Olá, acadêmicos. Sejam bem-vindos à disciplina de Produção do Conhecimento Científico. Eu sou a professora Elisabeth, e, hoje, a temática ligada a esta disciplina tem a ver com "saindo da bolha: como ciência e tecnologia nos afetam?
". Para fazer parte dessa conversa, desse bate-papo, nós temos aqui conosco a professora Inge Suhr, uma professora muito querida para nós, com muita experiência na educação. Já esteve na educação em várias oportunidades, inclusive, na coordenação de curso de pós-graduação stricto senso, no mestrado profissional, com os temas de educação profissional e educação tecnológica.
Por isso, professora Ingrid, nós vamos aproveitar a sua experiência para fazer deste bate-papo um momento muito rico. Nossa gratidão por ter aceito o convite. Professora Inge, quando a gente fala deste tema "saindo da bolha, como ciência e tecnologia nos afetam?
", nós percebemos aí vários riscos e várias potencialidades que trazem impactos para os nossos acadêmicos, ainda que eles não percebam. Então, quando a gente fala de tecnologia e o quanto isso se aproxima da gente, nós temos um tema aí que tem recebido muitas atenções desde o final do ano passado. E, nesse sentido, professora, eu queria que a professora conversasse com a gente um pouquinho sobre o tema, sobre os avanços da Inteligência Artificial, professora.
Olá, acadêmicos. Olá, professora Elizabeth. A inteligência artificial, com certeza, é um tema pujante e pulsante no momento.
Acho que não tem exemplo melhor de como a ciência e tecnologia nos afetam e, mesmo que a gente não perceba, vão tomando conta de todas as relações no mundo, e nós somos envolvidos nela. Então, inicialmente, a inteligência artificial nada mais é do que uma tecnologia, uma tecnologia computacional que utiliza redes neurais, ou seja, redes parecidas com os nossos neurônios, só que são redes neurais artificiais. Se utiliza de algoritmos, que são mensagens que nós damos a esses computadores para que eles trabalhem.
E o que que ela tem de diferente? Ela é capaz de aprender. Então, ela trabalha com sistemas de aprendizado.
A partir do momento que ela consegue aprender, ela consegue atuar por conta própria. Até agora, por mais avançados que sejam todos os artefatos que nós criamos, eles dependem do comando humano. A inteligência artificial, ela imita as capacidades humanas, as capacidades mais refinadas, que são realmente as capacidades da inteligência.
Elas são capazes de um tipo de raciocínio, elas percebem o ambiente e tomam decisões. Então, por conta disso, como bem a professora Elisabeth disse, isso abre enormes possibilidades e também grandes riscos. Mas essa questão de abrir enormes possibilidades e, ao mesmo tempo, muitos riscos está presente em todo o conhecimento e em todas as tecnologias.
Acontece que essa é disruptiva. Ou seja, a partir dela, o que vier depois vai ser absolutamente diferente do que nós já conhecíamos tudo o que veio antes. A gente pode fazer um paralelo, por exemplo, com a invenção da escrita.
Da escrita não, da imprensa. Muda completamente o modo como as pessoas se relacionam com o conhecimento, com a escrita a partir da invenção da imprensa. Bem, que possibilidade traz para nós a inteligência artificial?
Ela é capaz de realizar algumas tarefas que nós não desejamos, nós não temos tantas habilidades. Por exemplo, é possível reduzir o risco do erro humano. O ser humano erra – ainda bem, mas ele erra.
Então, a inteligência artificial, em princípio, não cometeria erros. Ela também pode assumir riscos em lugar do ser humano, protegendo-o de algumas situações mais desafiadoras, mais perigosas. Como por exemplo, ela pode, numa cirurgia potencialmente complexa, tomar decisões dos melhores caminhos com base em todas as informações com as quais ela foi alimentada sobre o funcionamento do corpo humano.
Tem uma outra situação: ela trabalha 24 horas por dia, não só 8, como nós, velhos humanos. Ela pode fazer o trabalho repetitivo por nós. Então, veja quantas coisas boas.
E também é capaz de tomar decisões muito mais rápidas do que nós. Mas alguns riscos têm sido apontados por alguns pesquisadores. Por exemplo, ela toma decisões muito mais rápidas, mas baseadas em que ética?
Então, vamos a um exemplo: tecnicamente, do ponto de vista técnico, a clonagem humana é possível. Mas as questões éticas nos põem limites ao sair por aí fazendo clones humanos. Irão surgir questões como, por exemplo, "esse clone é um ser humano?
", "ele tem os mesmos direitos do que os outros humanos ou não? ". Então, questões éticas envolvem as nossas decisões.
E a inteligência artificial, em princípio, não teria essas questões na sua tomada de decisões. Ela também traz em si o potencial de destruir ou de, pelo menos, alterar significativamente grande parte dos trabalhos e dos empregos que existem hoje. Então, ela tem, sim, o risco de ampliar o desemprego.
