente começa a se envolver, personagens que a gente começa cada vez mais a conhecê-los, ou seja, a gente começa a se tornar íntimo do próprio personagem. Dito de outra forma, então, para voltar para o Suzume, o que é feito aqui é muito de pegar uma série de desastres, de pegar a relação que o Japão tem, a memória que o Japão tem diante do próprio desastre, mas isso levando para uma escala íntima, ou seja, trazendo isso para a própria biografia da Suzume.
Não, animismo, embora as minhas palavras estão todas um mês radical, ânima, que tem um certo sopro, que tem uma certa vida. Animismo, pensa em desenho animado, mesma lógica. Animismo é nesse sentido de dar ânima, de animar, de conseguir ter uma alma mesmo não sendo necessariamente uma pessoa.
E aqui alma no sentido não necessariamente cristão. Quando eu falo alma, é complicado essa expressão, pense como sopro vital. Pensar em animismo é tudo aquilo que carrega uma vitalidade, algo que não se limita à primeira condição de objeto.
É algo que não é apenas olhado por nós, mas que também nos olha, nos observa e que também detém a sua própria condição de vida. São todos locais que já tiveram algum terremoto, algum desastre natural muito forte. São lugares de trânsito, mas também são lugares de alegria.
O primeiro lugar é um spa. Depois a gente tem uma escola. Depois a gente tem um parque de diversões e depois a gente tem o subsolo da cidade de Tóquio O subsolo de Tóquio também é uma imagem forte porque a gente está falando de uma cidade muito grande, então sempre tem esse imaginário sobre uma espécie de cidade que se perdeu embaixo de tanto concreto.
E não por acaso, uma das maneiras que a Suzume, inclusive, vai aprender com o Souta, é que para poder fechar a porta de onde o verme está saindo, você precisa reconhecer a vida que havia naquele lugar, então você precisa reanimar aquele espaço. Por isso que a gente está falando aqui, voltando nesse assunto, é animismo radical, porque não só a cadeirinha está viva, não só o terremoto é um ser, mas os espaços têm memória. Aliás, vindo para o ocidente, uma coisa que o pessoal às vezes não saca é o quanto, por exemplo, O Iluminado do Kubrick é um terror diferenciado porque ali o que a gente está vendo, na verdade, é sobre as memórias de um hotel, a memória das coisas.
A memória dos lugares é um negócio que, quando bem trabalhado, é muito tocante, porque parem para pensar, agora o momento onde o lugar que vocês estão, a casa, o trabalho, a rua, sei lá onde você está vendo esse vídeo, esse lugar já muita gente passou e muita gente ainda vai passar por aí, quanta vida já circulou por aí, quantas pessoas já foram felizes ou foram terrivelmente tristes nesse mesmo ambiente em que você está. E é interessante isso porque essa dimensão da memória dos lugares é algo que uma lógica capitalista, muitas vezes, esvazia. Por exemplo, hotel, o que caracteriza um bom hotel é você não ter memória de ninguém que passou por ali.
Se você acha uma unha roída no canto, você fica já com nojo e mesmo nesses lugares, mesmo nesse turismo de ruínas, mesmo nesse turismo da memória, são memórias já ajustadas por uma lógica de cartão postal, ou seja, a memória de fato desses espaços, ela se perde. Mas o parque de versões também tem outro componente que é o da infância, o Japão assiste uma diminuição cada vez maior de nascimento, da diminuição da natalidade, então muitos espaços infantis muitas vezes estão deixando de existir porque não tem crianças suficientes para ir lá se divertir. É isso que eu digo, mesmo essa coisa que procura, às vezes, romantizar: vem aqui, aqui é um lugar cheio de memória.
Qual memória? É uma memória que, às vezes, é protocolar, é uma memória marqueteira, é uma memória construída pelo marketing. Aqui é um lugar acolhedor, aqui é a casa da vovó, não sei o quê, então tem ali o crochê da vovó.
Mas eu continuo nem sabendo o que é essa vovó, está entendendo? Vamos falar de outra forma, memória, na verdade, é uma coisa terrível de suportar. Não tem coisa mais difícil do que ter uma memória para carregar nas costas e esse é o ponto fundamental aqui em Suzume.
