Ninguém duvida que nós, adultos, sentimos emoções complexas. Mas como serão as emoções dos bebês? E outra: será que as emoções que nós hoje sentimos estão de certa forma relacionadas com as emoções que nós sentimos quando nós fomos bebês?
Eu sou o professor Leandro e hoje nós vamos conversar sobre: o desenvolvimento psico-social nos primeiros anos de vida! As primeiras emoções que um bebê é capaz de sentir são as emoções primárias. O que são as emoções primárias?
Emoções primárias são aquelas que são universais, elas acontecem independente da cultura elas, elas são evolutivamente adaptativas, ou seja, elas servem para a sobrevivência da espécie e elas têm respostas fisiológicas bem distintas, diferentes, umas das outras. Basicamente as emoções primárias são: a alegria, a tristeza, o medo, a raiva e a nojinho. .
. Não, o nojo, né? O nojo.
E tem uma sexta emoção primária que é a surpresa. Que é uma emoção que não entrou no filme da Pixar, no Divertidamente. Mas são essas seis emoções que são emoções primárias, que portanto acontecem em todas as culturas e têm expressões fisiológicas e até mesmo expressões faciais que são bem típicas.
Existe uma cara do medo, uma cara da raiva, uma cara da alegria, uma cara do nojo, uma cara da surpresa e uma cara da tristeza. cada uma tem uma expressão facial bem típica e uma mãe, um pai, um cuidador, uma avó, ela consegue reconhecer as emoções básicas, as emoções primárias que a criança começa a sentir. Em relação às emoções secundárias, elas são mais dependentes da cultura e elas são um pouco mais sofisticadas.
Por exemplo, como o orgulho, como a vergonha, como o luto, a inveja, a culpa. . .
E de certa forma, elas são uma mescla das emoções primárias. Elas vão aparecer muito mais tarde no desenvolvimento, principalmente depois do primeiro ano de vida. No começo, a criança vai expressar suas emoções principalmente através do choro.
O choro não é só uma primeira comunicação que a criança vai emitir, como também uma das mais poderosas formas de manifestar a sua emoção. O choro pode acontecer por diversas causas: a criança pode chorar de fome, pode chorar de frustração, pode chorar de dor, pode chorar de raiva. .
. E é engraçado, né? As mães, os pais, os familiares que estão convivendo com a criança, eles logo conseguem perceber que choro é do quê.
Ou seja, é uma comunicação já acontecendo e a manifestação das emoções. Por outro, lado o sorriso, que é uma outra forma importante de comunicação e expressão das emoções que nós temos, ele vai aparecer bem a partir do segundo, terceiro mês de idade. .
. Uma criança recém-nascida no primeiro mês de vida até sorri, mas não é um sorriso verdadeiro. É basicamente um espasmo muscular, é uma reação fisiológica que do nada.
. . a criança abre um sorriso.
Mas isso não significa que ela está necessariamente feliz ou está retribuindo alguma emoção positiva, algum vínculo com alguém. É, mas não vai falar isso pra avó, né? Se a criança recém-nascida, pequenininha, sorri quando a avó tá perto, não venha com essa história de resposta fisiológica, não vá deixar a avó triste, diga que o sorriso foi para vovó, que ele tá feliz de ver a avó.
Um sorriso social vai acontecer mesmo então depois dos três meses de idade. É quando a criança já responde a um outro sorriso ou alguma coisa que ela tá gostando de ver na interação com as outras pessoas. Mas é partir, assim, dos cinco meses de idade, mais ou menos, que a criança já está mais antenada, ela já tá mais sensível às emoções das outras pessoas.
E, por exemplo, se elas choram e alguém não responde, ela percebe que não foi respondido e aí intensifica o choro e depois se não é respondido, aí vai parar. Mas ela já está antenada, já tá sensível às emoções e as reações das pessoas que estão ao seu entorno. O crescimento do sistema nervoso está muito atrelado com o do desenvolvimento das emoções.
