[Música] hoje o programa diálogo Sem Fronteira tem a satisfação de receber o professor Fábio Durão seja bem-vindo Professor Fábio obgado o Fábio Durão é ele é nosso professor Aqui é do Instituto de estudos da linguagem de teoria literária ele tem uma formação também muito particular porque estudou na UFRJ eh português e inglês depois fez o seu doutoramento nos Estados Unidos na Duke University em estudos literários também e é um grande estudioso todo desse âmbito cultural e uma questão que nós vamos tratar hoje que eu acho que é de interesse amplíssimo que é a questão da
indústria cultural e do entretenimento Então gostaria de começar eh Professor Fábio com essa questão o que que é indústria cultural é a a indústria cultural e é um termo bem complicado Bem mais complicado do que parece porque dá pra gente pensar a indústria cultural hoje a partir de duas vias bem diferentes a primeira via é uma via neutra você fala de indústria cultural como se fala nos Estados Unidos de indústria da hospitalidade para se referir ao ramo hoteleiro né Essa proliferação de indústria e você fala da indústria cultural como qualquer outro ramo da vida como
qualquer outra parte da sociedade uma uma expressão neutra e a expressão que figura nos estudos de Business e n na que circula mais livremente uma outra versão um outro com as mesmas palavras um outro sentido completamente diferente é o que foi cunhado pros filósofos alemães pelo teodor Adorno e Marx hhe na década de 40 que não vê essa expressão indústria cultural como uma coisa uma expressão corriqueira ou comum mas sim como oxímoro da mesma quer dizer indústria cultural para eles co contraditória contraditória que deveria soar como por exemplo Fogo Frio ah ou um alto baixo
quer dizer uma uma expressão que combina duas coisas Opostas em si Por que que são duas coisas Opostas Porque a indústria ela se caracteriza o conceito de indústria tem a a ver com apagamento de tudo aquilo que não estiver ligado à execução de determinado fim quer dizer o conceito de indústria tem a ver com uma adequação perfeita o mais perfeita possível entre meios e fim né então você adequa todos os meios para chegar a um fim específico e a cultura seria o contrário disso a cultura ao invés de ser uma adequação de meios e fim
meios e e um fim específico a cultura deveria ser a aquilo que ultrapassa o que foge a mera reprodução da da existência quer dizer é é é o contrário do do do simples existir é alguma coisa que é a mais pelo menos essa promessa da cultura Então essa combinação das duas coisas deveria gerar uma espécie de um choque né e o e o fato de que esse choque não apenas não não existe como ainda a a a expressão ela se tornou um termo neutro tem bastante a dizer sobre o o agora nossa situação Professor Fábio
o que seria eh você conceituou muito bem a questão da das duas duas possibilidades de interpretação mas um exemplo o que seria uma o que que seria o produto dessa indústria cultural o que para que possamos entender assim do que estamos falando é a a indústria cultural é algo que tá tão difundido hoje que é quase difícil eh é difícil você pensar alguma coisa que não seria convertível em em indústria cultural indústria a indústria cultural é é assim numa forma mais a ah tradicional seria a produção de algum artefato de Cultura Ou seja que não
tá ligado a uma finalidade específica mas uma produção daquele artefato de forma a você conseguir obter lucro hum né dentro de um processo de por exemplo poderia ser o cinema o cinema um programa televisivo Ah mas aí assim da segunda metade do século XX para cá os esportes fazem parte da pode fazer parte da indústria cultural porque quer dizer uma uma competição esportiva não tem uma finalidade e específico são a artefato simbólico se você quiser pensar assim quer dizer o objetivo é é ao mesmo tempo não é um objetivo de produção porque não é não
é uma produção de alguma coisa é algo portanto por isso é que é cultural agora ao mesmo tempo é feito com vistas a produção de lucro Por parte dos organizadores e tal quer dizer você por um lado você não morre se você não não não assisti uma partida de futebol da forma que o que você morre se você não comer mas por outro lado na hora que o futebol começa a dar prejuízo sistematicamente aí ele não vai existir com a forma como que ele existe bom então isso nos leva a um ponto que é eh
