Vidas Secas romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 10 contas Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na Vazante uns punhados de feijão e milho comia da Feira desfazia-se dos animais não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito se pudesse economizar durante alguns meses levantaria a cabeça forjara planos toliss quem é do chão não se trepa consumidos os legumes roídas as espigas de milho recorria à gaveta do amo cedia por
preço baixo O produto das sortes resmungava reinga numa aflição tentando espichar os recursos minguados engasgava se engolia em seco transigo com outro não seria roubado tão descaradamente mas receava ser expulso da fazenda e rendia-se aceitava o cobre e ouvia conselhos era bom pensar no futuro criar juízo ficava de boca aberta vermelho o pescoço inchando de repente estourava conversa dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer quem é do chão não se trepa pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano e quando não tinha mais nada para vender o sertanejo
endividava ao chegar a partilha estava encalacrado e na hora das contas davam-lhe uma ninharia hora da aquela vez como das outras Fabiano ajustou o gado arrependeu-se enfim deixou a transação meio ap palavrada e foi consultar a mulher Sinha Vitória mandou os meninos para o Barreiro sentou-se na cozinha concentrou-se distribuiu no chão sementes de várias espécies realizou somas e diminuições no dia seguinte Fabiano voltou à cidade mas ao fechar o negócio notou que as operações de sinha Vitória como de costume diferiam das do patrão clamou e obteve a explicação habitual a diferença era proveniente de juros
não se conformou devia haver engano ele era bruto sim senhor via-se perfeitamente que era bruto mas a mulher tinha miolo Com certeza havia um erro no papel do branco não se descobriu o erro e Fabiano perdeu os estribos passar a vida inteira assim no toco entregando o que era dele de mão beijada estava direito aquilo trabalhar como negro e nunca arranjar de alforria o patrão zangou-se repeliu a insolência Achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra Fazenda aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou bem bem não era preciso barulho não se havia dito palavra
à toa pedia desculpa era bruto não fora ensinado atrevimento não tinha conhecia o seu lugar um cabra ia lá puxar questão com gente rica bruto sim senhor mas sabia respeitar os homens devia ser ignorância da mulher provavelmente devia ser ignorância da mulher até estranhar as contas dela enfim como não sabia ler um bruto sim senhor acreditara na sua velha mas pedia desculpa e Jurava não cair noutra o amo abrandou e Fabiano saiu de costas o chapéu varrendo o tijolo na porta virando-se enganchou as rosetas das esporas afastou-se tropeçando os sapatões de couro cru batendo no
chão como cascos foi até a esquina parou tomou fôlego não deviam tratá-lo assim dirigiu-se ao quadro lentamente diante da Bodega de seu Inácio virou o rosto e fez uma curva larga depois que acontecera aquela miséria temia passar ali sentou-se numa calçada tirou do bolso o dinheiro examinou o procurando adivinhar quanto lhe tinham Furtado Não podia dizer em voz alta que aquilo era um furto mas era tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventava um juro que Juro o que havia era safadeza ladroeira nem lhe permitiam queixas porque reclamara achara a coisa uma exorbitância o
branco se levantara furioso com quatro pedras na mão para que tanto espalhafato hum hum recordou-se do que lhe sucedera anos atrás antes da seca longe num dia de apuro recorrera ao porco magro que não queria engordar no chiqueiro e estava reservado às despesas do Natal Matara o antes de tempo e fora vendê-lo na cidade mas o cobrador da prefeitura chegara com o recibo e atrapalhar Fabiano fingir-se desentendido não compreendia nada era bruto como o outro lhe explicasse que para vender o porco devia pagar imposto tentara convencê-lo de que ali não havia porco havia quartos de
porco pedaços de carne o agente se aborrecer insara e Fabiano Se encolher bem bem Deus o livrasse de história com o governo julgava que podia dispor dos seus troços não entendia de imposto um bruto está percebendo supunha que o cevado era dele agora se a prefeitura tinha uma parte estava acabado pois ia voltar para casa e comer a carne podia comer a carne podia ou não podia o funcionário Batera o pé agastado e Fabiano Se desculpar o chapéu de couro na mão o espinhaço Curvo quem foi que disse que eu queria brigar O melhor é
a gente acabar com isso despedir-se metera a carne no saco e fora vendê-la noutra Rua escondido Mas atracado pelo cobrador gemera no imposto e na multa daquele dia em diante não criara mais porcos era perigoso criá-los Olhou as cédulas arrumadas na Palma os níqueis e As Pratas suspirou mordeu os beiços nem lhe restava o direito de protestar baixava a crista se não baixasse desocupar a Terra largarse ia com a mulher os filhos pequenos e os cacarecos para onde hein tinha para Onde levar a mulher e os meninos tinha nada espalhou a vista pelos quatro cantos
