O livro X é o último livro da "República". Ele pode ser dividido em três partes: a primeira parte é formada por um diálogo entre Sócrates e Glauco, os atores principais desse diálogo platônico, e constituem mais da metade do livro 10. Neste diálogo, Sócrates ataca a arte da imitação e também os poetas.
Sócrates começa argumentando que sem conhecer o que as obras realmente são, elas causam mal e arruínam a alma daqueles que assistem. Contudo, já havíamos visto que durante o desenrolar da cidade ideal platônica, as obras artísticas, em geral, seriam totalmente moldadas pelo Estado, a fim de existirem apenas obras que contribuíssem para que os homens fossem influenciados desde a infância para possuírem uma alma virtuosa, justa e pura. E, com muito pesar, Sócrates admite que por mais belas que sejam as obras dos poetas trágicos, inclusive, por ele admiradas de desde cedo, como por exemplo, Homero, é com a verdade que devemos nos comprometer.
Sócrates diz que os poetas são incapazes de representarem os conceitos de forma verdadeira, mas sim, apenas representam algo que se assemelha aos conceitos verdadeiros. Para ele, a cópia seria algo obscuro quando comparada ao objeto real. Baseando-se em exemplos, imaginemos um objeto original: a primeira espécie seria, em teoria, criada diretamente pelos deuses.
E a segunda espécie seria a cópia reproduzida por um profissional. E ainda existe uma terceira espécie criada pelo artista. Assim, o artista, o profissional e os deuses são os três que presidem a forma destas três espécies.
Logo, o autor de tragédias, se é um imitador, estará por natureza afastando em três graus os indivíduos da verdade. Sócrates também diz que aparência de um objeto é diferente de acordo com o ponto de vista. Sendo assim, um pintor, por exemplo, ao imitar a aparência está absolutamente longe da verdade.
A segunda parte do livro 10, busca elaborar uma maneira de falar dos valores e ideais e de como a alma pode se perder. Sócrates diz que aos homens não cabe a criação de valores novos, mas sim, encontrar os valores que a alma perdeu quando veio para o mundo material. A imitação só causa mais confusão à medida que não ensina a buscar fundamento algum, e sim, em imitar o que já é uma cópia.
Deste modo, a alma não aprende o valor verdadeiro e nem aprende a buscá-lo na razão. Os poetas valem-se das coisas existenciais percebidas pelos sentidos, quando narram suas grandes Epopéias, e em muitas de suas obras eles defendem valores medíocres. Os verdadeiros valores da cidade justa, não estão nas obras e nem no desejo humano, mas sim, na capacidade da alma em elevar-se e compreender o que é justiça e bondade.
Só a razão pode nos fazer enxergar que o mundo justo existe longe de nós. A justiça e a bondade não são valores deduzidos das práticas da existência. O que os homens acham bom e justo varia de acordo com o lugar, a região e a cultura.
Sócrates quer que os valores ultrapassem a relatividade histórica e cultural. Os valores e as ideias da cidade justa precisam ser encontrados na alma dos indivíduos, a fim de serem reproduzidos na cidade ideal. Todo o livro 10 é uma análise da função da alma como fundamento do que é eterno em contraposição à existência, sempre manipulável e mutável.
E na última parte do livro 10, valendo-se da narrativa de uma pessoa que esteve morta, Sócrates irá contar o "MIto de Er", que veremos no próximo vídeo.