isso tem uma relação intrínseca então com a questão do entretenimento com a noção de entretenimento e de passatempo e como isso se articula a essa produção de bens para a população eh de supostamente culturais e o entretenimento tá o conceito de entretenimento e o conceito de de entretenimento ele é também ele ele é mais complicado do que pode parecer Ah porque por um lado ele já foi defendido ah como algo a partir do qual ah como algo que pode ser muito produtivo quer dizer se você entende o entretenimento como uma espécie eh de suspensão de
uma certa lógica do trabalho como uma um um um âmbito no qual você pode ter uma liberdade de associ associativa eh dos Pensamentos ele pode ter alguma coisa de de Libertador em relação Justamente a essa lógica de meios e fins né que seria uma digamos assim a lógica do trabalho do dia a dia você no escritório e tal mas é o tempo que você usa fora isso fora isso poderia ser poderia ser um tempo um tempo de liberdade Mas por outro lado ele pode ser o contrário disso se o entretenimento ele se transforma no oposto
do trabalho e a Ah e como sendo o oposto do trabalho o oposto da dificuldade e o oposto do pensamento Ah porque Então nesse caso que o que se configura é uma oposição entre Ah o trabalho e o pensamento por um lado e o não trabalho e o não pensamento por outro e aí Isso é complicado porque assim para quem tá na academia percebe que o que o pensamento tem prazer quer dizer é o prazer Seria um prazer o entretenimento é um prazer sem que haja reflexão tem que haja reflexão quer dizer se o se
o entretenimento for concebido como isso como aquilo que por definição Ah não te deixa pensar porque não não te fornece material pro pro pensamento você cria ess essa oposição entre o trabalho o difícil e a falta de prazer e por outro lado o fácil Ah o lazer e e o prazer quer dizer essa essa combinação ela ela é estranha agora isso pode ser na sua opinião nos seus estudos você acha que isso pode ser superado no seguinte sentido de que eh o a indria cultural possa também produzir consciência possa também produzir pensamento crítico que o
entretenimento ou as coisas que as pessoas fazem fora do trabalho para usarmos um termo Mais amplo possa ser realmente algo eh também fruto da reflexão ou isso é o tópico no contexto que vivemos né no contexto atual de novo sim e não né ah assim a a por um lado você é É muito difícil você se você pegar a indústria cal cultural como um todo primeiro que ela é muito multifacetada né justamente el como ela segue uma uma lógica de mercado ela vai ser tão mais segmentada quanto mais o segmentado quanto mais oportunidades isso e
eh oferecer a ao ao mercado Então você tem já você tem diferentes nichos e tal e você tem dentro da indústria cultural o nicho assim pros intelectuais e tal tem uma coisa que é mais e eh interessante se você for pensar em séries como os sopranos ou como o The Wire são coisas que são extremamente inteligentes né Essas séries e televisivas mas eu eu eu sou muito cético em relação a uma uma possibilidade da indústria cultural assim como um todo ah poder levar alguma espécie de transformação ou de de criação de consciência porque ela Quanto
Mais Capital investido você tem ah maiores são os riscos e e maior vai ser a pressão para você usar uma fórmula já estabelecida uma fórmula que já de sucesso comprovado para você obter eh os recursos de volta né quer dizer é importante também pensar quando a gente pensa em indústria cultural que eh não se não se trata assim quem trabalha com indústria com indústria cultural com muita com muita facilidade cai nessa nessa espécie de armadilha de achar a indústria cultural como uma coisa assim e eh maquiavélica e que tivesse alguma espécie de um ou que
fosse má ou que tivesse algum espécie de alguém por trás é um cérebro assim mastermind né Por trás controlando não é o caso ela ah ela ela funciona de acordo com lógica de uma lógica de mercado o que inclusive permite que determinados artefatos e determinados momentos ass interatos muito e eh interessantes e e e e e capazes de eh a mobilizar as pessoas que eles que eles eh apareçam de vez em quando dependendo do em uma situação S propícia como ela tá menos menos a indústriaa tá menos hã focada numa numa na verdade no que
seria uma verdade do que na questão do do da obtenção de de lucro a por vezes tem coisas que são veiculadas que são muito interessantes né mas de novo isso tende a ser uma uma coisa ou em situações muito específicas ou especiais ou para um para um nixo nicho agora e nessa nesse âmbito mais amplo eu te perguntaria se você vê especificidades na situação brasileira porque naturalmente os países com classe média majoritária com uma longa tradição de de de consumo de desses bens de massa desde Esporte passando por por todos os outros meios eh estão