além dos telhados que lhe reduziam o horizonte a Campina se estendia seca e dura lembrou-se da Marcha penosa que fizera através dela com a família todos esmolambadas e Famintos haviam escapado e isto lhe Parecia um milagre nem sabia como tinham escapado se pudesse mudar-se gritaria bem alto que o roubavam aparentemente resignado sem sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a Campina seca o patrão os soldados e os Agentes da prefeitura Tudo Na verdade era contra ele estava acostumado tinha a casca muito grossa mas às vezes se arrel Ava não havia
paciência que suportasse tanta coisa um dia um homem faz besteira e se desgraça pois não estavam vendo que ele era de carne e osso tinha obrigação de trabalhar para os outros naturalmente conhecia o seu lugar bem nascer com esse destino ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim que fazer podia mudar a sorte se lhe dissessem que era possível melhorar de situação espantar-se ia tinha vindo ao mundo para amansar brabo curar feridas com rezas consertar cercas de inverno a verão era ca o pai vivera assim o avô também e para trás não
existia família cortar Mandacaru em cebar látegos aquilo estava no sangue conformava não pretendia mais nada se lhe dessem o que era dele estava certo não davam era um desgraçado era como um cachorro só recebia ossos Por que seria que os homens ricos Ainda lhe tomavam uma parte dos Ossos fazia até nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias na palma da mão as notas estavam úmidas de suor desejava saber o tamanho da extorsão da última vez que fizera contas com o amo o prejuízo parecia menor alarmou Se ouvira falar em em prazos isto lhe dera
uma impressão bastante penosa sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis ele saía logrado sobressal escutas evidentemente só serviam para encobrir ladroeira algumas e empregava fora de propósito depois esquecas para que um pobre da laia dele usar Conversa de Gente rica Sim a terta é que tinha uma ponta de língua terrível era falava quase tão bem como as pessoas da cidade se ele soubesse falar como Sinha terta procuraria serviço noutra Fazenda haveria de arranjar-se não sabia nas horas de aperto dava para gaguejar embaraçava como um menino coçava os cotovelos aperreado por isso esfolava-o safados
tomar as coisas de um infeliz que não tinha onde cair morto não viam que isso não estava certo que iam ganhar com semelhante procedimento hein que iam ganhar an agora não criava porco e queria ver o tipo da prefeitura cobrar dele imposto e multa arrancavam lhe a camisa do corpo e ainda por cima davam-lhe facão e cadeia pois não trabalharia mais ia descansar talvez não fosse interrompeu o monólogo levou uma eternidade contando e recontando mentalmente o dinheiro amarrotou com força empurrou no bolso Raso da calça meteu na casa Estreita o botão de osso porcaria levantou-se
foi até à porta de uma bodega com vontade de beber cachaça como havia muitas pessoas encostadas ao balcão recuou não gostava de se ver no meio do povo falta de costume às vezes diziam uma coisa sem intenção de ofender entendiam outra e lá vinham questões perigoso entrar na bodega o único vivente que o compreendia era a mulher nem precisava falar bastavam os gestos sim aerta é que se explicava como gente da rua muito bom uma criatura ser assim ter recur para se defender ele não tinha se tivesse Não viveria naquele estado um perigo entrar na
bodega estava com desejo de beber um quarteirão de cachaça mas lembrava-se da última visita feita à venda de seu Inácio se não tivesse tido a ideia de beber não lhe haveria sucedido aquele desastre nem podia tomar uma pinga descansado bem ia voltar para casa e dormir saiu lento pesado capiongo as rosetas das esporas silenciosas não conseguiria dormir na cama de varas havia um pau com um nó bem no meio só muito cansaço fazia um cristão acomodar-se em semelhante dureza precisava fatigar se no lombo de um cavalo ou passar o dia consertando cercas derreado bambo espichava
e roncava como um porco agora não lhe seria possível fechar os olhos rolaria a noite inteira sobre as varas matutando naquela perseguição desejaria imaginar o que ia fazer para o futuro não ia fazer nada matar-se ia no servir moraria numa casa alheia enquanto o deixassem ficar depois sairia pelo mundo iria morrer de fome na Catinga seca tirou do bolso o rolo de fumo preparou um cigarro com a faa de ponta se ao menos pudesse recordar-se de fatos agradáveis a vida não seria inteiramente má deixar a rua levantou a cabeça viu uma estrela depois muitas estrelas
as figuras dos inimigos esmoreceram pensou na mulher nos filhos e na cachorra morta pobre de baleia era como se ele tivesse matado uma pessoa da família