olá eu sou adélia borges nascido em minas gerais mas desde final 1970 mora em são paulo fiz a escola de comunicações e artes da usp eca usp e entrei no feminismo via jornalismo como repórter do jornal estado de são paulo comecei a fazer parece reportagem sobre a situação da mulher e eu também era editora contribuinte do semanário de esquerda movimento no semanário que seja estava em são paulo por uma equipe que já tinha feito um outro jornal alternativo que era o semanário opinião feito no rio de janeiro por uma ocasião eu tirei férias está da
onde eu trabalhava para coordenar uma edição especial do jornal movimento sobre o trabalho da mulher no brasil fizemos reportagem do brasil todo desde as quebradeiras de coco-de-babaçu lá no maranhão empregadas domésticas pessoas mulheres nas mais variadas os cães textos de especialistas e estatísticas sobre como é que a quantas andava situação da mulher no trabalho você vê que esse era um tema tão palpitante tão difícil de ser abordado que a censura censurou tudo 95% do conteúdo da edição foi cortada pelos sensores que iam no próprio na própria redação para cortar o material cortar inclusive as estatísticas
do ibge que mostrava a inserção da mulher no meio no mercado de trabalho cortaram todas as referências a dupla jornada de trabalho que desde sempre a mulher exerce a mulher quando trabalha fora de casa continua acumulando o trabalho doméstico e realmente assim para a gente essa esse corte tão brutal pela censura via ministério da justiça da ditadura militar esse fato deu bom dia para gente essa dimensão da importância desse tema e era um tema que não se falava que nos ambientes de esquerda se falava não primeiro você tem que garantir a democracia no país como
um todo você tem que garantir condições melhores para a sociedade como um todo e depois discutir essas questões como essas questões a mulher que seriam então consideradas questões secundárias e isso deu para gente essa dimensão do potencial inclusive de mexer com as estruturas né de quando você pensa em toda aquela força de trabalho tava já incorporada e no entanto não se podia falar sobre isso isso foi 1976 em plena pleno auge da censura à imprensa no brasil na ditadura militar em 1981 a fundação carlos chagas decide a fazer uma newsletter fazer um boletim que conectasse
já as pesquisas que começaram a pipocar nas universidades e nas instituições de pesquisa brasileiras sobre a questão da mulher então conseguiu um financiamento como instituição do exterior a fundação ford e formou que seria esse boletim para conectar pesquisadoras que estavam dispersas pelo país e me chamaram para ser editora desse boletim acho que pela experiência minha de jornalismo eu propus que a gente ampliasse isso que a gente sem perder essa característica de fazer essa conexão que a gente também fosse as suas fosse às bancas de jornais que pudesse ser vendido não só uma circulação restrita entre
assinantes mas fazer um jornal mesmo foi assim que fizemos foi um jornal que nasce em 1981 no âmbito de um uma instituição vou tá a pesquisa mas já com grandes nomes é a gente tinha desde a carmen da silva que era uma colunista da revista claudia uma mulher uma feminista antes dessa palavra existiu fazia escrever as cartas de aconselhamento das leitoras na revista claudia até tinhamos antropólogos como ruth cardoso fica analistas como maria rita kehl e tudo sobre orientação das pesquisadoras da fundação carlos chagas com destaque para fúlvia rosemberg que atuava no projeto especificamente e
uma participação muito intensa também da carmen barroso que já era uma pesquisadora que já vinha pesquisando a bastante tempo sobre esse tema e muitas outras mulheres ilustres do país eva blayer lelia gonzalez rozisky mariska darcy de oliveira rosiska darcy de oliveira aqui do rio e foi real a conjunção de de mulheres e fazendo um jornalismo que se eu punha eu quero jornalismo naquele momento que você tinha as mulheres só em duas situações ou nas revistas masculinas no caso a mulher pelada né para os homens olharem ou a dona de casa de avental mãe nas revistas