Deixa eu comentar com vocês aqui uma espécie de anedota, mas que vai ilustrar bem o que eu quero dizer. Quando teve aquele desastre, o terremoto de Tohoku, quando teve o problema em Fukushima, eu lembro de uma reportagem do Brasil que se impressionou com o quanto os japoneses eram rápidos para consertar problemas decorrentes do desastre e isso ficou na minha cabeça, eu nunca esqueci isso. Um repórter da Globo ficou muito encantado com o fato de ter uma rua que completamente rachou por causa do terremoto e três dias depois, parecia que nunca tinha tido terremoto nenhum ali, a rua estava perfeita, já estava asfaltada, já estava bonitinha, estava tudo lindo.
Para mim ficou muito a sensação de que o Shinkai, que estava procurando trabalhar e a cadeirinha dela de infância é um signo importante, ele estava buscando trabalhar a dificuldade que o japonês tem de processar aquilo que está contaminando, que está de alguma maneira atrapalhando o bom funcionamento das coisas. Dito de outra forma, uma cadeirinha sem um pé, uma cadeirinha que é uma espécie de relíquia do terremoto, a cadeirinha que sobrou para Suzumi lembrar da sua mãe, ela em alguma dose é algo que atrapalha a vida dela. Poderia dizer que um signo de superação seria ela se livrar dessa cadeirinha, ela entender que passou, ela agora tem uma tia que também é uma figura materna, a vida dela seguiu.
Lembrem o quanto que a questão da higiene, uma higiene que até tem uma dimensão espiritual, o quanto que a higiene é importante para a cultura japonesa. Então você deixar no seu ambiente, no seu espaço, algo que de alguma maneira serve para produzir um ruído, para contaminar uma certa limpeza de ideias é algo a rigor ruim. Só que voltando para aquela reportagem que eu nunca esqueci, eu fico com a sensação que basicamente o que o Shinkai está provocando aqui é: ok, asfaltamos três dias depois, quem é que agora vai lembrar do terremoto?
A gente não tem nada dele, a gente está não só apagando todos os traços de que esse terremoto existiu, como a gente está seguindo a vida como se estivesse tudo normal, ou seja, a gente também está apagando dentro da gente essa experiência. E aí vem o ponto aqui que eu acho que talvez seja o mais complexo de Suzume, que é a necessidade de você se apaixonar pelo seu trauma. Vamos lá, o que seria se apaixonar pelo trauma?
Basicamente aqui a gente tem que pensar a palavra paixão indo em direção ao grego mesmo, pathos, ou seja, aquela paixão que também se confunde com patetice, patético, mas que também está na mesma palavra patologia, ou seja, é um envolvimento que nos afeta, que mexe conosco. Então aqui eu estou falando paixão não no sentido romântico de você, como eu amo meu trauma, não, mas é de você permitir que ele te afete. É não asfaltar algo que depois de três dias teve um desastre, é permitir que ainda exista uma fissura com você, é permitir que uma brecha ainda te acompanhe e essa brecha, essa fissura, essa rachadura, essa fragmentação do teu eu, por mais que isso possa ser visto como algo que te atrapalhe, também é o que constitui o sujeito que você é.
E esse é um ponto que eu acho que o Shinkai aqui está batendo muito. Não é à toa que ele vai puxar elementos, vai puxar certos fantasmas, fantasmas no sentido de ideias, de coisas que estão ali se atravessando da mitologia japonesa, vai trazer uma ancestralidade lúdica ali, fantástica, da própria figura que o Souta tem que ocupar. Mas enfim, ele vai o tempo todo buscando uma espécie de sub-Japão, digamos assim, que a modernidade virou às costas.
Olha, tem relação, tem uma relação de você restaurar, reparar cerâmica quebrada, enfim, pegar objetos que foram avariados e reconstituí-los. Tem um pouco a ver com isso, sim, mas eu diria que é algo ainda mais agressivo enquanto processo, ele tem a ver com o apagamento de traços enquanto que essa prática me parece que busca conservar alguma coisa. Então você está falando de um apagamento total, ou seja, houve um desastre e são esquecidos porque a vida das pessoas continua e segue o baile.
