Olá! Bem-vindos à nossa disciplina de Libras a distância! Eu vou contar um pouquinho da minha história, de quem eu sou, a Fernanda.
Quando eu nasci minha mãe descobriu que eu era surda. Ela não teve nenhum problema durante a gestação. Por que aconteceu de eu, Fernanda, nascer surda?
Na minha família, entre os meu parentes, somos 39 surdos. Realmente é bastante! E por que isso?
Os meus bisavós se casaram e eles eram primos de primeiro grau. Então isso ocorre por uma questão genética. À medida que fui crescendo, havia uma comunicação entre nós, familiares.
Conseguíamos nos comunicar com gestos, era prazerosa e natural a nossa comunicação. Quando entrei na escola foi realmente mais difícil, foi um período sofrido e de bastante tristeza. E por que isso?
Porque na escola o principal era a obrigatoriedade em relação à comunicação oral. E na minha família não havia essa obrigação, eu tinha a liberdade de usar gestos, a gente interagia e era mais prazeroso. Já na escola não, realmente era difícil, era só o oralismo.
Tinha todos aqueles métodos fonéticos e eles me obrigavam a seguir isso. À medida que fui crescendo, fui aprendendo a falar, mas muito pouco a escrever. Para ler eu tinha muita dificuldade.
Fui crescendo e quando eu tinha mais ou menos uns 11 anos comecei a estudar a língua de sinais. A comunicação era feita por gestos misturados com língua de sinais, que é a Comunicação Total, mas aí a gente já conseguia interagir melhor. A questão dessa aprendizagem não melhorou para mim porque eu só copiava dos colegas de sala e não aprendia.
E os professores me ensinavam? Não, eles não sabiam Libras, não sabiam a língua de sinais, a língua não era uma língua oficializada. Então o que aconteceu é que eu sempre ia passando.
. . Do primeiro para o segundo, do segundo para o terceiro, e assim por diante.
O meu estudo era na base da cópia, foi um período muito difícil. Vocês vão perceber que realmente as crianças acabam não aprendendo, eu não aprendi. A minha língua, a língua oficial do país demorou muito para ser reconhecida, e os intérpretes naquela época não se faziam presentes nas escolas.
Agora eu lembrei uma outra parte da história, que vou resumir, vou contar para vocês. Quando eu era criança, na escola, tinha aquele sino que tocava para as crianças fazerem a fila para entrar em sala. A professora pedia que a gente falasse “Bom dia” para entrar.
Então eu precisava falar “Bom dia”. Isso era obrigatório, todos da fila precisavam falar. O aluno falava "Bom dia" e recebia um "Ok, você pode entrar".
Quando chegava a minha vez, a professora dizia "E você? " Então eu falava “Bom dia”. E ela, "Não, você falou errado, a sua voz não saiu com clareza, precisa falar certo, precisa repetir, repita!
" E eu dizia “Bom dia”, e ela, "Não, está errado! " E me fazia treinar com ela a questão sonora para ver se iria dar certo, e ela me dizia, "Vai lá ficar sentadinha, treine durante cinco minutos e depois volte aqui". Eu ficava lá treinando, mas isso era tão triste, eu sempre ficava voltando para o final da fila.
E era dessa forma que acontecia, era um rigor bem maior. Quando eu tinha 11 anos a professora pediu para fazer um desenho, um cartão para o dia das mães. Eu concordei e fui fazer o cartão.
Eu fiz um desenho bonito com o coração todo colorido, purpurina, brilho. Realmente ficou muito bonito, chamava bastante a atenção. Então eu perguntei “É hoje que eu vou entregar?
" E a professora tentou explicar que não, que era só no domingo. E eu não entendi o que era domingo. Ela me explicou, “Olha só, você tem hoje, amanhã, que será o sábado, e aí depois o domingo.
Quando você acordar nesse dia, você vai entregar para sua mãe. . .
" "Então são três dias que você vai deixar guardado na sua mochila sem poder entregar esse cartão antes para sua mãe”. Esperei a sexta-feira, acordei no sábado ansiosa, queria pegar na mochila, mas deixei lá guardado. Passou o sábado, chegou domingo, domingo de manhã, e eu muito contente, muito feliz, fui lá, peguei aquele cartão na mochila.
. . .
. . e fui entregar para a pessoa que eu pensava que era minha mãe.
Quando fui entregar o cartão para ela, ela me olhou e falou. . .
"Esse cartão não é para mim, eu não sou a sua mãe. Você não esteve na minha barriga. Eu sou a sua vó, você é a minha neta”.
Para mim aquilo foi um susto. Eu perguntei então quem era a minha mãe. Ela me explicou “Sua mãe é essa mulher que está ali.
Ela é sua mãe”. Foi um susto tão grande que eu não quis acreditar! Foi um choque, eu realmente chorei muito, não queria entregar o cartão para ela.
Cresci achando que minha avó era minha mãe, ela sempre cuidou de mim, foi ela que me deu banho, me levou à escola, sempre esteve comigo. Então, para mim, ela era minha mãe. Minha família se comunicava, mas não de uma forma aprofundada.
Para explicar esse tipo de situação, eu não conseguia entender o que era mãe, pai, tio. Foi complicado. Minha afinidade era com ela, fiquei muito triste.
Realmente esse fato marcou a minha vida. Hoje eu sou professora e tenho essa preocupação com as crianças surdas. Por isso, gostaria de explicar a importância da educação, da educação em casa, da leitura, da aprendizagem, das interações.