femininas então você tinha essa visão do ao ou ela era uma tipo de uma prostituta ou ela era uma santa uma dona de casa uma mãe de família isso nas revistas especializadas santo na revista masculina quanto na revista digita feminina e na imprensa em geral era uma voz inexistente totalmente inexistente então para gente entrar nesse e-mail foi uma forma de dizer existimos temos nossa condição de ser mulher no brás e tem suas especificidades nós queremos discutir essas questões agora a gente tinha reuniões do conselho editorial quero muito ricas e a gente é trouxe à tona
assuntos que não tinham sido falados até então né por exemplo hoje a gente vê assuntos muito debatidos e que naquele momento não se falava questão da violência sexual por exemplo a questão do estupro cometido por familiares por pais ou padrastos por avôs é estupro dentro de casa né eram eu me lembro que naquele momento sai um livro chamado eu nunca contei a ninguém era o título do livro e realmente é esses são vozes muito difícil porque você tem uma culpabilização da mulher né e foram então temas que a gente veio trazendo com uma periodicidade bimestral
e eu acho que marcou época né o goleirinho dentro dessa com essa característica né se no jornal apartidário é muito plural né refletindo não uma corrente do feminismo mas o movimento de mulheres como um todo o nome é um pouco jocoso que nos foi sugerido e pela carmen da silva da remissa cláudia que trouxe um pouco de humor também era uma expressão que em geral ela era usada muito com uma conotação negativa tipo um grupo de mulheres esse mulher inho né agora a gente vê que todos os se você pega o dicionário ainda hoje esse
os termos relacionados a mulher eles são sempre mais pejorativos é um homem público é um homem que se dedica à causa pública uma pessoa que tá a se esforça uma mulher pública é sinônimo de prostituta então você tem as mesmas expressões para um e para outro listas de formas muito diferentes a gente então falava muito da educação de crianças como que você faz uma educação não-sexista para suas filhas para os seus filhos também a gente discutiu muito essa questão da que a sociedade imputava apenas as mães e a tarefa de cuidar dos seus filhos então
gente trouxe à tona a questão das creches enfim são múltiplas abordagens e muito interessante que a gente não partia de uma vitimização da mulher a gente não adotava o papel das coitadinhos e das não pessoas afirmativas pessoas que estão discutindo os seus temas as mulheres lésbicas tinham seu tim algumas tem os seus próprios jornais né então tinha alguns movimentos porque o jornal mineirinho ele nasce dentro dessa instituição de pesquisa e dentro dessa conformação bastante plural é a gente tinha também um jornal chamado brasil mulher que era de um coletivo de mulheres e nós mulheres de
outro coletivo de mulheres e aí mas folhetos ou jornais com circulação não tão regular um dos vários grupos inclusive das mulheres lésbicas que naquele momento se empodera vão e começavam a surgir à tona para mostrar seu rosto e discutir suas questões mas eram discussões mais localizadas né a gente está falando de começo início bem início da década de 80 final da década de 70 e início da década de 80 quando esses temas ainda eram tabus mas a gente tratava dentro eu mulher io dentro mais dentro dessa pauta plural e sobre a questão da mulher negra
a gente fazia um esforço deliberado para tratar desse assunto é tanto com a presença de mulheres negras convidadas para o conselho editorial e também para participar das reuniões de pauta quanto como assunto mesmo né que você via penalizações de se você vê a mulher já com uma uns a sociedade aliás maioria mas vice ali no alguma coisa como se fosse uma minoria mas uma coisa meio de segunda classe de segunda categoria dentro das mulheres as mulheres pobres mais penalizados as negras mais penalizados muito mais e as lésbicas também muito mais isso no momento em que
ser não tinha nenhum meio de comunicação de maior alcance e debatendo esses temas como hoje a gente tem no brasil mulher e o nós mulheres eram grupo eram jornais feitos por coletivos de mulheres onu mulhere uav uma tentativa de profissionalização então eu por exemplo era uma salariada as jornalistas convidados a escrever era um pagos pelas suas colaborações bucetinhas pessoas que faziam charges e ilustrações também não pagas era um valor um pequeno mas havia uma tentativa de profissionalização no então era uma mistura de um trabalho profissional e de uma militância né uma militância por uma mudança