Pois é, mas aí você entra em uma discussão psicológica que eu acho bastante pertinente de que essa diminuição na verdade não acontece, você só recalca, você joga para baixo, você, porque nós não somos um mero asfalto. Então, basicamente, o que a gente faz é pegar uma série de emoções, é pegar uma série de coisas que nos constituem enquanto pessoas e dizer: não vou pensar, não vou ignorar, vou deixar lá no subsolo do meu psíquico aquele negócio agindo, entendeu? Não é por acaso, gente, que ao longo do anime, ao longo do Suzume, a gente veja sempre essa rima quase, uma espécie de rima temática entre o inconsciente da Suzume, com as próprias entranhas do Japão.
Lugares esquecidos, lugares abandonados, lugares soterrados, espaços de esquecimento, espaços de abandono, que também é o espaço do abandono da Suzume consigo mesmo. E aqui, inclusive, até de um jeito bastante clichê dá bandeira, como é que esse esquecimento de si mesmo dá bandeira? Por pesadelos, é óbvio, a partir dos pesadelos que ela tem, a partir de sonhos recorrentes que ela não consegue evitar de voltar a pensar naquilo que foi tão decisivo na vida dela, que foi o terremoto que acabou fazendo com que ela perdesse a mãe.
Eu acho que aqui a questão não é pensar exatamente até que ponto é saudável, mas é dizer que simplesmente fingir que essas coisas não existem, que isso não é fundamental para nós, bom, isso certamente não é saudável. Isso faz com que a gente vire às costas e aí entram de novo essas rimas temáticas, a gente vira de costa para o nosso passado, a gente vira às costas para aquilo que nos constitui, aquilo que forma a nossa tradição, uma tradição enquanto povo, mas também uma tradição no sentido de eu, coisas que aconteceram na minha vida, que foram importantes na minha formação e que simplesmente eu ignorar isso, eu estou, de uma certa maneira, ignorando eu. Perceba, então, como o tempo todo é isso, é a Suzume que tem dificuldade de lidar com seu próprio passado, que de alguma maneira não encara de frente e, portanto, ele retorna.
E é o próprio Japão que, da mesma forma, moderno, que uma série de tradições e formas de agir e de pensar não fazem mais sentido nos dias de hoje, mas eles retornam, eles estão ali, eles estão presentes, eles estão ainda afetando a vida de todo mundo. Exato e até que ponto isso também não é uma maneira de tocar a vida que não seja também tão ruim. Sabe, eu acho que isso é uma discussão interessante que o anime não resolve nem pretende resolver, mas é de se pensar até que ponto conviver com alguma dose de dor não é algo normal da vida.
Nós somos quem somos também pelas nossas dores, de modo que ignorar as nossas dores, também é uma maneira de você ignorar a si mesmo. A gente vive numa sociedade que preza muito por valores muito positivos. Seja forte, seja belo, supere os desafios, não esquente a cabeça com bobagens e não sei o quê.
Mas as tuas falhas, e aqui pensem como falha tectônica também, as tuas falhas são o teu eu, assim como a crosta da Terra é cheia de falhas e este é um planeta cheio de vida, um planeta exuberante, mas cheio de falhas tectônicas que produzem terremotos, nós enquanto sujeitos também somos falhos. E essas falhas nos constituem como sujeito que nós somos. Querer de alguma maneira ignorá-las, querer suprimir o atrito que essas falhas produzem, como placas tectônicas também produzem atrito, é em grande dose recalcar tudo aquilo que há em nós de humano, é abrir mão do que nos torna animados, o que nos anima.
E não é por acaso, para quem não viu o anime, enfim, a essa altura já deve estar mega confuso, mas enfim. . .
Não é por acaso que o clímax mesmo vai se dar quando a Suzume revisita a cidade onde ela perdeu a mãe, uma cidade que também está abandonada e tem aquele lance que a gente descobre que ela, quando era criança, achou uma dessas portas, ela entrou lá e uma pessoa, um ser apareceu ali, ajudou ela a guiar. Essa cena é muito triste, porque é uma menina, eu acho até que a maneira como o anime retrata uma criança assustada procurando a mãe, eu acho até bastante realista. Essa parte me deixou mega tenso, mega incômodo, porque enfim, ali eu acho que aquela coisa fantástica e fofinha caiu um pouco e ficou muito aquele real duro, um real incômodo, mas tem esse plot twist de que aquela figura que a Suzume adulta, adolescente agora, sonhava, depois ela descobre que é ela mesma.
