[Acorde de violão] [Buzina de carro] Começa agora, Inédita Pamonha. Por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. No desejo as coisas do mundo passam pela nossa cabeça, estão na nossa mente.
Ás vezes estão simultaneamente na nossa mente e diante dos nossos olhos, o fato é que aquilo que desejamos é porque de alguma maneira podemos imaginar, e se podemos imaginar é porque foram vencidas condições para isso. O mundo vai nos mostrando aquilo que podemos desejar. O mundo vai nos ensinando a desejar.
E no meio desse mundo, claro você tem árvores exibindo suas frutas. Claro também, você tem lagos convidando para um mergulho. Você tem o pôr do sol fazendo despertar a melancolia do olhar comprido, mas você tem além de lagos, paisagens e árvores frutíferas, você também tem pessoas como você.
[Fundo musical] As relações que mantemos com as outras pessoas são uma fonte infinita de objetos de desejo possível, e assim a gente deseja o carro do vizinho, o salário do chefe, o marido da tia. A gente deseja os sapatos de quem acabou de passar. A gente deseja a viagem daquele que fez da experiência uma longa narrativa para você.
A gente deseja às vezes até o prato de quem só escolheu diferente no cardápio. Assim as pessoas através das suas condutas e das suas conquistas acabam nos contando sobre o que podemos nós também desejar, talvez até sobre o que devamos desejar. E por quê?
Porque o desejo além da imaginação sobre o mundo que gostaríamos de ter, cobra de nós energia para ir atrás. O desejo também é mobilização de forças e de potências, o desejo também é tesão, é eros, é inclinação. E essa energia que cada um de nós tem para viver não é infinita, então quando alguém nos acena com alguma coisa que se torna a desejo para nós, está direcionando nossa energia para um canto, e ao mesmo tempo inviabilizando este mesmo direcionamento para o canto oposto.
E assim quando desejamos X com toda a intensidade tornamo-nos impedidos de desejar Y com essa mesma intensidade. Por isso a vida no mundo e a vida com as pessoas orienta, direciona e dirige nossa energia vital para certos mundos em detrimento de outros mundos. Ora, se isso acontece com uma pessoa, o que dirá com uma sociedade e suas poderosíssimas instituições.
Vamos então vivendo e o mundo nos bombardeando de desejo autorizados e, assim, a publicidade nos conta o que podemos desejar e comprar algum dia tanto quanto as instituições onde trabalhamos nos mostram o que podemos desejar como carreira, como devir profissional, como o nosso amanhã de trabalho. [Fundo musical] Mas o que mais me chamou a atenção desde sempre, talvez porque sempre tenha sido a minha vida, é a escola. E aí então lá no primário, porque quando eu estudei tinha primário, a tia que chamava Maria das Graças, falava do 2º ano primário.
Mas nós estávamos no primeiro ano primário. Perceba você que me ouve, a tia podia dizer "estamos no "primeiro ano primário, a vida é feliz, a vida é linda, essa é a única vida que temos para nós. Vamos desfrutá-la, vamos gozar, vamos viver" "vamos viver intensamente este que que é o primeiro ano primário.
A vida que é a nossa, comigo de tia, nesta sala, com esses livros e esses assuntos a aprender" Mas ela nunca fez isso. O que ela fez foi falar do 2º ano primário. No 2º ano primário sim a vida seria promissora, alvissareira, colorida.
Com outra sala outros livros, outros colegas e, pasmem, vocês que estão me ouvindo, no 2º ano primário, paradisíaco 2º ano primário, a tia seria outra. Maria das Graças não só rebaixava a nossa vida, como rebaixava a ela mesma como parte integrante. Você então chega no 2º ano primário e diz "bom agora alegria chegou".
"A alegria, a felicidade, o gozo e o prazer chegaram, era um ano só de sacrifício" "A partir de agora vai correr solto, vai ser só alegria, como a gente diz, é nóis". Mas isso dura até o começo da primeira aula quando a nova tia, que dizer "você que suportou o 1º ano primário com a Maria das Graças" "agora vai valer, agora sim, agora é vida da boa, agora vamos desfrutar, agora" "será inesquecível vocês não vão querer nunca mais sair do 2º ano primário, nunca" A professora do 2º ano primário passou a falar do 3º ano primário e ameaçou a todos, "Quem fracassar terá que ficar aqui comigo como prova de punição" e o segundo ano quando chegou foi rebaixado, tal como houvera sido o 1º ano. E assim foi o 3º, o 4º, o 5º, o ensino médio.
O ensino médio esse condenado a preparação para o vestibular, e portanto jamais valendo em si mesmo, mas valendo pelo que viria, pelo que ocorreria a entrada na faculdade, e entrando na faculdade você poderia imaginar, "Nossa agora, 12 ou 13 anos depois, a vida boa chegou". Mas não, depois de uma semana de calouros auspiciosa, os discursos foram sendo os mesmos rebaixadores da vida, e tudo ali passou a ser uma preparação para o mercado de trabalho, mercado de trabalho cada vez mais exigente, mais seletivo, exigindo competências nunca antes necessárias, e aí você fica cinco anos se preparando para o mercado de trabalho. Alguns dirão que na faculdade não aprenderá nada e que é preciso fazer um estágio, você pensa "então no estágio é onde está a alegria".
