Olha, eh, talvez você já tenha dito uma dessas frases que a gente vai ver, ou talvez tenha ouvido alguém muito próximo repetir coisas assim com a maior eh naturalidade, né? Quase como se fosse um lema de vida dessa pessoa. [música] E talvez talvez em algum nível essas frases até soem como uma demonstração de força, de maturidade ou de independência.
Pois [música] é. Só que tem o seguinte, muitas das frases que a gente repete automaticamente, elas não falam sobre quem nós somos hoje, não. [música] Elas falam é sobre como a gente aprendeu a sobreviver quando nós ainda éramos pequenos.
Porque é o seguinte, traumas [música] eles muitas vezes dão origem a estratégias emocionais silenciosas, sabe? [música] E que parecem funcionar muito bem. Até que num determinado momento essas estratégias começam a nos isolar, começam a nos exaurir ou a nos esvaziar de sentido.
Por isso, no Amina Cast de hoje, eu vou te convidar a olhar com mais cuidado para três frases muito comuns que podem sim denunciar traumas emocionais ainda não processados. Vem comigo. Bom, a primeira vista, essa frase soa como uma coisa de eh de força, né, de autonomia, de independência, mas quando a gente investiga a origem emocional dela, muitas vezes a gente encontra é uma coisa bem diferente.
Mas como assim? Bom, a teoria do apego desenvolvida por John Balb e aprofundada por Mary Answworth, ela diz que crianças precisam de cuidadores emocionalmente disponíveis. para desenvolverem um senso básico de segurança no mundo.
Quer dizer, a criança, meu querido, minha querida, [música] a criança precisa sentir que é cuidada e protegida. Ela precisa disso. Então, quando essa proteção falha, seja por negligência, por ausência emocional, por imprevisibilidade ou pelo abandono mesmo, aí a criança aprende algo doloroso.
Ela aprende que depender dos outros é uma coisa que machuca. E então ela se adapta. E como é que isso acontece?
Muito simples. Ela deixa de precisar. Ela deixa de precisar dos outros.
Ou melhor, ela aprende a [música] eh ela aprende a não demonstrar isso aí. Ela aprende a não demonstrar as necessidades dela. E esse padrão é conhecido como apego evitativo, que é um tipo de apego que é caracterizado por uma falsa autossuficiência, pela dificuldade de pedir ajuda e pelo desconforto com a intimidade emocional.
E o que os estudos mostram é que adultos que trazem esse estilo de apego, eles tendem a minimizar as próprias necessidades afetivas como uma forma de evitar novas decepções, de evitar não receber o que precisa. Entende? [música] Então, quando alguém diz: "Eu não preciso de ninguém", o que muitas vezes está sendo comunicado de forma inconsciente é outra coisa.
O que tá sendo comunicado é: "Eu precisei antes e não fui acolhido". Essa frase agora, ela costuma vir acompanhada de um cansaço crônico, tá? Ela vem acompanhada de uma sensação constante de sobrecarga [música] e de uma dificuldade profunda em confiar que alguém realmente vai ajudar a pessoa.
E isso tem muito a ver com uma coisinha chamada de eh [música] parentificação emocional. E o que é que é isso? Olha, a parentificação ocorre quando a criança assume precocemente funções que deveriam ser do adulto.
Isso mesmo. Seja cuidando emocionalmente dos pais, seja mediando conflitos, seja assumindo responsabilidades domésticas ou então sendo forte demais pra idade dela. E o que as pesquisas indicam é que esse padrão tá associado a famílias marcadas [música] por depressão parental, por dependência química, por adoecimento ou por imaturidade emocional dos cuidadores.
São aqueles adultos sem a fortaleza emocional exigida para cuidar das crianças. [música] Então, a criança aprende desde cedo que ela não pode falhar, que ela não pode relaxar e que ela não pode depender. Ela cresce com a sensação de que se ela não controlar tudo, então tudo vai desmoronar.
E na vida adulta, isso se traduz em pessoas extremamente competentes, altamente responsáveis e prestativas, mas também exaustas, controladoras e solitárias emocionalmente, tá? [música] Porque para essa pessoa delegar tarefas não é apenas difícil, isso [música] é ameaçador. Porque lá atrás, quando ela precisou que alguém assumisse, que alguém segurasse as pontas, ninguém segurou, sobrou para ela.
Então essa coisa de, ah, deixa que eu faço, porque ninguém vai fazer direito. Essa frase carrega uma crença profunda, a crença de que se eu soltar, ninguém segura. E viver assim por muito tempo [música] é uma coisa que cobra um preço alto no corpo, na saúde mental e nos relacionamentos.
Bom, essa agora talvez seja a frase mais enganosa de todas, porque [música] ela parece racional, né? Ela parece lógica, madura, só que na maioria das vezes ela nasce é de um ambiente onde sentir não era seguro, viver as emoções era muito perigoso. Ou seja, isso surge em ambientes emocionalmente invalidantes, onde a criança é ridicularizada por chorar, onde ela é punida por expressar, sei lá, medo [música] ou ela é ensinada que emoção é fraqueza.
Essas invalidações, elas favorecem um processo chamado supressão emocional. Supressão emocional. E os estudos mostram que suprimir emoções pode até reduzir a dor no curto prazo, só que isso aumenta significativamente o risco de depressão, de ansiedade e de sentir dificuldades em formar vínculos no longo prazo.
Pois é. E isso é especialmente comum em homens que foram criados com a ideia de que homem não chora. [música] Isso aí, mas é uma coisa que também aparece em mulheres que precisaram ser fortes demais muito cedo na vida.
Porque experiências assim, elas levam o cérebro a aprender a [música] anestesiar a capacidade de sentir para poder sobreviver. E o problema é que ele não sabe escolher quais as emoções que ele pode desligar. Não, quando você desliga a dor, você também desliga o prazer, a conexão e o senso de propósito.
É como se a vida ficasse eh toda cinza, sabe? Porque as emoções elas são fundamentais paraa tomada de decisão, paraa empatia e pra construção do sentido existencial, do sentido da vida da gente. Elas não podem simplesmente ser desligadas.
Então, quando alguém diz que sentir é perda de tempo, muitas vezes tá escondendo é um vazio profundo, um vazio que tá sendo preenchido em muitos casos é [música] por trabalho excessivo, por consumo, por racionalização ou pela busca por [música] controle material. E não é que essa pessoa não sinta as emoções, só que ela aprendeu que não podia sentir, entende? Veja então que essas frases elas não definem quem você é.
Elas contam como que você aprendeu a sobreviver num contexto onde sentir, depender ou descansar não parecia uma coisa possível nem fácil. E o caminho da cura, meu anjo, ele não passa por se culpar por essas estratégias. Elas foram inteligentes, elas funcionaram por um tempo.
Mas hoje talvez você já possa se perguntar com mais gentileza: "O que é que eu tô tentando evitar quando digo isso? Que criança precisou aprender essa frase para continuar existindo? Perceba que fazer as pazes [música] com a criança interior não é reviver o passado, é simplesmente reconhecer [música] que aquilo que foi uma adaptação útil um dia não precisa se tornar uma prisão para sempre.
Não precisa. A cura ela começa quando a gente para de repetir frases no automático e começa a escutar o sentimento que existe por trás delas. Tá bom?
[música] Um beijo no teu coração e a gente se vê no próximo episódio.