Eu não gostaria que o que aconteceu comigo se repetisse, que outras crianças sofressem. Gostaria que vocês, alunos e futuros profissionais, valorizassem a língua de sinais e dessem importância para essa comunicação. Assim, acredito que os alunos surdos se sentirão mais confortáveis.
. . mais tranquilos, aprenderão com mais clareza, se desenvolverão melhor.
Então eu consegui ir me desenvolvendo e compreendendo melhor as coisas. De uma forma ruim percebi o que significava a palavra "mamãe", e aquele fato me marcou. Então comecei a compreender o significado de outras palavras também.
Eu me preocupava como é que seria o meu futuro. E eu tinha um prazer e um desejo de ser professora, sonhava com isso. Mas eu não conseguiria, porque eu via que não tinha em nenhum lugar um professor surdo.
Eu não desisti, continuei estudando, mas o meu futuro não sabia qual seria. E o tempo foi passando. .
. . quando então fui estudar no CEJA.
Na escola em que eu estudava eu ia só passando de uma série para a outra. Todos os professores me aprovavam, foi assim do 1. º ao 8.
º ano escolar. A minha família tinha uma preocupação grande, porque eu não estava sabendo os conteúdos. Eu não sabia contar dinheiro, dar troco, e eles não queriam que eu tivesse um futuro com prejuízo.
Então fui até o CEJA, porque lá tinha professores ouvintes que sabiam Libras, de uma forma simples e não aprofundada, mas que facilitava a comunicação e me auxiliava na questão do desenvolvimento. Eu perguntava para as professoras se podia auxiliar na informação de sinais aos colegas. Por causa da interação com a minha família, me apropriava daqueles conhecimentos, daquela interação com os surdos.
Eu aprendia com eles os sinais e mostrava para a professora do CEJA. Ela conseguia dar os sinais para os alunos, eu também dava e ela falava. .
. “Olha, Fernanda, no futuro você pode ser professora”. Era o que eu queria, mas eu disse “Não, não dá, não temos professores surdos”.
E ela disse: “Não, você consegue, sim, você tem capacidade”. Eu aceitei, com muita alegria, ser estagiária naquele período. Não era professora nem instrutora.
Eu trabalhava na sala de aula com ela e ganhava um salário bem simples, de uns R$100. Mas isso para mim não era problema. Eu precisava daquela experiência, daquele desafio, porque eu amava a possibilidade de ser professora.
Daquela época até hoje já se somam 19 anos que eu atuo como professora. Quando eu estudei pedagogia, não tinha intérprete de Libras e eu não desisti. Até porque me incomodava relembrar o que eu já tinha passado.
Toda aquela situação de ir passando em sala de aula, sempre com ouvintes. Daí eu pensei "não, eu não quero isso pra mim, não quero voltar a viver aquele passado na faculdade". Foi um período difícil, com algumas dificuldades.
Os ouvintes não me ajudavam. Quando tinha grupo de trabalho e apresentações, eles não queriam fazer comigo por medo. Porque não sabiam se comunicar, não sabiam a língua de sinais.
Eu sempre ia lá conversar com o diretor, insistia, solicitava. Até que eu consegui o intérprete. Demorou, mas eu consegui uma intérprete para me acompanhar em sala.
Para mim foi um alívio, foi uma felicidade, e eu acabei dependendo da intérprete, até porque os colegas não interagiam comigo. A intérprete até tentou mediar um pouco a comunicação, mas o receio deles persistia. Na verdade, faltava comunicação, faltava uma divulgação de legislação também.
Então a culpa não era deles, foi falta de informação. Então eu fiquei por mais tempo junto com o intérprete, e depois de três anos eu me formei em Pedagogia. Eu tinha vontade de continuar estudando, então fui fazer Letras/Libras na UFSC, no polo de Florianópolis.
Por que Letras/Libras? Porque a formação na pedagogia eu tive, mas sempre com muito atraso. Na minha aprendizagem faltavam algumas informações e eu não me sentiria segura.
Se eu tivesse que trabalhar com crianças, seria mais tranquilo de ensinar a interagir. Mas e adultos ouvintes em curso de Libras? Me dava uma certa ansiedade, uma insegurança.
Então eu tive bastante vontade, porque eu queria dar aulas para adultos. Eu sabia que o curso de Letras/Libras me capacitaria para isso. Então fiz a inscrição pré-vestibular, fiquei na torcida para passar, consegui e fiquei muito feliz.
Pensei: serão ouvintes e surdos na mesma sala de aula. Depois, para a minha surpresa, na sala eram todos surdos, 35 alunos surdos. Aquilo me despertou muita emoção, até porque nunca na minha vida tinha visto algo assim acontecer.
A primeira turma de surdos de que eu participava. . .
Eu realmente fiquei muito, muito feliz e contente! Para melhorar, os professores sabiam a língua de sinais ou eram surdos também. Foi uma interação muito prazerosa.
Eu aprendi muito rápido e tive uma percepção diferente dos conhecimentos. A troca entre os colegas, que é muito importante, também acontecia. Ao lado nós tínhamos uma sala que era só para o bacharelado dos intérpretes, que eram os ouvintes.
E na hora do intervalo a gente interagia com eles. Então foi um tempo muito bom. Me formei em Letras/Libras.
Depois eu fiz uma pós-graduação. Também participei do mestrado, mas precisei trancar por um período. Nós teremos mais aulas, aulas teóricas, que vão expor outros assuntos para vocês.
Espero que vocês gostem desses conhecimentos e dessas informações. Será um tempo bem legal, um tempo de bastante aprendizagem da língua brasileira de sinais. Mas o que é essa língua?
Tudo isso vocês vão ver daqui para a frente.