numa situação naturalmente diferente da da situação do Brasil que é um país que de recente escolarização ainda com uma renda per capita relativamente baixa então o que eu te perguntaria é no contexto brasileiro Qual a especificidade que você vê em relação a a ao tanto aos aspectos deletérios quanto a potencial potenciais eh aberturas para que se possa fazer algo mais inovador até considerando que nós temos cinema porque é brasileiro temos tradição de cinema música Temos uma uma tradição forte também nesse campo do entretenimento da indústria cultural sim e e o Brasil tem a assim artefatos
ou até gêneros que são próprios né eu diria que o o besterol tá meio fora de moda mas na década de 90 foi foi muito e ah famoso né o besterol tem um gênero brasileiro de fazer eh o o besterol de fazer humor que uma coisa meio Clara né porque cada cultura tem um trabalha humor de um jeito de um jeito eh diferente né mas o que eu diria é que para tentar caracterizar um pouco a a indústria alguma especificidade da indústria eu diria que tem um conceito ã que funciona de novo pros dois lados
que seria um aspecto mais ã coletivista da relação do Brasil com a indústria cultural principalmente com a Rede Globo quer dizer a Rede Globo teve um Ah tem tem uma espécie ainda tem mesmo que que ela esteja S assim eh caindo os níveis de ainda tem um um grau de domínio do mercado eh televisivo e também do do cabo que é muito difícil de você encontrar em algum outro lugar do mundo né então o que eu diria que a a indústria cultural no Brasil ela principalmente através das telenovelas que são gêneros estritamente nacionais eh funciona
como uma espécie de um emplastro ou de uma de um elemento de coesão social que é que é interessante quer dizer que é um é de um jeito ou de outro é uma espécie de uma quase que uma língua Franca que todo mundo fala e é uma espécie um repositório de referências para que que podem ser mobilizadas em diversos diversos sentidos e que tem a ver com com o processo de socialização das pessoas né então Ah Agora nós estamos num num num processo aqui no Brasil digamos assim quase que eh reportando ao que ocorria nos
grandes centros nos grandes país há anos atrás porque você disse que por exemplo a novela que tem essa função ela ainda tem essa função aqui mas em outros lugares naturalmente se perde porque você tendo a multiplicação de meios de ofertas a segmentação ela se tornará cada vez maior eh os nichos que você mencionou E aí nichos inclusive há uma legislação atual no Brasil eh impondo a regionalização também da produção O que também vai acabar eh indo contra essa essa esse fator de unificação então eu te pergunto nesse esse contexto se você como você vê isso
quer dizer Inclusive essa essa questão da fragmentação que é típica do contemporâneo né E que nós estamos sofrendo agora talvez até um pouco tardiamente como isso vai afetar ou afeta essa situação eh inclusive de unidade Eu acho que isso vai depender da estratificação social brasileira porque a essa multiplicação dos nichos Ah é difícil você você imaginar ela acontecendo sem acesso à TV a cabo e sem acesso à internet são acho são dois são dois veículos importantes para para que ela aconteça então eu diria o seguinte Enquanto houver desigualdade social porque a televisão ela é acessível
para todo mundo de de um de um jeito ou de outro realmente é só quem quem vive na rua que não tem acesso à televisão e mesmo assim ainda pode pegar alguma coisa ou outra é sim hã então enquanto Ah houver essa essa divisão social no Brasil que que as pessoas tenham acesso apenas à televisão aberta eu acho que essa situação perdura então é a essa a função meio da da televisão de uma espécie de de plasmar uma espécie de uma experiência comum vai permanecer Enquanto houver uma você tiver uma uma classe uma uma classe
de baixa renda ainda e bem grande aí eu não sei porque a se isso vai se manter ou não né porque isso também cria uma outra questão e que é a seguinte você tem na medida em que você tem eh um acesso segmentado para as pessoas de uma certa classe social minoritária mas numerosa e Crescente que vai tendo acesso aos nichos você vai ter cada vez mais a televisão aberta e o público amplo voltado justamente para as classes mais baixas que são confinadas elas não têm outra opção por enquanto quer dizer enquanto isso perdurar isso