Ela também pode, de alguma forma, trazer algum risco ao que nós conhecemos como verdade e, portanto, à democracia, não só no nosso país, mas no mundo inteiro. Então, deixa eu dar um exemplo. Hoje, nós já temos alguns programas de inteligência artificial que geram imagens e geram voz de maneira que nós podemos gravar.
Sem, por exemplo, a professora Elisabeth estar aqui, nós podemos pedir a esses programas que criem uma fala dela com a imagem dela falando coisas que ela jamais diria, e podemos colocar isso no jornal, nas redes sociais. E aí, por que que nós vamos acreditar? Isso também traz, de alguma forma, o risco de armas autônomas, amplia de maneira muito grande os ataques cibernéticos.
Então, veja: como toda e qualquer tecnologia, ela tem riscos e tem potencialidades. A grande diferença da inteligência artificial é que, pela primeira vez, rompe-se uma relação que até então existia homem-máquina, em que, de alguma forma, o controle da máquina ainda estava no ser humano. Agora, existe a possibilidade de esse controle ser autônomo, de a própria máquina se autorregulando a partir do que ela vai aprendendo, à medida que ela processa as informações.
É um mundo completamente novo que se abre para nós. E já digo para vocês de antemão: não adianta negar uma nova tecnologia, uma nova descoberta. O que nós, humanos, vamos ter que fazer é aprender a lidar com ela de maneira ética, crítica e cuidadosa.
Espero que todos vocês, porque vocês já serão profissionais no mundo em que os diferentes programas de inteligência artificial existem, que vocês os usem de maneira ética, de maneira cuidadosa e respeitosa com os outros seres humanos. Professora Inge, sobre o tema inteligência artificial, então, a gente já percebe algumas situações bem relevantes e que trazem, sim, impactos que vão além do que a gente apenas conversaria como um conteúdo de uma disciplina. São situações que trazem consequências, trazem outras repercussões que vão extravasar a sala de aula e que vão ser sentidas pelos nossos acadêmicos já de uma forma muito – como é que se diz?
– intensa, tanto na área deles, ou seja, no futuro do trabalho como futuros egressos de determinadas áreas. E tem uma outra perspectiva que é muito próxima e muito importante para nós, que conversa diretamente com a produção do conhecimento científico, porque, se nós estamos falando de acadêmicos, de quem se espera também uma postura autoral, e sabendo que já temos alguma inteligência artificial que trabalha nesse sentido, acho que o caminho seria nós fazermos, talvez, uma aproximação, porque a fuga não é possível, né? !
Então, eu gostaria que a professora falasse sobre esses dois impactos para o nosso acadêmico enquanto futuro profissional ou que já está numa determinada área, como ele pode perceber o que vai acontecer com a inteligência artificial, enfim, quais seriam os desdobramentos possíveis e como, academicamente, ele pode também perceber os benefícios que estão à disposição dele, mas numa postura ética, professora? Pessoal, então, a inteligência artificial, de alguma forma, já está presente. Ela não é futuro, ela é presente.
E, embora tenha se falado muito nos programas que atualmente ajudam na produção de texto, nós já temos vários e vários e vários programas, seja de programação de computadores, seja de controle de produção agrícola. Existem várias programas da inteligência artificial já atuando. O que muda é que, cada vez mais, nós vamos ter que aprender a lidar com essa tecnologia, a nos beneficiar dela, a ler as informações que elas trazem e ajudá-la, passando novos conhecimentos, novas informações, para que ela possa tomar as decisões mais adequadas.
Então, por exemplo, em uma grande fazenda, já é muito comum que haja todo um monitoramento, por exemplo, da produção de leite das vacas, a partir de programas que são todos informatizados. Então, já está presente. O que acontece é que nós precisamos tirar de nós a ideia de que isso é futuro e que isso vai trabalhar por nós.
Gente, sem alimentar a inteligência artificial. . .
Ela se serve do quê? Ela se serve do que está na rede de computadores. Quem é que coloca essas informações lá?
São os cientistas, são as empresas, são os governos. Então, essas informações continuam sendo geradas, pelo menos por enquanto, por seres humanos. Quem não aprender a lidar com inteligência artificial vai ter seu espaço de trabalho muito reduzido.
No aspecto acadêmico, nós vivemos uma época em que nunca os estudantes tiveram tanto acesso à informação. Gente, como é fácil hoje! A um clique do mouse, você tem acesso a textos, tem acesso a vídeos, tem acesso a tutoriais sobre qualquer tema que você procurar.
Isso é maravilhoso. Ah, quem me dera no meu tempo de academia ter acesso a isso! Por outro lado, a gente tem que ter um pouco de cuidado, primeiro, com a procedência dessa informação.
Será que são pessoas realmente fidedignas? Essas informações vêm de pesquisadores, vêm de universidades, ou vêm dos curiosos? Porque tá cheio de tudo que é tipo de coisa.
