Hoje nós gostaríamos de falar a respeito da vocação para a vida religiosa. Do que se trata? Veja, na Igreja Católica nós temos dois grupos bem distintos de fiéis, aqueles que são ordenados e aqueles que não são ordenados, essa distinção foi criada por Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele, tendo seus discípulos, ou seja, os fiéis, em geral, Ele escolheu 12 para que estivessem com Ele, os 12 Apóstolos, com isso, Nosso Senhor criou então o clero, criou as pessoas ordenadas, aqueles que estão dedicados ao ministério ordenado.
Então, está bem claro, dentro da Igreja existem os leigos, que não são ordenados e os clérigos, ou seja, aqueles que estão ordenados. Acontece, porém, que tanto entre os leigos, quanto os clérigos, existem algumas pessoas que têm uma outra vocação especifica chamada vocação religiosa. Veja é interessante notar isso, a vocação religiosa não é um terceiro tipo de vocação, ou seja, existem as duas vocações básicas, a vocação leiga e a vocação para o ministério ordenado, agora, entre essas duas realidades, esses dois grupos de fiéis, Deus chama também pessoas para se consagrarem de forma radical e que se entregam a Deus de forma radical na sua consagração batismal.
Então, o que é a vocação religiosa? A vocação religiosa é uma forma de se viver de forma radical o próprio batismo, a própria entrega a Deus, a vida do batizado é uma vida de combate à idolatria, nós podemos colocar criaturas no lugar de Deus, essas criaturas podem ser coisas, podem ser outras pessoas ou podem ser até nós mesmos, então, numa vontade decidida de combater a idolatria, essas pessoas adotam um estilo de vida que nós chamamos "voto de pobreza, castidade e obediência", com o voto de pobreza, o religioso quer combater a idolatria das coisas, ou seja, ele quer praticar um desapego aos bens materiais, de tal forma que ele assim, viva um verdadeiro combate à idolatria de colocar bens materiais no lugar de Deus, depois, ele também pode colocar pessoas no lugar de Deus, pois bem, ao colocar pessoas no lugar de Deus, ele combate isso com o voto de castidade e a castidade que não significa simplesmente não ter relações sexuais, mas que é muito mais profunda do que isso, uma castidade que significa amar sem possuir, por exemplo, quantos religiosos vivem as transferências, principalmente daqueles congregações de vida apostólica, onde as pessoas são transferidas de um lugar para o outro e devem exercitar continuamente o desapego, um exercício do amor que não possui, então, com isso, estão combatendo a idolatria. E finalmente, a idolatria de suas próprias vontades, de suas veleidades, de seus caprichos, onde eu gostaria de ser Deus e eu gostaria que fosse feita a minha vontade assim na terra como no céu, pois bem, isso não acontece se você viver a obediência e o voto de obediência do religioso é muito mais radical do que simplesmente uma obediência que é vivida por um leigo ou a obediência que é vivida por um sacerdote diocesano, trata-se de uma obediência mais ampla, onde, de fato, a pessoa de alguma forma é quebrada naquela obediência.
Vejam que o religioso, de alguma forma, adota um estilo de vida que por si mesmo tem uma finalidade, a sua salvação pessoal, é interessante notarmos isso, que cada vocação tem em vista o bem da Igreja toda, porém, o religioso não se define por aquilo que ele faz, mas por aquilo que ele é, porque aqui, algumas pessoas não sabem distinguir entre a vocação religiosa e a vocação do padre, ou seja, o padre, a pessoa ordenada, tem um ministério, tem uma função dentro da Igreja, é claro, ele se entrega e se consagra, ele dá a sua vida, mas dá a sua vida para um ministério específico, o padre é uma pessoa que é sinal, que é sacramento, tem função dentro da Igreja, já o religioso não se define necessariamente por aquilo que faz, não quer dizer que ele não faz nada, muito pelo contrário, os religiosos são todos, até mesmo os contemplativos, são todos muito ativos, sim, porque se nós formos olhar, por exemplo, para a grande tradição monástica do ocidente que é vivida pelos beneditinos, o que vive os beneditinos? Ora et labora, ou seja, existe trabalho, existe atividade, um monge não é uma pessoa que fica de braços cruzados esperando o tempo passar, nada disso, nada mais longe da realidade do que essa falsa ideia, do que essa caricatura, um religioso age, faz, mas ele não se define por aquilo que ele faz, ele se define por aquilo que ele é, por aquilo que ele tomou como opção de vida, então, o voto religioso, o voto de pobreza, de obediência e castidade, que são aqueles característicos da vida religiosa, na verdade, marcam este estilo de vida de combate à idolatria que é típico daquilo que é o testemunho dos religiosos. Ao fazer isso, o religioso se converte pessoalmente, ele salva a sua alma pessoalmente, mas também, ao fazer isso, já que ele faz parte da Igreja, é membro da Igreja, faz também um bem imenso à Igreja e dá testemunho.
