Olá, olá. O tema do vídeo de hoje é porque 90% das moradias novas no Brasil já nascem obsoletas. [música] Então imagine a cena.
Um casal visita o apartamento decorado aí de um novo empreendimento e o render em 3D mostra aqui um sonho com bastante luz, com bastante conforto e modernidade também. Então eles se encantam, assinam o contrato e vão esperar essa obra ficar concluída. E 12 meses depois a realidade chega.
Então o quarto acumula mofo nos cantos, aquela sala ali vai virar uma sala nas 3 da tarde e a conta de luz vai disparar empurrada ali pelo ar condicionado que agora se torna uma necessidade de sobrevivência. Então quando a gente diz que 90% das casas no Brasil já nascem obsoletas, não estamos falando aqui de aparência. A obsolescência aqui ela é funcional.
São casas que falham no seu propósito mais básico, que é fornecer abrigo, oferecer segurança e também oferecer conforto. E muitas viram máquinas de desconforto e incubadores de doenças. E se você acha que a sua casa foi mal projetada, provavelmente você está certo.
Mas isso não é um acidente. Ela foi desenhada para outra coisa, para gerar lucro rápido para quem a construiu. Então esse vídeo aqui vai utilizar o materialismo histórico para que a gente entenda as causas profundas desse fenômeno.
Porque a casa brasileira, na maioria das vezes, não é feita para as pessoas, ela é feita para o mercado. E a nossa arquitetura hoje, ela reflete com uma clareza brutal as fraturas sociais, a lógica da especulação imobiliária e a desigualdade no país. Então o que a gente vê aqui não é um erro técnico de engenharia, é o resultado físico de um modelo econômico, político e também cultural.
E nossas casas estão nos adoecendo porque em um país tropical nós construímos fornos. Porque a má orientação solar, a falta de ventilação cruzada e o uso de materiais errados, como lajes de concreto sem isolamento, isso vai transformar o lar em uma armadilha térmica. E isso tem nome, estresse térmico.
Então, durante as ondas de calor que a gente vê aqui na tela, que são cada vez mais frequentes, uma casa mal projetada piora esse perigo. E a Fio Cruz vai alertar que essas ondas são fardo invisível, que estão ligadas ao aumento no miocárdio e também do AVC. Ou seja, sua casa pode literalmente aumentar o seu risco de infarto.
Mas o problema não é só o calor, muitas casas também são úmidas e moradias úmidas e frias são terreno fértil pro mofo. E o mofo não é só uma mancha feia, é um agente biológico que causa doças respiratórias, asma e também alergias. E quando a casa não é úmida, ela é escura e a falta de luz natural tem impacto direto na mente.
Esse estudo do World Green Building Council vai dizer que viver em uma casa escura vai piorar a saúde de 50%, com dores de cabeça, insônia, depressão, transtorno afetivo sazonal e também câncer de mama e até suicídio entre os efeitos aí reportados. E o mais grave é que a casa obsoleta não afeta a todos do mesmo jeito. Então o estudo da USP aqui vai confirmar o que a gente já sabia, que bairros periféricos e população de baixa renda tem menos recursos aí para se proteger das ondas de calor.
E o mercado vai empurrar as piores casas justamente para quem tem menos. E essas pessoas dependem mais do SUS e tem menos dinheiro para reformar ou também para climatizar suas casas. E aí a moradia de baixa qualidade vai funcionar como um imposto sobre a saúde da classe trabalhadora, porque ela vai adoecer mais, ela vai produzir menos e vai sobrecarregar o sistema público.
E o segundo custo da obsolescência, ele é financeiro, porque ele é conhecido como pobreza energética. Então isso não quer dizer apenas falta de acesso à energia, mas é aqui viver em uma armadilha, onde o custo de ter conforto vai roubar a renda familiar ou onde a casa é tão mal feita que ela se torna perigosa. Porque imagine aqui o ciclo perverso do ar condicionado em uma casa como essa.
Então a construtora, por exemplo, pensando no lucro rápido, ela vai cortar custos. Então ela não vai investir em isolamento térmico, não vai investir em brzes e nem uma boa orientação solar. E o resultado vai ser uma casa aí quente e desconfortável.
E aí o morador vai precisar comprar um ar condicionado, não como um luxo, mas para sobreviver. E aí o aparelho pode representar até 40% da conta de luz em algumas regiões, como por exemplo o norte. E aí a conta vai explodir e basicamente o morador paga um segundo aluguel, que é essa taxa permanente de ineficiência.
E aí ele fica refém, ou ele paga caro e compromete a renda, ou ele desliga o ar condicionado e sofre com o calor. E muitos tentam resolver isso com reformas caras, gastando o que não tem para consertar o que veio errado de fábrica. E aqui que está a lógica cruel desse modelo construtivo, porque a indústria privatiza o custo da sua própria ineficiência e a construtora vai economizar aí que seja 10.
000 e um projeto mais inteligente. E o morador ele vai gastar 50. 000 ao longo da vida em energia e também em remédios.
