Olá, moçada! Bom dia, tudo bem? Sejam muito, muito bem-vindos a mais uma reflexão histórica do nosso diário histórico pessoal.
Estou chamando isso daqui de "café com pai"; não, café com pai não! Um devocional à racionalidade. Vocês também não prestam, aí eu vou te falar, obrigado por estarem aqui.
Pois bem, hoje com uma reflexão extraída de Epicteto, intitulada pelos autores do livro "Você não tem de estar no comando de tudo". Essa é uma reflexão muito interessante: você não tem de estar no comando de tudo. Sem maiores gorduras, passo diretamente à leitura do trecho.
Cito Epicteto: "Se desejas melhorar, contenta-se em parecer desinformado ou estúpido em assuntos que desconheces. Não desejes parecer informado, e se alguns te consideram alguém importante, desconfia de ti mesmo. " Fim de citação.
Quando eu li esse trecho, eu imediatamente me lembrei de uma experiência interessante. Eu morava na Itália para fazer o doutorado e, lá pelas tantas, eu gostava muito de assistir a um programa de entrevistas, acho que ele existe até hoje na Itália, chamado "Che Tempo Che Fa". É uma espécie de Jô Soares, desses talk shows, né?
Hoje faz o Danilo Gentili, mas com entrevistas muito inteligentes. O entrevistado do dia era o Umberto Eco, autor do clássico "O Nome da Rosa" e de tantos outros livros extraordinários. Um homem de uma cultura absurda, e dono de uma biblioteca que foi disputada a tapa na Itália com a morte dele.
Porque a biblioteca dele pegava, não sei quantos, apartamentos assim com obras raras, uma coisa extraordinária! Humberto Eco, absolutamente extraordinário, muito diferenciado. E ele falava que uma coisa o incomodava particularmente, especialmente os jornalistas, mas as pessoas de modo geral imaginarem que ele sabia tudo a respeito de todas as coisas.
Então ligavam para a casa dele para dar opinião sobre qualquer coisa. Ele citava uma série de exemplos engraçados e tudo, e ele tinha que lembrar as pessoas de que ele era um professor de Filosofia, um homem erudito, um homem culto, mas que ele não sabia tudo sobre todas as coisas. E uma coisa que eu tenho aprendido na minha vida é que quanto mais culto é o sujeito, no sentido de saber operar com a sua cultura, portanto, quanto mais sábio, para usar um bom termo, quanto mais sábio é o sujeito, menos ele se dispõe a falar sobre aquilo que não domina suficientemente bem e mais ciente ele se torna da sua ignorância em relação àquilo que ignora.
Tudo bem que essa é uma lição antiga, essa é uma lição socrática do tipo: não imagine saber aquilo que você não sabe. Mas é bom insistir nesse terreno, né? É bom repisar esse terreno, especialmente nos dias de hoje, dias nos quais nós somos instados a nos manifestar, sobretudo com muita velocidade, especialmente a respeito daquilo que a gente não domina.
Nós vivemos a época do homem-massa, do homem massificado, que é o homem que, não tendo passado por um processo formativo adequado, não tendo passado por um processo de formação adequada, exerce protagonismo político e, portanto, fala sobre qualquer coisa e se tornou, aspas, uma autoridade a respeito de qualquer coisa. Então, num ato de, não é de humildade, é de reconhecimento das coisas, é bom tirar o pé do acelerador. Então, se nós queremos ser melhores e não simplesmente parecermos ser melhores, é bom parecer mesmo desinformado, estúpido em assuntos que desconhecemos, porque simplesmente isso reflete a realidade.
Dizer "eu não sei", dizer "eu não sei". Se Humberto Eco não tinha nenhum problema em fazer isso, se Sócrates não tinha nenhum problema em fazer isso, e se Epicteto não tinha nenhum problema em fazer isso, não seremos nós que teremos problema em fazer isso. Olha, não ouvi falar, nem me interessa esse assunto.
Ah, você viu o que está acontecendo lá na faixa de Gaza, na Rússia, na PQP? Eu nem me interesso por essas coisas. Eu nunca parei para estudar seriamente dois minutos a respeito.
Tudo que eu sei foi extraído de videozinhos aí que eu vi, sei lá onde, um corte de cinco minutos. Tem uma passagem do Ortega y Gasset que eu adoro: ele fala assim: "Você pode discordar desse meu estudo, mas isso só prova o quanto você é um homem massificado, porque, ao contrário de você, eu me dedico a esse tema há décadas, e você, que apenas está lendo essas páginas aqui, nunca parou para refletir a respeito, já se sente no direito de discordar de mim. " Acho maravilhoso!