Mas, gente, informação não é conhecimento. Toda a informação precisa ser transformada em conhecimento, precisa ser incorporada por mim de maneira consciente e crítica, de forma que ela não seja só algo que eu vi ou que eu decorei. Como é que eu faço isso?
Existem técnicas de estudo e de assimilação do saber, existem formas de fazer a apropriação crítica. E essa apropriação crítica é que vai me permitir o uso, inclusive futuro como profissional ou presente como participante de grupo de pesquisas ou de uma startup que já esteja desenvolvendo uma tecnologia, para que eu não faça sempre o mesmo, e, sim, que eu seja capaz de produzir o novo, seja uma nova técnica ou tecnologia, seja um novo conhecimento, um novo instrumento, uma nova mercadoria, porque é isso que o mercado está pedindo cada vez mais de nós. Existem várias ferramentas que me ajudam na leitura, na construção de mapas mentais.
Então, a tecnologia e esses programas cada vez mais avançados de inteligência artificial abrem um universo para nós que nos permite pesquisas e acesso full time ao conhecimento. Ao mesmo tempo, existem já autores nos mostrando algumas coisas preocupantes quando fazem pesquisas com crianças, por exemplo, a redução da capacidade de memória. Parece que cada vez mais nós estamos delegando para os equipamentos a nossa memória.
Um exemplo muito fácil são os números de telefone. Nós temos gravados no celular e não sabemos mais de cor. É bom e é ruim, porque abre espaço para outras coisas no nosso cérebro, mas o mínimo de memória é essencial.
Também tem crescido a dificuldade de atenção concentrada. Isso, gente, não é só nas crianças. Pense em cada um de nós, e eu me incluo nesse grupo.
Começa um vídeo muito comprido, a gente já desanima, tá? Então, concentrar-se é uma habilidade que nós precisamos desenvolver, porque não há como desenvolver novo conhecimento e até fazer frente aos avanços da inteligência artificial sem ser atropelada por ela, sem desenvolver conhecimento. E, para isso, nós precisamos de atenção.
Essa atenção é que nos permite a leitura e aprendizagem. Também tem estudos mostrando o crescimento da ansiedade nas pessoas e da desconexão com o mundo real e a dificuldade de trabalho em grupo. E aí, gente, trabalho em grupo no mundo atual, principalmente esse que é o da Inteligência Artificial, não tem como escapar.
Ou vocês acham que criar um programa desse que não precisa de profissionais das mais variadas áreas? Quando a gente diz que a inteligência artificial cria redes neurais artificiais, quem é que estuda os neurônios? É um profissional.
Quem é que faz a programação? É outro. Quem tem o pé no mercado para ver que tipo de possibilidade essa inteligência vai possibilitar?
É outro. Então, trabalhar em equipes não há como escapar. Inclusive, nós temos muitos programas que permitem o trabalho colaborativo mesmo a distância.
Então, se eu puder dizer alguma coisa para você, acadêmico, é: aproveite as possibilidades que o mundo de hoje te oferece de acesso, mas também desenvolva outras competências, principalmente a de diminuição do nível de ansiedade, ampliação da sua atenção concentrada, porque, com isso, inclusive, a aprendizagem é facilitada e é mais rápida. Professora Inge, a sua discussão, ela evidenciou de forma muito especial os benefícios da educação científica, certo? Eu vejo aqui que a professora trouxe para nós vários aspectos que, ao mesmo tempo que nós vamos precisar ficar atentos, também nós podemos, desta forma, nos policiarmos, nos educarmos para "ok, eu tenho mais uma ferramenta à minha disposição".
Então, eu acho que foi, de uma forma muito clara, a sua apresentação contribuiu de uma forma muito especial para que os nossos acadêmicos entendam que eu tenho uma ferramenta ao meu dispor, mas eu precisarei ser ético, precisarei seguir normas, né, professora? ! Porque a gente tem, na publicação científica, algumas orientações a seguir que me fazem, que me provocam a ser autor, mas que também exigem que eu seja transparente, que eu mostre as minhas fontes e que a gente pode se utilizar da Inteligência Artificial para nos ajudar a delimitar os assuntos, a verificar quais são as vagas, as áreas ainda carentes de pesquisa, e que eu posso, com aluna do curso A, do curso B ou do curso C, investigar, né?
E essa etapa, assim, que era aquela etapa professora, que a gente fazia sentada na biblioteca, né? A gente folheava, folheava tudo que estava ali, as revistas, os livros de cada uma das áreas para identificar qual era o status de alguma área do conhecimento, para, então, começar a fazer uma pesquisa. Eu acho que a gente, então, encerra por aqui, professora Inge, com o nosso agradecimento muito especial, e eu tenho certeza que tudo que a professora falou vai colaborar de forma muito intensa para a produção do conhecimento científico para os nossos acadêmicos, professora.
Um forte abraço. Tchau, tchau.