Então o lucro vai ser imediato para quem vendeu, mas o prejuízo vai ser eterno para quem comprou e também para o SUS. Mas como que a gente chegou em um sistema que produz aí casas doentes em escala industrial? A resposta não está na prancheta do arquiteto, não está na estrutura da economia política brasileira, porque a casa é um produto e o seu design ele obedece a lógica de produção de quem a criou.
Então, a construção civil sempre foi um dos pilares da nossa economia brasileira. Ela gera milhões de empregos, movimento o PIB e por isso o Estado usa a política habitacional historicamente mais como instrumento econômico do que social. Então, desde aí o Banco Nacional da Habitação, passando aqui pelo Minha Casa e Minha Vida, essa lógica vai se repetir.
O Minha Casa Minha Vida vai construir 5 milhões de unidades superando ali o BNH. E oficialmente o objetivo era reduzir o déficit habitacional, mas na prática o foco era outro, aquecer o setor da construção civil e impulsionar o mercado financeiro. E o resultado é conhecido, quantidade acima de qualidade.
E o Estado garante apenas uma qualidade mínima. Mas o que se entrega são moradias com problemas parecidos com os da habitação informal. E a crítica é antiga.
Desde os anos 70, o próprio BNH já era acusado de baixa qualidade construtiva. Então, a história se repete e o morador continua pagando o preço. E aqui que tá a chave desse materialismo histórico da casa brasileira.
Porque o sociólogo aqui, Gabriel Bolaf, ao estudar o BNH ali nos anos 70, ele vai definir o que molda nossas cidades até hoje, que é o padrão periférico de crescimento da metrópole. Então vai funcionar assim. Então o especulador vai comprar um grande terreno rural barato ali na borda da cidade, vai fazer lobby ali para que o governo construa um conjunto habitacional, como por exemplo minha casa, minha vida.
E aí o governo vai financiar as casas com baixa qualidade construtiva e vai levar a infraestrutura, que é o asfalto, luz, água, esgoto até ali o local. E o terreno ao redor, que antes não valia nada, agora vai se transformar também em terra urbana. E aí o seu valor vai disparar e ele pode multiplicar de 100 até 1000 vezes.
Então a casa popular de má qualidade é apenas um pretexto, porque o verdadeiro negócio aqui é o que tá aqui atrás, ó, a valorização da Terra. E estudos sobre Minha Casa e Minha Vida mostram isso com clareza, que o programa serviu também para valorizar propriedades rurais recém incorporadas à cidade. Então, a casa nasce obsoleta, o que o seu propósito real nunca foi abrigar pessoas e sim valorizar o terreno do especulador.
Então, o lucro vem da terra e não da qualidade da construção. Mas aí você pode se perguntar: "Ah, mas não tem a NBR 15575 a nome de desempenho? " Sim, ela existe desde 2013 e em teoria deveria garantir conforto térmico, lumínico e acústico.
Só que na prática ela falha primeiro porque há despreparo na cadeia produtiva, desde projetistas até fornecedores. E a gente sente isso na pele, porque nós trabalhamos com projetos e consultorias desde 2006 e depois os projetos chegam com informações ruins, o que dificulta essa fiscalização. Mas o problema central é cultural, porque a norma define o mínimo aceitável.
E esse mínimo aceitável o mercado vai tratar como? Vai tratar como o máximo necessário. Então o resultado aqui é perverso, porque NBR 15575 ela vai legalizar a mediocridade, ela vai permitir que a construtora entregue uma casa dentro da norma, mas que na prática é quente, é escura e é insalubre.
E enquanto isso, outros países avançam. Então, na Europa ou nos Estados Unidos já existem aí os building standards, que são leis que obrigam a melhoria dos edifícios existentes. Só que o Brasil ainda luta para aplicar sua norma mínima em edifícios novos.
E um estudo da Universidade de Pelotas comparando NBR 15575 com o Passive House, que é ali da Alemanha, vai verificar se a qualidade térmica do pH, que é o Passif House, decorrente do alto isolamento térmico e massa térmica, além da relevância do atendimento aos parâmetros impostos pela norma. Ainda constatou-se a importância de soluções que superem os padrões estabelecidos pela norma de desempenho, visando aprimorar tanto eficiência energética quanto o conforto térmico dos usuários. E se a economia e a política moldam a casa, a cultura vai definir a forma.
E no Brasil, a nossa estética colonial e via lata vai também adoecer quem vive nela. Então, nossas escolas de arquitetura e esse nosso senso de bom gosto ainda são muito eurocêntricos. Tudo que não segue o modelo europeu ou norte-americano é geralmente visto como exótico ou pobre.
E o que que esse bom gosto colonial nos trouxe? Essa maravilhosa caixa de vidro aqui. O apartamento com fachada espelhada, a casa minimalista com janelas gigantes, do chão ao teto sem nenhuma proteção solar.