na forma como a sociedade vê a via né a questão da mulher tão havia essa diferença e esses os outros grupos eles é como grupos bastante coesos aí elas eram muito apaixonadas na defesa dos seus pontos de vista que as vezes não coincidiam com os pontos de vista de alguém do outro coletivo né agora para te ser sincera assim eu não lembro exatamente as diferenças não a mídia dita séria né a mídia os jornais diários as televisões nesses canais não havia um menor espaço para qualquer notícia relacionada a questões da mulher seja a falta e
para colocar seu filho seja a questão de dupla jornada de trabalho seja a questão do direito ao aborto seja a questão da saúde da mulher do planejamento familiar eram as eventualmente e sistemas eram tratados mas muito com viés masculino ou com viés do da pessoa do especialista né digamos assim não da mulher não dá representantes da própria mulher fora isso então e nem existia nos jornais diários nas revistas semanais e nas televisões e fora isso cestinhas revistas especializadas que você tinha essa visão do ao ou a mulher tava muito presente na revista masculina como um
objeto de desejo a mulher nua ou a mulher dentro das revistas femininas como um ser totalmente domesticado cuja e quase que assexuado é que o júnior com interesse é cuidar dos filhos de ser uma boa dona de casa e agora o que é bastante importante é que esse jornais quando eles surgem eles procuram trazer o debate também os homens tão no mulher ia a gente teve colaborações fantásticas uma colaboração frequente que a gente tinha era do em fio que desenhava o miguel paiva que tinha é personagens também fazendo charges com personagens muito vibrantes contando um
pouco dessa revolução de costumes que estava em pleno curso né uma preocupação bastante grande do mulher io era chegar até os editores dos jornais então a gente tinha os editores os jornalistas como uma um público alvo preferencial por que a gente queria fazer a cabeça dessas pessoas para que isso redomda se num efeito multiplicador já quero um pessoas com e é com a mídia nas mãos né a gente não conseguiu muito mas acho que enfim muita coisa começou a mudar naquele momento anos 1980 os meios de comunicação estavam nas mãos de poucas pessoas poucos grupos
econômicos hegemônicos né então a informação que chegava ao público era informação que os donos dessas empresas queriam que fosse divulgada as informações que eles não queriam ver divulgadas o que eles achavam e relevantes do ponto de vista deles e sempre isso é uma apreciação subjetiva né acontece tanta coisa no mundo ontem aconteceu tanta coisa como é que os jornais selecionam aquilo que eles vão abordar a uma um grau de subjetividade enormes e a um grau de controle né de tentativa de controle também na informação bom então naquele momento que a imprensa alternativa significou foi ser
uma voz dissonante uma voz contra isso que tá aí agora com muita dificuldade né lutando com todo tipo de dificuldade porque o meio era o meio impresso é muito caro ainda hoje é muito caro você imprimir você ter comprar papel você fazer o fotolito você imprimir aí depois você distribuir isso é uma coisa mas eu acho que foram com maiores tiragens ou menores tiragens mesmo as pequenas tiragens elas tiveram uma influência muito grande e foram influenciando também as outros os outros contaminando é meios de comunicação mais massiva no meu caso por exemplo em 1984 eu
sou convidado a dirigir um programa diário na tv cultura em são paulo o chamado palavra de mulher que era uma quase que um olhar feminino sobre as coisas do mundo então a gente trazia vários assuntos à baila inclusive não eram só assuntos de mulher entre aspas mas por exemplo foi o primeiro lugar que se falou de uma forma mais regular sobre a questão da ecologia a gente um quadro semanal que chamava a palavra de índio que era a visão dos índios sobre as coisas que estava acontecendo era onde a gente discutir essas questões todas né