Mas no primeiro minuto de estágio você percebe, o estágio nunca vale por si, vale pela carteira assinada, vale pelo que vem depois. [Fundo musical] E agora vamos fazer um pequeno intervalo só para os nossos agradecimentos. O podcast Inédita Pamonha é um oferecimento de Eastman Chemical do Brasil, de BNP Paribas Asset Management e, finalmente, de Profuse Aché.
Aos amigos patrocinadores um carinhoso abraço! [Fundo musical] Como deu tudo certo agora você tem diploma e carteira assinada e pensa: "A alegria chegou. Já são 17 anos esperando".
Primeiro dia de trabalho com a carteira assinada e o chef avisa: "a empresa tem 15 níveis" Você tá no G15 e é de cima para baixo que funciona. Você tá no último não pode haver felicidade no último, a felicidade começa depois, no 14 talvez. Para isso você precisa bater metas, são como cenouras que correm rápido, e aí então você se torna um exímio perseguidor de cenouras.
E você traz cenouras rapidamente e alguém te garante quanto mais cenouras trouxer, mais rapidamente a felicidade chegará. Mas você entope a sala de cenouras e a felicidade parece não chegar nunca, porque sempre te é prometido um Eldorado no devir, no futuro, no vir-a-ser, nunca na vida que é. No final você é CEFO, e CEFO é incrível.
CEFO é demais. É maravilhoso. CEFO você sempre desejou, não deseja mais porque agora é CEFO Mas sempre haverá um CPICOU das galáxias para olhar para você e deixar claro que ainda falta muito.
Sim faltará muito, faltarão novos desafios, faltará ser demitido, faltará comprar uma chácara com lago no meio, faltará estar nas últimas e alguém dizer "nada de tristeza, o melhor ainda está por vir". [Fundo musical] E você talvez passe a vida sem se dar conta que tendo uma certa quantidade de energia para viver, foi submetida a uma espécie de adestramento, tal como um touro em uma arena de touros, atraído pelo lenço vermelho do toureiro. E você sempre disposto, sempre empenhado.
Você sempre correu atrás do lenço vermelho sem jamais te-lo conseguido agarrar, porque na iminência de agarrar o toureiro tirou o lenço da frente e apontou para você o 3º ano primário, apontou para você um novo MBA, apontou para você uma nova posição de carreira que só quando alcançada, aí sim você seria feliz. Você então passou 80 anos esperando pela felicidade no dia de amanhã sem nunca ter cogitado na possibilidade da felicidade no dia mesmo em que cogita, no dia mesmo onde a vida está. No dia mesmo da vida vivida.
Este dia em que eu falo e você me ouve neste dia, neste instante, neste lugar. E assim você aí pensa "porque será que o "Clóvis está fazendo podcast Inédita Pamonha? ", "O que será que ele quer com isso?
" "O que será que o podcast trará para ele? " E aí ele responde "o podcast trará para ele o podcast", e o encontro com você trará para ele um encontro com você, e a fala dele trará para ele a fala dele e a oportunidade de se ouvir, e aí é claro a vida trará para ele a vida, e o encontro o encontro, nada mais. Nada além disso.
Ou é para ser feliz aqui falando diante desse microfone ou então a vida terá sido, de novo, ludibriada, iludida e irremediavelmente vítima de um novo fracasso. [Fundo musical] Portanto eu costumo dizer a quem me interpela "não me venha com as suas promessas porque já vivi um suficiente para flagrar a máquina do engano", a ideia de que só se alguma coisa mirabolante acontecer, aí sim eu conseguirei ser feliz. Não, não, não, se estou vivendo aqui na cidade de São Paulo, e nesse momento estou no bairro do Paraíso gravando este podcast, é só aqui que a vida poderá ser avaliada.
Qualquer outro lugar nada mais será do que uma nova iniciativa dos que me cercam, da civilização em que estou inserido, para direcionar a minha energia para um lugar que apetece muito a quem direciona, mas que nem sempre agrada ao touro. Por isso, guarde seu lenço vermelho. Recoloque-o no bolso, porque já aprendemos o suficiente, a desejar com o gosto dos outros, a perseguir a meta dos outros.
A ir atrás do ganho dos outros. Já fomos por demais vítimas de inescrupulosos tiranos. Desta vez convido você que me ouve a refletir sobre si a bradar com punho erguido, "a vida está só onde eu estou, eu com meu corpo a "minha mente, a minha consciência, meus afetos, minhas sensações e tudo mais que me constitui.
" E se tiver que vale a pena, pois que valha aonde tudo está, aqui mesmo. Eu falando e você ouvindo. [Fundo musical] [Fundo musical] Este podcast Inédita Pamonha é um oferecimento da revista INSPIRE-C INSPIRE-C com C no final, de vitamina C ou de Clóvis.
Como você preferir. INSPIRE-C. E aí você acessará este podcast Inédita Pamonha pelo site da revista INSPIRE-C.
www. revistainspirec. com.
br É por aí mesmo o caminho. E não esqueça de se deliciar com o resto da revista, que é maravilhoso. Era o que tinha uns por hoje.
Este que foi mais um episódio de Inédita Pamonha e agora só me resta dizer adeus, dizer que valeu muito ter estado aqui com você. Não espero nada disso a não ser o que isso já foi. Um beijo e até a próxima!
Valeu! Você ouviu o Inédita da Pamonha, por Clóvis de Barros Filho, trazido até você pela revista INSPIRE-C. Acesse www.
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Este podcast foi editado por Radiofobia Podcast e Multimídia.