Proclamação do Evangelho de Jesus. Vindo a Nazaré, disse ao povo na sinagoga: "Verdade, eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria". Fato, eu vos digo, do tempo do profeta Elias, quando não choveu durante 3 anos e 6 meses, e houve grande fome em toda a região.
Havia muitas viúvas em Israel, no entanto, nenhuma delas foi enviada a Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta. No tempo do profeta Eliseu havia muitos leprosos em Israel, contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o Sírio. Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos; levantaram-se e o expulsaram da cidade, levaram-no até o alto do monte onde a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício.
Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho. Palavra da Salvação. Queridos irmãos, a liturgia de hoje nos apresenta esse grande contraste: de um lado, a salvação de Deus aberta a todos os povos e que, muitas vezes, alcança mesmo aqueles que, estando longe, maravilham-se com a exuberância da graça, com a novidade daquilo que só Deus sabe fazer; enquanto Jesus diz que um profeta não é aceito em sua pátria, ou seja, aqueles que estão perto estão longe.
Muitas vezes, aqueles que são de longe estão perto; encontram com mais facilidade o Senhor. Por que isso é assim? Isso é assim porque nós, seres humanos, temos sempre a tendência de banalizar aquilo que já conhecemos.
Que apareça um animal qualquer, seja ele desconhecido para nós, aquilo, no primeiro momento, nos maravilha. Nós ficamos impressionados: "Nossa, que bicho é esse? " E alguém diz: "É um quati".
Explica-se para o quati. Outra vez que nós nos encontrarmos com o quati, nós iremos dizer: "Ah, isso é um quati, já sei o que é". Porque, ao conhecer, nós temos a tendência de segurar a coisa, segurar em uma caixinha mental que contém, por assim dizer, a noção daquilo que nós conhecemos.
Então, nós banalizamos. É o que acontece com esse povo em Nazaré: conheceram Jesus como adolescente, conheceram Jesus como carpinteiro, e aí, quando ele chega com uma pregação extraordinária, ao invés de se maravilharem, num primeiro momento eles se assustam, mas depois dizem: "Não, isso daí é o filho do carpinteiro. Não, de onde é que ele tem que querer nos ensinar isso?
" Ou seja, nós desprezamos na medida em que já conhecemos, ou pelo menos consideramos que já conhecemos. Ao contrário, pessoas que nunca tiveram nenhum contato com o evangelho, quando conhecem o evangelho, ficam maravilhadas. Já vi pessoas de outras culturas contando coisas extraordinárias que perceberam no evangelho e que nós não percebemos, inclusive porque aquilo já se diluiu na nossa cultura.
Lembro de um sacerdote amigo que foi para o Japão; morava em um apartamento. No mesmo andar, moravam quatro famílias em quatro apartamentos diferentes. Ele recebeu um saco de bombons; iria comer aquilo.
Foi levar um pouquinho para cada família, porque tinha o que fazer com aquilo. Passado um pouco, cada um veio com uma quantidade de outra coisa, mais ou menos parecida e no mesmo valor, para dar para ele. Ele não entendeu nada.
"Sim, eu tô dando, não precisa trazer nada para mim". É que aqui o evangelho nos é gratuidade; uma cultura não cristã é justiceira pura. "Eu te dei 10, você tem que me dar 10".
Não existe a gratuidade. O problema é que, quando nós não nos damos conta da originalidade do evangelho, nós fatalmente acabamos barrando Deus, sem perceber que é Ele, sem nos darmos conta de que, diferentemente de um pati, de uma amoreira, de um peixe, Deus não pode ser reducido a nenhum dos nossos pensamentos. Todos os nossos pensamentos são incapazes de apreender a imensidão que Ele é.
Ele sempre está para além daquilo que nós possamos imaginar. É apenas quando nós mantemos a nossa mente nesse estado contínuo de abertura, em que nós olhamos na direção de Deus, que nós dizemos: "Olha, esta fórmula é verdadeira, mas Deus é mais do que isso". Apenas quando a nossa mente se abre, é que nós conseguimos entrar em contato com o maravilhoso, com o extraordinário, com a grandeza de Deus.
Isso significa que, por exemplo, os enunciados da fé não sejam verdadeiros? Claro que não. Os enunciados da fé são verdadeiros porque Cristo revelou, e a Igreja, a Mestra, nos ensina.
Porém, experimentar Deus sempre estará muito além do que a nossa inteligência possa delinear. Deus sempre transcende, transcende qualquer compreensão. Esse é o único caminho para nós colocarmos sobre suspeita as nossas banalizações.
Será que nós não banalizamos, por exemplo, os sacramentos, confessando de qualquer maneira, comungando distraidamente, em pecado, o que seria trágico? Será que nós não banalizamos a palavra de Deus, ao invés de lê-la com um ânimo de encontrar algo mais, que passou despercebido por nós? Nós já dizemos: "Ah, isso aqui eu conheço, eu já sei".
Então, nos fechamos para a novidade que Deus queira nos mostrar ali. Será que nós não banalizamos a oração, e rezamos apenas para cumprir um dever, quando, na verdade, a oração deveria ser um colóquio íntimo, e a nossa alma se abre para o infinito, podendo receber um toque divino que a deixará cada vez mais com ânsias de transcender? No fundo, o que nós podemos nos perguntar nessa quaresma é: será que eu não acho Deus demais, por isso eu me fecho para deleitar-me mais?
É uma pergunta que nós devemos fazer. Porque a palavra de Cristo, de alguma maneira, pode ser rejeitada justamente onde todos nós pensamos que Ele está mais conhecido, honrado, louvado e adorado. Nós podemos agir como esses Nazarenos que expulsaram Jesus da cidade, que ficaram bravos, foram até o alto do monte e tentaram matar a Cristo.
Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou seu caminho. Ou seja, a palavra sempre encontrará um modo de dar fruto, mas nós podemos assassiná-la pela nossa presunção. Senhor, nos leve a ter cada vez mais um coração aberto, sobretudo uma mente aberta.
A verdade da palavra nos impacte e nós sejamos, diariamente, maravilhados pela perene novidade do evangelho que jamais torna.