Por exemplo, de 0 a 3 meses, a criança vai diferenciando melhor as emoções primárias e isso está relacionado com o desenvolvimento das áreas sensoriais e perceptuais do córtex. Ela aprende melhorar a ouvir, a ver, a sentir, a perceber melhor o ambiente as reações perante o ambiente. .
. E esse crescimento na percepção melhora a diferenciação em relação às próprias emoções. De 9 a 10 meses de idade, aumenta a conexão dos lobos frontais, dessa região aqui do córtex que fica logo abaixo da testa, com o sistema límbico, que é a região que é responsável por produzir as emoções.
De certa forma, simplificando bastante, os lobos frontais fazem uma regulação da emoção, uma espécie de freio da emoção, enquanto que o sistema límbico é um acelerador e em um sistema vai trabalhando junto com outro. Além disso, nesse período também algumas estruturas do sistema límbico, como hipocampo, por exemplo, eles aumentam de tamanho, eles ficam mais volumosos, mais importantes, o que gera uma emoção mais sofisticada. Aos dois anos, a criança já começa a ter maior autoconsciência e, portanto, as emoções autoconscientes, ou seja, ela começa a perceber em si mesma o que ela está sentindo.
Aos três anos de idade, há alterações hormonais no sistema nervoso autônomo. E, além disso, começam a aparecer as emoções autoavaliativas como a vergonha, o orgulho, a culpa, enfim, essas emoções secundárias todas. Interessante é pensar que muito da gente sabe sobre as emoções dos bebês e nas pessoas em geral elas vêm de estudos envolvendo modelos animais.
Um estudo clássico nesse sentido foi realizado por Harlow, que envolve filhotes de macacos rhesus. Isso aquele mesmo que dá nome é o tipo sanguíneo Rh. Nesse caso o que aconteceu foi que eles separavam os filhotes quando eles nasciam.
Eles ficavam longe da mãe assim que nasciam, de 6 a 12 horas. . .
Depois eles eram expostos a uma situação em que eram duas bonecas, uma mãe feita de arame e que tinha uma mamadeira pequena com leite e a outra era uma mãe feita de pelúcia, mas sem o alimento. A dúvida inicial era: para qual dos dois bonecos o macaquinho filhote iria se dirigir? Será que ele tinha um apego em relação a mãe por conta do alimento ou por conta do aconchego, do toque físico?
O que você acha que aconteceu? Inicialmente, o que acontecia era que a o macaquinho ele só ia para boneca de arame quando ele queria mamar, quando esta com fome e logo ele voltava para boneca de pelúcia. Isso era assim o tempo todo.
Eles também faziam situações experimentais onde alguns filhotes só eram expostos à boneca de arame enquanto que o outro grupo era exposto a uma boneca de pelúcia. E depois compararam o comportamento dos dois grupos. Os macaquinhos que foram "criados" pela boneca de pelúcia, em comparação a de arame, eles exploravam mais salas novas, ambientes novos, diferentes e inclusive lembravam o melhor da boneca quando um ano depois eram era expostos, assim que viam aquela boneca de pelúcia igual eles iam lá correndo e abraçavam.
Mas independente dos dois grupos, não ser criado pela mãe de verdade fez com que eles mais tarde, quando tivermos seus filhotes, eles não souberam cuidar dos seus próprios filhotes e tiveram vários problemas durante a vida. Nenhum deles cresceu normalmente, a gente não pode dizer isso. Agora, as melhores pesquisas em relação ao apego, essa relação de apego, relação da criança com a mãe ou a figura de cuidado, que pode ser qualquer outro adulto responsável, mas vamos chamar de mãe aqui para simplificar, o principal responsável por essas pesquisas foi John Bowlby na década de 50 na Inglaterra e mais tarde Mary Ainsworth, que fez algumas pesquisas mais sistemáticas em relação às ideias do Bowlby.