Então, é isso, né? Baixar a bola, ficar mais calminho, não se levar tão a sério. Eu passo aqui ao comentário dos autores.
Uma das coisas mais extraordinárias que você pode fazer como ser humano, em nosso mundo midiático, hiperconectado 24 horas por dia, 7 dias por semana, é dizer "não sei". Não sei, gente! A quantidade de tempo que nós estamos perdendo diante de telas, vendo bobagens, e eu falo isso também como meia-culpa, porque eu sei que eu preciso melhorar nisso e tenho melhorado muito nisso.
Mas é demais, demais! A gente fica sempre atrás da polêmica do dia, da bobagem do dia, dando atualizar em página de jornal para ver o que o político do dia está falando de besteira ou de certo, seja lá o que for. Com tanta coisa boa para fazer, né?
Com tanta coisa boa para fazer, com tanto livro bom, com tantas boas meditações para acompanhar. Umas bobagens! E depois a vida é curta, como diz o cínico.
A vida não é curta, não, é a gente que encurta ela com tantas bobagens. Ou, de maneira mais provocativa, continuam os autores, "não me importo, eu não sei, não me importo, não me interessa essas coisas. Não me interessam.
" A maior parte da sociedade parece ter adotado como mandamento que. . .
Devemos saber de tudo o que está acontecendo, assistir a todos os episódios de todas as séries de televisão aclamadas pela crítica, acompanhar os noticiários religiosamente e nos apresentarmos para os outros como indivíduos informados e conhecedores do mundo. De onde vocês tiraram a necessidade disso? De onde nós tiramos a necessidade disso?
Eu já contei essa história em algum lugar, né, filhote? Eu, de vez em quando, pego a moto aqui e vou para São Paulo. Claro que, enquanto estou pilotando a moto, o celular está desligado.
O celular está. . .
não vou falar assim, celular. Enquanto estou pilotando uma moto, eu sei que, durante essa viagem, vem cá no colo, vem falar bom dia pra galera. Eu sei que, durante essa viagem, aconteceu alguma coisa, mas eu não me lembro exatamente, porque todo dia no Brasil acontece alguma coisa que é super impactante, que todo mundo acha que é muito importante.
E quando tudo é muito importante, nada é importante. Eu cheguei assim em São Paulo, tipo 6 horas da tarde, fui olhar o celular. O celular apitando para todo lado, as pessoas assim: "Denis, a gente tá querendo saber a sua opinião sobre sei lá o quê.
" Gente, sério, vocês estão desesperados para que eu comente a polêmica do dia? Para quê? Espera de amanhã!
Espera de amanhã. Perde-se tempo demais! Vai ler um Dostoiévski, vai ler um Machado de Assis, vai ler as meditações estoicas, vai passear com seu cachorro.
Quanto tempo você não pega o seu cachorro e não leva ele para uma pracinha legal, para uma coisa legal? Enfim, vai fazer alguma coisa que realmente preste, que dê sentido superior à existência. Mas onde estão as provas de que isso é mesmo necessário, né?
Essa dedicação a tudo que é superficial é essa obrigação imposta por lei, ou será que você simplesmente tem medo de parecer meio bobinho num jantar? "Nossa, mas você não tá sabendo que hoje o fulano disse aquilo sobre o PX, e o outro disse aquilo? Nossa, mas você viu o que a jornalista da Globo News falou sobre isso aqui?
Olha que importante! " Sério, não, eu tava lendo Platão nessa hora. Aí sim, você tem para com seu país e sua família o dever de saber daquilo que pode afetá-los diretamente.
Mas é só isso. Não se abstenha de saber das coisas tanto quanto possível, mas também não fique em cima disso nas tretas diárias, no dia a dia, retorcendo caldo de pulga. Quanto tempo, energia e capacidade mental você teria mais se cortasse drasticamente seu consumo de mídia, seu tempo dedicado a besteiras?
O quanto se sentiria mais descansado, desestressado e presente se parasse de se abalar e se indignar diante de cada escândalo, furo de reportagem e possível crise? O mundo tá sempre em crise, vai ter sempre uma guerra para você comentar. Calma, foco dentro, foco na família, foco no microcosmos.
Crises, muitas das quais também nem chegam a ocorrer no final das contas. É muita pré-ocupação e pouca ocupação com o que realmente importa. Você não tem de estar no comando de tudo, você não é assim tão importante quanto imagina.
A sua opinião não precisa ser vomitada para todos os lados como se você fosse uma autoridade a respeito daquilo que você não é. Calma, calma, calma. Beijão para vocês!
Excelente dia!