O religioso, portanto, tem uma vocação profética, em que consiste a vocação profética do religioso? O profeta do Antigo Testamento é aquele que combate a idolatria, vocês se lembrem disso, então, o religioso combate a idolatria com a sua própria vida, é evidente, então, que a vida religiosa é uma grande riqueza dentro da Igreja, nós que não temos vocação religiosa, porque sou padre diocesano, não tenho vocação religiosa, você que é leigo, não tem vocação religiosa, mesmo assim, devemos ficar de joelhos no chão e pedir a Nosso Senhor que mande vocações religiosas para a sua Igreja, que nos dê realmente homens e mulheres que queiram viver o estilo de vida de combate à idolatria. Se é verdade que os religiosos têm uma verdadeira vocação importantíssima no combate à idolatria, você há de convir que Satanás não pode deixa-los em paz, então é também verdade que, infelizmente, a vida religiosa passa no mundo inteiro por uma grande crise, uma grande crise em primeiro lugar, por falta de vocações, mas nós vemos que, de alguma forma, as congregações religiosas que ainda têm vocações são aquelas que continuam vivendo de forma radical a sua vida e o seu estilo de combate à idolatria, vejam, isso é muito importante, sim, existem congregações definhando e certamente pelo estilo de vida que algumas delas levam é melhor que definhem mesmo, é melhor que fechem as portas, porque algumas congregações deveriam aprender a bem morrer, ou seja, esse exercício de bem morrer e saber que o seu tempo passou, que o sopro do Espírito Santo se extinguiu, as congregações não são eternas, as congregações não duram para sempre e são uma inspiração do Espirito Santo, um carisma, sem dúvida alguma, mas é um carisma que, às vezes, responde a uma necessidade temporária da Igreja e uma vez que se extingue aquela necessidade, essa congregação deve aprender também a bem morrer e Deus irá suscitar outras vocações, em outros lugares, em outras congregações que tenham um carisma especifico para responder a necessidade específica de combater a idolatria no tempo especifico em que a Igreja vive.
É assim que, de alguma forma, aquelas pessoas que pedem e perguntam, "Padre, eu quero ser religioso, como é e onde é que eu devo me consagrar? ", a resposta que dou é esta, que você veja, em primeiro lugar, se aquela comunidade religiosa, se aquela congregação religiosa está realmente vivendo o estilo de vida de combate à idolatria que é típico e especifico da vida religiosa. Infelizmente, existem tantos religiosos e religiosas que perderam a sua identidade, a começar pelo hábito que já não querem mais usar, depois também pelo estilo de vida, que não vivem mais tanto uma vida comunitária, quantos religiosos e religiosas vivem agora uma vida leiga, trabalhando em repartições públicas e simplesmente preocupados em trazer algum dinheiro para o caixa, para ver se conseguem sustentar uma congregação que, no fundo, no fundo, é uma múmia que continua de pé, mas na verdade, já está morta.
Meus irmãos, é uma triste realidade, de que infelizmente a vida religiosa, em alguns lugares, em muitos lugares, está em uma profunda crise, mas essa crise passará porque as vocações vão se extinguindo, os noviciados vão se esvaziando e assim, Deus faz através dos fatos históricos, Deus abençoa com a fecundidade as congregações que são fiéis a Ele e Deus amaldiçoa com a esterilidade àqueles que optaram pela idolatria. Isso é a vida religiosa, a vida religiosa é um combate à idolatria, é um dom de Deus para a sua Igreja. Reze, reze para que eles continuem fiéis à vocação que lhes é própria e nós sejamos agraciados com tantos irmãos e irmãs que, santos e santas de Deus, combatam a idolatria e dêem esse testemunho profético dentro da Igreja.