Ela entra nesse lugar que é o todo sempre, portanto é um lugar onde as coisas acontecem ao mesmo tempo e no fundo é a Suzume adolescente reencontrando com ela criança. Então aqui a alegoria até chega a ser meio óbvia de você se reencontrar com a criança que existe dentro de você e usando como ponto de diálogo, como ponto de conforto a cadeirinha, aquela cadeirinha que não é uma cadeirinha perfeita, uma cadeirinha sem um pé, uma cadeirinha que é uma relíquia quebrada de um desastre, mas que é um ponto de contato. Vocês estão entendendo o ponto que eu estou chegando aqui, eu acho que eu já estou me repetindo, o que nos mantém como um sujeito de pé é justamente as nossas rachaduras.
Aqui é inevitável puxar alguns clichês psicanalíticos, como o próprio entendimento de que nós somos o nosso sintoma. Vamos resolver os sintomas. Você aprende a conviver com eles, você é o seu sintoma, o sujeito que você é o sintoma de tudo aquilo que você viveu.
Por isso que eu repito, ter uma dimensão aqui de paixão pelo trauma, de permitir que o trauma nos afete, de permitir que nós tenhamos uma relação patética, e aqui no sentido amplo de patética, não só de idiota, mas patética de pathos mesmo, a partir dos nossos traumas. A cadeirinha é exatamente isso e é ela que liga a Suzume adolescente com a Suzume criança. Inclusive esse espaço também remete muito ao conceito de agora, o tempo agora que é muito importante na cultura japonesa.
Aqui vale até comentar, para os japoneses tem diferentes instâncias do tempo, o tempo cíclico que tem a ver com as estações do ano, o tempo finito que é da nossa própria vida, um tempo histórico que começa com os deuses e vai até os imperadores e tal, então você tem diferentes dimensões do tempo, mas essas diferentes dimensões dos tempos se amarram em um grande agora, em uma agoridade. Até para eu referenciar aqui, inclusive quem fala isso é o Katō Shūichi, pesquisador do livro Tempo e Espaço na Cultura Japonesa, que eu sempre menciono aqui no canal porque ele é muito, muito bom. Para tentar deixar mais claro, esse agora é a percepção de que tudo que está acontecendo nesse momento está dentro de um instante maior.
Por exemplo, eu agora estou aqui com vocês porque agora eu tenho um canal, só que eu tenho um canal no YouTube há cinco anos. Eu estou aqui com vocês agora explicando isso porque eu sou professor, mas esse agora que eu sou professor, eu sou professor há 17 anos. Vocês estão entendendo?
Esse agora, na verdade, pode ser um agora muito extenso. Dependendo do que você está falando, esse agora tem séculos, mas isso faz a gente ter que pensar em uma concomitância dos tempos, um ao mesmo tempo, como a gente costuma dizer no popular. E não é por acaso, portanto, que vai ser nesse espaço do todo sempre, que a Suzume adolescente vai encontrar a Suzume criança.
Porque agora, tanto ela criança como adolescente, elas vivem o trauma do desastre natural, elas vivem o trauma do terremoto e do tsunami. Quem a Suzume é agora é tanto a Suzume criança quanto a Suzume adolescente, esse é um grande agora delas Exato, inclusive uma bicicleta que ela vai junto com a tia que ela brigou o caminho inteiro. Então a dor também é um componente, um componente de união, nós nos encontramos inclusive, muitas vezes nós, sei lá, pessoas aleatória na vida, muitas vezes convergimos não pelo que a gente gosta, mas pelas dores em comum que a gente carrega.
É, aqui você tem um loop temporal, porque ela meio que do futuro entrega a cadeirinha para a menina criança, enfim, mas essa cadeirinha de alguma maneira sempre vai acompanhar ela. Então assim, tem algo assim de busca por uma superação, mas acho que talvez dá para formular dessa forma, é uma busca por superação que não descamba na supressão. Até porque a missão deles não acaba ali, eles precisam continuar agindo, eles precisam continuar evitando que os vermes escapem.