Essas pesquisas envolviam basicamente a chamada ansiedade de separação, que é o que a criança sente quando fica distante de uma figura de vínculo que lhe transmita segurança e principalmente verifica o que acontece quando a criança volta a ter contato com essa pessoa. Então, ela criou uma situação experimental chamada situação estranha, em que acontecia o seguinte: numa sala nova, no ambiente não familiar para criança, entrava a mãe e a criança, o adulto responsável por ela, e a criança depois chegava uma pessoa estranha e começava interagir com a criança. Aí a mãe saía e a criança e o estranho ficavam sozinhos e o estranho interage com a criança.
E por fim, o último momento é aquele que a mãe volta e o estranho sai. . .
Enfim, vai se criando uma situação em que a criança hora ela está sozinha, hora está na presença do estranho e queria se observar qual é a reação da criança quando ela fica sozinha, quando ele fica com estranho e principalmente quando a mãe retorna. Inicialmente foram descritos três tipos de apego: o apego considerado seguro é aquele em que, na ausência da mãe, a criança começa a chorar e tem dificuldade de se vincular com uma pessoa estranha, mas assim que a mãe volta, ela fica tranquila, se acalmando com a presença da mãe. Os outros dois tipos de apego chamados inseguros são: o apego evitativo, também chamado de esquivo, é aquele em que quando a mãe volta, a criança faz um gelo, sabe, ela meio que ignora, como que não quisesse saber da mãe, ela se esquiva da mãe.
Esse perfil geralmente não chora quando a mãe sai e quando a mãe volta ela tem uma reação de esquiva. Outro tipo de apego é o apego ambivalente. É um tipo de apego inseguro também, que é o ambivalente.
A criança quando a mãe volta sente raiva. E ambivalente porque ao mesmo tempo que ela quer muito a mãe, ela reage de uma forma agressiva pelo que aconteceu. Essa criança é ansiosa antes mesmo da mãe sair, ela fica perturbada quando a mãe sai e ela agride quando a mãe volta.
Esse é o modelo, então, ambivalente. Mais tarde foi acrescentado um quarto modelo, que é bem mais incomum, que é o modelo desorganizado, desorientado. Esse modelo a criança não tem uma estratégia, então hora se apega ao estranho, hora não se apega, ela muda muito e não se consegue perceber um padrão no comportamento da criança.
A criança saúda, fica feliz quando a mãe volta, mas depois logo se afasta. . .
A maioria das crianças respondem de uma maneira segura. 60 a 75% das crianças demonstram apego seguro. O apego evitativo-esquivo entre 15 e 25% das crianças.
O apego ambivalente é de 10 a 15% e o desorganizado é menos de 10%, alguns estudos mostram que é menos de 4%. O que é que faz com que a criança demonstre esse esse tipo de apego? Claro, alguns aspectos podem ter influência genética, mas é principalmente o estilo parental, a maneira como a mãe ou cuidador, é claro, acalma essa criança quando ela tá numa situação aflitiva.
Como é que a mãe tranquiliza uma criança inquieta? Ela tem uma postura mais agressiva, uma postura mais negligente ou ela dá apoio? Então, muito da maneira como o os cuidadores reagem e acalmam uma criança vão ajudar a fortalecer a reação que ela vai ter de segurança, primeiro com a mãe, o pai, uma pessoa próxima, e depois, no decorrer da vida, isso vai se estender para outras pessoas, para outras crianças, por exemplo para para seus pares, para as professoras e mais tarde, há muitos estudos relacionando o tipo de apego na infância com os relacionamentos afetivos/amorosos na idade adulta.
. . E, além disso, sabe-se pelos estudos longitudinais, que crianças com apego seguro mais tarde vão apresentar uma melhor auto-confiança, tem um vocabulário maior que outras crianças, enquanto modelos de apegos inseguros apresentam muito mais emoções negativas.
E como é que esse desenvolvimento inicial das emoções se expande ao longo da vida? Como é que fica isso nas outras fases da infância, da adolescência e da idade adulta? Bom, isso é assunto das nossas próximas conversas.
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