por uma audiência já bem maior do que uma audiência do que os leitores de um jornal agora eu acho que hoje você tem essa democratização total da tanto da emissão da informação quanto da recepção eu acho que é basicamente a gente tem as redes sociais e quebraram com esse hegemonia dos meios de comunicação pelos grandes grupos econômicos agora elas ameaçam outras coisas né porque também são lugares em que você qualquer pessoa pode escrever o que bem entender inclusive criar boatos criar coisas que levam e criar mentiras que parecem verdades e aí a gente vê na
eleição do trump nos estados unidos como foi a criação de uma sensação de medo foi muito muito estimulada pela postagem de absurdos nas redes sociais mas eu acho que no campo dessa da da mulher essa possibilidade das da gente poder dizer o que a gente quer cada pessoa dizer o que quiser para sua audiência na sua rede eu acho que ela é muito positiva não sei exatamente em que dia eu me descobri feminista mas eu acho que desde sempre né e vende uma só sétima filha de foi educada para ser dona de casa para ser
inclusive na minha casa meus pais com pouca instrução e meu pai dizia você não precisa estudar você vai casar para que que você vai você precisa estudar mas minha mãe não sempre nos estimulando e estimulando as filhas mulheres especialmente a ter uma carreira ter uma profissão a poderem satisfazer ter uma vida mais plena e não só ficar circunscrita ao ambiente doméstico como ela própria teve que ser assim eu acho que desde pequena eu tinha essa visão de que poderíamos ao saboroso e tudo eu acho que nessa geração inicial às vezes o feminismo era um rótulo
que incomodava muito as outras pessoas então era um rótulo que em vez de aproximar a gente da sociedade como um todo e dos olá tudo às vezes até reforçavam uma um estranhamento e daí um distanciamento então acho que eram era uma rótulo que muitas vezes é um se afirmava assim de com todas as letras por isso né porque o que se buscava quer dizer você tinha pessoas que mulheres que eu mais por uma estratégia do confronto e tinha outras que tem um por um estratégia do diálogo do debate do trazer à luz as questões me
lembro bem que um dos títulos de uma mulher io a gente era assim os surdos falam as mudas os surdos eram os homens que não ouviam que as mulheres queriam dizer e as mudas eram as mulheres que houve naquele momento uma pesquisa que se mostrou pesquisa feita com critérios científicos na inglaterra que apesar disso o que mulher fala muito não mulher fala muito menos o que o homem só que esse muito é uma avaliação subjetiva baseada se envolveu não quero ouvir nada de você você já fala um pouquinho que seja eu já acho muito então
por isso que a gente brincou com título surdos falam as mudas né então era uma intenção de ser uma voz que queria ser ouvida então muitas vezes se não era nessa base do confronto era na base do diálogo então muitas vezes a gente não levantava a bandeira em qualquer lugar a bandeira feminista né olha eu acho que eu sou feminista desde sempre procurei educar meus filhos dentro dessa dessa visão e acho e hoje fico feliz de ver como esse se espalhou tremendamente né e eu acho que foram inúmeros os legados e acho que eles vão
se somando né a luta das sufragistas na década de 1930 com berta lutz por exemplo a frente foi uma luta muito importante e eu acho que é em vão se somando contribuições e contribuições eu acho que a nossa luta assim de todo mundo que se envolveu em algum momento com expressar a condição feminina através da imprensa da imprensa escrita eu acho que a gente tá vendo vários programas de televisão em que você tem uma um protagonismo feminino que era absolutamente impensável na década de 70 na década de 80 acho que o legado principal foi esse
temos uma voz queremos que essa voz seja ouvida e nós temos coisas importantes para dizer e coisas que podem melhorar não só a vida da gente mas podem melhorar o mundo acho que com a nossa visão a gente pode a gente quer trazer isso à tona e teus conquistar a luz do sol para poder falar isso conquistar os espaços públicos os espaços da mídia não ficar lá confinados a a um lugar à beira de um fogão né ou seja hoje a gente vê uma das palavras de ordem o lugar da mulher é onde ela quiser
estar né mexeu com uma mexeu com todas são coisas muito simbólicas assim que que mostra uma mudança de posto