Inclusive mais para o final da história tem um momento que o Souta fala: o peso das emoções das pessoas acalmam a Terra. Então isso é até interessante, ou seja, as nossas emoções são pesadas, elas têm densidade, nossos sentimentos são carregados e aqui está sendo dito que isso acalma a Terra. O terremoto seria muito mais um agito a partir da supressão desses sentimentos.
Então perceba, se emocionar, sentir, se afetar, sofrer traz uma tranquilidade perante o próprio desastre, porque faz parte de uma compreensão de que a vida é impermanente. E inclusive os nossos sentimentos, as pessoas que a gente convive e o que a gente sente por elas e por nós, isso também está em trânsito. Portanto, o peso dessas emoções, por mais pesadas que de fato elas sejam, elas trazem uma calma.
Isso não quer dizer, aqui é usado uma alegoria de que isso impede os terremotos, mas basicamente é um entendimento maior de que, óbvio que isso não vai impedir os terremotos, mas vai fazer com que os terremotos sejam suportáveis, que a gente consiga dar conta desse chão embaixo de nós que nunca para de se mover. E aqui dá para fazer alegorias poéticas, porque o chão embaixo de nós que nunca para de se mover é a própria Terra, então não para de girar, o tempo está sempre passando, você não tem controle de nada. Até porque a questão da ancestralidade é muito importante para o xintoísmo, para a mitologia japonesa como um todo, para a cultura japonesa como um todo.
Então aqui a memória também é o lugar de encontro com a própria ancestralidade, com aquilo que permitiu que eu fosse quem eu sou. Porque aqui a gente está precisando de uma dimensão da vida própria, dos traumas individuais, mas eu estou pensando também para traumas coletivos, é por isso que entra aqui a dimensão do terremoto, de você entender que coisas que os teus avós sofreram foram determinantes para ser quem você é, está entendendo? Eu até anotei aqui umas outras paradas que eu comecei a viajar, mas aí já reconheço que é mais viagem.
De certa maneira esse road move da Suzume com o Souta ao longo do Japão, reencontrando o próprio Japão a partir daquilo em que ele se agita, a terra que se agita, o mar que se agita, as forças cósmicas que se agitam, enfim, em alguma maneira também me parece muito a tentativa de recontar a própria história, recomeçar a história desde o começo da mitologia japonesa. Ou seja, às vezes eu fico com a sensação que tanto o Souta quanto a Suzume é Izanagi e Izanami, que eram irmãos e também marido e esposa, que criaram as ilhas do Japão a partir de uma lança que eles agitavam no mar. E eu posso estar viajando demais, mas por exemplo, foi escolhido o design dos personagens, faz com que o Souta e a Suzume sejam tanto parecidos e a relação que eles vão construindo ao longo da história é uma relação que também se confunde com uma relação de namorados, mas também uma relação muito tenra, quase de irmãos.
E tudo aquilo que se cria em volta deles, tudo aquilo que eles descobrem como potências de vida se dá a partir de margens de morte, se dá a partir de caos, a partir de algo que se agita, algo que só se produz porque produziu caos. Aliás, isso é um elemento interessante que aparece em diferentes culturas, que é o quanto que o caos é o instaurador da diferença. As coisas só são criadas porque há caos, as coisas só são criadas porque no momento que você bagunça, você produz distinção e uma vez que você produz distinção, diferença, as coisas existem porque existe uma coisa e existe outra coisa.
É preciso ter diferença para que uma coisa não seja igual a outra coisa, então você tem duas coisas, está entendendo? A diferença produz vida, então o caos é um fator determinante para que isso aconteça. Gente, eu encerro aqui o que eu teria para dizer do anime, em resumo, Suzume é uma história muito sobre o reencontro de si e um reencontro de si individual, que a gente vê na personagem Suzume, mas também um reencontro de si do próprio Japão, não só com uma ancestralidade perdida e negada, aqui também tem muita história sobre isso, mas também sobre a importância, a necessidade de trazer para o agora todo aquele sofrimento que é constitutivo de quem nós somos, seja enquanto indivíduos, seja enquanto povo.
Gostei e por mais que tenha gente que fale mal do Shinkai e tal, eu curti e sinceramente penso em ver mais obras dele. Ainda que, confesso, não é o meu estilo mega preferido, mas é um excelente trabalho, não dá para negar.