pode inclusive reforçar essa essa esse clivagem já existente Uhum E aí isso é um também é um problema para pra noção de que eventualmente a indústria cultural possa continuar reproduzindo essa unidade Nacional É mas o interessante perceber que mesmo tudo tá certo mesmo que você não tenha mais um um grande uma um objeto que seja assim visto por milhões e milhões de pessoas é interessante pensar que você consegue atingir o mesmo efeito a partir de uma lógica de semelhança no seguinte sentido um argumento que se que se faz contra essa visão crítica da indústria cultural
é justamente dizer que ela a indústria cultural hoje é tão pulverizada ã tão multifacetada assim eh em em Campos diferentes que ela ela não teria esse papel de hã de moldar a experiência porque também isso é uma uma coisa que tá subjacente esse argumento né Eh justamente como S artefatos voltados para o lucro Ele eles tendem a a a formar gramáticas narrativas se você quiser ou seja as pessoas seguem certos esquemas certos certos certos esquemas que ah que já que é uma uma l lógica dupla né quer dizer o produtor usa um esquema que já
tá consagrado e ao mesmo tempo aquele esquema que já tá consagrado ele fica ele empregado ele ele marca a cabeça da das pessoas né então o argumento que se diz não não mas a indústria cultural hoje ela ela ela é tão pulverizada em Campos diferentes que não haveria mais esse esse esse ah papel essa função esse efeito de de condicionar a experiência esse esse argumento é problemático porque ele não considera o fato de que você pode que que você pode ter uma diferença muito grande que no fundo é uma grande identidade uma grande identidade quer
dizer não é só porque você tem sei lá 200 canais na na TV aabo que você vai ah que que aquilo que vai tá sendo mostrado é realmente diferente e se você começa e a se você começa a perceber como que determinados padrões se repetem praticamente depis ideia do final feliz difícil você ver um filme uma coisa que uma novela que não tem final feliz né porque também assim essa nova legislação aqui brasileira propondo e obrigando produção local eh nesse sentido que você tá falando então você bom além da novela eh pro Brasil inteiro você
vai ter uma novela nos mesmos modos então no Rio Grande do Sul uma novela no Rio Grande do Norte só que é o que você tá falando o esquema narrativo da novela eh embora tem o sabor local personagens locais e gira local você muda o sutaque você muda a roupa e às vezes você pode chegar até tem casos interessant antes que são a a casos autor referenciais como por exemplo que tem aquela tetralogia do do Pânico né do aquele Slash movie né de filme de cara com a faca e aí o e e a série
é toda ela autorreferencial é toda é é um filme ah de terror mas que é sobre o que tá acontecendo e também sobre os filmes de terror então o filme meio que funciona em dois níveis para quem tá vendo o filme de terror você vê o filme de terror você se assusta e tal e o um outro nível que é pro Expert especialista que vai conseguir detectar ali todas as referências mesmo isso que já já é mais interessante você tem uma um trabalho tem uma inteligência funcionando mas mesmo isso tá dentro de uma lógica de
gênero Isso é uma outra coisa interessante também como é que a indupa a literatura já a partir do modernismo não conseguia mais lidar com a ideia de gênero porque as obras foram se tornando tão complexas e tão complicadas quer dizer elas passaram a a elas elas passaram a impor para si próprias as regras que antes eram dadas pelo gênero que era uma coisa exterior à obra então você vê o ulices do do Joyce por exemplo é uma obra que é completamente ela que diz assim é quem manda que sou eu as regras a partir das
quais eu vou funcionar sou eu que determino então você não dá para você dizer colocar dentro de um gênero a indústria cultural é o contrário ela ela não consegue existir sem o gênero então num filme desse como desse do do do do Pânico o que você vê isso é o filme que Poxa eu queria sair desse gênero mas eu não consigo Então eu vou eh eh trabalhar de dentro desse gênero para tentar implodir o gênero é é que também um outro exemplo que as pessoas também lembrarão aqueles filmes infantis atuais que têm também piadas para
adultos ele ele tem dois registros ao mesmo tempo para poder ter essa função olha Professor Fábio Foi uma satisfação recebê-lo aqui eu tenho certeza que o nosso público saiu Encantado porque as suas explicações sobre a indústria cultural foram realmente impressionantes Então queria agradecer muito Eu que agradeço então isso convido a todos ao próximo programa diálogo Sem [Música] Fronteira [Música] n