E esse modelo nasceu em climas frios, onde a meta é reter o calor, mas aplicado no Brasil tropical vai virar uma estufa. Então o sol entra o dia todo superquecendo o ambiente. E qual que é a solução moderna?
ligar o ar condicionado no máximo e assim reforçar esse ciclo da pobreza energética. E o que é curioso é que a própria arquitetura vernacular já tinha várias essas soluções e o modernismo também tinha aplicado várias delas. Então eles estudavam o sol ou vento e também esse conforto tropical e criaram aí o brize que protege as fachadas do sol direto.
Criaram também o cobogó que é esse bloco vazado que deixa o ar circular e também a luz entrar ali suavemente sem calor. Mas o mercado atual parece que esqueceu de tudo isso e hoje obsecado aí por fachadas de vidro estética internacional eles repetem erros caros e insustentáveis. Então, nossa síndrome de vira a lata cultural nos faz rejeitar o que é inteligente, local e adotar o que é ineficiente e estrangeiro, porque parece mais rico.
E com isso a nossa estética acelera a obsolescência funcional das casas brasileiras. Então o diagnóstico aqui é duro, o problema é estrutural, é econômico e é cultural também, mas as soluções já existem e estão aí ao nosso alcance. Então, a solução aqui mais poderosa não é a alta tecnologia, é a sabedoria.
E se chama arquitetura bioclimática, ou seja, o básico da construção inteligente que o mercado esqueceu. Então, ela usa elementos passivos que não consomem energia e deveriam ser a base de qualquer projeto. Uma das estratégias é a orientação solar, saber de onde veio o sol para evitar ele no verão e aproveitar ele no inverno.
E uma janela voltada para oeste precisa de proteção na maioria dos climas brasileiros. A ventilação cruzada é outra estratégia. criar aberturas em lados opostos pro vento circular e remover o calor, que é essencial aí em climas tropicais.
E o sombreamento vai ser outra estratégia fundamental, então usar berais, varandas, vegetação, brzes, tudo isso para impedir que o sol bata diretamente no vidro ou na parede. Então, se a arquitetura tradicional vai usar painéis solares, que é uma tecnologia ativa, a bioclimática vai usar a janela no lugar certo, que é uma tecnologia passiva, que vai usar o clima ao seu favor. E a segunda é mais barata e no Brasil ainda mais importante.
E o inimigo do conforto é esse eu acho que funciona. Essa indústria do lucro imediato, ela evita tudo que exige medição e exige prova. Mas a construção civil aí é uma das maiores poluidoras do planeta, responsável por cerca de 38% das emissões globais de carbono.
Então a gente precisa aqui dos dados. Então, a mudança real acontece no projeto e não no marketing. Nesse projeto aqui, nós fizemos exatamente isso, através de simulações paramétricas, analisando vários cenários, buscando vários tipos de materiais, várias orientações de projeto, uso de brize, tipo de cobertura.
Avaliando isso para cada fachada, nós conseguimos chegar em um resultado de eficiência térmica de 90% nesse projeto, o ano inteiro sem uso de equipamentos. E esse projeto aqui em Sorocaba, ainda com a avaliação dos materiais, nós conseguimos reduzir drasticamente a pegada de carbono da edificação, tornando edificação mais sustentável também a nível aí ambiental. E toda uma redução também do custo de operação, conseguindo derrubar o custo de energia de R$ 14.
000 por ano para R$ 300 por ano e de aquecimento de água gás de 6. 000 por ano para zero por ano. Então é aí que a gente hackeia o sistema, porque a gente não vai aqui lutar contra o lucro.
Nós vamos usar o lucro como uma prova de eficiência. E aqui a gente demonstra que uma casa obsoleta é um mau negócio. Então a casa eficiente, sustentável, de baixo carbono é um produto mais valioso, então transforma essa sustentabilidade de discurso moral em uma vantagem competitiva real.
E muita gente diz ainda que isso é coisa de rico, é o contrário disso. E a sustentabilidade é ainda mais urgente nas habitações de interesse social, porque como a gente viu, são os pobres que mais sofrem com o calor também. São os que mais sofrem com o mofo e essa pobreza energética também.
E usar ventilação cruzada aqui, materiais locais e soluções bioclimáticas, não é mais caro, não, é mais inteligente. Então, habitação social como fator de sustentabilidade é algo decisivo, porque patologias sociais, no final também são patologias ecológicas. E não basta fazer um projeto verde, é preciso construir também cidades justas.
E agora eu quero saber o que que você pensa desse tema. Você tem algo aqui a contribuir? Tem bons exemplos?
Tem maus exemplos? Diz aí nos comentários e vamos ampliar essa discussão. Ainda conheça os serviços da Green Instantabilidade.
Nós vamos ter um plantão tira dúvidas agora na próxima quinta-feira. Caso você queira tirar dúvidas sobre um projeto ou alguma consultoria específica, vai no link aqui abaixo e conversa com a gente. Um grande abraço e uma ótima semana para você.
Yeah.